Registro de acidentes de trabalho na indústria metalúrgica de Joinville sobe 81%
Notificações passaram de 131 para 238 no primeiro trimestre; sindicato aponta resistência de empresas em abrir CAT e corte de atestados por médicos corporativos
Por Henrique Duarte e Matheus Mafra
Um operador de máquinas de uma metalúrgica privada de Joinville rompeu o ligamento do joelho em 2025 ao tentar retirar material de um equipamento. Ele prendeu o pé e caiu enquanto carregava uma peça pesada.
O acidente resultou em afastamento médico pelo Inss (Instituto Nacional do Seguro Social). O trabalhador, que pediu para não ter o nome divulgado por receio de punições, relata ter enfrentado fortes dores, limitação de locomoção e atrasos no início do tratamento fisioterapêutico. “Vieram os apertos financeiros devido ao encaminhamento para o Inss”, diz o operador.
Ele afirma que, ao retornar ao emprego, sentia dores na perna lesionada. “Voltei muito inseguro, ainda com dores fortes e medo de fazer força”, afirma. No caso dele, o atendimento inicial e a abertura da CAT (Comunicação de Acidente de Trabalho) pela empresa ocorreram de forma rápida.
A situação do metalúrgico coincide com a alta de acidentes típicos registrada no setor de metalurgia, usinagem e fundição do município. No primeiro trimestre de 2025, foram notificadas 131 ocorrências. No mesmo período de 2026, o número subiu para 238 — um aumento de 81,7%, segundo dados das CATs.
O Cerest (Centro de Referência em Saúde do Trabalhador) de Joinville atribui a alta a fatores como o cumprimento de termos de ajuste de conduta (TAC) firmados por empresas com o Ministério Público do Trabalho, o aprimoramento das investigações de agravos à saúde e a consolidação de Joinville como polo industrial.
O órgão ressalta que o aumento dos casos gera custos significativos para o SUS (Sistema Único de Saúde). Segundo o centro, procedimentos cirúrgicos ortopédicos e internações de alta complexidade demandam recursos que seriam destinados à prevenção primária na rede municipal e geram impacto direto na fila de cirurgias eletivas. Para as empresas, além da perda de produtividade, há o risco de judicialização e a possibilidade de duplicação da alíquota do Fator Acidentário Previdenciário (FAP).
Divergência sobre notificações
Para o Sindicato dos Metalúrgicos de Joinville, no entanto, os números oficiais refletem uma realidade de subnotificação nas indústrias, com pressões internas para ocultar acidentes de menor gravidade. Maridete de Fátima Pinheiro Soares da Silva, secretária da mulher da entidade, afirma que líderes de equipe e setores de ambulatório costumam constranger os empregados para evitar a emissão da CAT.
“Muitas vezes, os próprios líderes parecem orientados para as pessoas não abrirem a CAT”, diz Maridete. Segundo ela, diante da recusa das empresas, a própria entidade sindical realiza a abertura do documento para garantir o amparo previdenciário do trabalhador, que muitas vezes desconhece seus direitos e deixa de questionar a empresa.
A sindicalista aponta ainda que os profissionais de segurança das indústrias focam a atuação na cobrança de equipamentos de proteção individual (EPIs), sem oferecer assistência direta ou canais de diálogo aos operários. De acordo com os relatos recebidos pelo sindicato, muitos operários afirmam nunca ter tido contato com os técnicos de segurança de seus setores.
A reportagem entrou em contato com Vanderlei Schadeck, representante do Sindimet (sindicato patronal da categoria), mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria.
Setor de rebarbação lidera registros de lesões em mãos e olhos
A função de rebarbador de metais registrou 116 ocorrências no período analisado, o maior índice entre as ocupações metalúrgicas da região. De acordo com o Cerest, a atividade é classificada como de grau de risco elevado (risco 4).
O trabalhador desse setor atua diretamente com o manuseio de peças cortantes em alta velocidade, exposição a ferramentas abrasivas, poeiras metálicas, ruído contínuo e esforço físico repetitivo.
No setor de metalurgia e fundição (CNAE 24), as lesões nos olhos e na face representam a maioria das notificações. Foram 82 casos no primeiro trimestre de 2025 (88,3% do total do setor) e 88 no mesmo período de 2026 (85,4%). De acordo com o Cerest, os acidentes oculares ocorrem com frequência durante procedimentos simples, como a limpeza dos óculos de segurança ou a retirada dos EPIs em ambientes saturados de partículas suspensas.
O dirigente sindical Juciê Mezari Oliveira, que atua em setores de usinagem e polimento, afirma que cortes em mãos e braços causados por ferramentas afiadas são rotina nas fábricas. Ele relata que médicos das indústrias costumam alterar decisões de profissionais externos.
“O médico do trabalho corta atestados e manda remanejar pessoas machucadas”, afirma Oliveira. Segundo ele, o procedimento é adotado mesmo com funcionários que apresentam fraturas nos dedos, com o objetivo de mantê-los na produção e evitar o registro de afastamentos por acidentes.
Acidentes de trabalho com mulheres crescem 240% no período
O número de acidentes de trabalho com mulheres no chão de fábrica subiu de 5 para 17 casos na comparação entre os primeiros trimestres de 2025 e 2026 — um crescimento de 240%.
Segundo Maridete da Silva, as trabalhadoras enfrentam dupla pressão em um ambiente industrial de maioria masculina. Ela explica que as mulheres são mais cobradas na organização de setores e têm menos abertura para apontar riscos.
“A cobrança maior, a pressão maior cai sobre as mulheres”, diz a sindicalista. Ela avalia que o desgaste emocional provocado por episódios de assédio verbal e moral no cotidiano fabril reduz a atenção no trabalho, o que contribui para o aumento de acidentes físicos.
A vulnerabilidade no ambiente de trabalho é intensificada pelo receio de demissões. Sem canais seguros para relatar abusos ou exigir adequações ergonômicas, as trabalhadoras acabam assumindo tarefas de grande esforço físico de forma isolada, o que eleva a fadiga e a exposição ao risco de lesões articulares e cortes.
Indicadores de acidentes de trabalho em Joinville
Comparativo do primeiro trimestre de 2025 com o primeiro trimestre de 2026 nas indústrias metalmecânicas
Variação por setor econômico (CNAE)
| Setor econômico | 1º tri 2025 | 1º tri 2026 | Variação absoluta | Variação percentual |
|---|---|---|---|---|
| Máquinas e equipamentos (CNAE 28) | 19 | 59 | +40 | +211,0% |
| Equipamentos elétricos (CNAE 27) | 6 | 38 | +32 | +533,3% |
| Usinagem e produtos metálicos (CNAE 25) | 11 | 33 | +22 | +200,0% |
| Metalurgia e fundição (CNAE 24) | 95 | 103 | +8 | +8,4% |
| Manutenção e reparação (CNAE 33) | 0 | 5 | +5 | Novo |
| Total | 131 | 238 | +107 | +81,7% |
Principais tipos de lesões
Concentram fraturas, esmagamentos e cortes profundos em áreas de usinagem e polimento mecânico devido ao contato direto com ferramentas de corte e peças em alta velocidade.
Respondem por 85,4% das ocorrências no setor de metalurgia e fundição em 2026. São lesões causadas majoritariamente pela projeção de poeira e micropartículas metálicas incandescentes.
A redução sustentada dos índices de acidentes na indústria de Joinville depende de uma mudança cultural conjunta, aponta o Cerest. O órgão destaca que a segurança não decorre de medidas isoladas, mas sim de uma sincronia entre as obrigações patronais e a conscientização do operariado.
Enquanto cabe às indústrias garantir o fornecimento e a manutenção de proteções coletivas, a manutenção preditiva de maquinários e a adequação ergonômica dos postos, os trabalhadores necessitam de respaldo técnico e psicológico para atuar no autocuidado. A vigilância ativa e a atuação das Unidades Básicas de Saúde no diagnóstico de doenças ocupacionais completam a rede de proteção necessária para reverter o cenário de alta nas estatísticas de acidentes locais.
