{"id":13687,"date":"2022-10-04T14:16:00","date_gmt":"2022-10-04T17:16:00","guid":{"rendered":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/?p=13687"},"modified":"2024-03-18T15:44:50","modified_gmt":"2024-03-18T18:44:50","slug":"modelo-joinvilense-conta-comeco-da-carreira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/2022\/10\/04\/modelo-joinvilense-conta-comeco-da-carreira\/","title":{"rendered":"Modelo joinvilense conta come\u00e7o da carreira"},"content":{"rendered":"\n<p><em><strong>Por: Lucas Borba <\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Lucas Seth trabalhava em uma loja de brinquedos no shopping, em Joinville, quando foi parado por uma mulher. Nesse dia, ele foi convidado para uma sele\u00e7\u00e3o de modelos em um hotel pr\u00f3ximo. Foi ali o seu primeiro contato com a moda. Aos 25 anos, ele j\u00e1 passou pela experi\u00eancia muitas vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois daquela sele\u00e7\u00e3o no hotel, ele procurou na internet as maiores ag\u00eancias do Brasil para trabalhar e encontrou uma no bairro Sagua\u00e7u, no pr\u00f3prio munic\u00edpio. Come\u00e7ou a se cuidar mais e acreditou que levava jeito para a coisa, foi a\u00ed que come\u00e7ou a jornada com a moda. Deixou o cabelo crescer, antes sempre deixava raspado. Se preparou para a carreira que viria, cheia de altos e baixos, conforme ele mesmo afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cExiste uma cultura que comanda o mundo, o que as pessoas v\u00e3o vestir, o que as pessoas v\u00e3o comprar. Existe uma nova cultura se criando e as pessoas est\u00e3o gostando mais de outras que est\u00e3o vendo no cotidiano\u201d, ensina. Para Seth, o padr\u00e3o de moda come\u00e7ou a mudar em 2013 e 2014.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Seth n\u00e3o se enxergava como uma pessoa talentosa na moda, que seria bonito e estiloso. Quando era crian\u00e7a, na escola Anna Maria Harger, j\u00e1 entrou algumas vezes na lista dos mais feios do col\u00e9gio. Naquela \u00e9poca, n\u00e3o falavam do bullying como \u00e9 problematizado hoje, qualquer reclama\u00e7\u00e3o era encarada como drama. O corte do Lucas era careca.<\/p>\n\n\n\n<p>Lucas veio de uma realidade diferente. \u201cTu n\u00e3o conhece o racismo na pele at\u00e9 entender o que ele \u00e9\u201d, alega, justificando que passou por um processo de lavagem cerebral que apagava o entendimento das opress\u00f5es. Recentemente, o modelo foi <a href=\"https:\/\/omunicipiojoinville.com\/video-jovens-denunciam-agressao-policial-apos-evento-de-hip-hop-em-joinville-pm-nega\/\">agredido pela Pol\u00edcia Militar<\/a> depois de uma batalha de rap. Ele gravou um v\u00eddeo que repercutiu nas redes sociais. \u00c9 uma abordagem cada vez mais frequente nas batalhas de rap, quando policiais militares chegam com cassetetes e balas de borracha.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2013 e 2014, ele n\u00e3o via meninos com cabelo grande, mas hoje os observa em muitos lugares. Naqueles anos, o padr\u00e3o era cabelo baixinho e raspado. Hoje em dia tem uma divulga\u00e7\u00e3o maior da imagem do povo preto e uma busca do povo preto de encontrar suas ra\u00edzes, de um povo representado por artistas do cinema, da m\u00fasica e at\u00e9 mesmo de reality show. \u201cHoje em dia voc\u00ea v\u00ea meninos com tran\u00e7as nag\u00f4, com cabelo descolorido, com cabelo colorido. Voc\u00ea v\u00ea gente assumindo black, colocando black power\u201d, pontua. Lucas \u00e9 parte da contracultura que nasce nas zonas perif\u00e9ricas, nos bairros de gente com renda menor, onde tem mais concentra\u00e7\u00e3o de gente pobre, n\u00e3o s\u00f3 gente preta.<\/p>\n\n\n\n<p>Na cultura perif\u00e9rica, os meninos brancos deixam o cabelo descolorido. L\u00e1 no Rio de Janeiro chamam de platinado. Dependendo da regi\u00e3o, tamb\u00e9m \u00e9 chamado de loirinho pivete. Uma cultura que rolava no final do ano, quando perif\u00e9ricos descoloriam os pelos do corpo com uma mistura descolorante.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma cultura que vem sendo t\u00e3o divulgada que est\u00e1 chegando em lugares onde nunca esteve. \u201cHoje em dia tem menino de condom\u00ednio fazendo de tudo pra parecer com um moleque da periferia, com Kenner no p\u00e9 e camisa do Flamengo\u201d, afirma Lucas. Antigamente o menino da periferia que tentava parecer com o playboy. Lucas observa que hoje existe uma busca inversa e meninos brancos est\u00e3o com tran\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSe a pol\u00edcia chegar ou acontecer qualquer coisa, voc\u00ea v\u00ea que a bala canta pra todo mundo. A cara de bandido \u00e9 bigodinho fininho, o cabelinho na r\u00e9gua ou corte americano\u201d, explica Lucas, na defesa de que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 quest\u00e3o de cor. Mesmo assim, o povo mais assassinado e encarcerado \u00e9 preto. Meninos brancos e pobres se sentem mais representados porque um rapper branco estourou. Filipe Ret \u00e9 um exemplo. O rapper, que \u00e9 formado em jornalismo, <a href=\"https:\/\/globoplay.globo.com\/v\/10536761\/\">participou do programa Encontro<\/a>, na rede Globo, e cantou v\u00e1rios sucessos como \u201cCorte Americano\u201d e \u201cMe Sinto Aben\u00e7oado\u201d, que falam do cabelinho na r\u00e9gua, estilo que muitos perif\u00e9ricos aderiram.<\/p>\n\n\n\n<p>Se rasgou o t\u00eanis jogando bola com ele, j\u00e1 pode fazer tran\u00e7as porque veio do mesmo lugar. O modelo fica agoniado com jovens brancos e ricos usando g\u00edrias e se comportando de uma maneira que n\u00e3o \u00e9 da branquitude.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem faz parte da cultura s\u00e3o as pessoas que abandonaram sonhos, que largaram o que gostam porque precisavam trabalhar, tiveram sonhos ceifados e viveram certas priva\u00e7\u00f5es. Para Seth, elas d\u00e3o fuga dos problemas cuidando do estilo, vestindo aquilo que gostam, fazendo um esfor\u00e7o para comprar um t\u00eanis maneiro e ficar bem no baile.<\/p>\n\n\n\n<p>A divulga\u00e7\u00e3o do trabalho de modelo \u00e9 no <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/_lucasseth\/\">perfil do Instagram<\/a>. Lucas Seth busca um perfil mais chamativo, mostrando que n\u00e3o precisa de uma ag\u00eancia para modelar. Ao olhar o perfil, voc\u00ea vai reparar no estilo. Michael B. Jordan, no estilo do filme Pantera Negra, foi uma refer\u00eancia de estilo para o modelo. A$AP Rocky, marido de Rihanna, tamb\u00e9m \u00e9 uma inspira\u00e7\u00e3o na vestimenta, assim como Pharrell Williams contribuiu para o seu estilo. Jerry Lorenzo, estilista de Justin Bieber, tamb\u00e9m fez Lucas comprar muitas roupas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Apropria\u00e7\u00e3o cultural agonia gente preta<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Existe toda uma hist\u00f3ria por tr\u00e1s das tran\u00e7as. As mulheres, no tempo da escravid\u00e3o, levavam sementes no cabelo, para que pudessem usar no quilombo quando fugissem das fazendas. Tem uma hist\u00f3ria de luta, mas muitas pessoas brancas se acham no direito de usar sem o entendimento da carga hist\u00f3rica. Mesmo que seja uma quest\u00e3o mais classista, para Seth, existe uma apropria\u00e7\u00e3o cultural por parte de quem n\u00e3o sofreu.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cApropria\u00e7\u00e3o cultural realmente existe, aquele sentimento que fica \u00e9 de in\u00e9rcia, de gente que est\u00e1 roubando algo que eles nunca quiseram. Eles sempre desprezaram e cuspiram na cara de uma cultura. Simplesmente, do nada, por um apelo midi\u00e1tico, por toda essa coisa que se formou, que \u00e9 uni\u00e3o de moda e m\u00eddia, hoje em dia as pessoas querem usar. Para mim, s\u00f3 \u00e9 apropria\u00e7\u00e3o cultural se o cara n\u00e3o vem de onde eu vim\u201d, define Lucas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a artista <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/amazonamc\/\">Amazona MC<\/a>, apropriar-se de uma cultura \u00e9 voc\u00ea saber que n\u00e3o veio da sua ra\u00e7a, mas, mesmo assim, n\u00e3o buscar as origens, ca\u00e7oar, menosprezar ou n\u00e3o respeitar quem criou e de onde veio. Mesmo com o livre arb\u00edtrio para ser quem quiser, \u00e9 necess\u00e1rio respeitar quem criou o caminho para a atual gera\u00e7\u00e3o andar hoje.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"750\" height=\"741\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/MC-Amazona.jpg\" alt=\"MC Amazona em p\u00e9, usando jaqueta de nylon em neon e saia curta em jeans. \" class=\"wp-image-13691\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>A artista Amazona MC \u00e9 muito mais do que uma cantora, ela tem outros trabalhos de artista e apoia outros artistas de Joinville. <\/em><br><em>Foto: Deborah Caroline.<\/em><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Amazona MC \u00e9 conselheira de cultura de Joinville, produtora cultural, trancista, dreadmaker, tatuadora, cantora, compositora, mestre de cerim\u00f4nia, artes\u00e3, costureira e estudante. Muita gente preta faz muita coisa ao mesmo tempo e Amazona \u00e9 uma mulher que faz diferentes tipos de arte. Os clientes da Amazona, em sua maioria, na parte de estilo, fazem tran\u00e7as raiz, box braids e dreadlock, diferentes tipos de penteados.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de aderir a um estilo ou falar sobre a cultura perif\u00e9rica, \u00e9 necess\u00e1rio falar com quem vive e observa a realidade da periferia. \u00c9 preciso respeitar as origens, classe, ra\u00e7a e g\u00eanero de quem representa as pessoas que vivem na margem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Lucas Borba Lucas Seth trabalhava em uma loja de brinquedos no shopping, em Joinville, quando foi parado por uma mulher. Nesse dia, ele foi convidado para uma sele\u00e7\u00e3o de modelos em um hotel pr\u00f3ximo. Foi ali o seu primeiro contato com a moda. Aos 25 anos, ele j\u00e1 passou pela experi\u00eancia muitas vezes. 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