{"id":13832,"date":"2022-11-08T18:08:34","date_gmt":"2022-11-08T21:08:34","guid":{"rendered":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/?p=13832"},"modified":"2022-11-08T18:08:36","modified_gmt":"2022-11-08T21:08:36","slug":"linha-tenue-a-relacao-do-jovem-com-os-estudos-e-o-mercado-de-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/2022\/11\/08\/linha-tenue-a-relacao-do-jovem-com-os-estudos-e-o-mercado-de-trabalho\/","title":{"rendered":"Linha t\u00eanue: a rela\u00e7\u00e3o do jovem com os estudos e o mercado de trabalho"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Por: Rodrigo Alves Santana<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O levantamento realizado pelo Datafolha e divulgado dias antes do primeiro turno das elei\u00e7\u00f5es, al\u00e9m das inten\u00e7\u00f5es de votos, tra\u00e7ou um perfil dos eleitores indecisos. De acordo com a pesquisa, 19% dos eleitores de 16 a 24 anos ainda n\u00e3o tinham definido um candidato para votar. A indecis\u00e3o constatada pode ajudar a compreender um dos v\u00e1rios motivos para a dificuldade dessa faixa et\u00e1ria em tomar uma decis\u00e3o t\u00e3o importante como a do voto em elei\u00e7\u00f5es presidenciais e parlamentares: a escassez de tempo para se dedicar a assuntos que fujam das atividades cotidianas ligadas ao trabalho e ao estudo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais An\u00edsio Teixeira (Inep), que \u00e9 vinculado ao Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, divulgou no ano passado o Censo da Educa\u00e7\u00e3o Superior cujo objetivo \u00e9 tra\u00e7ar um perfil dos estudantes ao longo da gradua\u00e7\u00e3o baseado nas taxas de perman\u00eancia, conclus\u00e3o e desist\u00eancia. Os n\u00fameros divulgados s\u00e3o de 2020 a partir da coleta de dados j\u00e1 impactados pela pandemia de Covid-19. Segundo os dados, o percentual de evas\u00e3o no ensino superior alcan\u00e7ou 37,2% (maior \u00edndice da s\u00e9rie hist\u00f3rica), correspondendo a 3,78 milh\u00f5es de estudantes. Se levarmos em conta apenas os cursos de EAD (Educa\u00e7\u00e3o a Dist\u00e2ncia), a porcentagem \u00e9 ainda maior, 40%.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A dupla jornada e as quest\u00f5es de mobilidade s\u00e3o fatores que contribuem para a evas\u00e3o tanto no ensino m\u00e9dio quanto no superior. Para a professora e historiadora Valdete Daufemback, esse n\u00e3o \u00e9 um fator isolado. \u201c\u00c9 evidente que o jovem de baixa renda est\u00e1 em desvantagem no que se refere a oportunidade de seguir na carreira acad\u00eamica, fazendo p\u00f3s gradua\u00e7\u00e3o ou fazendo um mestrado em compara\u00e7\u00e3o aos que possuem o privil\u00e9gio de se dedicar integralmente aos estudos. Mas n\u00e3o d\u00e1 pra generalizar pois esse n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico fator, h\u00e1 tamb\u00e9m a quest\u00e3o da dificuldade cognitiva em acompanhar o ritmo da grade curricular e os processos em sala. Ou seja, a dificuldade cognitiva somada a falta de tempo, leva esse jovem a desist\u00eancia.Tudo isso sem contar com a falta de perspectiva\u201d, argumenta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A estudante de psicologia Fernanda Miorim (19), trabalha como atendente em uma central de relacionamento de uma operadora de planos de sa\u00fade e concilia a fun\u00e7\u00e3o com as demandas de seu curso. H\u00e1 nove meses na fun\u00e7\u00e3o, Fernanda encara uma jornada di\u00e1ria que tem in\u00edcio a partir das 9h da manh\u00e3. Residente do bairro Guanabara, regi\u00e3o Sul de Joinville, conta que se tivesse que se locomover apenas com o transporte p\u00fablico, teria que utilizar quatro \u00f4nibus de sua jornada di\u00e1ria. \u201cSeriam dois \u00f4nibus para chegar no trabalho e mais um para ir at\u00e9 a Univille (Universidade da Regi\u00e3o de Joinville) e mais outro para voltar. Por sorte venho para o trabalho de carona com minha m\u00e3e\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>As expectativas de Fernanda em rela\u00e7\u00e3o aos estudos s\u00e3o as melhores. Apesar de gostar do ambiente de trabalho, reconhece que ao final do dia a carga de estresse diante das tantas liga\u00e7\u00f5es de queixas de clientes insatisfeitos, contribui para um aumento no cansa\u00e7o f\u00edsico e mental. A din\u00e2mica de avalia\u00e7\u00f5es na faculdade consiste em relat\u00f3rios escritos a respeito dos conte\u00fados discutidos em aula. Para conseguir produzir esses textos, ela precisa de muita concentra\u00e7\u00e3o e de tempo. \u00c9 justamente o pouco tempo para conciliar sua vida profissional com a pessoal que angustia a universit\u00e1ria. \u201cFiquei semanas sem ver meu irm\u00e3o mais novo e s\u00f3 vejo meu namorado todos os dias porque estudamos na mesma faculdade\u201d, conta. Apesar da rotina atribulada e o estresse inerente \u00e0 fun\u00e7\u00e3o que realiza, ela diz que ainda n\u00e3o precisou de acompanhamento psicol\u00f3gico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Equilibrando pratos: gradua\u00e7\u00e3o, trabalho e os impactos gerados&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A psic\u00f3loga e gestald-terapeuta Suane Souza atende perfis de pessoas que desenvolveram a s\u00edndrome de burnout, que em tradu\u00e7\u00e3o livre significa s\u00edndrome de esgotamento profissional. Para chegar a este diagn\u00f3stico diversos fatores s\u00e3o analisados como, por exemplo, verificar se o paciente possui um hist\u00f3rico de ansiedade ou de depress\u00e3o, j\u00e1 que s\u00e3o estes os pacientes com mais probabilidade de desenvolver a s\u00edndrome.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/homem-confuso-olhando-computador.jpeg\" alt=\"Homem confuso olhando para o computador\" class=\"wp-image-13838\" width=\"602\" height=\"338\"\/><figcaption>Arte conceitual s\u00edndrome de  burnout. <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Suane destaca casos onde o trabalho ocupa uma lacuna t\u00e3o relevante na vida de uma pessoa que a leva a desenvolver um comportamento obsessivo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 atividade profissional que possibilita uma propens\u00e3o a evoluir para um esgotamento mental. Isso tudo, segundo a psic\u00f3loga, sem negligenciar o contexto social, econ\u00f4mico e familiar onde esteja inserido o poss\u00edvel portador do burnout.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para a terapeuta, com advento da pandemia isso se agravou. Ela comenta que, apesar de j\u00e1 haver precedentes antes mesmo do in\u00edcio da transmiss\u00e3o do coronav\u00edrus, o isolamento social, trabalho remoto, o risco de cont\u00e1gio atingindo n\u00fameros expressivos, contribu\u00edram para um aumento no diagn\u00f3stico de exaust\u00e3o mental.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A profissional levanta um ponto importante a ser analisado. Muitas empresas que proporcionaram a seus empregados a possibilidade do trabalho remoto, venderam a ideia como uma possibilidade positiva, principalmente no que se refere a flexibilidade de hor\u00e1rios. Ainda que existam casos onde realmente isso \u00e9 praticado de forma saud\u00e1vel, isto \u00e9, compreendendo que a depender do perfil do funcion\u00e1rio os resultados podem ser entregues em mais ou menos tempo, outras empresas em detrimento da flexibilidade de hor\u00e1rios, cobram entregas de resultados de forma incisiva contribuindo para que em alguns casos, o profissional acabe extrapolando sua carga hor\u00e1ria e utilizando horas livres para finalizar atividades da fun\u00e7\u00e3o. Essa press\u00e3o por resultados ocorre de forma recorrente, generalizada e em escalas hier\u00e1rquicas.<\/p>\n\n\n\n<p>A analista de customer service Camila Cristina de Apolin\u00e1rio (28), tem a possibilidade de cumprir sua jornada di\u00e1ria de trabalho sem precisar se deslocar. A empresa em que trabalha \u00e9 adepta do sistema home office e o MBA em Marketing de Relacionamento e Servi\u00e7os que ela cursa desde janeiro deste ano \u00e9 totalmente a dist\u00e2ncia. A rotina come\u00e7a \u00e0s 8h e s\u00f3 encerra \u00e0s 18h. No trabalho, a fun\u00e7\u00e3o \u00e9 auxiliar clientes atrav\u00e9s de chat interno e, em determinadas situa\u00e7\u00f5es, \u00e9 respons\u00e1vel por atender demandas via telefone.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQuando encerro meu expediente \u00e0s 18h, tudo o que eu quero \u00e9 ficar no meu cantinho e longe da tela do computador\u201d, afirma. Mas isso nem sempre acontece, j\u00e1 que ela precisa acompanhar as videoaulas que s\u00e3o di\u00e1rias. A analista utiliza as aulas para anotar suas d\u00favidas e destacar conte\u00fados para se aprofundar nos fins de semana. No entanto, Camila \u00e9 categ\u00f3rica e confessa que n\u00e3o passa o fim de semana totalmente dedicada \u00e0 leitura e estudos. Justamente o equil\u00edbrio e organiza\u00e7\u00e3o de seu tempo, que a fez procurar um tratamento para o controle da ansiedade. \u201cPor conta de todo o conjunto, trabalho, estudo, t\u00e9rmino de relacionamento, iniciei um tratamento para controlar a ansiedade h\u00e1 tr\u00eas meses&#8221;, conta. Camila acrescenta que este tratamento n\u00e3o inclui sess\u00f5es com psic\u00f3logo. \u00c9 assistida somente por um m\u00e9dico que lhe prescreve o ansiol\u00edtico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Perfis semelhantes aos de Camila e Fernanda s\u00e3o os que menos conseguem realizar sess\u00f5es de psicoterapia ou procurar aux\u00edlio profissional justamente pela falta de tempo. &#8220;Essas pessoas tentam agendar sess\u00f5es fora do expediente de atendimento do consult\u00f3rio. E s\u00e3o hor\u00e1rios em que eu n\u00e3o atendo. Tamb\u00e9m n\u00e3o atendo aos fins de semana, sen\u00e3o sou eu que corro o risco de entrar em bornout&#8221;, brinca Suane.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Crises depressivas s\u00e3o cada vez mais comuns e s\u00e3o casos que se diferenciam de outros que, at\u00e9 ent\u00e3o, eram par\u00e2metro aos profissionais da psicologia. De acordo com a terapeuta, as nossas demandas cotidianas baseadas em alta produtividade, status social, liquidez nas rela\u00e7\u00f5es, poder econ\u00f4mico e etc, s\u00e3o pontos chave para o desenvolvimento desses transtornos ps\u00edquicos. Entretanto, nem sempre os portadores se convencem disso. &#8220;Muitas vezes eu tive que convencer alguns pacientes de que eles precisavam de um atestado. De que era necess\u00e1rio se ausentar do trabalho.&#8221;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A profissional aponta a import\u00e2ncia de se discutir o assunto n\u00e3o s\u00f3 pelos precedentes ditos acima, sobretudo, porque quando o impacto do cansa\u00e7o mental gera problemas de sa\u00fade por causa do trabalho e\/ou estudo, mostra que o desgaste mental \u00e9 t\u00e3o grande que o corpo acaba afetado. &#8220;Quando se trata de um esgotamento mental h\u00e1 possibilidades da pessoa ir trabalhando as emo\u00e7\u00f5es, trabalhando a mente encontrando recursos para se proteger, para saber lidar com isso. Mas quando atinge o corpo indica que esse sofrimento atravessou absolutamente todos os n\u00edveis da vida da pessoa.&#8221; argumenta a psic\u00f3loga.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse processo de robotiza\u00e7\u00e3o profissional, de in\u00fameras cobran\u00e7as internas e externas, tem levado muitas pessoas a abandonarem atividades que lhe proporcionam um bem estar f\u00edsico e mental, como, por exemplo, recordar dos sonhos e metas pessoais. Resgatar isso \u00e9 um processo que Suane denomina de re-humaniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Rodrigo Alves Santana O levantamento realizado pelo Datafolha e divulgado dias antes do primeiro turno das elei\u00e7\u00f5es, al\u00e9m das inten\u00e7\u00f5es de votos, tra\u00e7ou um perfil dos eleitores indecisos. De acordo com a pesquisa, 19% dos eleitores de 16 a 24 anos ainda n\u00e3o tinham definido um candidato para votar. 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