{"id":14351,"date":"2023-06-01T16:14:32","date_gmt":"2023-06-01T19:14:32","guid":{"rendered":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/?p=14351"},"modified":"2024-03-20T17:14:50","modified_gmt":"2024-03-20T20:14:50","slug":"a-realidade-sobre-o-ensino-de-pessoas-com-deficiencia-em-escolas-de-joinville","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/2023\/06\/01\/a-realidade-sobre-o-ensino-de-pessoas-com-deficiencia-em-escolas-de-joinville\/","title":{"rendered":"A realidade sobre o ensino de pessoas com defici\u00eancia em escolas de Joinville"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Por: Cau\u00ea Claro<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Segundo dados do IBGE, de 2010, cerca de 20% da popula\u00e7\u00e3o Joinvilense apresenta algum tipo de defici\u00eancia, seja ela f\u00edsica ou mental. E Estes geram a necessidade de diversos meios e espa\u00e7os de adapta\u00e7\u00e3o, como rampas e relevos. Por\u00e9m, um ambiente que ainda carece de cuidados com a inclus\u00e3o de Pessoas com Defici\u00eancia (PCD&#8217;s) \u00e9 o ambiente escolar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a Lei n\u00ba 3146, artigo 9 da Constitui\u00e7\u00e3o Federal, todo aluno PCD, mediante a apresenta\u00e7\u00e3o de diagn\u00f3stico, tem o direito de ter o aux\u00edlio individual de um professor capacitado para cooperar com seu aprendizado. Entretanto, a realidade dentro dos col\u00e9gios p\u00fablicos de Joinville \u00e9 diferente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar dos governantes glorificarem a rede de ensino p\u00fablica por resultados em testes nacionais, quem est\u00e1 dentro do cotidiano escolar revela preconceito e falta de materiais e profissionais capacitados. Ou seja, um descaso de forma geral por parte dos respons\u00e1veis pela educa\u00e7\u00e3o municipal em rela\u00e7\u00e3o aos alunos com necessidades especiais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Vis\u00e3o de uma professora<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Vilma Dagnoni, 56 anos, professora da rede municipal de ensino h\u00e1 21 anos, relata que em m\u00e9dia h\u00e1 entre um e dois alunos com defici\u00eancia por sala. Estes alunos necessitam de atividades adaptadas que facilitem seu aprendizado e de um profissional capacitado para auxili\u00e1-lo diretamente. Por\u00e9m, na maioria dos casos, n\u00e3o h\u00e1 auxiliares suficientes para a quantidade de alunos, e mesmo quando a quantidade \u00e9 suficiente, estes profissionais n\u00e3o s\u00e3o capacitados para desenvolver atividades adaptadas. Dessa forma, essas quest\u00f5es acabam sobrecarregando os professores \u201cgerais\u201d da turma e deixando estes alunos com atividades comuns da turma, o que dificulta seu aprendizado.<\/p>\n\n\n\n<p>A falta de capacita\u00e7\u00e3o dos professores auxiliares, segundo Vilma, tamb\u00e9m impede uma adapta\u00e7\u00e3o correta no tratamento de cada defici\u00eancia. Um aluno com Transtorno Desafiador Opositor, por exemplo, pode apresentar comportamentos agressivos, enquanto outro, com Espectro Autista e problemas relacionados \u00e0 barulhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas diferen\u00e7as de tratamento exigem conhecimento pedag\u00f3gico espec\u00edfico para lidar com as dificuldades cotidianas e, principalmente, para lidar com crises. Conhecimento esse que n\u00e3o \u00e9 oferecido aos profissionais do munic\u00edpio. Por \u00faltimo, a professora diz que mesmo nos casos onde consegue-se tempo para tentar desenvolver atividades adaptadas para alunos com necessidades especiais, a Secretaria Municipal de Educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o fornece os materiais necess\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Relatos de uma m\u00e3e<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>D\u00e9bora Formigon, 40 anos, \u00e9 m\u00e3e de uma menina com d\u00e9ficit intelectual e Transtorno Desafiador Opositor. Cailane, de 17 anos, se formou no ensino fundamental pela Escola Municipal Pastor Hans Muller h\u00e1 dois anos e atualmente n\u00e3o est\u00e1 matriculada no ensino m\u00e9dio, justamente devido \u00e0s dificuldades enfrentadas por ela durante todo seu ensino na rede p\u00fablica.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Cailane sentiu na pele todos os problemas relatados anteriormente pela professora Vilma. Seu d\u00e9ficit atrasa o desenvolvimento do seu sistema intelectual e cognitivo, o que acaba gerando a necessidade de um acompanhamento pr\u00f3ximo e individualizado diariamente.<\/p>\n\n\n\n<p>D\u00e9bora relata que no col\u00e9gio at\u00e9 havia professoras auxiliares, por\u00e9m, apesar da boa vontade e do esfor\u00e7o, n\u00e3o eram capacitadas. Al\u00e9m disso, elas raramente conseguiam voltar suas aten\u00e7\u00f5es para Cailane, pois ajudavam mais alunos com casos que necessitavam ainda mais de aux\u00edlio. Apesar da falta de capacita\u00e7\u00e3o, nos momentos em que havia uma professora auxiliar, Cailane conseguiu se desenvolver melhor, mas isso acontecia raramente devido ao excesso de demanda.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e3e tamb\u00e9m conta que devido ao fato de n\u00e3o haver um ensino adaptado,&nbsp; tentava em casa realizar esse ensino. Por outro lado, devido \u00e0 rotina de trabalho e \u00e0 falta de deveres de casa adaptados, o ato de estudar se tornava cansativo e gerava crises em sua filha. Isso levou Cailane a associar o estudo com sofrimento, impedindo, assim, seu desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e3e tamb\u00e9m fez um apelo \u00e0 Secretaria Municipal de Educa\u00e7\u00e3o: \u201cpe\u00e7o que voltem o olhar para as crian\u00e7as com necessidades especiais, elas t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de aprender muita coisa. Por\u00e9m, s\u00f3 ir\u00e3o conseguir se o munic\u00edpio e o Estado capacitarem profissionais para que a inclus\u00e3o realmente seja feita, pois hoje o que existe \u00e9 uma inclus\u00e3o de fachada, onde o aluno especial sofre muito e se sente ainda mais incapaz naquele ambiente.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da falta de capacita\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica para atender alunos com necessidades especiais, outro motivo que levou D\u00e9bora a n\u00e3o matricular sua filha no ensino m\u00e9dio \u00e9 um tema pouco abordado e muito menos solucionado dentro das escolas p\u00fablicas: o preconceito e a exclus\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1009\" height=\"667\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/caue_1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-14352\" srcset=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/caue_1.png 1009w, https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/caue_1-350x230.png 350w\" sizes=\"(max-width: 1009px) 100vw, 1009px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">D\u00e9bora e Cailane em um evento do col\u00e9gio. Cr\u00e9ditos: Cau\u00ea Claro.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O preconceito&nbsp;<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>D\u00e9bora revelou que a reclama\u00e7\u00e3o mais frequente e que mais lhe do\u00eda ouvir era por parte da exclus\u00e3o que sua filha sofria dentro do ambiente escolar. N\u00e3o havia viol\u00eancia f\u00edsica, por\u00e9m Cailane dizia que se sentia um &#8220;fantasma&#8221; dentro do col\u00e9gio, pois em eventos de integra\u00e7\u00e3o, trabalhos em grupo e momentos como rodas de conversa em intervalos, ela n\u00e3o era inclu\u00edda.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar das reclama\u00e7\u00f5es e esfor\u00e7os da m\u00e3e, a escola mesmo tendo ci\u00eancia sobre essa exclus\u00e3o, n\u00e3o tomou nenhuma atitude. Atitudes simples como conversas com os alunos e palestras poderiam ao menos amenizar o problema, por\u00e9m nunca foram feitas. Cailane sempre gostou de ir \u00e0 escola, entretanto, o sentimento de n\u00e3o fazer parte do ambiente e sempre estar &#8220;sobrando&#8221;, gerou um desgosto que tornou o fato de ir para escola um sofrimento di\u00e1rio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O sentimento de incapacidade devido \u00e0 falta de ensino adaptado j\u00e1 era suficiente para ela se sentir incapaz. Ao juntar isso com a falta de acolhimento e amizades no ambiente escolar, a sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o era bem-vinda aumentou ainda mais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Consequ\u00eancias da falta de ensino<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Sem um ensino adequado, qualquer pessoa enfrenta dificuldades para ser independente e se inserir no mercado de trabalho. Para pessoas com defici\u00eancia, essas consequ\u00eancias podem ser ainda piores. PCD &#8216;s em geral, normalmente, j\u00e1 encontram uma maior dificuldade para arranjar empregos e viverem uma vida independente, e a falta de ensino de qualidade aumenta ainda mais essa dificuldade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>D\u00e9bora relata que seu maior desejo \u00e9 ver sua filha se tornar independente. S\u00f3 que a escola n\u00e3o a preparou com ensinos b\u00e1sicos para essa vida, obrigando a m\u00e3e a recorrer a diversos outros profissionais especializados, apesar da dificuldade para manter esses tratamentos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e3e se diz contente em conseguir conceder isso \u00e0 filha, mas essa n\u00e3o \u00e9 uma realidade para muitas pessoas. Por isso, alerta que o Governo precisa dar assist\u00eancia a outras pessoas com necessidades especiais em fam\u00edlias sem condi\u00e7\u00f5es financeiras de manter tratamentos particulares. Com isso, muitas fam\u00edlias se encontram em situa\u00e7\u00e3o de dificuldade para manter pessoas com defici\u00eancia, al\u00e9m de privar os PCD\u2019s da oportunidade de viverem uma vida independente, realizarem sonhos e adquirirem experi\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Exemplo de um ensino adaptado<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a decis\u00e3o de n\u00e3o matricular sua filha no ensino m\u00e9dio, D\u00e9bora se viu em um impasse sobre o que fazer para continuar o desenvolvimento de sua filha. Nesse momento, ela descobriu um instituto especializado no ensino de pessoas com defici\u00eancia intelectual, a Associa\u00e7\u00e3o Para Integra\u00e7\u00e3o Social de Crian\u00e7as a Adultos Especiais (APISCAE).<\/p>\n\n\n\n<p>A APISCAE&nbsp; atua no ensino de cursos t\u00e9cnicos de capacita\u00e7\u00e3o para o mercado de trabalho, por\u00e9m seus m\u00e9todos de ensino podem ser utilizados como exemplo no ensino b\u00e1sico de pessoas com defici\u00eancia. Segundo o psic\u00f3logo do instituto, Rafael Rodrigo de Morais, os principais cuidados para ensinar essas pessoas s\u00e3o o est\u00edmulo da organiza\u00e7\u00e3o, a ado\u00e7\u00e3o de pequenas metas e, principalmente, paci\u00eancia e carinho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Rafael tamb\u00e9m fala sobre o preconceito em ambientes de ensino, \u201c\u00e9 necess\u00e1rio tratar a pessoa com defici\u00eancia com respeito, muitas vezes elas percebem no olhar do outro o preconceito, muitas vezes fazendo com que ela n\u00e3o frequente os espa\u00e7os de conv\u00edvio social. Se ela for tratada com respeito, assim como todos merecem, sentindo o sentimento de pertencimento, ela ir\u00e1 sentir vontade de frequentar esses espa\u00e7os, isso j\u00e1 seria incr\u00edvel\u201d, diz o psic\u00f3logo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>D\u00e9bora conta que o desenvolvimento de sua filha ap\u00f3s come\u00e7ar a frequentar o instituto aumentou exponencialmente, em menos de dois anos de ensinamento, Cailane j\u00e1 completou um curso inicial de atendimento ao cliente e est\u00e1 pr\u00f3xima de iniciar suas tentativas de conseguir seu primeiro emprego.Dentro do instituto, Cailane se encontra muito mais feliz e voltou a ter prazer em frequentar o ambiente de ensino, al\u00e9m de se sentir capaz e parte de um grupo social.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Da maneira correta, todos conseguem<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s os relatos colhidos nessa reportagem, \u00e9 evidente que o sistema educacional de Joinville falha em conceder o direito b\u00e1sico do aprendizado quando se trata de pessoas com defici\u00eancia, e isso acarreta diversas dificuldades nas vidas deles e de suas fam\u00edlias. Por\u00e9m, com maiores investimentos em capacita\u00e7\u00e3o de profissionais e materiais adaptados, todos os alunos, dentro de suas particularidades, t\u00eam plena capacidade de se tornarem jovens independentes e capazes de viverem suas vidas de forma independente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Cau\u00ea Claro Segundo dados do IBGE, de 2010, cerca de 20% da popula\u00e7\u00e3o Joinvilense apresenta algum tipo de defici\u00eancia, seja ela f\u00edsica ou mental. E Estes geram a necessidade de diversos meios e espa\u00e7os de adapta\u00e7\u00e3o, como rampas e relevos. 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