{"id":14431,"date":"2023-07-12T15:01:29","date_gmt":"2023-07-12T18:01:29","guid":{"rendered":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/?p=14431"},"modified":"2024-03-20T17:18:15","modified_gmt":"2024-03-20T20:18:15","slug":"das-prateleiras-para-a-telona-um-breve-ensaio-sobre-filmes-inspirados-por-produtos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/2023\/07\/12\/das-prateleiras-para-a-telona-um-breve-ensaio-sobre-filmes-inspirados-por-produtos\/","title":{"rendered":"Das prateleiras para a telona, um breve ensaio sobre filmes inspirados por produtos"},"content":{"rendered":"\n<p><em><strong>Por: Guilherme Beck Scolari<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ocasionalmente, Hollywood decide fazer filmes sobre produtos com alto apelo comercial, a exemplo de &#8220;The Lego Movie&#8221; (2014) ou at\u00e9 mesmo o cl\u00e1ssico jogo TETRIS, como evidenciado pelo filme &#8220;TETRIS&#8221; (2023). \u00c0s vezes, essa ideia de transformar um produto de muito sucesso em um longa metragem funciona maravilhosamente bem, como a pr\u00f3pria franquia Lego, ou at\u00e9 mesmo o rec\u00e9m lan\u00e7ado \u201dBlackberry\u201d (2023), que anda acumulando diversos elogios ao redor do globo.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa tend\u00eancia est\u00e1 t\u00e3o grande no momento que at\u00e9 fizeram um filme sobre Cheetos. Sim! O salgadinho com a on\u00e7a de \u00f3culos escuros tem um filme para explicar a origem do &#8220;sabor que mudou o mundo&#8221;, segundo a pr\u00f3pria descri\u00e7\u00e3o do longa na internet (para os curiosos, o filme se chama &#8220;Flamin&#8217; Hot&#8221;, e j\u00e1 est\u00e1 dispon\u00edvel na Disney+). Ainda falando sobre o sub-g\u00eanero, me parece errado n\u00e3o citar o excelente &#8220;The Founder\u201d (2016), ou como ficou conhecido em terras Tupiniquim &#8220;Fome de Poder\u201d (2016), que se prop\u00f5e a contar a origem daquela que j\u00e1 foi considerada a maior distribuidora de brinquedos do mundo, a marca McDonalds. Dentre outros exemplos de \u00f3timos filmes sobre marcas famosas est\u00e3o &#8220;A Rede Social\u201d (2010), dirigido pelo mestre David Fincher, &#8220;Jobs\u201d (2013), com Ashton Kutcher no auge de sua carreira, e &#8220;Ford v Ferrari\u201d (2019), que curiosamente tamb\u00e9m possu\u00ed Matt Damon em um papel de relev\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 agora conversamos sobre bons filmes de marcas, mas\u2026 e quando essa mistura n\u00e3o d\u00e1 certo? Afinal de contas, estamos misturando elementos praticamente antag\u00f4nicos aqui, a arte de se fazer cinema e o capitalismo em sua forma mais manipulativa: o comercial.<\/p>\n\n\n\n<p>Bom, responder essa pergunta em toda sua completude pode ser um trabalho complexo, mas para n\u00e3o deixar voc\u00ea, meu \u00e1vido leitor, sem resposta alguma, um bom filme zela por seus personagens, sua hist\u00f3ria, visuais e m\u00fasica. A partir do momento em que o aspecto comercial toma conta de qualquer uma dessas coisas, o projeto j\u00e1 demonstra sinais de estar corrompido, o que n\u00e3o necessariamente indica que o filme em si \u00e9 apenas um comercial alongado de certo produto.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro fator importante a ser mencionado \u00e9 a diferen\u00e7a entre filmes sobre as marcas, baseados em suas hist\u00f3rias de funda\u00e7\u00e3o, de filmes baseados unicamente em marcas ou produtos. Para exemplificar um pouco meu racioc\u00ednio, vamos dar uma olhada nos seguintes projetos (todos longas ficcionais):<\/p>\n\n\n\n<ul>\n<li><strong>&#8220;Trolls\u201d (2016)<\/strong> &#8211; Um longa baseado em um brinquedo inventado nos anos 60 que j\u00e1 havia perdido muito de sua popularidade. No longa, a m\u00fasica pop licenciada serve para encantar as crian\u00e7as e irritar os pais, as cores s\u00e3o exageradamente coloridas e saturadas, torna o filme visualmente apelativo para crian\u00e7as de qualquer idade e o humor simpl\u00f3rio de car\u00e1ter f\u00edsico serve para a mesma fun\u00e7\u00e3o. Ainda assim, &#8220;Trolls&#8221; n\u00e3o \u00e9 ofensivamente ruim, mas seu desespero para fazer as crian\u00e7as quererem sair da sala de cinema para ir correndo na loja de brinquedos mais pr\u00f3ximas comprar uma boneca da Poppy \u00e9 apenas nojento. Pelo menos, a m\u00fasica ainda tem rela\u00e7\u00e3o com a hist\u00f3ria contada, e a qualidade da anima\u00e7\u00e3o \u00e9 muito competente (diferentemente do nosso pr\u00f3ximo longa).<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<ul>\n<li><strong>&#8220;Playmobil: O Filme\u201d (2019) <\/strong>&#8211; Que assim como o brinquedo, n\u00e3o passa de uma vers\u00e3o menos legal de Lego. O intuito aqui foi claro, &#8220;The Lego Movie&#8221; fez sucesso, ent\u00e3o decidiram copiar na cara dura . N\u00e3o existe vi\u00e9s criativo algum, e olha que a anima\u00e7\u00e3o \u00e9 visualmente OK, mas a dire\u00e7\u00e3o de arte \u00e9 t\u00e3o fajuta que d\u00e1 ao filme um aspecto de &#8220;barato&#8221;. N\u00e3o h\u00e1 sofistica\u00e7\u00e3o alguma, fato que acaba dando ao longa uma atmosfera grotesca e artificial. O elenco \u00e9 formado por uma gama gigante de celebridades, como Meghan Trainor, Adam Lambert, Daniel Radcliffe e Anya Taylor-Joy, e embora eu ame muito alguns desses artistas, o que foi feito aqui \u00e9 simplesmente imperdo\u00e1vel. Neste caso, o voice-casting inteiro foi sacrificado a fim de colocar o filme em uma posi\u00e7\u00e3o de maior apelo comercial, al\u00e9m de contar com um terr\u00edvel uso de metalinguagem, visuais que d\u00e3o dor de cabe\u00e7a e possivelmente \u00e2nsia de v\u00f4mito a qualquer apreciador de anima\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<ul>\n<li><strong>&#8220;Os Estagi\u00e1rios\u201d (2013) <\/strong>&#8211; Neste caso, nem vou me estender muito. Este filme \u00e9 basicamente um an\u00fancio pro Youtube da Google, mas inv\u00e9s de 5 segundos que voc\u00ea pode pular, \u00e9 um filme protagonizado pelo cara do &#8220;Marley e Eu&#8221; com 2 horas de dura\u00e7\u00e3o. No longa, se quer basicamente mostrar o qu\u00e3o maravilhoso \u00e9 trabalhar na Google, num subtexto t\u00e3o s\u00fatil como um elefante em uma loja de cristais. Em &#8220;Os Estagiarios&#8221;, voc\u00ea vai encontrar muita m\u00fasica pop e atores famosos, j\u00e1 se come\u00e7a a perceber um padr\u00e3o por aqui. Novamente, \u00e9 um filme assist\u00edvel, mas a constante narrativa de &#8220;olhe como essa marca \u00e9 dahora, somos muito bons HA HA HA!&#8221; \u00e9 exaustiva, e faz com que o filme perca qualquer fator de resistibilidade, ainda mais em uma com\u00e9dia onde as piadas oscilam entre medianas e &#8220;saiu um arzinho do meu nariz&#8221;.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Agora que voc\u00ea j\u00e1 conhece o cen\u00e1rio, vamos discutir sobre <strong>&#8220;Air&#8221;<\/strong>, um filme baseado em fatos reais produzido pela inesperadamente \u00f3tima dupla &#8220;Ben Affleck e Matt Damon&#8221;. Esses dois caras s\u00e3o amigos de longa data, fazendo filmes e abusando de \u00e1lcool t\u00e3o consistentemente quanto \u00e0s express\u00f5es entediadas de Ben Affleck em seus filmes da DC. Acredito que a dupla j\u00e1 tenha entregue muitos filmes excepcionais, como &#8220;G\u00eanio Indom\u00e1vel&#8221; (1997), &#8220;Dogma&#8221; (1999) e o recente &#8220;The Last Duel&#8221; (2021), que s\u00e3o filmes que eu nunca vi, mas como as pessoas da internet e as pessoas do mundo real dizem que s\u00e3o muito bons, para fins de valida\u00e7\u00e3o do meu argumento, vou acreditar nelas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Air&#8221; come\u00e7a com uma montagem nost\u00e1lgica para os jovens dos anos 80, tocando Dire Straits de fundo e colocando a atmosfera l\u00e1 em cima. No filme, iremos acompanhar a jornada de Sonny, interpretado por Matt Damon, para convencer seus superiores na Nike, para investir todo o seu or\u00e7amento anual de basquete em um \u00fanico par de t\u00eanis para um atleta espec\u00edfico: Michael (A Lenda) Jordan.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse filme poderia facilmente n\u00e3o ter funcionado. Muitas grandes marcas est\u00e3o envolvidas aqui, estamos falando de Converse, Adidas, Puma, NBA (&#8230;). Naturalmente, problemas contratuais podem ter surgido, al\u00e9m de que, estamos falando sobre um filme de 1 hora e 52 minutos sobre Matt Damon apostando seu trabalho por um par de t\u00eanis, uma proposta divertida, mas que caso n\u00e3o fosse conduzida com maestria, facilmente cairia no territ\u00f3rio de sup\u00e9rflua, irrelevante e chata. Surpreendentemente, &#8220;Air&#8221; n\u00e3o apenas funciona, mas \u00e9 um filme com paix\u00e3o, um \u00f3timo roteiro e atua\u00e7\u00f5es fenomenais.<\/p>\n\n\n\n<p>Vamos come\u00e7ar falando sobre as performances. Matt Damon e Ben Affleck est\u00e3o com apar\u00eancias p\u00e9ssimas, assim como a posi\u00e7\u00e3o da Nike no mercado de basquete em 1985. Notoriamente, o incr\u00edvel design de figurino (acompanhado dos cen\u00e1rios, tamb\u00e9m muito competentes) elevam as boas performances de ambos os atores, que embora sejam sim muito s\u00f3lidos, passam longe de ser o maior destaque do filme. Sem d\u00favida, a maior surpresa aqui \u00e9 Viola Davis, interpretando a m\u00e3e de Michael Jordan, que \u00e9 simplesmente uma for\u00e7a da natureza. Cada segundo em que ela est\u00e1 na tela, todo o resto \u00e9 engolido por uma performance digna de Oscar. Viola poderia facilmente cair no territ\u00f3rio estereotipado de &#8220;uma mulher badass e mal encarada&#8221;, mas a atriz emprega uma do\u00e7ura, entrela\u00e7ada com um grau de estrategismo t\u00e3o cheio de nuances que te prende na tela de uma forma indescrit\u00edvel. Que performance! N\u00e3o \u00e9 atoa que a escala\u00e7\u00e3o da atriz foi uma exig\u00eancia do pr\u00f3prio Michael Jordan para a realiza\u00e7\u00e3o do longa.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m das atua\u00e7\u00f5es, outros dois aspectos not\u00e1veis do filme s\u00e3o a trilha sonora e a dire\u00e7\u00e3o. A trilha \u00e9 composta por cl\u00e1ssicos dos anos 80, o que, \u00e9 claro, d\u00e1 ao filme um estilo muito elegante e ajuda muito no ritmo, embora o excesso de m\u00fasicas licenciadas d\u00ea a impress\u00e3o de que voc\u00ea est\u00e1 pulando de uma esta\u00e7\u00e3o de r\u00e1dio para outra durante todo o filme. A falta de uma trilha instrumental \u00e9 principalmente sentida em cenas mais s\u00e9rias. Em um momento espec\u00edfico, quando Sonny (protagonista interpretado por Matt Damon) est\u00e1 esperando o tempo passar, a m\u00fasica &#8220;Time After Time&#8221; de Cyndi Lauper come\u00e7a a tocar, eu n\u00e3o consegui evitar de explodir em risos. A obviedade da sinestesia proposta foi demasiada pobre, fazendo voc\u00ea sentir como se estivesse olhando para um meme e n\u00e3o um longa-metragem.<\/p>\n\n\n\n<p>O trabalho de Ben Affleck como diretor \u00e9 muito impressionante, o filme \u00e9 r\u00e1pido e extremamente divertido, com di\u00e1logos bastante envolventes e bem escritos. Outro grande aspecto de seu trabalho como diretor e ator em um mesmo filme \u00e9 a liberdade que cede a Matt Damon, permitindo que a hist\u00f3ria se desenvolva naturalmente ao redor de Sonny, sem dar destaque a seu pr\u00f3prio personagem quando n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio. A rela\u00e7\u00e3o de causa e consequ\u00eancia \u00e9 muito bem desenvolvida, com um uso de lettering que foi de meu agrado, embora \u00e0s vezes parecesse meio deslocado.<\/p>\n\n\n\n<p>Meu \u00fanico problema com o filme \u00e9 a edi\u00e7\u00e3o. Algumas cenas podem ser um tanto mal cortadas, com tomadas que parecem muito fora de lugar. \u00c0 primeira vista, isso parecia ser uma decis\u00e3o criativa para dar ao filme um aspecto mais realista, mas isso acaba contratando com alguns elementos mais fict\u00edcios da cinematografia e as perspectivas muitas vezes c\u00f4micas adotadas pelo roteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de algumas pequenas reclama\u00e7\u00f5es, &#8220;Air&#8221; ainda \u00e9 um filme muito gostoso de se assistir. Fazendo parte daquela lista de &#8220;Ah, eles realmente fizeram um filme sobre isso? N\u00e3o pode ser bom&#8230; (Cerca de 2 horas depois) Bem, isso foi realmente bem divertido! Agora, vamos comprar alguns (insira aqui o produto anunciado).&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>CARAMBA! Eu esqueci completamente de mencionar, mas Jason Bateman est\u00e1 nesse filme&#8230; Ele faz um \u00f3timo trabalho, e como eu gosto do Jason Bateman, isso me deixou muito feliz. Eu n\u00e3o consegui reconhec\u00ea-lo durante a maior parte do filme, ent\u00e3o eu ficava pensando &#8220;Ser\u00e1 que esse \u00e9 realmente o Jason Bateman?&#8221; toda vez que ele aparecia. Para minha alegria, aquele era realmente o Jason Bateman. Foi assim, um final feliz.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>AVALIA\u00c7\u00c3O FINAL: 4\/5<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Guilherme Beck Scolari Ocasionalmente, Hollywood decide fazer filmes sobre produtos com alto apelo comercial, a exemplo de &#8220;The Lego Movie&#8221; (2014) ou at\u00e9 mesmo o cl\u00e1ssico jogo TETRIS, como evidenciado pelo filme &#8220;TETRIS&#8221; (2023). \u00c0s vezes, essa ideia de transformar um produto de muito sucesso em um longa metragem funciona maravilhosamente bem, como a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14432,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1580,1598],"tags":[1753,299,1581,689],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14431"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14431"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14431\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15154,"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14431\/revisions\/15154"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14432"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14431"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14431"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14431"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}