{"id":14519,"date":"2023-08-15T14:17:09","date_gmt":"2023-08-15T17:17:09","guid":{"rendered":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/?p=14519"},"modified":"2024-03-18T16:25:40","modified_gmt":"2024-03-18T19:25:40","slug":"sobre-curar-o-medo-de-ser-feliz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/2023\/08\/15\/sobre-curar-o-medo-de-ser-feliz\/","title":{"rendered":"Sobre Curar o Medo de Ser Feliz"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Por: Leonardo Budal<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, certamente, entrar\u00e1 na lista dos dias mais importantes da minha vida. Despreocupadamente cheguei ao trabalho, como todos os dias. Para minha surpresa, uma de minhas amigas chegou ansiosa para me contar quem ela tinha acabado de conhecer. Gabava-se de ter encontrado um rapaz muito interessante que costumava apresentar truques de circo em um dos sem\u00e1foros nos arredores da faculdade. Dizia ela:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Eu tenho mesmo que escrever sobre ele! Nunca tive uma conversa t\u00e3o esclarecedora! No entanto estranhei, passava quase todos os dias naquele sinaleiro perto da farm\u00e1cia, e nunca tinha visto o tal artista. Admito que a propaganda de minha colega acendeu uma forte chama de curiosidade em mim. Quando ela nos comunicou que estava indo ter outra conversa com ele, logo me ofereci para acompanh\u00e1-la. N\u00e3o podia deixar de imaginar que tipo de qualidade o misterioso artista teria. Talvez seu n\u00famero fosse algo nunca visto antes, ou ser\u00e1 que era um s\u00e1bio disfar\u00e7ado entre os tolos. Enquanto descia a rua, de longe pude ver um rapaz, alto, cabelo dreadlock preso atr\u00e1s da cabe\u00e7a, barba rala, vestindo camisa e bermuda. Estava se refrescando na sombra da marquise da farm\u00e1cia enquanto pitava um cigarro de palha. Entusiasmada, minha colega se aproximou do artista come\u00e7ando a conversa de onde tinham parado. Com uma gentileza e eloqu\u00eancia, o jovem disse que pod\u00edamos fazer quantas perguntas fossem necess\u00e1rias. Come\u00e7ou ent\u00e3o a nossa conversa De in\u00edcio, deixei que minha companheira tomasse as r\u00e9deas, afinal, era ideia dela. Logo nos primeiros minutos da entrevista pude notar o valor dele e rapidamente virei um personagem ativo na conversa. De fala mansa e simples, ele explicou que era artista a quase sete anos, mas que vivia s\u00f3 de arte a pouco tempo. Seu modo de se expressar era cativante, escut\u00e1vamos cada detalhe com o m\u00e1ximo de aten\u00e7\u00e3o, sua habilidade em mostrar tanta eloqu\u00eancia em a\u00e7\u00f5es simples me deixou encantado. Dentre todas as caracter\u00edsticas marcantes, o tom de felicidade em sua voz com certeza era o que mais chamava a aten\u00e7\u00e3o, era imposs\u00edvel n\u00e3o se contagiar. Passamos por toda sua vida como artista. Ele nos contou os problemas e os prazeres. At\u00e9 me surpreendi quando ele comentou o quanto aquele trabalho poderia render no final do dia. A conversa flu\u00eda com tranquilidade e leveza, afirmo com vigor que foi um dos momentos mais relaxantes da minha vida. Tudo que emanava dele era alegria e paix\u00e3o, puras como a \u00e1gua, al\u00e9m de uma percept\u00edvel sabedoria apesar da tenra idade. Entre todos aqueles bons momentos, um se destoa. Quando o questionei sobre como era praticar arte em Joinville, ele permaneceu em sil\u00eancio, tragou o cigarro e disse que era uma situa\u00e7\u00e3o complicada. Com sagacidade, o artista nos diz o seguinte:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; As pessoas daqui est\u00e3o presas em uma necessidade crescente de permanecer triste. Seus trabalhos as consomem, e sugam tudo que h\u00e1 de feliz. Elas se isolam em seus ve\u00edculos e s\u00f3 conseguem pensar em como resolver o pr\u00f3ximo problema. Elas est\u00e3o infelizes, e o pior, o medo de sentirem felicidade as assombra. Constantemente s\u00e3o lembradas de seus erros supostamente imperdo\u00e1veis e se culpam por comet\u00ea-los. Por\u00e9m \u00e9 nesse momento que a arte entra, \u00e9 um momento de escape, de liberdade. Sem arte n\u00e3o h\u00e1 significado e sem significado n\u00e3o h\u00e1 vida. Fazer arte em Joinville n\u00e3o \u00e9 apenas um desafio, \u00e9 o nosso dever. Devemos curar o medo de ser feliz.<br>Nunca, em toda a minha vida, eu sonhei tomar um serm\u00e3o, mesmo que indireto de uma pessoa que eu tinha acabado de conhecer. Suas palavras foram como uma pancada. Primeiro, pensei ter me deparado com algum tipo de professor universit\u00e1rio disfar\u00e7ado de artista, por\u00e9m ao refletir melhor sobre a situa\u00e7\u00e3o percebi que tais afirma\u00e7\u00f5es n\u00e3o passaram de uma leitura simples de uma realidade que nos negamos a enxergar.<br>Todos, pelo menos em algum momento de nossas rotinas repetitivas, j\u00e1 questionamos o motivo de viver. Nos negamos a aceitar n\u00f3s mesmos como seres infelizes, que s\u00f3 vivem \u00e0 merc\u00ea da vontade do outro, e cidades como Joinville est\u00e3o cheias desse sentimento de vazio, de desprop\u00f3sito, nos falta algo para podermos enfrentar a nossa dura realidade de proletariado.<br>Estamos perdidos em nosso pr\u00f3prio dia a dia, desesperados por fuga, entretanto somos tragados novamente por uma onda de pessimismo aliado a falta de infraestrutura cultural que nos corr\u00f3i. E mesmo contra todas as chances, ainda existem pessoas como esse jovem artista que s\u00e3o capazes de nos trazer a liberta\u00e7\u00e3o, mesmo que seja no breve momento de tr\u00e2nsito parado. Vida longa aos corajosos que enfrentam o poder cegante da monotonia e da morte cultural, que sejam grandes esses defensores desse adoentado joinvilense.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Leonardo Budal Hoje, certamente, entrar\u00e1 na lista dos dias mais importantes da minha vida. 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