{"id":14674,"date":"2023-09-29T14:00:00","date_gmt":"2023-09-29T17:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/?p=14674"},"modified":"2024-03-18T16:45:14","modified_gmt":"2024-03-18T19:45:14","slug":"ameacas-de-morte-e-ofensas-marcam-a-vida-de-mulheres-que-se-posicionam-politicamente-em-joinville","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/2023\/09\/29\/ameacas-de-morte-e-ofensas-marcam-a-vida-de-mulheres-que-se-posicionam-politicamente-em-joinville\/","title":{"rendered":"Amea\u00e7as de morte e ofensas marcam a vida de mulheres que se posicionam politicamente em Joinville"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Maria Elisa M\u00e1ximo e Ana L\u00facia Martins s\u00e3o exemplos de como a viol\u00eancia faz parte da rotina de mulheres em espa\u00e7os de poder<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Por: Maria Lu\u00edza Venturelli<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p id=\"33b4\">&#8220;Para a mulher negra, o lugar que lhe \u00e9 reservado \u00e9 o menor. O lugar da marginaliza\u00e7\u00e3o, do menor sal\u00e1rio. O lugar do desrespeito em rela\u00e7\u00e3o a sua capacidade profissional&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"33b4\">Essa conclus\u00e3o \u00e9 da intelectual L\u00e9lia Gonzalez, em uma entrevista concedida para o document\u00e1rio \u201cAs Divas Negras do Cinema Brasileiro\u201d, de 1989. Na pol\u00edtica, a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 diferente.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"9198\">Uma pesquisa realizada pelo Instituto Marielle Franco, divulgada em dezembro de 2020, entrevistou 142 mulheres negras de 21 estados em todas as regi\u00f5es do Brasil e de 16 partidos. Entre as entrevistadas, 80% das candidatas negras sofreram viol\u00eancia virtual, 60% sofreram viol\u00eancia moral ou psicol\u00f3gica e 50% sofreram viol\u00eancia institucional. Al\u00e9m disso, 18% receberam coment\u00e1rios e mensagens racistas ou sexistas em redes sociais, por e-mail ou aplicativos de mensagens.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"3228\">Al\u00e9m disso, 60% das mulheres negras entrevistadas foram insultadas, ofendidas ou humilhadas durante o per\u00edodo eleitoral de 2020. Em 45% dos casos de viol\u00eancia virtual e moral, a agress\u00e3o foi feita por pessoas n\u00e3o identificadas, o que dificulta den\u00fancias e aumenta a impunidade nos casos desse tipo de agress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"6161\">Em Joinville, a vereadora&nbsp;<strong>Ana L\u00facia Martins,&nbsp;<\/strong>do Partido dos Trabalhadores<strong>&nbsp;<\/strong>(PT), primeira parlamentar negra eleita na cidade, sofreu in\u00fameras amea\u00e7as e ataques racistas e machistas desde os primeiros momentos de sua trajet\u00f3ria pol\u00edtica. Ligada ao PT desde a d\u00e9cada de 1980, ap\u00f3s uma trajet\u00f3ria de 36 anos dedicados \u00e0s salas de aula, nas elei\u00e7\u00f5es municipais de 2020, Ana L\u00facia foi a s\u00e9tima vereadora mais votada de Joinville, com 3.126 votos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/miro.medium.com\/v2\/resize:fit:700\/1*EM2bjNEXc1pCiwPYtiCNOw.jpeg\" alt=\"\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p id=\"757b\">Para Ana, a conquista de ocupar uma cadeira em um lugar de decis\u00e3o veio junto com a dor da viol\u00eancia pol\u00edtica de g\u00eanero e do racismo. Antes mesmo de tomar posse como vereadora, ela foi manchete nacional pelas amea\u00e7as e ofensas racistas que recebeu ap\u00f3s sua vit\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"1145\">Depois de sofrer in\u00fameros ataques durante toda a campanha pol\u00edtica, a vereadora recebeu amea\u00e7as de perfis fakes logo ap\u00f3s a apura\u00e7\u00e3o dos votos e divulga\u00e7\u00e3o dos resultados nas urnas na cidade, no dia 15 de novembro de 2020. Nos coment\u00e1rios, o perfil sem identifica\u00e7\u00e3o escreveu frases como \u201cagora s\u00f3 falta a gente matar ela e entrar o suplente que \u00e9 branco\u201d e \u201cos fascistas mandaram avisar que ela que se cuide\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"d67e\">Nas redes sociais, no dia 18 de novembro, Ana publicou uma&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/CHvFVI0rEaH\/?igshid=MzRlODBiNWFlZA%3D%3D\" rel=\"noreferrer noopener\" target=\"_blank\">den\u00fancia de amea\u00e7a de morte<\/a>, onde disse que temia por sua integridade f\u00edsica e que os ataques j\u00e1 estavam acontecendo durante todo o per\u00edodo eleitoral, mas ficaram mais expl\u00edcitos ap\u00f3s o resultado. Al\u00e9m das amea\u00e7as expl\u00edcitas de morte, no texto, ela tamb\u00e9m diz que teve suas redes sociais invadidas na noite de divulga\u00e7\u00e3o do resultado da elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"1d2b\">O respons\u00e1vel pela invas\u00e3o usou um aparelho identificado como sendo de Timb\u00f3 (SC) e invadiu o perfil do Instagram, retirou a foto do perfil e apagou a bio. A situa\u00e7\u00e3o, no entanto, foi rapidamente resolvida pela equipe da campanha de Ana L\u00facia.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"4513\">Em todo o texto, ela deixa claro o medo que toda a situa\u00e7\u00e3o trouxe \u00e0 tona. \u201cN\u00e3o \u00e9 uma simples opini\u00e3o quando encoraja racismo e amea\u00e7a. [\u2026] Sabia que n\u00e3o seria f\u00e1cil. Estava ciente que enfrentaria uma certa resist\u00eancia em uma cidade que elegeu apenas na segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo 21 a primeira mulher negra. S\u00f3 n\u00e3o esperava ataques t\u00e3o violentos\u201d, escreveu.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"7885\">Ainda na publica\u00e7\u00e3o, Ana relatou ter recebido duas amea\u00e7as de morte, evidenciando que o problema central era ela ser a primeira mulher negra eleita da cidade. O fato de ser petista tamb\u00e9m incomodou. No dia seguinte ao resultado das elei\u00e7\u00f5es, um radialista da cidade desferiu ataques a ela e ao partido, afirmando que n\u00e3o poderia \u201ccomemorar uma petista no poder novamente\u201d e que o seu partido \u201cn\u00e3o deveria existir mais\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"4e4d\">Em nota, o Partido dos Trabalhadores repudiou as amea\u00e7as sofridas pela vereadora eleita. \u201cDiante desse grav\u00edssimo fato, manifestamos nossa solidariedade e apoio \u00e0 companheira Ana L\u00facia Martins e esperamos que as autoridades atuem de maneira r\u00e1pida no intuito de descobrir e responsabilizar os autores, para que sejam levados \u00e0 justi\u00e7a\u201d, disse a nota.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"a9ed\">O caso chegou \u00e0 pol\u00edcia de Joinville, por meio de um boletim de ocorr\u00eancia registrado por Ana, e ganhou repercuss\u00e3o nacional. No dia 20 de novembro, mais de 300 pessoas participaram de um ato no centro de Joinville contra o racismo, em defesa de sua integridade f\u00edsica e pela puni\u00e7\u00e3o dos criminosos.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"fba1\">Com faixas, cartazes e cantos contra o racismo, o machismo e a viol\u00eancia, a manifesta\u00e7\u00e3o contou com a participa\u00e7\u00e3o de partidos pol\u00edticos, movimentos sociais, organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e diversas outras entidades e pessoas. As principais falas e a\u00e7\u00f5es foram realizadas pelos movimentos negros e feministas do munic\u00edpio. O ato tamb\u00e9m contou com falas, cantos e declama\u00e7\u00f5es de poesias.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/miro.medium.com\/v2\/resize:fit:700\/1*JcdJ5Qr4boRGu7dPTipPlg.jpeg\" alt=\"\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Rep\u00f3rter Popular<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p id=\"8a04\">Apesar do apoio, os ataques n\u00e3o pararam por a\u00ed. Em 22 de novembro, novas amea\u00e7as de morte foram destinadas a Ana L\u00facia. Desta vez, as ofensas chegaram por e-mail, com c\u00f3pia para jornalistas, para a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e o Tribunal de Justi\u00e7a. O caso aconteceu ap\u00f3s o mandado de busca e apreens\u00e3o feito pela Pol\u00edcia Civil na casa de um suspeito pelos primeiros ataques realizados no dia 15 de novembro. O mandado foi cumprido na cidade por policiais civis da DPCAMI (Delegacia de Prote\u00e7\u00e3o \u00e0 Crian\u00e7a, ao Adolescente, \u00e0 Mulher e ao Idoso) com a participa\u00e7\u00e3o do IGP (Instituto Geral de Per\u00edcias).<\/p>\n\n\n\n<p id=\"a691\">O conte\u00fado das novas mensagens era ainda mais chocante. \u201cSua aberra\u00e7\u00e3o. Macaca fedorenta, cabelo ninho de mafagafos. Enquanto voc\u00ea ganha um sal\u00e1rio de vereadora apenas por ser uma macaca, eu estou desempregado e vivendo do aux\u00edlio emergencial\u201d, escreveu o criminoso.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"78c5\">Al\u00e9m do crime de inj\u00faria racial, ele alegou ter o endere\u00e7o da vereadora e no conte\u00fado do e-mail disse que nada iria impedi-lo de mat\u00e1-la. \u201cEu juro que vou comprar uma 9 mm no Morro do Engenho aqui no Rio de Janeiro e uma passagem s\u00f3 de ida pra Joinville e vou te matar. Eu j\u00e1 tenho todos os seus dados e vou aparecer na sua casa\u201d, disse.<\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\" id=\"02e2\"><strong>Trajet\u00f3ria pol\u00edtica intensa<\/strong><\/h1>\n\n\n\n<p id=\"6900\">Ana L\u00facia Martins Rosskamp \u00e9 nascida e criada no bairro Floresta, zona Sul de Joinville, e filha mais nova dos cinco filhos de uma trabalhadora dom\u00e9stica, dona Am\u00e9lia, e de um motorista, seu Ac\u00e1cio. Na C\u00e2mara, tem como principais bandeiras pol\u00edticas o combate ao racismo e a garantia dos direitos das mulheres, causas pelas quais ela luta diariamente desde o in\u00edcio do seu mandato.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"a6ec\">Mas a hist\u00f3ria de supera\u00e7\u00e3o come\u00e7ou muito antes, ainda na juventude da vereadora. Antes mesmo de atuar na educa\u00e7\u00e3o, passou por diversas outras ocupa\u00e7\u00f5es, como empregada dom\u00e9stica e bab\u00e1. J\u00e1 no fim da d\u00e9cada de 1980, ela entrou para o movimento negro, quando come\u00e7ou a perceber ainda mais a necessidade da luta contra o racismo enquanto uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"4a46\">Depois, Ana passou a fazer parte ativamente do PT, lan\u00e7ando a candidatura em 2020. Ap\u00f3s conquistar uma cadeira na c\u00e2mara, se dedicou a fazer um mandato em defesa das mulheres, em busca de uma cidade antirracista, mais igualit\u00e1ria e plural.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/miro.medium.com\/v2\/resize:fit:700\/1*NTiFLtTe-EkNm20MRJ83iw.jpeg\" alt=\"\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Partido dos Trabalhadores<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p id=\"1ede\">Dos&nbsp;<a href=\"https:\/\/camara.joinville.br\/vereadores\/\" rel=\"noreferrer noopener\" target=\"_blank\">19 integrantes da C\u00e2mara de Joinville<\/a>, 17 s\u00e3o homens e Ana L\u00facia \u00e9 a \u00fanica pessoa negra. A viol\u00eancia que sofre por meio das tentativas cotidianas de silenciamento e de invisibiliza\u00e7\u00e3o de sua exist\u00eancia e pautas no parlamento tamb\u00e9m a machucam todos os dias.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"9c53\"><a href=\"https:\/\/medium.com\/@portodasnossc\/cap%C3%ADtulo-1-a-cassa%C3%A7%C3%A3o-de-maria-tereza-capra-a950edcbd497\">Em fevereiro de 2023, Ana voltou a sofrer graves amea\u00e7as de morte e ataques racistas ap\u00f3s sair em defesa da ex-vereadora de S\u00e3o Miguel do Oeste (SC) Maria Tereza Capra (PT), cujo mandato foi cassado m ap\u00f3s ela denunciar uma suposta sauda\u00e7\u00e3o nazista de bolsonaristas.&nbsp;<\/a>A vereadora relatou todo o caso em suas redes sociais.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"e50d\">De acordo com a parlamentar, as amea\u00e7as foram enviadas por e-mail depois de sua manifesta\u00e7\u00e3o contra a cassa\u00e7\u00e3o de Capra. Ela relatou o epis\u00f3dio ao Minist\u00e9rio P\u00fablico e registrou um boletim de ocorr\u00eancia na Pol\u00edcia Civil do Distrito Federal, onde estava quando recebeu as mensagens.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"2cd1\">Para Ana L\u00facia, permanecer no espa\u00e7o de verean\u00e7a \u00e9 um desafio di\u00e1rio, em que \u00e9 preciso se posicionar para ter voz. Na sess\u00e3o ordin\u00e1ria da C\u00e2mara de Vereadores de Joinville do dia 30 de maio, Ana aproveitou seu tempo de fala para discorrer e lamentar sobre os epis\u00f3dios de viol\u00eancia pol\u00edtica de g\u00eanero que vem sofrendo.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"e9cd\">Na ocasi\u00e3o, ressaltou que ela e a vereadora T\u00e2nia Larson, do Uni\u00e3o Brasil, sofrem constantes persegui\u00e7\u00f5es di\u00e1rias vindas de outros vereadores. Ana L\u00facia se mostrou bastante indignada com o sil\u00eancio e coniv\u00eancia dos colegas diante dessas situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"1ca7\">De acordo com a vereadora, que foi perseguida nas redes sociais e ofendida na plen\u00e1ria diversas vezes, o espa\u00e7o pol\u00edtico n\u00e3o deveria ser um lugar onde as pessoas ofendem umas \u00e0s outras. \u201cN\u00f3s n\u00e3o estamos aqui nesta casa para estimular ainda mais o \u00f3dio, a indiferen\u00e7a, a homofobia e o racismo\u201d, declarou em seu discurso.<\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\" id=\"a49f\">Uma vis\u00e3o antropol\u00f3gica da viol\u00eancia pol\u00edtica de g\u00eanero<\/h1>\n\n\n\n<p id=\"601a\">De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), mais da metade da popula\u00e7\u00e3o brasileira (51,13%) \u00e9 feminina, e elas representam, segundo o Tribunal Superior Eleitoral, 53% do eleitorado. No entanto, ocupam hoje, no Brasil, menos de 15% dos cargos eletivos.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"71a1\">Nas elei\u00e7\u00f5es de 2022, somente 91 mulheres foram eleitas deputadas federais, o que corresponde a 17,7% da totalidade das 513 cadeiras dispon\u00edveis. O n\u00famero representa um avan\u00e7o muito pequeno ao levar em considera\u00e7\u00e3o o resultado das elei\u00e7\u00f5es de 2018, quando 77 mulheres foram eleitas deputadas federais e ocuparam 15% das cadeiras.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"b86e\">J\u00e1 nas Assembleias Legislativas dos estados o n\u00famero de deputadas estaduais e distritais eleitas chega ao total de 190. Especificamente em Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Goi\u00e1s, a representatividade feminina ficou abaixo de 10%.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"e787\">Com rela\u00e7\u00e3o ao Senado, teria acontecido um retrocesso relevante caso suplentes n\u00e3o tivessem assumido. Considerando apenas o resultado das \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es, das 81 cadeiras dispon\u00edveis, apenas dez seriam ocupadas por mulheres senadoras a partir de 2023 \u2014 duas a menos que na legislatura anterior. No entanto, houve o ingresso de cinco mulheres suplentes: uma porque o titular foi eleito governador do estado, e outras quatro porque os titulares se tornaram ministros do governo Lula.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"4d93\">Dos 27 estados do pa\u00eds, apenas dois s\u00e3o governados por mulheres atualmente, com F\u00e1tima Bezerra (PT) no Rio Grande do Norte e Raquel Lyra (PSDB) em Pernambuco. Al\u00e9m disso, somente 12% dos munic\u00edpios brasileiros s\u00e3o comandados por mulheres prefeitas, sendo Cinthia Ribeiro (PSDB), prefeita de Palmas, no Tocantins, a \u00fanica a dirigir uma capital.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"b779\">Alguns dos fatores que contribuem para que o Brasil esteja abaixo da m\u00e9dia das Am\u00e9ricas na participa\u00e7\u00e3o feminina nos espa\u00e7os pol\u00edticos \u00e9 a resist\u00eancia dos partidos pol\u00edticos em investir nas candidaturas de mulheres, as fraudes reiteradas \u00e0s cotas de g\u00eanero existentes na legisla\u00e7\u00e3o e claro, a viol\u00eancia e ass\u00e9dio pol\u00edtico direcionado \u00e0s mulheres que ousam se candidatar.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"e89b\">O caso de Ana L\u00facia e de tantas outras mulheres no Brasil e em Santa Catarina s\u00e3o resultado de uma realidade que h\u00e1 anos j\u00e1 est\u00e1 enraizada em toda a sociedade. Por muito tempo consideradas \u201csexo fr\u00e1gil\u201d, as mulheres desde sempre foram for\u00e7adas a ficarem confinadas ao ambiente dom\u00e9stico, respons\u00e1veis pelos cuidados da casa e dos filhos. Acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o formal e ao mercado de trabalho foram vedados, assim como a aquisi\u00e7\u00e3o de direitos pol\u00edticos<\/p>\n\n\n\n<p id=\"0367\">A maioria das mulheres do Ocidente somente conquistou liberdade pol\u00edtica nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, ainda que n\u00e3o totalmente em igualdade com os homens naquele momento. O fato de uma mulher, como Ana L\u00facia, ter voz e ser capaz de promover mudan\u00e7as em espa\u00e7os majoritariamente masculinos, ainda causa inc\u00f4modo em muitas pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"b897\">Para a pesquisadora, professora e antrop\u00f3loga&nbsp;<strong>Maria Elisa M\u00e1ximo<\/strong>, a viol\u00eancia pol\u00edtica de g\u00eanero mostra como a trajet\u00f3ria das mulheres que optam por participar ativamente de espa\u00e7os majoritariamente masculinos \u00e9 marcada por intimida\u00e7\u00f5es e viol\u00eancia. Uma vez eleita, ou ocupando o lugar de destaque em movimentos sociais, a mulher enfrenta uma rotina exaustiva de discrimina\u00e7\u00e3o, amea\u00e7as e viol\u00eancias, em diferentes \u00e2mbitos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/miro.medium.com\/v2\/resize:fit:700\/1*PBkDc4mpwKAaSoM7Dkm-TQ.jpeg\" alt=\"\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Faculdade Ielusc<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p id=\"6790\">No caso das mulheres, qualquer tipo de viol\u00eancia de g\u00eanero \u00e9 alavancada pelo papel social e cultural atribu\u00eddo a elas, que s\u00e3o historicamente inferiorizadas em diversas realidades. Sendo assim, a desigualdade de g\u00eanero, incentivada pela sociedade patriarcal, fomenta a viol\u00eancia de g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"0bed\">Isso acontece pois, a partir do momento que existe a convic\u00e7\u00e3o de que as mulheres s\u00e3o inferiores ou propriedades que devem respeitar os homens acima de tudo, cria-se uma estrutura de poder em que a mulher \u00e9 o lado mais fraco.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Mulheres sempre foram minimizadas\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/gfqtQURGgbo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p id=\"14e2\">De acordo com a pesquisadora, a viol\u00eancia pol\u00edtica de g\u00eanero pode ser caracterizada como todo e qualquer ato com o objetivo de excluir a mulher do espa\u00e7o pol\u00edtico, impedir ou restringir seu acesso ou induzi-la a tomar decis\u00f5es contr\u00e1rias \u00e0 sua vontade. As mulheres podem sofrer viol\u00eancia quando concorrem, j\u00e1 eleitas e durante o mandato, como aconteceu com Ana L\u00facia.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"f252\">Para Maria Elisa, tratar como viol\u00eancia pol\u00edtica de g\u00eanero o que aconteceu com Ana ajuda as pessoas a identificarem mais facilmente quando a viol\u00eancia acontece por algum fator espec\u00edfico, como o g\u00eanero, cor da pele ou classe social. \u201cEm todos os processos a gente precisa dar nome \u00e0s coisas para que elas passem a existir dentro da experi\u00eancia e da percep\u00e7\u00e3o das pessoas no geral. A gente precisa dar o nome para que as pessoas possam fazer essa distin\u00e7\u00e3o\u201d, explica a antrop\u00f3loga.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"A import\u00e2ncia de dar nome \u00e0s coisas\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/_5iJI6wgwWw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p id=\"c62f\">Assim como Ana L\u00facia, a professora Maria Elisa tamb\u00e9m foi atacada por se posicionar contra o bolsonarismo. Ap\u00f3s fazer uma cr\u00edtica ao fen\u00f4meno pol\u00edtico, ela se tornou alvo de uma forte viol\u00eancia, tendo que enfrentar xingamentos, ataques a sua honra, questionamentos a respeito de sua integridade profissional e muitas outras agress\u00f5es psicol\u00f3gicas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/miro.medium.com\/v2\/resize:fit:700\/1*xKYBbh0fjK39B2OjeWkh0w.png\" alt=\"\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Arte: Maria Lu\u00edza Venturelli<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p id=\"33de\">No dia 1 de outubro de 2022, o ex-presidente Bolsonaro fez campanha em Joinville, cidade mais populosa de Santa Catarina e majoritariamente bolsonarista. No dia seguinte, 68,98% dos votos v\u00e1lidos dos joinvilenses foram dedicados ao candidato do PL. O candidato puxava a \u201cmotociata\u201d quando a professora Maria Elisa M\u00e1ximo cruzou o seu caminho.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"0b6d\">Ela, o marido e os dois filhos ocupavam um carro adesivado com o rosto de Lula e sofreram ataques dos apoiadores do presidente. A pesquisadora s\u00f3 n\u00e3o sabia que o seu destino mudaria completamente ap\u00f3s esse encontro. Ao chegar em casa, ela publicou um tweet que relatava: \u201cJoinville sendo o esgoto do bolsonarismo, pra onde escoou os res\u00edduos finais da campanha do imbrox\u00e1vel inomin\u00e1vel. N\u00e3o tem quem escape: h\u00e1 gente brega, feia e fascista para todos os lados\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"1234\">Ap\u00f3s realizar a publica\u00e7\u00e3o, Maria Elisa percebeu que o post estava repercutindo mais que o normal, ganhando diversas curtidas, coment\u00e1rios e compartilhamentos. Assim, pensando em sua seguran\u00e7a, preferiu privar sua conta e apagar o post. Em grupos de WhatsApp bolsonaristas, a imagem passou a circular em montagens que associavam o texto de Elisa \u00e0 institui\u00e7\u00e3o onde ela atuava.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"635c\">A professora, que passou a receber \u00f3dio de grupos extremistas, com in\u00fameras amea\u00e7as e insultos nas redes sociais, define o que aconteceu com ela como viol\u00eancia pol\u00edtica de g\u00eanero. Em diversas publica\u00e7\u00f5es, Maria Elisa foi amea\u00e7ada, humilhada e teve seu profissionalismo questionado.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"d226\">Ap\u00f3s os in\u00fameros ataques, no dia 3 de outubro, Maria apresentou \u00e0 institui\u00e7\u00e3o onde atuava, a Faculdade Ielusc, uma licen\u00e7a m\u00e9dica de 15 dias. Neste per\u00edodo, a professora se manteve isolada em casa, com medo de que os ataques de \u00f3dio que recebeu online se estendessem ao mundo real.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"466b\">Quando retornou \u00e0 faculdade, em 18 de outubro, recebeu o aviso de que estava demitida. N\u00e3o lhe foi informado o motivo do corte, mas houve grande press\u00e3o por parte de pais de alunos pela retirada da docente, ainda por conta da publica\u00e7\u00e3o feita no primeiro dia de outubro.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-rich is-provider-soundcloud wp-block-embed-soundcloud\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Como o caso afetou a vida de Maria Elisa by Por Todas N\u00f3s\" width=\"800\" height=\"400\" scrolling=\"no\" frameborder=\"no\" src=\"https:\/\/w.soundcloud.com\/player\/?visual=true&#038;url=https%3A%2F%2Fapi.soundcloud.com%2Ftracks%2F1537255738&#038;show_artwork=true&#038;maxheight=1000&#038;maxwidth=800\"><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p id=\"1a48\">No mesmo dia da demiss\u00e3o de Maria Elisa, estudantes, movimentos sociais, partidos pol\u00edticos e sindicatos protestaram contra os cortes federais na educa\u00e7\u00e3o em Joinville. A manifesta\u00e7\u00e3o, que come\u00e7ou na Pra\u00e7a da Bandeira, dirigiu-se \u00e0 institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"0d0f\">De acordo com uma nota publicada pelo Movimento Feminista da Diversidade, que participou do protesto, o ato \u201cFoi uma manifesta\u00e7\u00e3o pac\u00edfica pelo campus da universidade com palavras de ordem pedindo a volta da professora e se posicionando contra a censura, o fascismo e pela democracia\u201d. Diferente do que disseminaram fakenews que circularam na \u00e9poca, os estudantes n\u00e3o entraram na igreja da institui\u00e7\u00e3o. A informa\u00e7\u00e3o foi desmentida pela pr\u00f3pria Par\u00f3quia da Paz nas redes sociais.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"f489\">Para Maria Elisa, casos que colocam mulheres em situa\u00e7\u00f5es como a que ela e tantas outras passam diariamente criam barreiras de diversas ordens. Ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas a mulher brasileira avan\u00e7ou muito na conquista de seus direitos, ao lutar para conseguir um espa\u00e7o significativo na sociedade e principalmente no mercado de trabalho. Entretanto, ainda \u00e9 preciso avan\u00e7ar muito para que se fa\u00e7a justi\u00e7a com mulheres que continuam sofrendo viol\u00eancia na pol\u00edtica e em diversos outros espa\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Barreiras que o patriarcado cria\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/c5yjpp_91Fs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\" id=\"59ab\">O papel da internet nos ataques<\/h1>\n\n\n\n<p id=\"9200\">O caso de Maria Elisa M\u00e1ximo teve uma grande repercuss\u00e3o pois os ataques aconteceram principalmente na internet, por meio das redes sociais, assim como Ana L\u00facia, que precisou lidar com amea\u00e7as recebidas em coment\u00e1rios em postagens no Instagram e mensagens enviadas por e-mail.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"305a\">Postagens nas redes sociais que criticam e zombam do \u201coutro lado\u201d do espectro ideol\u00f3gico recebem o dobro de compartilhamentos do que aquelas que defendem pessoas ou ideias de sua pr\u00f3pria tribo pol\u00edtica. Ou seja, a estrutura das redes sociais incentiva o confronto ao viralizar especialmente aqueles conte\u00fados que exacerbam a rivalidade pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"6e43\">\u201cOs algoritmos n\u00e3o s\u00e3o neutros e imparciais, ent\u00e3o assim como no meu caso e em tantos outros casos, a gente pode dizer que eles viralizam de alguma maneira o algoritmo est\u00e1 sempre esperando que determinadas pessoas, com determinadas caracter\u00edsticas e posicionamentos, se coloquem na internet e esse algoritmo tenha chance de viralizar\u201d, resume a pesquisadora Maria Elisa.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"f406\">No primeiro semestre de 2022 foram registradas 23.947 den\u00fancias de crimes de \u00f3dio praticados na internet, segundo um levantamento da associa\u00e7\u00e3o civil de direito privado SaferNet. A pesquisa aponta que houve um aumento de 67,5% em rela\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo de 2023. Em anos de elei\u00e7\u00f5es ocorre um acirramento do discurso de \u00f3dio no ambiente on-line, servindo como uma esp\u00e9cie de \u201cgatilho\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/miro.medium.com\/v2\/resize:fit:700\/1*Fa6tTal4AvOYg_oyVnAMTg.png\" alt=\"\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Arte: Maria Lu\u00edza Venturelli<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p id=\"a9ef\">Apesar da discri\u00e7\u00e3o do ambiente online e do acesso \u00e0s m\u00eddias sociais facilitarem a ocorr\u00eancia de ataques e dissemina\u00e7\u00e3o de not\u00edcias falsas, principalmente relacionadas \u00e0 pol\u00edtica, Maria Elisa aponta que a internet tamb\u00e9m facilita a identifica\u00e7\u00e3o dos ataques e torna mais eficiente a puni\u00e7\u00e3o em alguns casos, j\u00e1 que tudo o que \u00e9 publicado em redes sociais fica registrado.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"O papel da internet\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/p-r-Zh7EU1s?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\" id=\"f83d\">Antes da lei ser sancionada, casos j\u00e1 aconteciam<\/h1>\n\n\n\n<p id=\"8f3b\">Conforme explicado por Maria Elisa M\u00e1ximo, \u00e9 necess\u00e1rio definir casos como o de Ana L\u00facia como viol\u00eancia pol\u00edtica de g\u00eanero para que eles possam ser tratados como tal e punidos da forma correta. Antes da<a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2019-2022\/2021\/lei\/L14192.htm\" rel=\"noreferrer noopener\" target=\"_blank\">&nbsp;Lei 14.192\/21<\/a>, de 4 de agosto de 2021, que estabelece normas para prevenir, reprimir e combater a viol\u00eancia pol\u00edtica contra a mulher, os casos j\u00e1 eram frequentes.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"6f79\">N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel falar sobre viol\u00eancia pol\u00edtica contra as mulheres sem citar o assassinato da vereadora Marielle Franco, em 14 de mar\u00e7o de 2018, no Rio de Janeiro, antes da cria\u00e7\u00e3o da lei. A viol\u00eancia racista e machista que cerca a vida da vereadora Ana L\u00facia Martins ceifou a vida de&nbsp;<strong>Marielle Franco<\/strong>, que n\u00e3o teve qualquer chance de defesa. O crime abriu portas para um debate acerca do tema.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"290c\">Nascida e criada no complexo de favelas da Mar\u00e9, no Rio de Janeiro, Marielle Francisco da Silva, conhecida como Marielle Franco, tornou-se a quinta vereadora mais votada da cidade nas elei\u00e7\u00f5es de 2016, com 46.502 votos. Marielle era um destaque nacional por tudo o que representava: uma mulher negra, perif\u00e9rica, n\u00e3o heterossexual ocupando um espa\u00e7o de poder.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"856d\">Ela teve uma trajet\u00f3ria marcada pela milit\u00e2ncia em prol dos direitos humanos e do feminismo. Tamb\u00e9m era uma cr\u00edtica da interven\u00e7\u00e3o federal no Rio de Janeiro e da Pol\u00edcia Militar, tendo denunciado v\u00e1rios casos de abuso de autoridade por parte de policiais contra moradores de comunidades carentes. Em 15 meses de mandato, apresentou 16 projetos de lei, voltados para a representa\u00e7\u00e3o e os direitos b\u00e1sicos dos moradores das favelas.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"08d3\">Exercendo a milit\u00e2ncia, entre den\u00fancias de viol\u00eancias policiais e luta por direitos das minorias, em 14 de mar\u00e7o de 2018, Marielle, junto \u00e0 sua assessora e seu motorista Anderson Gomes, sofreram um atentado. Ela voltava de uma palestra realizada na Casa das Pretas, no bairro da Lapa, sobre negritude, representatividade e feminismo, quando, ao deixarem o local, o carro em que estavam foi perseguido e foi alvo de diversos disparos de arma de fogo. Marielle foi atingida por tr\u00eas tiros na cabe\u00e7a e um no pesco\u00e7o, e Anderson por tr\u00eas tiros nas costas. A assessora sobreviveu.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"2111\">\u201cN\u00e3o sou livre enquanto outra mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas\u201d, disse a vereadora, trinta minutos antes de ser assassinada. As palavras eram da norte-americana Audre Lorde, ativista pelos direitos das mulheres, negros e homossexuais.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"4ab5\">O assassinato rapidamente causou como\u00e7\u00e3o e indigna\u00e7\u00e3o no Brasil e no mundo, com manifesta\u00e7\u00f5es nas redes sociais e tamb\u00e9m nas ruas, assim como em homenagens prestadas em seu vel\u00f3rio, que foi realizado na C\u00e2mara Municipal. O caso, veiculado por todos os meios de comunica\u00e7\u00e3o, entrou nos assuntos mais comentados da internet, demonstrando a revolta de uma popula\u00e7\u00e3o que se sentia representada por Marielle.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"178b\">O caso de Marielle e de tantas outras mulheres no Brasil e em Santa Catarina s\u00e3o resultado de uma realidade que h\u00e1 anos j\u00e1 est\u00e1 enraizada em toda a sociedade. D\u00e9cadas de constru\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e de reconhecimento da viol\u00eancia de g\u00eanero, em leis e pol\u00edticas p\u00fablicas, foram insuficientes para poupar a vida da vereadora e a de outras mulheres.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-rich is-provider-soundcloud wp-block-embed-soundcloud\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Casos em SC by Por Todas N\u00f3s\" width=\"800\" height=\"400\" scrolling=\"no\" frameborder=\"no\" src=\"https:\/\/w.soundcloud.com\/player\/?visual=true&#038;url=https%3A%2F%2Fapi.soundcloud.com%2Ftracks%2F1537256074&#038;show_artwork=true&#038;maxheight=1000&#038;maxwidth=800\"><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Elisa M\u00e1ximo e Ana L\u00facia Martins s\u00e3o exemplos de como a viol\u00eancia faz parte da rotina de mulheres em espa\u00e7os de poder Por: Maria Lu\u00edza Venturelli &#8220;Para a mulher negra, o lugar que lhe \u00e9 reservado \u00e9 o menor. O lugar da marginaliza\u00e7\u00e3o, do menor sal\u00e1rio. 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