{"id":1520,"date":"2018-12-20T13:42:43","date_gmt":"2018-12-20T15:42:43","guid":{"rendered":"http:\/\/revidigital.com.br\/?p=1520"},"modified":"2018-12-20T13:42:43","modified_gmt":"2018-12-20T15:42:43","slug":"mulheres-trans-lutam-por-mais-espaco-no-mundo-academico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/2018\/12\/20\/mulheres-trans-lutam-por-mais-espaco-no-mundo-academico\/","title":{"rendered":"Mulheres trans lutam por mais espa\u00e7o no mundo acad\u00eamico"},"content":{"rendered":"<h5><em>Por Taynara Reinert \/ Foto Capa: Tomaz Silva Ag\u00eancia Brasil<\/em><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Jaqueline Gomes \u00a0de Jesus. Esse \u00e9\u00a0 o nome da primeira mulher negra e transexual \u00a0a receber a medalha Chiquinha Gonzaga, que destaca personalidades femininas que lutam por causas democr\u00e1ticas, humanit\u00e1rias, art\u00edsticas e culturais. A professora de psicologia social no IFRJ (Instituto Federal do Rio de Janeiro) ganhou a honraria pela C\u00e2mara do Rio de Janeiro. Jaqueline \u00e9 pesquisadora, escritora &#8211; autora do livro <a href=\"http:\/\/www.metanoiaeditora.com\/loja\/index.php?route=product\/product&amp;product_id=114\">\u201cTransfeminismo: Teorias e Pr\u00e1ticas\u201d<\/a> &#8211; e comp\u00f5e o grupo de <strong>transexuais<\/strong> doutoras no Brasil.<\/p>\n<p>Quando tinha 29 anos, Jaqueline se reconheceu <strong>mulher trans<\/strong>, a partir de contatos com outras mulheres trans e <strong>travestis<\/strong>. \u201cEu me identifiquei e me reconheci com uma identidade que tinha mais a ver comigo, como <strong>gay<\/strong> na \u00e9poca n\u00e9. Hoje sou heterossexual, me sinto atra\u00edda por homens. Ent\u00e3o foi esse meu processo\u201d.<\/p>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o ocorreu durante \u00a0o curso de doutorado. Ela se sentiu acolhida pelos colegas e professores. Seu nome social foi recebido e aceito na sua defesa de doutorado<\/p>\n<p>Apesar do apoio recebido, Jaqueline percebe que ainda n\u00e3o h\u00e1 muita abertura para as pessoas trans nas universidades. \u201cEu acho que as pessoas (trans) est\u00e3o ocupando seu espa\u00e7o em um ambiente majoritariamente cis-heteronormativo\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_1524\" aria-describedby=\"caption-attachment-1524\" style=\"width: 714px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-1524 size-full\" src=\"http:\/\/revidigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Jaque.jpg\" alt=\"\" width=\"714\" height=\"530\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1524\" class=\"wp-caption-text\">Jaqueline \u00e9 a primeira mulher trans a receber a medalha Chiquinha Gonzaga \/ Foto: reprodu\u00e7\u00e3o Facebook<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Algumas a\u00e7\u00f5es afirmativas est\u00e3o, aos poucos, sendo desenvolvidas, como \u00e9 o caso da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) que, a partir do segundo semestre de 2018, passou a oferecer cotas a homens e mulheres transg\u00eaneros em cursos de gradua\u00e7\u00e3o. A medida disponibiliza uma vaga extra para cada turma, para que n\u00e3o afete o n\u00famero reservado para as outras pessoas. Mariana Franco ouviu coment\u00e1rios de que assim, qualquer pessoa poderia se autodeclarar trans para utilizar essas cotas \u201cQuantas dessas pessoas t\u00eam preconceito com a pessoas trans, mas querem utilizar desse direito para benef\u00edcio pr\u00f3prio? N\u00e3o adianta dizer ser contra a corrup\u00e7\u00e3o e fazer isso. Al\u00e9m do mais, voc\u00ea tem que apresentar laudos ou documentos oficiais assegurando a sua transexualidade.\u201d Mariana \u00e9 estudante de Servi\u00e7o Social na Universidade Federal de Santa Catarina, foi candidata a Deputada Estadual em Santa Catarina e faz parte da Uni\u00e3o Nacional LGBT (<a href=\"https:\/\/pt-br.facebook.com\/unalgbt\/\">UNA-LGBT<\/a>) e da Uni\u00e3o Brasileira de Mulheres (<a href=\"http:\/\/www.ubmulheres.org.br\">UBM<\/a>). Al\u00e9m de integrar os conselhos estaduais dos direitos da Mulher e dos da Juventude, ela tamb\u00e9m faz parte do Conselho Nacional Intersetorial da Sa\u00fade da Mulher.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_1525\" aria-describedby=\"caption-attachment-1525\" style=\"width: 523px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-1525 size-full\" src=\"http:\/\/revidigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Mariana.jpg\" alt=\"\" width=\"523\" height=\"371\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1525\" class=\"wp-caption-text\">Mariana Franco integra a Uni\u00e3o Nacional LGBT \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>A iniciativa da UFSB \u00a0\u00e9 in\u00e9dita na hist\u00f3ria das institui\u00e7\u00f5es de ensino no pa\u00eds e \u00e9 resultado de muita luta da popula\u00e7\u00e3o trans. \u201cA presen\u00e7a das pessoas trans nos espa\u00e7os educacionais t\u00eam sido sempre de resist\u00eancia e as poucas que resistem nesses espa\u00e7os &#8211; que s\u00e3o totalmente transf\u00f3bicos &#8211; s\u00e3o sobreviventes e t\u00eam lidado com isso, e cada vez mais tido apoio, mas ainda existem muitas quest\u00f5es a serem tratadas. Ent\u00e3o essas pessoas t\u00eam ocupado o espa\u00e7o discutindo e n\u00e3o mais sendo tratadas como objeto de estudo\u201d, reitera Jaqueline. Para ela, as pessoas trans est\u00e3o deixando de ser mero assunto interessante, para se tornarem protagonistas das suas hist\u00f3rias, ocupando espa\u00e7os em todos os cantos. \u201cNas artes, na pol\u00edtica, na academia, no mundo do trabalho para al\u00e9m do trabalho informal da prostitui\u00e7\u00e3o. Existem avan\u00e7os decorrentes da a\u00e7\u00e3o do movimento Trans e do apoio de parceiras e parceiros nessa luta\u201d.<\/p>\n<p>Jaqueline \u00e9 negra, trans e professora em um espa\u00e7o acad\u00eamico. Para ela, isso j\u00e1 representa uma vit\u00f3ria. Entretanto, no meio acad\u00eamico, o que ocorre muitas vezes \u00e9 o apagamento da sua produ\u00e7\u00e3o intelectual, fruto do machismo, racismo e transfobia. \u201cEu tenho certeza de que, a essa altura, sou\u00a0 menos conhecida e lida em minhas dezenas de publica\u00e7\u00f5es do que se eu n\u00e3o fosse uma mulher negra trans\u201d, avalia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>Pol\u00edticas afirmativas na pr\u00e1tica<\/strong><\/h3>\n<p>Em 2015, o Conselho Nacional de Combate \u00e0 Discrimina\u00e7\u00e3o e Promo\u00e7\u00e3o dos Direitos de L\u00e9sbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (CNCD\/LGBT), da Secretaria de Direitos Humanos da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica (SDH\/PR), estabeleceu a resolu\u00e7\u00e3o 12\/2015, que firma par\u00e2metros \u00a0para garantir o acesso e perman\u00eancia de pessoas trans nas institui\u00e7\u00f5es de ensino. Entre elas, est\u00e3o a utiliza\u00e7\u00e3o do banheiro conforme a <strong>identidade de g\u00eanero<\/strong> de cada pessoa. Na pr\u00e1tica, contudo, a diretriz tem sido pouco acatada pelas institui\u00e7\u00f5es. Em casos de den\u00fancias, os membros do Instituto Brasileiro de Transforma\u00e7\u00e3o pela Educa\u00e7\u00e3o (IBTE) contatam o autor do relato e encaminham o caso para a ouvidoria da institui\u00e7\u00e3o em que o aluno estuda. Os casos n\u00e3o previstos pela resolu\u00e7\u00e3o s\u00e3o enviados para a ouvidoria do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O MEC tamb\u00e9m autorizou, em janeiro deste ano, que alunos e alunas trans usem o nome social nos registros escolares em todas as unidades de ensino b\u00e1sico do pa\u00eds e, em 1\u00ba de mar\u00e7o, o Supremo Tribunal Federal (STF)<a href=\"http:\/\/www.mpf.mp.br\/pgr\/noticias-pgr\/mudanca-de-nome-e-genero-no-registro-civil-de-transexuais-nao-depende-de-cirurgia-decide-stf\"> autorizou que pessoas transg\u00eanero alterem seu registro civil<\/a> em cart\u00f3rios sem a necessidade de cirurgia de redesigna\u00e7\u00e3o genital ou de laudo psicol\u00f3gico. Bruna Benevides, mulher trans, percebe que, apesar de positivas, essas pol\u00edticas afirmativas chegam tardiamente. \u201c\u00c9 um direito ainda muito prim\u00e1rio ent\u00e3o, ainda estamos lutando por direitos b\u00e1sicos\u201d.<\/p>\n<p>Bruna \u00e9 Segunda-Sargento da Marinha do Brasil, ingressou na carreira militar h\u00e1 21 anos. Ela tamb\u00e9m recebeu o <strong>pr\u00eamio In\u00eas Etienne Romeu<\/strong>, concedido pela Prefeitura de Niter\u00f3i (RJ). Etienne foi a \u00fanica sobrevivente da Casa da Morte &#8211; \u00a0o centro clandestino de tortura e assassinatos criado pelos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o da ditadura militar brasileira &#8211; e integrante da luta armada contra a ditadura. A medalha \u00e9 entregue \u00e0s mulheres da cidade que se destacam na luta por direitos humanos. Bruna tamb\u00e9m \u00e9 presidenta do Conselho Municipal pelos Direitos LGBT e integra a Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Travestis e Transexuais como secret\u00e1ria de articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. A <a href=\"https:\/\/antrabrasil.org\/\">ANTRA<\/a> \u00e9 uma das institui\u00e7\u00f5es que segue na defesa dessa popula\u00e7\u00e3o, com 25 anos de atua\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica institucional na luta pelos direitos das pessoas trans, pelo reconhecimento de resgate da cidadania e autonomia dos indiv\u00edduos. Entre suas principais lutas est\u00e3o o acesso \u00e0 perman\u00eancia na escola, ao mercado formal de trabalho e \u00e0 possibilidade de qualifica\u00e7\u00e3o para esse mercado, a garantia do acesso \u00e0 sa\u00fade de qualidade e a regulamenta\u00e7\u00e3o da prostitui\u00e7\u00e3o. \u201cCerca de 90% da popula\u00e7\u00e3o trans ainda tem como \u00fanica fonte de renda a prostitui\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o \u00e9 muito importante a regulamenta\u00e7\u00e3o para que possamos garantir o direito a essas profissionais\u201d, afirma Bruna.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_1523\" aria-describedby=\"caption-attachment-1523\" style=\"width: 892px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-1523 size-full\" src=\"http:\/\/revidigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Cr\u00e9rdito-Valda-Nogueira.jpg\" alt=\"\" width=\"892\" height=\"570\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1523\" class=\"wp-caption-text\">Bruna recebeu pr\u00eamio por defesa dos direitos humanos\/Aqurivo pessoal &#8211; Foto: Valda Nogueira<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A Constitui\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 objetiva no artigo 205, cap\u00edtulo III, se\u00e7\u00e3o I, que diz: todos t\u00eam direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 sa\u00fade e ao trabalho, permitindo que as pessoas vivam de forma digna, com direitos iguais. Na pr\u00e1tica, entretanto, \u00e9 um pouco diferente. Em 2016 a Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de L\u00e9sbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais (<a href=\"https:\/\/www.abglt.org\/\">ABLGBT<\/a>) divulgou estudo apontando que 73% dos estudantes entrevistados que se declaram n\u00e3o-heterossexuais, no Brasil, j\u00e1 sofreram agress\u00e3o verbal na escola, e um a cada quatro j\u00e1 foi agredido fisicamente; 55% ouviram coment\u00e1rios negativos a respeito de pessoas trans no espa\u00e7o escolar e 45% j\u00e1 se sentiram inseguros por conta de sua identidade de g\u00eanero.<\/p>\n<p>Bruna tamb\u00e9m destaca a preocupa\u00e7\u00e3o da ANTRA com a sa\u00fade mental das pessoas trans e o apoio financeiro para que consigam continuar estudando para garantir sua forma\u00e7\u00e3o. \u201cNossas contribui\u00e7\u00f5es refletem e representam a dissid\u00eancia e a quebra do sistema cis-heteronormativo. Estamos a todo instante questionando esse padr\u00e3o, que \u00e9 violento e adoecedor, inclusive para as pessoas que s\u00e3o cis-h\u00e9tero\u201d, explica Bruna. Para a militante, o fato de as pessoas trans se inserirem nesses espa\u00e7os j\u00e1 \u00e9 uma forma de resist\u00eancia.<\/p>\n<h3><\/h3>\n<h3><strong>Evas\u00e3o escolar e discrimina\u00e7\u00e3o levam \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<h3><\/h3>\n<p>Leona Wolf, ativista negra, l\u00e9sbica, cientista social e membro do <strong>Coletivo LGBT Prisma \u2013 Dandara dos Santos<\/strong>, que atua tamb\u00e9m no meio acad\u00eamico, ressalta que a maior parte das pessoas trans come\u00e7a sua transi\u00e7\u00e3o j\u00e1 durante a adolesc\u00eancia e n\u00e3o consegue concluir o ensino m\u00e9dio. \u201cA evas\u00e3o escolar de pessoas trans \u00e9 muito grande no ensino m\u00e9dio e chega a 70% o \u00edndice de estudantes trans com o ensino m\u00e9dio incompleto\u201d.<\/p>\n<p>De acordo com a pesquisa conduzida pelo defensor p\u00fablico Jo\u00e3o Paulo Carvalho Dias, presidente da Comiss\u00e3o de Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), h\u00e1 no pa\u00eds 82% de evas\u00e3o escolar de travestis e transexuais, um resultado que aumenta a vulnerabilidade dessas pessoas, ampliando tamb\u00e9m a viol\u00eancia sofrida por elas. \u00a0Isso tamb\u00e9m se agrava, segundo Leona, por conta da expuls\u00e3o de casa, que ocorre em muitos casos. \u201cCom essa aliena\u00e7\u00e3o parental, a gente vai encontrar pessoas trans que se formam depois da idade escolar, em cursinhos de Educa\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos, e da\u00ed por diante. Temos cerca de 0,02% da popula\u00e7\u00e3o trans no Ensino Universit\u00e1rio no Brasil, o que \u00e9 uma taxa extremamente baixa\u201d, refor\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_1526\" aria-describedby=\"caption-attachment-1526\" style=\"width: 695px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-1526 size-full\" src=\"http:\/\/revidigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Leona-Wolf-foto-L\u00edgia-Gomes.jpg\" alt=\"\" width=\"695\" height=\"413\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1526\" class=\"wp-caption-text\">Leona: apenas 0,02% da popula\u00e7\u00e3o trans est\u00e1 na universidade \/ Arquivo pessoal &#8211; Foto L\u00edgia Gomes<\/figcaption><\/figure>\n<p>A dificuldade que a popula\u00e7\u00e3o trans encontra para se qualificar continua grande e o principal recurso para subsist\u00eancia \u00e9 a prostitui\u00e7\u00e3o. \u201cAs pol\u00edticas afirmativas para popula\u00e7\u00e3o de travestis e transexuais s\u00e3o de suma import\u00e2ncia. Principalmente porque elas reconhecem as vulnerabilidades que s\u00e3o impostas a nossa popula\u00e7\u00e3o que, por conta disso, n\u00e3o consegue se qualificar para acessar o mercado formal de trabalho, visto que hoje 90% da popula\u00e7\u00e3o trans ainda sobrevive unicamente da prostitui\u00e7\u00e3o\u201d, aponta Bruna.<\/p>\n<p>Para Leona, o fato de a pessoa estar aprisionada em outra realidade espa\u00e7o-temporal gera uma segrega\u00e7\u00e3o social. \u201cElas dormem durante o dia para se prostitu\u00edrem \u00a0\u00e0 noite, ficando presas nas \u00e1reas relacionadas \u00e0 pr\u00e1tica. N\u00e3o est\u00e3o presente diariamente na vida das pessoas comuns.\u201d Resultado disso \u00e9 o refor\u00e7o de estere\u00f3tipos\u00a0 que geram a fobia a pessoas trans.<\/p>\n<p>A integrante do Coletivo Prisma tamb\u00e9m destaca que h\u00e1 os estigmas da pr\u00f3pria prostitui\u00e7\u00e3o. \u201cAs pessoas trans s\u00e3o vistas socialmente como prostitutas e carregam em si todos os estigmas da prostitui\u00e7\u00e3o. Neste quadro, entra a quest\u00e3o do que \u00e9 considerado bom socialmente e o do que \u00e9 considerado ruim ou sujo.\u201d Leona tamb\u00e9m aponta que as pessoas trans sofrem uma desumaniza\u00e7\u00e3o, por conta de classe social e ra\u00e7a. S\u00e3o diversos fatores que refor\u00e7am o preconceito: identidade de g\u00eanero, classe, ra\u00e7a e estigmas atribu\u00eddos \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o, que reverberam em um quadro que torna a vida dessas pessoas muito menos valiosa para as demais. \u201cEsse quadro de sub-humaniza\u00e7\u00e3o faz com que a vida das pessoas trans seja muito barata. Ent\u00e3o se mata muito mais f\u00e1cil\u201d.<\/p>\n<p>Bruna considera como medida mais urgente a criminaliza\u00e7\u00e3o da <strong>LGBTfobia<\/strong> e a possibilidade de qualificadores de <strong>feminic\u00eddio<\/strong> no assassinatos de pessoas trans, visto que o Brasil \u00e9 o pa\u00eds que mais mata pessoas trans no mundo. \u201cSomente este ano foram 146 travestis e <strong>transexuais<\/strong> assassinadas. No ano passado, foram 179, ent\u00e3o ficamos muito assustadas e o movimento continua lutando contra a viol\u00eancia e pelo direito \u00e0 vida\u201d, afirma Bruna. N\u00fameros como esses s\u00e3o frutos de uma sociedade que busca estabelecer a homogeneidade ainda que isso signifique causar danos a quem n\u00e3o se encaixe nos padr\u00f5es. \u201cEstamos sob uma \u00f3tica extremamente conservadora e normativa, que tende a querer fazer com que as pessoas tenham suas vidas planificadas, que todo mundo viva igual, vestido igual, regendo sua vida de uma maneira igual\u201d.<\/p>\n<p>Leona vai al\u00e9m na reflex\u00e3o, questionando a l\u00f3gica da planifica\u00e7\u00e3o, que determina um padr\u00e3o a seguir. \u201cLogo, tudo aquilo que \u00e9 diferente deve ser eliminado. S\u00f3 que voc\u00ea elimina quem? Quem est\u00e1 numa posi\u00e7\u00e3o mais fr\u00e1gil. E quem est\u00e1 em uma posi\u00e7\u00e3o mais fr\u00e1gil socialmente? A travesti, que est\u00e1 na esquina \u00e0 noite se prostituindo\u201d, resume. \u201cSe n\u00f3s formos olhar uma pessoa trans negra, trans negra do g\u00eanero feminino, trans negra do g\u00eanero feminino e perif\u00e9rica&#8230; Ent\u00e3o, isso se intensifica, com esse ac\u00famulo de opress\u00f5es que est\u00e3o na estrutura social. Hierarquizando as opress\u00f5es, por assim dizer\u201d, completa Bruna.<\/p>\n<p>Apesar de n\u00e3o ser algo f\u00e1cil, para lutar contra a estigmatiza\u00e7\u00e3o \u00e9 importante que as pessoas trans busquem o apoio de coletivos, dentro e fora das universidades.\u201c\u00c9 preciso que haja essa solidariedade, um entendimento das pessoas cis sobre a realidade da popula\u00e7\u00e3o trans e os desafios de inclus\u00e3o sejam encarados. Bruna refor\u00e7a a pr\u00f3pria qualifica\u00e7\u00e3o das pessoas trans, enquanto produtoras de saber, como a maior forma de resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Quantas pessoas trans voc\u00ea encontra com um trabalho formal, diariamente? Quantas pessoas trans voc\u00ea observa frequentando espa\u00e7os como escolas e universidades? Essas s\u00e3o algumas das perguntas que fazem qualquer pessoa refletir e que Mariana destaca como b\u00e1sicas. \u201cDevemos ter a consci\u00eancia de que as pessoas trans s\u00e3o pessoas normais na sociedade, mas que a pr\u00f3pria sociedade exclui nossa popula\u00e7\u00e3o, principalmente no mercado de trabalho e na educa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>Primeiro relato de uma mulher trans na hist\u00f3ria<\/strong><\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria come\u00e7a em 1930, na Fran\u00e7a. Lilly Elbe, uma pintora de sucesso, foi a primeira mulher trans a ser reconhecida e que passou por redesigna\u00e7\u00e3o &#8211; procedimento cir\u00fargico pelo qual as caracter\u00edsticas genitais de nascen\u00e7a de uma pessoa s\u00e3o mudadas para aquelas socialmente associadas ao g\u00eanero ao qual ela se reconhece. Lilly conseguiu retificar seus documentos na Dinamarca e, assim, inspirou o livro \u201c<strong>A Garota Dinamarquesa<\/strong>\u201d, que foi adaptado para o cinema e ganhou o Oscar.<\/p>\n<p><strong>Judith Butler<\/strong>, fil\u00f3sofa p\u00f3s-estruturalista estadunidense, uma das principais te\u00f3ricas da quest\u00e3o contempor\u00e2nea do feminismo, da teoria queer, filosofia pol\u00edtica e \u00e9tica, tamb\u00e9m \u00e9 uma das mulheres mais conhecidas por expandir o assunto a respeito da transexualidade. Para Butler, a sociedade tenta enquadrar a todos em uma \u201cordem compuls\u00f3ria\u201d, que exige total coer\u00eancia entre sexo, g\u00eanero e pr\u00e1ticas, que s\u00e3o obrigatoriamente heterossexuais. Ou seja, apesar de ser natural, o processo da transexualidade \u00e9 estigmatizado por ser diferente do que \u00e9 normatizado.<\/p>\n<p>Bateu a confus\u00e3o? Ent\u00e3o imagine: uma crian\u00e7a est\u00e1 para nascer. Se tiver p\u00eanis, \u00e9 automaticamente classificada como um menino e ser\u00e1 condicionada a sentir atra\u00e7\u00e3o por meninas e vice-versa. O que Butler prop\u00f5e \u00e9 acabar com esta l\u00f3gica que tende \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o, subvertendo a ordem compuls\u00f3ria e desconstruindo essa obrigatoriedade entre sexo, g\u00eanero e desejo.<\/p>\n<p>E isso \u00e9 exatamente o que Mariana Franco vivenciou e vivencia diariamente em sua luta enquanto mulher trans. Para ela, a imposi\u00e7\u00e3o dessas quest\u00f5es tiram o entendimento das pessoas trans como persona e, consequentemente, nega a pluralidade de pessoas que comp\u00f5em a sociedade. \u00c9 por essas quest\u00f5es e muitas outras que pessoas \u00a0<strong>LGBTQIA+<\/strong> se mant\u00eam na invisibilidade ou no \u201carm\u00e1rio\u201d, como se costuma dizer. O fil\u00f3sofo Michel Foucault cunhou a express\u00e3o \u201ctecnologia sexual\u201d, que diz respeito a um conjunto de t\u00e9cnicas discursivas, controladoras e classificat\u00f3rias, constru\u00eddas pela burguesia no final do s\u00e9culo XIX para, por meio de aparatos institucionais, autoridades religiosas e cient\u00edficas, estabelecer o controle sobre os comportamentos sexuais e as normas. Assim, \u00e9 poss\u00edvel perceber que h\u00e1 muito tempo pessoas que n\u00e3o se enquadram no padr\u00e3o cis\/h\u00e9tero s\u00e3o marginalizadas ao longo da hist\u00f3ria refletindo na vida da popula\u00e7\u00e3o trans at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>Para pensar mais<\/h3>\n<p><em>\u201cN\u00f3s temos diversas dificuldades e, principalmente, um processo hist\u00f3rico de vulnerabiliza\u00e7\u00e3o, mas n\u00f3s n\u00e3o podemos de forma alguma retroceder ou deixar de lutar. Para n\u00f3s, enquanto travestis, mulheres transexuais e homens trans, lutar n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma necessidade de vida e n\u00f3s contamos tamb\u00e9m com as pessoas cis aliadas, para que possamos estar juntos lutando contra toda forma de opress\u00e3o. A mudan\u00e7a est\u00e1 acontecendo e as pessoas precisam cada vez mais se aproximar dos movimentos sociais, dos movimentos de resist\u00eancia, para que a mudan\u00e7a n\u00e3o seja individualizada, mas que ela aconte\u00e7a como a ruptura do sistema e a possibilidade da constru\u00e7\u00e3o de um novo conhecimento para toda a sociedade, porque est\u00e1 comprovado que a diversidade \u00e9 saud\u00e1vel e deve ser incentivada em todos os espa\u00e7os.\u201d<\/em>\u00a0<strong>(Bruna Benevides)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u201cA luta pelos direitos da popula\u00e7\u00e3o trans, \u00e9 uma luta por Direitos Humanos fundamentais. Ela \u00e9 importante para a humaniza\u00e7\u00e3o de todas as pessoas, no reconhecimento de que todos s\u00e3o cidad\u00e3os e cidad\u00e3s. Essa \u00e9 uma luta para que a gente construa uma democracia de fato neste pa\u00eds. Ent\u00e3o minha mensagem \u00e9 para que as pessoas cis entendam que a luta das pessoas trans por ocupa\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o, por valoriza\u00e7\u00e3o do seu corpo, da sua cultura, da sua forma de ser, do reconhecimento da beleza trans, do direito das pessoas trans \u00e9 um tema pol\u00edtico fundamental para que a gente transforme a sociedade.\u201d\u00a0<\/em> <strong>(Jaqueline Gomes \u00a0de Jesus)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u201cPessoas cis, caso tenham alguma pessoa trans conhecida, incentivem-nas a frequentarem a universidade. E as que j\u00e1 est\u00e3o na Universidade, acolham-nas. Voc\u00eas, ap\u00f3s formados, se puderem, coloquem em suas empresas e escrit\u00f3rios pessoas trans trabalhando. Deem uma chance, ajudem a tirar o preconceito e a estigmatiza\u00e7\u00e3o por que passam pessoas trans hoje no Brasil.\u201d<\/em>\u00a0<strong>(Mariana Franco)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u201cH\u00e1 m\u00e9dicos que ainda colocam as pessoas trans em um quadro patologizador. Ent\u00e3o eu acho que \u00e9 de suma import\u00e2ncia a aplica\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas afirmativas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade. Temos at\u00e9 hoje \u00a0uma discuss\u00e3o por conta das burocracias do protocolo transexualizador do SUS e os riscos que o pr\u00f3prio protocolo transexualizador possui. S\u00e3o quest\u00f5es que a gente tem que parar para pensar mais para frente tamb\u00e9m.\u201d\u00a0<\/em> <strong>(Leona Wolf)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Separamos alguns links sobre o tema. Confira abaixo:<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Canais no youtube:<br \/>\n<\/strong><a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/canaldasbee\">Canal das Bee<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/canaldasbee\">Transdi\u00e1rio<\/a><\/p>\n<p><strong>Casas de acolhimento:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.facebook.com\/florecerCA\/\">Florescer<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/casaum\/\">Casa 1<\/a><\/p>\n<p><strong>Coletivos e organiza\u00e7\u00f5es:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/t-br.facebook.com\/arcoirisjoinville\/\">Associa\u00e7\u00e3o Arco-\u00cdris Joinvill<\/a><a href=\"https:\/\/pt-br.facebook.com\/arcoirisjoinville\/\"><br \/>\n<\/a><a href=\"http:\/\/grupogaydabahia.com.br\/\">Grupo Gay da Bahia<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.todxs.org\/\">Todxs<\/a><\/p>\n<p><strong>Relat\u00f3rios:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/unaids.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/manual-comunicacao-LGBTI.pdf\">Manual de Comunica\u00e7\u00e3o LGBTI+<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.ohchr.org\/Documents\/Publications\/BornFreeAndEqualLowRes_Portuguese.pdf\">Nascidos Livres e Iguais<\/a> &#8211; Orienta\u00e7\u00e3o Sexual e Identidade de G\u00eanero no Regime Internacional de Direitos Humanos:<\/p>\n<p><strong>Multim\u00eddia:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=s6YT4oPFEvs\">Depois do Fervo<\/a> &#8211; Document\u00e1rio LGBT<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Taynara Reinert \/ Foto Capa: Tomaz Silva Ag\u00eancia Brasil &nbsp; Jaqueline Gomes \u00a0de Jesus. Esse \u00e9\u00a0 o nome da primeira mulher negra e transexual \u00a0a receber a medalha Chiquinha Gonzaga, que destaca personalidades femininas que lutam por causas democr\u00e1ticas, humanit\u00e1rias, art\u00edsticas e culturais. A professora de psicologia social no IFRJ (Instituto Federal do Rio [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":1529,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[20,127],"tags":[422,423,424,425,426,427],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1520"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1520"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1520\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1520"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1520"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1520"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}