{"id":15618,"date":"2024-07-10T19:04:08","date_gmt":"2024-07-10T22:04:08","guid":{"rendered":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/?p=15618"},"modified":"2025-01-24T09:40:15","modified_gmt":"2025-01-24T12:40:15","slug":"no-contra-ataque-mulheres-rompem-o-silencio-sobre-a-violencia-no-futebol","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/2024\/07\/10\/no-contra-ataque-mulheres-rompem-o-silencio-sobre-a-violencia-no-futebol\/","title":{"rendered":"No contra-ataque,\u00a0 mulheres rompem o sil\u00eancio sobre a viol\u00eancia no futebol"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por Bruna da Cunha, \u00c9llen Gerber e Sarah Falc\u00e3o<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Pela primeira vez a Copa do Mundo Feminina ser\u00e1 no Brasil, em 2027. Diante de tantos desafios enfrentados, o futebol feminino comemora conquistas que por anos foram impedidas por proibi\u00e7\u00e3o e preconceito. Nessa luta, a determina\u00e7\u00e3o das atletas \u00e9 encoberta por estere\u00f3tipos de g\u00eanero enraizados. Solange Bastos \u00e9 ex-zagueira da sele\u00e7\u00e3o brasileira e enfrentou desafios desde o in\u00edcio de sua carreira, aos 12 anos. Sor\u00f3, como era conhecida, foi revelada pelo Flamengo de Feira de Santana (BA). Ela jogou pela Sele\u00e7\u00e3o Brasileira nas Copas do Mundo de 1991 e 1995 e foi campe\u00e3 sul-americana em 1995.<\/p>\n\n\n\n<p>As dificuldades no futebol feminino destacam-se na hist\u00f3ria de Solange. Em 1981, ainda uma crian\u00e7a, diante de arquibancadas lotadas, teve de ouvir os berros do treinador chamando-a de \u201cpassa-fome\u201d, termo utilizado para se referir \u00e0s pessoas carentes de alimenta\u00e7\u00e3o. Tudo porque ela perdeu uma disputa de bola para a advers\u00e1ria, de 19 anos, o que levou o jogo ao empate.<\/p>\n\n\n\n<p>Empurrar e xingar a pr\u00e9-adolescente Sor\u00f3 n\u00e3o foi suficiente para o t\u00e9cnico que inferiorizou a atleta afirmando que ela n\u00e3o jogava igual a um homem. \u201cFiquei totalmente constrangida, foi um dos piores momentos da minha vida! Vergonha intermin\u00e1vel\u201d, relatou.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1242\" height=\"1512\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Foto-Soro-para-a-parte-3-violencia-no-futebol-1-1.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15622\"\/><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>\u201cPara o meu time n\u00e3o serve\u201d<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O tempo passou e a menina Sor\u00f3 seguiu na carreira de jogadora de futebol. Entretanto, as adversidades a acompanhavam a cada campeonato de que participava. Aos 34 anos, foi convidada para jogar em um time de S\u00e3o Paulo. Antes de iniciar o treino, Solange foi abordada pelo treinador do time.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNa hora de sair ele me chamou, pensei que ia falar \u2018bem-vinda\u2019 ou dizer que eu ajudaria a equipe, mas ele olhou para mim e disse que n\u00e3o me queria ali\u201d, contou. O treinador a chamou de velha e afirmou que ela s\u00f3 teria alguma chance no time se fosse um homem.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cFoi um momento horr\u00edvel para mim, porque eu estava em transi\u00e7\u00e3o, saindo de uma fase de auge para tentar me manter dentro do esporte, at\u00e9 pela necessidade financeira. A \u00fanica coisa que eu tinha para me manter era o futebol\u201d, conta Sor\u00f3 com a voz embargada. \u201cEu olhei para ele e fiquei sem palavras, s\u00f3 perguntei: eu preciso ser homem para jogar?\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" alt=\"Janela de madeira aberta\n\nDescri\u00e7\u00e3o gerada automaticamente com confian\u00e7a baixa\" src=\"https:\/\/lh7-us.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXea1Sm9EKh2CL_eqtB5e_I3IYJBEsBLmo7IePd_mfpMqG1U6IilnX_VLQEcdHx-CSluQ8CP7S9HPLq9VPrsVsx6KKwHPhKh1mNCDBu9D-N9bArKnC2sbH-V7uq7AyXC5BKzvhtwgYwFTDlp7VCMOqTr4YRPcPhFM5LI0cJ9Icajw0L4ic4Grws?key=CEwYxpuG7Xbm5bIl4vVszQ\" width=\"249\" height=\"186\"><\/p>\n\n\n\n<p>Em 1941, realmente era preciso ser homem para jogar. Durante a ditadura do Estado Novo (1937-1945), o presidente Get\u00falio Vargas sancionou a Lei&nbsp; n\u00ba 3.199, que proibia mulheres de praticar esportes \u201cincompat\u00edveis com as condi\u00e7\u00f5es de sua natureza\u201d. As autoridades da \u00e9poca alegavam que o corpo feminino era delicado demais para o futebol e que, por isso, ficariam masculinizadas f\u00edsica e psicologicamente. \u201cEssa exclus\u00e3o se naturalizou ao longo do tempo, levando as mulheres a internalizar a ideia de que o futebol n\u00e3o era para elas. Isso&nbsp; resultou em falta de oportunidades para as meninas se envolverem no esporte e em um atraso significativo no desenvolvimento do futebol feminino de alto n\u00edvel e a sua profissionaliza\u00e7\u00e3o\u201d, explicou a historiadora esportiva Aira Bonfim. Desde o in\u00edcio do esporte, as mulheres enfrentam&nbsp; essas barreiras estruturais e, mesmo com avan\u00e7os, as viol\u00eancias contra as jogadoras continuam at\u00e9&nbsp;hoje.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>A viol\u00eancia por tr\u00e1s das quatro linhas<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Nesta reportagem as entrevistadas receberam nomes fict\u00edcios a fim de preservar suas identidades e evitar retalia\u00e7\u00f5es. Para Luiza, atleta Catarinense , a viol\u00eancia n\u00e3o se manifesta apenas em&nbsp; palavras, mas tamb\u00e9m pelo tratamento desigual nos clubes. &#8220;Est\u00e1vamos alojadas em um clube onde as categorias de base masculinas tinham tratamento privilegiado. A diferen\u00e7a da alimenta\u00e7\u00e3o do feminino para o masculino era gritante. E como se n\u00e3o bastasse,<strong> <\/strong>a limpeza do sal\u00e3o, que era uma \u00e1rea aberta, ficava sob nossa responsabilidade, mesmo que fossem os meninos que tivessem sujado. Isso tudo me afetou muito psicologicamente &#8220;, relata Luiza.<\/p>\n\n\n\n<p>Os relatos das jogadoras pintam um quadro sombrio da realidade enfrentada pelas mulheres no futebol. Carolina, de Santa Catarina, destaca que o clube onde atua \u00e9 muito machista e que j\u00e1 escutou coment\u00e1rios at\u00e9 dos pr\u00f3prios jogadores falando do corpo das demais atletas. Outra atleta, Vit\u00f3ria, enfrentou o ass\u00e9dio verbal dos torcedores, enquanto sua colega de time relatou coment\u00e1rios homof\u00f3bicos e mis\u00f3ginos proferidos pelo pr\u00f3prio treinador do clube. At\u00e9 aqueles que deveriam fazer do jogo uma partida justa, praticam a viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Maria compartilha uma experi\u00eancia marcante que teve com a arbitragem: &#8220;Ap\u00f3s questionar uma decis\u00e3o injusta do \u00e1rbitro, fomos chamadas de &#8216;machorras&#8217; e instru\u00eddas a voltar para a cozinha. \u00c9 revoltante como a autoridade m\u00e1xima do jogo pode ser t\u00e3o desrespeitosa e sexista&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Tradicionalismo que fere<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Para a historiadora Aira Bonfim,<strong> <\/strong>a viol\u00eancia de g\u00eanero no futebol est\u00e1 enraizada em estruturas sociais e culturais profundamente fortes, que continuam a perpetuar estere\u00f3tipos prejudiciais de g\u00eanero e machismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo da hist\u00f3ria, o futebol e muitos outros esportes foram concebidos e desenvolvidos em um contexto predominantemente masculino, onde a presen\u00e7a feminina foi sistematicamente exclu\u00edda e marginalizada. Essa exclus\u00e3o, embora possa ter sido contestada ao longo dos anos, ainda \u00e9 t\u00e3o intr\u00ednseca \u00e0 cultura esportiva que desafi\u00e1-la se torna uma tarefa monumental.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Bonfim, essa exclus\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de pr\u00e1tica esportiva, mas tamb\u00e9m reflete din\u00e2micas de poder mais amplas na sociedade. Ela ressalta que a viol\u00eancia contra&nbsp; mulher no futebol \u00e9 apenas a manifesta\u00e7\u00e3o de um problema mais amplo de desigualdade e discrimina\u00e7\u00e3o baseadas no g\u00eanero, que permeiam todos os aspectos de nossas vidas. \u201cSomente atrav\u00e9s de uma mudan\u00e7a fundamental na cultura esportiva e na sociedade como um todo, podemos esperar erradicar essa viol\u00eancia e criar um ambiente verdadeiramente inclusivo e igualit\u00e1rio para todos os envolvidos no futebol, independentemente do g\u00eanero\u201d, refor\u00e7a a historiadora.<\/p>\n\n\n\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" alt=\"Diagrama\n\nDescri\u00e7\u00e3o gerada automaticamente\" src=\"https:\/\/lh7-us.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXeoo5_Hg6rlkFidyAZYa5mLGRP3AeFAmXR3jLohyUBUtgV3mC2gfRXuUy7itdpN2DFz2JmO3yBAm2kaOAJbM2I3ebjhjkyHkxV82E05ckWuVQxh7QkvZF-eiqwwKOyrx85zIkDwaKtUIgkzChN3y5HZ74rIy_EHopVapLj-K1WnrvISL70c_wo?key=CEwYxpuG7Xbm5bIl4vVszQ\" width=\"364\" height=\"262\"><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O peso do sil\u00eancio<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m dos estere\u00f3tipos de g\u00eanero, do preconceito enraizado e de tudo que mulheres que gostam desse esporte suportam para chegar a um clube profissional (humilha\u00e7\u00e3o, falta de apoio familiar, bullying em ambiente escolar, exclus\u00e3o), ainda precisam lidar com ofensas de torcedores e at\u00e9 de alguns dirigentes, preparadores, m\u00e9dicos e funcion\u00e1rios do time.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A falta de puni\u00e7\u00e3o e descaso por parte das autoridades \u00e9 recorrente e cria terreno f\u00e9rtil para que a viol\u00eancia flores\u00e7a at\u00e9 nos bastidores, incentivando o sil\u00eancio alimentado pelo medo de puni\u00e7\u00f5es, estigmatiza\u00e7\u00e3o ou, simplesmente, pelo desejo de manter as apar\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>A viol\u00eancia de g\u00eanero pode assumir diversas formas, desde insultos e humilha\u00e7\u00f5es at\u00e9 manipula\u00e7\u00e3o emocional e exclus\u00e3o, e isso vem desde cedo, como explica a psic\u00f3loga esportiva Ediellen Queiroz. Para muitas atletas, as cicatrizes emocionais s\u00e3o t\u00e3o profundas quanto \u00e0s les\u00f5es f\u00edsicas, afetando n\u00e3o apenas seu desempenho esportivo, mas tamb\u00e9m sua sa\u00fade mental e bem-estar geral.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"No contra-ataque, mulheres quebram o sil\u00eancio sobre a viol\u00eancia no futebol\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/sNWOexPvEJc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Quebrando o ciclo<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Apesar dos desafios enfrentados, as jogadoras est\u00e3o come\u00e7ando a quebrar o sil\u00eancio e a reivindicar mudan\u00e7as, compartilhando suas experi\u00eancias e inspirando outras v\u00edtimas &#8211; dentro e fora de campo &#8211; a se levantarem contra a viol\u00eancia. Por meio de vozes corajosas, manifesta\u00e7\u00f5es e den\u00fancias p\u00fablicas, elas lutam por um ambiente esportivo mais seguro e inclusivo.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Bruna da Cunha, \u00c9llen Gerber e Sarah Falc\u00e3o Pela primeira vez a Copa do Mundo Feminina ser\u00e1 no Brasil, em 2027. Diante de tantos desafios enfrentados, o futebol feminino comemora conquistas que por anos foram impedidas por proibi\u00e7\u00e3o e preconceito. Nessa luta, a determina\u00e7\u00e3o das atletas \u00e9 encoberta por estere\u00f3tipos de g\u00eanero enraizados. 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