{"id":16351,"date":"2024-12-17T10:38:00","date_gmt":"2024-12-17T13:38:00","guid":{"rendered":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/?p=16351"},"modified":"2024-12-17T10:38:01","modified_gmt":"2024-12-17T13:38:01","slug":"atletas-transformam-a-natacao-em-parte-da-sua-rotina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/2024\/12\/17\/atletas-transformam-a-natacao-em-parte-da-sua-rotina\/","title":{"rendered":"Atletas transformam a nata\u00e7\u00e3o em parte da sua rotina"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por Caroline de Apolin\u00e1rio<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Para estarem aptas \u00e0s competi\u00e7\u00f5es de nata\u00e7\u00e3o, as piscinas devem ter entre dois e tr\u00eas metros de profundidade, e o comprimento deve ser de 25 ou 50 metros. A dist\u00e2ncia entre as raias, que s\u00e3o as boias que separam os espa\u00e7os de cada nadador, deve ser de, no m\u00ednimo, 2,5 metros.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse \u00e9 o tamanho da piscina que visitei na Associa\u00e7\u00e3o Atl\u00e9tica Banco do Brasil (AABB), no bairro Iriri\u00fa em Joinville. As mensagens trocadas com Patr\u00edcia Baptista, coordenadora de nata\u00e7\u00e3o, me fizeram conhecer a APJ, uma Associa\u00e7\u00e3o Paral\u00edmpica que atende atletas com defici\u00eancia auditiva, f\u00edsica, visual, intelectual e m\u00faltipla, nas modalidades canoagem, triathlon, v\u00f4lei sentado e nata\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A data foi combinada uma semana antes. O dia estava quente e eu esqueci completamente que a roupa importava para o lugar. Mas mesmo com uma camiseta preta no calor de quase 30\u00b0, empunhei c\u00e2mera, microfone e um documento no celular com diversas perguntas. E assim conheci algumas das hist\u00f3rias que se passavam por baixo das \u00e1guas cristalinas, com o cheiro sutil de cloro que se misturava com o aroma das \u00e1rvores ao redor.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto conversava com a professora Alessandra Quintino \u00e0 beira da piscina sobre sua rotina di\u00e1ria e especializa\u00e7\u00e3o na \u00e1rea, ela intercalava a conversa com os sinais de largada para seus alunos. Um m\u00e9todo para dizer \u2018Prepara, vai\u2019. Dessa forma, eles iam e vinham o tempo todo, repetindo sess\u00f5es de cerca de quatro minutos cada. Uma das caracter\u00edsticas que eu aprendi por l\u00e1 sobre a largada, \u00e9 que pode ser feita na \u00e1gua, no caso atletas de classes mais baixas e que n\u00e3o conseguem sair do bloco realizando o salto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Observei o cuidado e a precis\u00e3o com que a professora segurava uma haste e a usava apenas em dois alunos espec\u00edficos. Esse objeto \u00e9 conhecido como <em>tapper<\/em>, um bast\u00e3o com ponta de espuma utilizado para sinalizar aos nadadores cegos que est\u00e3o se aproximando das bordas. O gesto, aparentemente simples, carregava uma responsabilidade: a \u00fanica forma de alert\u00e1-los no momento certo de virar, garantindo sua seguran\u00e7a e ritmo de nado dentro da piscina.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1280\" height=\"720\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/WhatsApp-Image-2024-12-11-at-12.34.57.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16352\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Piscina da Associa\u00e7\u00e3o Atl\u00e9tica Banco do Brasil (AABB) &#8211; Foto: Caroline de Apolin\u00e1rio<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Ao acompanhar as Paralimp\u00edadas de 2024, me questionei por que havia tantas provas de nata\u00e7\u00e3o. At\u00e9 entender que os atletas s\u00e3o classificados em categorias diferentes, juntamente com os n\u00fameros no nado paral\u00edmpico, projetado para nivelar o campo de jogo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Cada letra e n\u00famero possui um significado espec\u00edfico:<\/p>\n\n\n\n<ul>\n<li><strong>S (Sprint): <\/strong>categoria de nado livre e nado borboleta.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<ul>\n<li><strong>SB (Breaststroke):<\/strong> provas de nado peito.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<ul>\n<li><strong>SM (Medley):<\/strong> provas de nado medley, que combinam diferentes estilos de nado (livre, borboleta, peito e costas).<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<ul>\n<li><strong>S1 a S10 (ou SB1 a SB10, SM1 a SM10):<\/strong> categorias para nadadores com defici\u00eancias f\u00edsicas, onde o n\u00famero menor (como S1) indica um n\u00edvel mais severo de defici\u00eancia, enquanto n\u00fameros maiores (como S10) representam defici\u00eancias mais leves.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<ul>\n<li><strong>S11 a S13:<\/strong> categorias para nadadores com defici\u00eancia visual, S11 \u00e9 para atletas com vis\u00e3o muito limitada ou nula, enquanto S13 \u00e9 para aqueles com vis\u00e3o reduzida, mas que ainda conseguem ver de alguma forma.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<ul>\n<li><strong>S14:<\/strong> esta categoria \u00e9 para nadadores com defici\u00eancia intelectual.&nbsp;<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Impacto do esporte na vida de uma m\u00e3e e seus filhos<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Em um determinado momento, perguntei \u00e0 professora Alessandra se havia familiares que pudessem falar comigo e ela me indicou a pessoa que estava do outro lado da piscina. Com uma postura atenta, a mulher tamb\u00e9m segurava o <em>tapper. <\/em>Descobri que era Lucia, m\u00e3e de dois atletas cegos que estavam treinando. Ela me lembrou da minha pr\u00f3pria m\u00e3e. N\u00e3o apenas por compartilharem o mesmo papel, mas pela forma como observava os filhos na piscina, com uma aura protetora e acolhedora. Era como se, a cada a\u00e7\u00e3o deles, soubesse exatamente quando intervir, mas permitisse que dessem o pr\u00f3ximo passo por conta pr\u00f3pria.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos 53 anos, Lucia Rieper Janing \u00e9 uma ex-moradora de Garuva, agricultora e pedagoga, especializada em mobilidade e acessibilidade. Devido \u00e0 barreira lingu\u00edstica, pois em sua casa s\u00f3 se falava alem\u00e3o, aprendeu portugu\u00eas somente aos 20 anos. Trabalhou para oferecer o melhor aos seus quatro filhos, dois dos quais t\u00eam defici\u00eancia visual devido \u00e0 <strong>amaurose cong\u00eanita de Leber, <\/strong>uma doen\u00e7a degenerativa heredit\u00e1ria rara que leva \u00e0 disfun\u00e7\u00e3o da retina numa idade precoce. Sua filha mais velha, Daiane Janing, de 32 anos, e o ca\u00e7ula, como se referiu ao filho mais novo, Allan Guilherme Janing, de 18 anos, est\u00e3o entre as 500 mil pessoas cegas no Brasil, de acordo com dados do <a href=\"http:\/\/portal.mec.gov.br\/component\/tags\/tag\/deficiencia-visual\">Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE)<\/a> de 2023.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e3e contou sobre o choque de quando recebeu o diagn\u00f3stico de defici\u00eancia da primeira filha com a voz carregada de emo\u00e7\u00e3o. Nas suas palavras, \u2018ficou sem ch\u00e3o\u2019. H\u00e1 32 anos, para a fam\u00edlia, o cen\u00e1rio era mais complicado. Ela e o marido seguiram os conselhos m\u00e9dicos e buscaram garantir os direitos dos filhos, mesmo com dificuldades em diversas \u00e1reas, desde a escola at\u00e9 a sociedade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao tentar explicar, trouxe um exemplo da escritora, Emily Perl Kingsley, no sentido de que, quando um casal se prepara para ter filhos, \u00e9 como se estivesse planejando uma viagem para a Holanda. Eles fazem toda uma pesquisa de campo. Conferem o clima, planejam as roupas que v\u00e3o levar, aprendem um pouco da l\u00edngua local, procuram pontos tur\u00edsticos para visitar, pesquisam os melhores restaurantes, hot\u00e9is e at\u00e9 estudam sobre a pol\u00edtica econ\u00f4mica do lugar, para aproveitarem ao m\u00e1ximo.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia da viagem, eles arrumam as malas, v\u00e3o para o aeroporto e embarcam no avi\u00e3o. Durante o voo, de repente, recebem uma not\u00edcia inesperada: a aeromo\u00e7a avisa que houve um problema e que, em vez de pousarem na Holanda, ter\u00e3o que descer na Noruega. O casal fica em choque. &#8220;Mas n\u00f3s nos preparamos para outro lugar&#8221;, pensam.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esse choque inicial, essa sensa\u00e7\u00e3o de perda de controle, \u00e9 semelhante ao que os pais sentem quando recebem a not\u00edcia de que seu beb\u00ea nasceu com uma defici\u00eancia. A vida que eles imaginaram, os planos e expectativas, mudam drasticamente. Mas, assim como na viagem, eles n\u00e3o podem simplesmente parar. N\u00e3o h\u00e1 como voltar ou mudar o destino. Eles precisam continuar a jornada, agora em um pa\u00eds diferente, com uma realidade que n\u00e3o haviam previsto.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p><em>\u201cE o conselho que a escritora d\u00e1, assim como o que eu dou \u00e0s fam\u00edlias nessa situa\u00e7\u00e3o, \u00e9 fundamental: nunca fiquem isolados, jamais deixem que o medo e as preocupa\u00e7\u00f5es os consumam. J\u00e1 ouvi pais dizendo coisas terr\u00edveis. Mas o primeiro passo \u00e9 simples, amem seus filhos, independentemente das circunst\u00e2ncias. Depois, \u00e9 preciso correr atr\u00e1s das possibilidades, das adapta\u00e7\u00f5es, dos recursos dispon\u00edveis. Cada crian\u00e7a tem suas limita\u00e7\u00f5es, mas sempre haver\u00e1 um caminho, um lugar onde ela pode se encaixar\u201d, explica a m\u00e3e dos atletas.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Sobre a inclus\u00e3o de pessoas com defici\u00eancia, a pedagoga critica a forma como os projetos s\u00e3o modificados e implementados sem consulta ou participa\u00e7\u00e3o dos benefici\u00e1rios. Para ela, a inclus\u00e3o deve come\u00e7ar com a prepara\u00e7\u00e3o dos professores e do ambiente escolar, ao inv\u00e9s de simplesmente matricular os alunos com defici\u00eancia sem dar a eles as ferramentas adequadas. Em uma das minhas perguntas sobre melhorias, Lucia enfatizou que, na verdade, a inclus\u00e3o deve ser modificada, e n\u00e3o apenas melhorada, pois, da maneira como est\u00e1, n\u00e3o atende \u00e0s necessidades reais.<em> &#8220;Eu sempre busquei o melhor para eles. O sistema de pol\u00edticas p\u00fablicas, muitas vezes, n\u00e3o \u00e9 o que deveria ser. H\u00e1 muito no papel que n\u00e3o se concretiza na realidade&#8221;, comenta.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Com uma respirada funda, n\u00e3o deixa de pontuar sobre o esfor\u00e7o constante que as pessoas com defici\u00eancia precisam fazer para provar sua capacidade em diferentes aspectos da vida, como subir escadas, andar sozinhos ou usar transporte p\u00fablico, algo que acaba sendo exaustivo. Esse tipo de press\u00e3o seus filhos j\u00e1 vivenciaram. A necessidade de mostrar que eram capazes de realizar tarefas cotidianas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ambos come\u00e7aram a nadar em 2017. Allan, com 11 anos, e Daiane, com 26, foram introduzidos ao esporte por meio de uma amiga de Lucia. No in\u00edcio, tinham medo de \u00e1gua, mas logo come\u00e7aram a participar de competi\u00e7\u00f5es. Allan em eventos escolares e Daiane nos <a href=\"http:\/\/www.fesporte.sc.gov.br\/jasc\">Jogos Abertos de Santa Catarina (JASC)<\/a>. Eles treinam regularmente, com sess\u00f5es de nata\u00e7\u00e3o e academia, al\u00e9m de seguirem uma dieta. Os dois s\u00e3o disciplinados e gostam do esporte, apesar de Daiane destacar que a nata\u00e7\u00e3o \u00e9 um esporte mais individual. Voc\u00ea tem que nadar sozinho, n\u00e3o \u00e9 que nem o futebol com uma equipe.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"800\" height=\"533\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/WhatsApp-Image-2024-12-11-at-12.36.13.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16353\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Atletas da APJ Luana Mendes, Allan Janing, Daiane Janing e Vanderlei Quintino no Campeonato Brasileiro de Nata\u00e7\u00e3o Paral\u00edmpica \u2013 Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Daiane se formou em Tecnologia da Informa\u00e7\u00e3o (TI) e trabalhou na \u00e1rea por quatro anos. O esporte a ajudou a superar os momentos dif\u00edceis que passou, oferecendo um ambiente inclusivo e acolhedor. Lucia, sentada \u00e0 minha frente e com os olhos sempre em seus filhos, destaca o trabalho dedicado dos profissionais da nata\u00e7\u00e3o que adaptam o treinamento \u00e0s necessidades individuais dos atletas com defici\u00eancia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Embora o esporte seja cansativo e exigente, os atletas gostam e se beneficiam dele, tanto f\u00edsica quanto socialmente. Para a m\u00e3e, Allan, que antes era t\u00edmido e n\u00e3o tinha amigos na escola, se tornou mais soci\u00e1vel. Ela acredita que o esporte \u00e9 um caminho para a inclus\u00e3o de pessoas com defici\u00eancia, pois ajuda a desenvolver confian\u00e7a e a superar barreiras que a sociedade imp\u00f5e diariamente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Caroline de Apolin\u00e1rio Para estarem aptas \u00e0s competi\u00e7\u00f5es de nata\u00e7\u00e3o, as piscinas devem ter entre dois e tr\u00eas metros de profundidade, e o comprimento deve ser de 25 ou 50 metros. A dist\u00e2ncia entre as raias, que s\u00e3o as boias que separam os espa\u00e7os de cada nadador, deve ser de, no m\u00ednimo, 2,5 metros. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":16354,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[20,127,46],"tags":[184,48,684],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16351"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16351"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16351\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16355,"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16351\/revisions\/16355"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16354"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16351"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16351"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16351"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}