{"id":16380,"date":"2024-12-28T12:00:45","date_gmt":"2024-12-28T15:00:45","guid":{"rendered":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/?p=16380"},"modified":"2024-12-28T12:03:16","modified_gmt":"2024-12-28T15:03:16","slug":"do-jeito-que-somos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/2024\/12\/28\/do-jeito-que-somos\/","title":{"rendered":"Do jeito que somos"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por Fagner de Souza Ramos e Dyeimine Senn Schlindwein<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em Joinville, no distrito de Pirabeiraba, localizado a 15 km do centro, est\u00e1 a Comunidade Quilombola Beco do Caminho Curto. O local faz parte da zona rural do munic\u00edpio, distante do centro da cidade, do poder p\u00fablico, do saber e do olhar de boa parte da popula\u00e7\u00e3o joinvilense.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>O acesso se d\u00e1 pela BR-101, sentido Curitiba, em um trajeto de 8 km at\u00e9 a sa\u00edda pela direita, no km 31, seguido por ruas cheias de buracos, disputadas por caminh\u00f5es que entregam mercadorias nas empresas pr\u00f3ximas.<\/p>\n\n\n\n<p>Da sa\u00edda da BR, s\u00e3o mais 7 quil\u00f4metros entre peda\u00e7os de terra, fazendas, algumas casas e pouco com\u00e9rcio. Durante o caminho, em alguns pontos da estrada, nota-se constru\u00e7\u00f5es antigas, de mais de um s\u00e9culo, que fizeram parte de uma antiga usina de a\u00e7\u00facar. Tudo leva a crer que pertenciam a engenhos, cuja exist\u00eancia \u00e9 historicamente comprovada na regi\u00e3o. Mas isso \u00e9 um assunto que fica para mais adiante.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegando pr\u00f3ximo \u00e0 comunidade, avista-se, do lado direito, um muro extenso onde, dentro, h\u00e1 um condom\u00ednio de luxo denominado Duque de Aumale \u2014 este nome voltar\u00e1 a aparecer por aqui. O condom\u00ednio possui poucas casas ocupadas, incluindo a resid\u00eancia de um renomado fot\u00f3grafo, Kacioslira, que mant\u00e9m ali seu home studio. Do lado esquerdo, encontra-se um cen\u00e1rio t\u00edpico de locais perif\u00e9ricos no Brasil: uma \u201cvila\u201d com um amontoado de casas, roupas estendidas no varal, cachorros junto com crian\u00e7as brincando, pessoas conversando. Pode-se dizer que, a estrada que separa esses dois mundos \u00e9 um reflexo do que realmente se v\u00ea no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1466\" height=\"828\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/WhatsApp-Image-2024-12-28-at-11.42.24-2.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16383\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">A Estrada Da Fazenda que separa a Comunidade Quilombola e o condom\u00ednio de luxo. Foto: Fagner Ramos<br><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O local fica \u00e0 beira da Estrada da Fazenda, um lugar com pouco fluxo de carros, mas onde quase sempre trafegam em alta velocidade. Quanto aos \u00f4nibus p\u00fablicos, h\u00e1 apenas um pela manh\u00e3, outro \u00e0 tarde e o \u00faltimo, que circula at\u00e9 as 19h. Os moradores da comunidade pedem, h\u00e1 anos, a instala\u00e7\u00e3o de uma lombada nas imedia\u00e7\u00f5es, que ajudaria a evitar acidentes que, segundo eles, j\u00e1 ocorreram. Contudo, afirmam que o pedido n\u00e3o foi atendido, pois os ciclistas que costumam pedalar no local teriam o trajeto e a mobilidade prejudicados, especialmente nos finais de semana.<\/p>\n\n\n\n<p>Do outro lado da estrada, h\u00e1 um ponto de \u00f4nibus com uma cobertura pequena e um muro de aproximadamente 1 km de extens\u00e3o e 4 metros de altura, pertencente a um condom\u00ednio de luxo. Para os moradores, a cobertura do ponto \u00e9 pequena demais para proteger as pessoas, principalmente as crian\u00e7as, nos dias de chuva. J\u00e1 o muro reflete, para eles, a s\u00edntese e o sentimento de exclus\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o de Joinville em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quela comunidade quilombola: quem n\u00e3o \u00e9 visto n\u00e3o \u00e9 lembrado.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1213\" height=\"549\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/WhatsApp-Image-2024-12-28-at-11.42.24-4.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16384\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ponto de \u00f4nibus utilizado pelos moradores da comunidade. Foto: Fagner Ramos<br><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p><em>\u201cA cidade n\u00e3o sabe que existimos. S\u00e3o poucos. Nosso bairro, Pirabeiraba, at\u00e9 nosso bairro n\u00e3o sabe que existe aqui um quilombo. Somos um povo esquecido do mapa. Todo movimento quilombola \u00e9 esquecido no Brasil. Eles acham que temos direito disso e daquilo, mas n\u00e3o temos direito a nada. Acham que somos apenas imigrantes que estamos povoando o Brasil, para dizer que ainda existimos aqui\u201d<\/em>, diz Osmari de Oliveira, 37 anos, morador da comunidade.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>A invisibilidade da comunidade \u00e9 um reflexo da hist\u00f3ria de Joinville, que se consolidou como uma cidade de imigrantes europeus. O estere\u00f3tipo do &#8220;joinvilense loiro&#8221; \u00e9 refor\u00e7ado em diversas publica\u00e7\u00f5es e material publicit\u00e1rio da cidade, conforme aponta o artigo <a href=\"https:\/\/revistas.unilasalle.edu.br\/index.php\/desenvolve\/issue\/view\/338\"><strong>Um Patrim\u00f4nio Esmaecido<\/strong><\/a>, de Andrew Bernardo Corr\u00eaa e Roberta Barros Meira. A hist\u00f3ria de resist\u00eancia do Beco do Caminho Curto, ligada \u00e0 forma\u00e7\u00e3o do quilombo e ao trabalho escravo nas planta\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00facar de Joinville, continua sendo ignorada, apesar da relev\u00e2ncia hist\u00f3rica.<\/p>\n\n\n\n<p>Diversas pesquisas realizadas ao longo do tempo mostram que, na regi\u00e3o rural de Pirabeiraba, onde est\u00e1 situado o Beco do Caminho Curto, havia engenhos de a\u00e7\u00facar. O mais relevante pertencia ao Duque d\u2019Aumale \u2014 aquele que d\u00e1 nome ao condom\u00ednio de luxo \u2014 localizado \u00e0s margens do rio Cubat\u00e3o. Essas pesquisas constataram que a produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar em Joinville era baseada no trabalho escravo de pessoas negras e que a forma\u00e7\u00e3o da comunidade remanescente de quilombos no Caminho Curto \u00e9 fruto desse per\u00edodo hist\u00f3rico.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p><em>\u201cA gente n\u00e3o \u00e9 reconhecido em nada. Joinville tinha que mudar. Quem chegou primeiro? Quem chegou primeiro fomos n\u00f3s! Ent\u00e3o Joinville tinha que falar sobre n\u00f3s tamb\u00e9m. N\u00e3o somos s\u00f3 descendentes de escravos, somos descendentes de africanos\u201d<\/em>, refor\u00e7a Gorete Aparecida de Oliveira, 48 anos, tamb\u00e9m moradora e a principal l\u00edder e porta-voz da comunidade.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p><strong>Assista o document\u00e1rio &#8220;Do jeito que somos&#8221; no Youtube:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Do Jeito que Somos   Comunidade Quilombola Beco do Caminho Curto\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/fkqV_EDKZDc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>Segundo o \u00faltimo censo realizado para quantificar a popula\u00e7\u00e3o quilombola no pa\u00eds, Santa Catarina possui 4.447 comunidades descendentes de quilombos, um n\u00famero proporcionalmente maior que o de S\u00e3o Paulo, por exemplo. Em Joinville, estima-se a presen\u00e7a de cerca de 317 pessoas. No Beco do Caminho Curto, h\u00e1 41 casas e aproximadamente 181 moradores. Com o apoio de Alessandra Bernardino, assistente t\u00e9cnica pedag\u00f3gica da CRE (Coordenadoria Regional da Educa\u00e7\u00e3o), a comunidade recebeu o certificado de remanescentes de quilombo da Funda\u00e7\u00e3o Cultural Palmares, o que trouxe maior seguran\u00e7a aos moradores ao garantir a posse da terra e proporcionar um acesso ampliado a direitos. Antes disso, houve tamb\u00e9m o reconhecimento da comunidade Ribeir\u00e3o do Cubat\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O reconhecimento como quilombo pela Funda\u00e7\u00e3o Cultural Palmares foi uma grande conquista, mas a falta de apoio do poder p\u00fablico continua sendo uma realidade desafiadora. A comunidade ainda enfrenta a aus\u00eancia de saneamento b\u00e1sico e conta com uma oferta limitada de op\u00e7\u00f5es de lazer ou atividades culturais. A promo\u00e7\u00e3o de debates sobre racismo e a realiza\u00e7\u00e3o de atividades para crian\u00e7as ajudam a comunidade a perceber que, apesar das conquistas, ainda h\u00e1 muito a ser feito.<\/p>\n\n\n\n<p>A Comunidade Quilombola Beco do Caminho Curto, uma das remanescentes de quilombos no Brasil, carrega a heran\u00e7a de resist\u00eancia de seus antepassados. Formadas por descendentes de africanos escravizados, as comunidades quilombolas surgiram como ref\u00fagios de resist\u00eancia \u00e0 opress\u00e3o colonial, defendendo a liberdade e preservando suas tradi\u00e7\u00f5es. Hoje, essas comunidades s\u00e3o reconhecidas pela Constitui\u00e7\u00e3o Brasileira de 1988, que garante seus direitos culturais, sociais e territoriais.<\/p>\n\n\n\n<p>No Beco do Caminho Curto, estruturalmente, as casas n\u00e3o foram constru\u00eddas de maneira que privilegie o acesso e o deslocamento dos moradores. Parte das resid\u00eancias \u00e9 de alvenaria, muitas ainda em constru\u00e7\u00e3o e inacabadas, enquanto a outra parte \u00e9 feita de madeira. Os espa\u00e7os nas ruas e becos estreitos s\u00e3o disputados por carros, motos, crian\u00e7as pequenas brincando e animais dom\u00e9sticos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1600\" height=\"906\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/WhatsApp-Image-2024-12-28-at-11.42.24.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16385\" srcset=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/WhatsApp-Image-2024-12-28-at-11.42.24.jpeg 1600w, https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/WhatsApp-Image-2024-12-28-at-11.42.24-1536x870.jpeg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1600px) 100vw, 1600px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Entrada da Comunidade \u00e0 beira da estrada. Foto: Fagner Ramos<br><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Caminhando pelas pequenas ruas que cortam as casas, que ainda s\u00e3o de terra e se transformam em lama com as constantes chuvas, nota-se muitas fezes de cachorro. Manter as resid\u00eancias limpas deve ser um ato quase de resist\u00eancia, j\u00e1 que, em dias secos, a lama se transforma em p\u00f3 \u2014 e muito p\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00e1gua encanada foi conquistada ap\u00f3s anos de luta. J\u00e1 a luz el\u00e9trica, que durante muito tempo funcionou com pontos espor\u00e1dicos, passou a ser distribu\u00edda de forma regular somente no fim de 2023. Ap\u00f3s press\u00e3o da Defensoria P\u00fablica, a Celesc instalou postes e rel\u00f3gios, garantindo energia el\u00e9trica para todas as resid\u00eancias, o que se tornou motivo de orgulho pela obstinada conquista dos moradores.<\/p>\n\n\n\n<p>O descarte de lixo ainda \u00e9 uma quest\u00e3o prec\u00e1ria. O caminh\u00e3o de coleta, quando vem, n\u00e3o recolhe todo o material descartado pela popula\u00e7\u00e3o. O lixo acumulado \u00e9 frequentemente depositado nos fundos da comunidade, em uma esp\u00e9cie de aterro sanit\u00e1rio improvisado, compartilhado com animais dos pastos vizinhos que circulam ao redor. Quando a quantidade aumenta, o material \u00e9 queimado de forma irregular, gerando riscos de acidentes e poluindo o meio ambiente.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1600\" height=\"906\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/WhatsApp-Image-2024-12-28-at-11.42.24-1.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16386\" srcset=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/WhatsApp-Image-2024-12-28-at-11.42.24-1.jpeg 1600w, https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/WhatsApp-Image-2024-12-28-at-11.42.24-1-1536x870.jpeg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1600px) 100vw, 1600px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Casas e ruas estreitas dentro da comunidade Quilombola. Foto: Fagner Ramos<br><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O acesso a estabelecimentos comerciais, postos de sa\u00fade e escolas dificilmente \u00e9 feito por transporte p\u00fablico. Ou o percurso \u00e9 feito de bicicleta, de carona com autom\u00f3veis de alguns moradores, ou geralmente a p\u00e9. Para trabalhar fora, al\u00e9m dos contratempos de locomo\u00e7\u00e3o, existe o preconceito ao se dizer que mora na comunidade quilombola.<\/p>\n\n\n\n<p>Gorete relata que muitas pessoas, ao informar em entrevistas de emprego que moram ali, s\u00e3o automaticamente eliminadas do processo seletivo. \u201c<em>Ou voc\u00ea omite e informa outro endere\u00e7o de resid\u00eancia, ou sua chance \u00e9 quase zero<\/em>\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Lidar com preconceito \u00e9 algo que est\u00e1 no DNA dos mais novos e se tornou quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia para os mais velhos e experientes. Os moradores afirmam que j\u00e1 foram alvos de a\u00e7\u00f5es dos propriet\u00e1rios das casas dos condom\u00ednios de luxo em frente, que mobilizaram influenciadores pol\u00edticos para tentar retirar a comunidade daquele local.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1213\" height=\"549\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/WhatsApp-Image-2024-12-28-at-11.42.23.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16387\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Gorete de Oliveira, l\u00edder e moradora da comunidade Quilombola. Foto: Fagner Ramos<br><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Na \u00e9poca das elei\u00e7\u00f5es presidenciais, durante o auge da polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e das manifesta\u00e7\u00f5es bolsonaristas nas estradas de Santa Catarina e Joinville, a comunidade sofreu amea\u00e7as constantes de grupos apoiadores de Jair Bolsonaro. H\u00e1 relatos de diversos homens chegando com carros e motos no local, armados com peda\u00e7os de pau, amea\u00e7ando parte da comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando est\u00e3o em estabelecimentos comerciais pr\u00f3ximos e as pessoas j\u00e1 sabem que s\u00e3o moradores quilombolas, passam a ser vigiados constantemente. Em uma visita a um shopping da cidade, Gorete relata que, quando chegaram na porta do local com cerca de 30 crian\u00e7as, clientes \u201cassustados\u201d chamaram os seguran\u00e7as e pediram para acompanhar a visita do grupo ao shopping.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas escolas, as crian\u00e7as dizem que precisam lidar diariamente com o bullying. Apesar de os professores explicarem sobre assuntos ligados ao racismo, e o que \u00e9 ser quilombola, atitudes racistas e preconceituosas ocorrem rotineiramente.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p><em>\u201cNa escola, alguns n\u00e3o sabem que existe a comunidade. Alguns sim, outros n\u00e3o. Alguns respeitam a gente, outros n\u00e3o. Eles j\u00e1 falaram para mim que eu sou quilombola e que l\u00e1 n\u00e3o \u00e9 lugar de preto. Eu me senti ofendido. Cheguei a brigar. Ele veio para cima de mim e eu dei um soco nele. Ele n\u00e3o me pediu desculpa. Falei para o professor e fizeram boletim de ocorr\u00eancia<\/em>\u201d, conta Brian.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1284\" height=\"570\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/WhatsApp-Image-2024-12-28-at-11.41.19.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16388\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Brian, ao centro, e seus amigos, Jos\u00e9 (esquerda) e Jo\u00e3o (direita). Foto: Fagner Ramos<br><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Apesar da invisibilidade constante da popula\u00e7\u00e3o de Joinville e do poder p\u00fablico, moradores demonstram cansa\u00e7o at\u00e9 com parte da imprensa. Eles afirmam que s\u00f3 s\u00e3o lembrados em datas comemorativas, como a Consci\u00eancia Negra, ou quando algo muito ruim acontece. Refor\u00e7am que n\u00e3o querem ser vistos apenas como quilombolas \u2014 o que os orgulha \u2014 mas sim como cidad\u00e3os, sendo atendidos e respeitados como tal.<\/p>\n\n\n\n<p>Morar na comunidade refor\u00e7a o esp\u00edrito familiar, social e de acolhimento, algo com o qual todos os entrevistados e at\u00e9 pessoas que preferiram n\u00e3o ser citadas, mas que falaram em off, concordam.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p><em>\u201cAqui todo mundo \u00e9 fam\u00edlia, n\u00e3o tem ningu\u00e9m diferente. \u00c9 um abra\u00e7o paternal. Nascemos aqui, moramos aqui e vamos morrer aqui. Eu chamaria as pessoas para conhecerem a comunidade. \u00c9 um lugar que acolhe todo mundo. Algumas pessoas v\u00eam realizar doa\u00e7\u00f5es, e n\u00f3s as abra\u00e7amos\u201d<\/em>, conta Osmari.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1213\" height=\"549\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/WhatsApp-Image-2024-12-28-at-11.42.24-3.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16389\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Osmari de Oliveira, morador da comunidade. Foto: Fagner Ramos<br><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>\u201cAquela pessoa que n\u00e3o conhece a comunidade, que julga, que olha as pessoas aqui na comunidade, saiba que aqui n\u00e3o \u00e9 uma invas\u00e3o. Eu pe\u00e7o que venham conhecer, conversar, para ver que a gente \u00e9 uma comunidade unida. A gente tamb\u00e9m quer ser reconhecido e ter dignidade, e n\u00e3o ser humilhado pelo que n\u00e3o conhece, ficando falando mal da nossa comunidade. A gente \u00e9 ser humano e tem o direito de ser respeitado\u201d, refor\u00e7a Gorete.<\/p>\n\n\n\n<p>A car\u00eancia p\u00fablica que a comunidade do Beco do Caminho Curto enfrenta \u00e9 amplificada pela car\u00eancia humana \u2014 de serem vistos, ouvidos, respeitados e lembrados. Mas, ao mesmo tempo, demonstram orgulho de onde vieram, do que s\u00e3o e onde querem chegar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA minha descend\u00eancia, o meu car\u00e1ter, n\u00e3o diz que voc\u00ea \u00e9 quilombola, voc\u00ea \u00e9 negro, voc\u00ea \u00e9 escravo, n\u00e3o. Eu tenho orgulho de ser lembrado como negro, descendente de escravo, porque \u00e9 um orgulho. Esta \u00e9 uma comunidade que veio da descend\u00eancia dos africanos. Agradecemos por ser descendentes de escravos que conseguiram construir um Brasil. Se n\u00e3o fosse a gente, ningu\u00e9m estaria aqui, ningu\u00e9m veria que somos quilombolas. Iam ver apenas um beco, uma favela, mas n\u00e3o, somos quilombolas, e agrade\u00e7o por ser\u201d, conclui Osmari.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fagner de Souza Ramos e Dyeimine Senn Schlindwein Em Joinville, no distrito de Pirabeiraba, localizado a 15 km do centro, est\u00e1 a Comunidade Quilombola Beco do Caminho Curto. 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