{"id":16585,"date":"2025-05-22T15:57:30","date_gmt":"2025-05-22T18:57:30","guid":{"rendered":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/?p=16585"},"modified":"2025-05-22T15:57:32","modified_gmt":"2025-05-22T18:57:32","slug":"entre-conquistas-e-saudades-a-busca-por-qualidade-de-vida-no-sul-do-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/2025\/05\/22\/entre-conquistas-e-saudades-a-busca-por-qualidade-de-vida-no-sul-do-pais\/","title":{"rendered":"Entre conquistas e saudades: a busca por qualidade de vida no sul do pa\u00eds"},"content":{"rendered":"\n<p>Por Gabriela Dutra<\/p>\n\n\n\n<p>Sentada na cama em seu quarto, no apartamento inteiro mobiliado por ela e a m\u00e3e com esfor\u00e7o, suor e orgulho, Caroline Aviz compartilha as viv\u00eancias e experi\u00eancias que marcaram seus 27 anos de vida. Nascida em Bel\u00e9m do Par\u00e1 e criada no interior, em Boa Vista de Quatipuru, ela representa muitos migrantes que cruzam o pa\u00eds em busca de algo que deveria ser um direito garantido a todas as pessoas, independentemente de onde estejam: dignidade, seguran\u00e7a e espa\u00e7o para sonhar.<\/p>\n\n\n\n<p>A inf\u00e2ncia de Caroline foi marcada pela for\u00e7a e coragem das mulheres da sua fam\u00edlia. Criada pela av\u00f3, ela aprendeu desde cedo sobre cura com ervas e benzimentos \u2014 embora a religi\u00e3o da matriarca fosse o catolicismo, era a f\u00e9 popular que dava conta das dores do corpo e tamb\u00e9m da alma. \u201cMinha av\u00f3 fazia de tudo com planta. A gente quase n\u00e3o usava rem\u00e9dio de farm\u00e1cia\u201d, conta, com uma pontinha de saudade. Ela tamb\u00e9m lembra das hist\u00f3rias de antepassados curandeiros e fortemente ligados com a espiritualidade, inclusive de um bisav\u00f4 paj\u00e9, de quem ela ouviu que \u201centrava no rio e sa\u00eda enxuto\u201d.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/WhatsApp-Image-2025-05-20-at-19.16.57-2.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16588\" style=\"width:225px;height:449px\" width=\"225\" height=\"449\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Aos 16 anos, deixou Boa Vista para viver com a m\u00e3e em Bel\u00e9m, onde existia a possibilidade de estudar e tamb\u00e9m trabalhar. Depois, casou-se jovem e passou a morar com a fam\u00edlia do marido. Trabalhou como jovem aprendiz, fez alguns freelas enquanto come\u00e7ava o curso de Enfermagem. Vivia uma rotina simples, mas relativamente tranquila diante das limita\u00e7\u00f5es do interior e das dificuldades vividas por sua fam\u00edlia. Sua av\u00f3 faleceu, e a m\u00e3e, Carmen, enfrentando dificuldades financeiras, decidiu tentar a vida no sul do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEla conheceu um cara pela internet e decidiu ir pra Santa Catarina. Veio com uma mala e f\u00e9, literalmente. Eu fiquei no Par\u00e1 com minhas primas, e a gente se ajudava como podia. Muitas vezes n\u00e3o tinha nem o que comer. Eu tinha medo do que podia acontecer com ela sozinha, sem grana, em um estado desconhecido\u201d, relembra Caroline.<\/p>\n\n\n\n<p>Carmen enfrentou uma s\u00e9rie de dilemas \u2014 o relacionamento rapidamente n\u00e3o deu certo, o primeiro emprego demorou a vir \u2014 mas acabou se estabelecendo em Joinville como vigilante, profiss\u00e3o na qual j\u00e1 havia se especializado no Par\u00e1. S\u00f3 ent\u00e3o Caroline sentiu seguran\u00e7a para migrar tamb\u00e9m. \u201cUm dia eu acordei e pensei: isso aqui n\u00e3o \u00e9 mais pra mim. Minha m\u00e3e estava bem, eu tinha um lugar pra ficar. Peguei minhas coisas e vim.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em fevereiro de 2022, Caroline chegou a Joinville com o FIES transferido para uma faculdade daqui, esperan\u00e7a nos olhos e nenhum conhecimento da cidade nem do que estaria por vir. \u201cMinha m\u00e3e me buscou, mas uma semana depois j\u00e1 estava viajando a trabalho. Ent\u00e3o, tudo o que aprendi aqui foi sozinha, andando pela cidade, conhecendo rodovi\u00e1ria, bairro, faculdade, tudo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>As primeiras impress\u00f5es foram positivas. \u201cAchei a cidade muito limpa, segura. Isso me impressionou.\u201d Mas logo vieram os conflitos mais duros. A frieza das pessoas, a xenofobia escancarada. \u201cOuvi de motorista de aplicativo que a gente vinha pra c\u00e1 s\u00f3 pra fazer bagun\u00e7a, pra sujar a cidade. Na empresa onde trabalhei, minha supervisora dizia que n\u00e3o suportava meu sotaque.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O fato de se sentir sozinha tamb\u00e9m pesou. \u201cEu chorava todo dia no primeiro ano. Sentia falta da minha fam\u00edlia, dos meus amigos, de ter vizinho batendo na porta pra chamar pra festa.\u201d O que a segurou foi o encontro com a espiritualidade \u2014 agora dentro de um terreiro de Umbanda. \u201cSempre fui chamada pela espiritualidade. Aqui, eu aceitei. Isso me amadureceu muito.\u201d<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/WhatsApp-Image-2025-05-20-at-19.16.57-1.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16589\" style=\"width:495px;height:371px\" width=\"495\" height=\"371\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Hoje, Caroline trabalha como auxiliar administrativa, \u00e9 estudante de psicologia, compartilha o lar com a m\u00e3e e suas primas, e n\u00e3o pensa mais em voltar. \u201cA gente n\u00e3o tem muita coisa, a gente n\u00e3o t\u00e1 nem perto do que eu pretendo chegar, mas a gente tem qualidade de vida. O nosso apartamento foi montado por n\u00f3s duas, sem ajuda de ningu\u00e9m. Minha m\u00e3e hoje compra o que ela quer, vive com dignidade, podemos ter momentos de lazer. S\u00f3 isso j\u00e1 \u00e9 uma vit\u00f3ria imensa.\u201d. Ela explica que poder trazer aos poucos sua fam\u00edlia para Joinville mostra que tudo est\u00e1 valendo a pena, e espera pelo seu irm\u00e3o, que chegar\u00e1 em julho com emprego garantido na cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo longe do Norte, Caroline n\u00e3o esquece de onde veio e fala com orgulho das suas ra\u00edzes. \u201cEu nunca deixei a minha cultura se perder de mim. Sempre disse que isso n\u00e3o ia acontecer.\u201d No in\u00edcio, fez amizades que eram locais e sempre havia aquele preconceito disfar\u00e7ado de piada, com risadas do sotaque, dos costumes. Ela achava que isso era normal. Com o tempo, maturidade e conhecimentos adquiridos na faculdade, foi percebendo que isso n\u00e3o era. Seus amigos atuais \u2014 quase todos tamb\u00e9m migrantes, mas a maioria de Santa Catarina \u2014 foram escolhidos por afinidade de pensamento e respeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando questionada sobre o que diria \u00e0 Caroline de 2022, ela sorri e responde com firmeza: \u201cA gente conseguiu&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Gabriela Dutra Sentada na cama em seu quarto, no apartamento inteiro mobiliado por ela e a m\u00e3e com esfor\u00e7o, suor e orgulho, Caroline Aviz compartilha as viv\u00eancias e experi\u00eancias que marcaram seus 27 anos de vida. 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