{"id":16610,"date":"2025-05-27T17:03:53","date_gmt":"2025-05-27T20:03:53","guid":{"rendered":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/?p=16610"},"modified":"2025-05-27T17:08:07","modified_gmt":"2025-05-27T20:08:07","slug":"o-nome-da-minha-mae","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/2025\/05\/27\/o-nome-da-minha-mae\/","title":{"rendered":"O nome da minha m\u00e3e"},"content":{"rendered":"\n<p>Por <em> Camila Vieira e Suyane Urbainski de Quadros<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em uma rua silenciosa e de pouco movimento, vive uma mulher com uma hist\u00f3ria de vida incomum. Na manh\u00e3 de uma quinta-feira de outono, chegamos a casa de Marise Vieira. A professora de 53 anos j\u00e1 nos esperava no port\u00e3o, enquanto brincava com os cachorros da vizinha que passeavam na rua. Recebeu-nos com um sorriso e nos convidou para entrar. Foi na cozinha de sua casa que ouvimos por mais de uma hora as dores e alegrias da sua caminhada de vida &#8211; uma hist\u00f3ria que poderia muito bem ser vista em um filme.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAi eu vou chorar\u201d, \u00e9 a primeira rea\u00e7\u00e3o de Marise quando come\u00e7a a falar sobre seus pais adotivos.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;<strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;Amor em cada detalhe<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Marise, uma das quatro crian\u00e7as adotadas pelo seu Jos\u00e9 Vieira e a dona Erotides d\u00e1 detalhes de como cresceu sendo amada e como admira seus pais de cria\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 s\u00e3o falecidos. Isso n\u00e3o se revela s\u00f3 em palavras, mas toda vez que os cita, seus olhos enchem de \u00e1gua.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;As idas \u00e0 praia de fusca, os dias de parque, os mimos que recebiam, um amor marcado por detalhes que ela carrega at\u00e9 hoje em sua mem\u00f3ria e cora\u00e7\u00e3o. \u201cEles nunca negaram nada para a gente, sabe? Al\u00e9m de amor, carinho, aten\u00e7\u00e3o\u2026uma coisa que eu levo para minha vida. Hoje tenho um filho de 19 anos, o Jo\u00e3o Eduardo, e tudo aquilo que eu adquiri na \u00e9poca, trago comigo e passo para ele\u201d, conta Marise.&nbsp;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXfqTP3m8lH_SzNjbqqJdky6__9Cz1ENfYeA5Sv3m6-0l3gPjcUVseSeaThWTY6F0iJarBOlFGUXoGCKAotdQZH7GTGDtDb-F5tkAcFFDJqzH8yZs323Ml_8UFwDV2ymwDjX87dhwA?key=049ftz3ZizTpY2gTLZYhKA\" alt=\"\" style=\"width:449px;height:252px\" width=\"449\" height=\"252\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Marise, Hilton, Paulo Cesar e Carla, Foto Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Seu Vieira e dona Tida &#8211; como os pais de cria\u00e7\u00e3o eram conhecidos, nunca esconderam das crian\u00e7as a ado\u00e7\u00e3o. Marise sabia o nome da m\u00e3e, que ela era alta com cabelos longos e tinham os mesmos olhos. Que seus av\u00f3s eram alem\u00e3es e de uma fam\u00edlia r\u00edgida e quando sua m\u00e3e engravidou n\u00e3o poderia ficar com a crian\u00e7a, por isso a deixou no hospital para doa\u00e7\u00e3o. Mas mesmo assim, algo saltava dentro do seu cora\u00e7\u00e3o, uma inquietude de crian\u00e7a curiosa em busca do seu antigo paradeiro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com tanta insist\u00eancia da menina, seu Vieira temia que a filha fosse \u00e0 procura de sua m\u00e3e e n\u00e3o voltasse mais, contou-lhe que sua m\u00e3e biol\u00f3gica havia falecido. Marise nunca mais perguntou nada sobre ela, talvez algo dentro dela havia partido tamb\u00e9m. \u201cLembro que eu sempre me olhava no espelho e ficava me imaginando, ser\u00e1 que eu sou parecida com a minha m\u00e3e?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Marise tinha apenas nove anos quando come\u00e7ou a cuidar do lar, j\u00e1 que a m\u00e3e havia adoecido. Aos 13, veio o diagn\u00f3stico de c\u00e2ncer. Nas idas e vindas do hospital, Tida ficava cada vez mais fr\u00e1gil. \u201cEla dizia para mim: agora voc\u00ea vai me ajudar a tomar banho, s\u00f3 que a m\u00e3e n\u00e3o \u00e9 mais a mesma pessoa\u201d conta, com a voz embargada. Nove meses depois, dona Tida faleceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Jos\u00e9 Vieira se casou novamente. A rela\u00e7\u00e3o com a madrasta \u00e9 um assunto delicado para Marise. Com a partida da m\u00e3e, a garota teve dificuldade para se adaptar \u00e0 nova vida. \u201cEla assumiu o meu pai, n\u00e3o a gente\u201d. Marise ainda ansiava por aquele amor de m\u00e3e que lhe foi tirado t\u00e3o cedo:&nbsp; \u201ceu pensava, meu Deus eu queria tanto uma m\u00e3e, a que me gerou, n\u00e3o pode ficar. A que me amava e eu amava Deus levou, da\u00ed agora, eu n\u00e3o tenho carinho\u201d. Hoje as duas mant\u00eam um contato de respeito devido a rela\u00e7\u00e3o da senhora com o neto.<\/p>\n\n\n\n<p>Marise havia prometido a si mesma, s\u00f3 procuraria sua m\u00e3e biol\u00f3gica novamente ap\u00f3s o falecimento do pai, para n\u00e3o mago\u00e1-lo. E assim o fez. Com as informa\u00e7\u00f5es que j\u00e1 tinha, gra\u00e7as ao falecido pai, procurou pelo nome e sobrenome da mulher no Facebook: Albertina Waltrick. Por diversas vezes Marise procurou sem encontrar nada. At\u00e9 que um dia, teve interfer\u00eancia de algo a mais. Ao visitar o santu\u00e1rio de Madre Paulina, em Nova Trento, a mulher fez um pedido em uma conversa com Deus para encontrar a m\u00e3e, n\u00e3o porque queria algo em troca, somente para saber se estava bem. Caso n\u00e3o a encontrasse, nunca mais procuraria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Naquela mesma semana, Marise pesquisou novamente, por\u00e9m dessa vez, pensou \u201cpor que n\u00e3o procurar a \u00e1rvore geneal\u00f3gica da fam\u00edlia?\u201d, foi a\u00ed que encontrou um rapaz respons\u00e1vel por montar a \u00e1rvore da fam\u00edlia Waltrick. O homem resolveu ajudar. Por esse nome, ele conhecia duas senhoras, uma a qual, segundo ele, era muito parecida com Marise. O rapaz passou ent\u00e3o o contato de uma senhora que conhecia Albertina. Mais adiante, Marise descobriria que essa senhora era sua tia e a dificuldade em encontrar a m\u00e3e era porque ela se casou e mudou o sobrenome. E assim Marise tinha finalmente o contato da m\u00e3e. E veio ent\u00e3o a primeira liga\u00e7\u00e3o. Albertina atendeu surpresa, Marise se apresentou, Albertina chorou desesperadamente. \u201cMeu marido sabe, mas meus filhos n\u00e3o. Preciso contar para eles, ent\u00e3o marcamos um encontro\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O dia em que o espelho se reconheceu<\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXcBoJ9_F0mbEfpjKJMPfiH5-bZwprsIyUOZzh5EWO24qyHF-Psj0vNFCKNyl0hvZS436ZUIXHFQx_BiVGs0cBZveKR8uoIJiWJrpEYPu7dP0_ZPkGUGyTKK2rl32WyDQE1ZXNat?key=049ftz3ZizTpY2gTLZYhKA\" alt=\"\" style=\"width:432px;height:324px\" width=\"432\" height=\"324\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Caf\u00e9 preparado pela fam\u00edlia, Foto Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Foi no dia 18 de janeiro de 2020 que elas se encontraram pela primeira vez. Com a casa decorada, mensagens de carinho e bolo na mesa, a fam\u00edlia toda recebeu Marise. Seus irm\u00e3os de sangue nunca viram a m\u00e3e sorrir tanto, principalmente nessa \u00e9poca do ano, onde ocorrem as festividades e coincidentemente, o anivers\u00e1rio de Marise, dia 2 de janeiro. Marise aproveitou o encontro para entender mais sobre a sua origem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e3e havia engravidado com 20 anos, n\u00e3o era casada, o pai havia falecido e o irm\u00e3o mais velho assumiu o papel de respons\u00e1vel da casa. Foi esse irm\u00e3o o principal expoente para o decorrer da hist\u00f3ria. Ao descobrir a gravidez da irm\u00e3, amea\u00e7ou a mulher e o beb\u00ea, prometeu que se encontrasse a crian\u00e7a, a esquartejaria e daria aos cachorros. Foi o mesmo irm\u00e3o que contratou dois senhores para espancarem Albertina quando a mesma voltava para casa, os homens a arrastaram para um riacho, chutaram sua barriga e tentaram afog\u00e1-la. A irm\u00e3 de Albertina a encontrou depois do ocorrido e a levou para se recuperar na casa onde trabalhava. O chefe da irm\u00e3 ofereceu a Albertina que trabalhasse para a fam\u00edlia, mas ela n\u00e3o poderia ficar com o beb\u00ea, foi assim que a mulher decidiu entregar a crian\u00e7a para ado\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;No dia do parto, quis o destino que a sobrinha da m\u00e3e adotiva de Marise, visitasse uma amiga internada no quarto ao lado, ao descobrir que havia uma crian\u00e7a para ado\u00e7\u00e3o, a sobrinha logo ligou para dona Erotides, que sonhava em adotar uma crian\u00e7a pois perdeu seu filho de 4 anos para a meningite. Seu Vieira visitou Marise ainda no hospital. Albertina recebeu alta sem a beb\u00ea, mas conta que assim que voltou para casa, n\u00e3o conteve o choro e desespero, retornou ao hospital para buscar Marise. Mas a crian\u00e7a j\u00e1 n\u00e3o estava l\u00e1.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quando os ciclos se fecham<\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXcHTsVe1EcHaJYVXLBiYgRQn7SMfUFzKNmV2vOnmUUOeygQbu9ZacmBVowccd8VECz816Yeb35AODBoHdSIMruUzXidKwdTQvslcaUsQyr2AtTlwSZLmpfJxvnOBEXU5_PSxAo2lA?key=049ftz3ZizTpY2gTLZYhKA\" alt=\"\" style=\"width:428px;height:321px\" width=\"428\" height=\"321\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Nei, Viviane, Deise, Marise, Albertina e Sheila, Foto arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Hoje Marise trabalha como professora e mora com o filho, sua grande paix\u00e3o.. A filha conta que ao reencontrar a m\u00e3e muitas coisas fizeram sentido, seus medos e gostos se tornaram mais reais, como se esse processo a fizesse compreender a si mesma e todos os sentimentos que carregava desde a inf\u00e2ncia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Marise ainda conta que seus irm\u00e3os biol\u00f3gicos relataram existir uma Albertina antes e outra depois de Marise. Ela sorri com frequ\u00eancia e leva a vida com mais leveza, como se, assim que Marise p\u00f4s os p\u00e9s na casa daquela que a gerou, a culpa fosse levada embora.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Hoje elas passam datas comemorativas juntas, trocam conversas sobre seus gostos e tentam recuperar todos os anos que n\u00e3o trocaram uma palavra ou um olhar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar do grande carinho e respeito pela m\u00e3e biol\u00f3gica e por sua hist\u00f3ria, Marise carrega uma certeza: os reencontros da vida n\u00e3o apagam nem substituem tudo que viveu com seus pais adotivos. \u201cPai e m\u00e3e para mim, foi quem me criou. Isso eu tenho no meu cora\u00e7\u00e3o, na minha mente, na minha vida.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Camila Vieira e Suyane Urbainski de Quadros Em uma rua silenciosa e de pouco movimento, vive uma mulher com uma hist\u00f3ria de vida incomum. Na manh\u00e3 de uma quinta-feira de outono, chegamos a casa de Marise Vieira. 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