{"id":16616,"date":"2025-05-28T16:54:17","date_gmt":"2025-05-28T19:54:17","guid":{"rendered":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/?p=16616"},"modified":"2025-07-11T17:37:06","modified_gmt":"2025-07-11T20:37:06","slug":"as-versoes-de-ayrton-senna-que-sobrevivem-na-memoria-do-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/2025\/05\/28\/as-versoes-de-ayrton-senna-que-sobrevivem-na-memoria-do-tempo\/","title":{"rendered":"As vers\u00f5es de Ayrton Senna que sobrevivem na mem\u00f3ria do tempo"},"content":{"rendered":"\n<p>Por: Camila Bosco<\/p>\n\n\n\n<p>Eu n\u00e3o vi Ayrton Senna correr.<\/p>\n\n\n\n<p>Desconhe\u00e7o a sensa\u00e7\u00e3o de acordar logo cedo em um domingo de manh\u00e3 esperando por Ayrton Senna, e ap\u00f3s o caf\u00e9 quente, sentar em frente \u00e0 televis\u00e3o com a fam\u00edlia esperando pela largada daquele que n\u00e3o seria superado no pr\u00f3prio pa\u00eds. De gritar com o tema da vit\u00f3ria e vibrar com a narra\u00e7\u00e3o emocionante de Galv\u00e3o Bueno. \u201c<em>Ayrton! Ayrton Senna do Brasil!<\/em>\u201d. A sensa\u00e7\u00e3o de ver a bandeira quadriculada balan\u00e7ando enquanto aquele brasileiro atravessava a linha de chegada. Enquanto o nosso her\u00f3i subia ao p\u00f3dio. E justamente por desconhecer essa sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 que eu precisava entender, como apaixonada pela F\u00f3rmula 1, quem era a pessoa que tamb\u00e9m era a alma do esporte. O que sei \u00e9 que posso explicar que as vit\u00f3rias mais bonitas da F\u00f3rmula 1 n\u00e3o foram vistas por mim, que, na verdade, nasci sete anos ap\u00f3s sua morte, e nunca sentirei as emo\u00e7\u00f5es de quem viu essa hist\u00f3ria se concretizar. Talvez nem a imagina\u00e7\u00e3o seja capaz de descrever tal sensa\u00e7\u00e3o. O que sei \u00e9 o que me contaram, o que ficou marcado nas mem\u00f3rias.&nbsp;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Best-foto-2-012-1-scaled.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16618\" style=\"width:416px;height:281px\" width=\"416\" height=\"281\" srcset=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Best-foto-2-012-1-scaled.jpg 2560w, https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Best-foto-2-012-1-1536x1036.jpg 1536w, https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Best-foto-2-012-1-2048x1381.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 416px) 100vw, 416px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Lemyr Martins<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Eu n\u00e3o vi Ayrton Senna correr, mas esses <em>caras <\/em>viram.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A vers\u00e3o de Lemyr Martins, o jornalista<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Agendar uma conversa com ele em uma tarde de sexta-feira parecia simples quando tudo estava perfeitamente organizado. A caneta repousava ao lado do bloco de anota\u00e7\u00f5es,&nbsp; depois de tr\u00eas testes o gravador funcionava, as perguntas estavam escritas em uma folha separada. No entanto, a ansiedade fazia-se presente ao pensar em falar sobre Ayrton Senna com algu\u00e9m que foi t\u00e3o pr\u00f3ximo &#8211; e que, assim como eu, \u00e9 catarinense &#8211;&nbsp; criava para mim uma expectativa. Quando o telefone tocou, Lemyr atendeu e, minutos depois, me disse que havia reservado um tempo especialmente para conversarmos. Assim, conheci a primeira vers\u00e3o sobre Ayrton Senna.<\/p>\n\n\n\n<p>Lemyr Martins, hoje aos 87 anos, foi jornalista e fot\u00f3grafo esportivo e viu al\u00e9m das lentes da c\u00e2mera fotogr\u00e1fica, al\u00e9m dos relatos jornal\u00edsticos que produzia e das entrevistas. A rela\u00e7\u00e3o entre rep\u00f3rter e entrevistado fez com que ele visse Ayrton Senna como pessoa, uma parte humanizada que poucos puderam conhecer. Uma rela\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima, de conviv\u00eancia at\u00e9 rotineira.<\/p>\n\n\n\n<p>O catarinense acompanhou Ayrton Senna ainda na \u00e9poca do kart, viu de perto o surgimento de uma lenda ainda adolescente e tamb\u00e9m as mudan\u00e7as de equipe e os p\u00f3dios que iam aumentando no decorrer do tempo, conforme mudava para categorias mais altas, at\u00e9 chegar na F\u00f3rmula 1.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Lemyr se referiu a Senna, algumas vezes, como \u201cguri\u201d, express\u00e3o que me fez pensar como eram pr\u00f3ximos. Algo que ficou evidente depois de me contar que se dava bem com a fam\u00edlia dele, principalmente a m\u00e3e, Neide. Senna era o retrato de um verdadeiro profissional: era exigente e determinado, cobrava tudo o que podia dos mec\u00e2nicos, buscando sempre estar por dentro do que acontecia. Era o tipo de brasileiro que gostava da sensa\u00e7\u00e3o da vit\u00f3ria correndo no sangue, nunca faltara a um treino e se frustrava quando algo saia do controle. Como em 1988, durante o Grande Pr\u00eamio de M\u00f4naco. Estava liderando a corrida e tinha mais de 30 segundos de vantagem sobre o rival Alain Prost, que era o segundo colocado. Um erro custou a vit\u00f3ria quando o carro bateu na entrada do t\u00fanel. Ficou t\u00e3o frustrado que, mais tarde, isolou-se do mundo em seu apartamento em Monte Carlo.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p>\u201cE a\u00ed ficou com vergonha de enfrentar o mundo, foi de capacete e tudo pra casa dele. Ele morava no mesmo edif\u00edcio que levava o nome da princesa Grace. Era o edif\u00edcio Grace. E ele foi para l\u00e1. S\u00f3 que ele ficou sentado no corredor duas horas, at\u00e9 terminar a corrida. Porque tinha dito para a empregada: \u201colha <em>fulana<\/em>, n\u00e3o atenda o telefone, n\u00e3o atenda o interfone, n\u00e3o atenda o interfone da garagem, nada. Nada que eu n\u00e3o d\u00ea licen\u00e7a para ningu\u00e9m vir aqui.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ayrton era considerado o rei de M\u00f4naco, ganhou seis das dez corridas de que participou. Os jornalistas muitas vezes se questionavam como o piloto conseguia se sair t\u00e3o bem em rela\u00e7\u00e3o aos rivais em um circuito, que era travado e perigoso com aquele tipo de tra\u00e7ado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p><em>\u201c Ele n\u00e3o dizia e a\u00ed eu insistia: \u201ctem uma caracter\u00edstica?\u201d \u201cAh, talvez porque eu seja canhoto.\u201d E como canhoto? \u00c9, porque ele era realmente canhoto (\u2026) enquanto todos os outros pilotos destros tinham que tirar a m\u00e3o do volante para fazer a mudan\u00e7a, ele fazia com a m\u00e3o boa (\u2026) N\u00e3o tirava a m\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o, tinha perfeito comando sobre o carro\u201d &#8211; <\/em>relembra Martins.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Best-foto-2-010-1-scaled.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16619\" style=\"width:416px;height:280px\" width=\"416\" height=\"280\" srcset=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Best-foto-2-010-1-scaled.jpg 2560w, https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Best-foto-2-010-1-1536x1036.jpg 1536w, https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Best-foto-2-010-1-2048x1381.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 416px) 100vw, 416px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Lemyr Martins<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Lemyr me contou que ao longo dos anos ele esteve em todas as casas de Senna e que, por vezes, vira o rapaz fazendo as tarefas do cotidiano. Que gostava das fotografias que registrou de Senna na pr\u00f3pria casa. A que o jornalista me enviou mais tarde por e-mail mostrava o cen\u00e1rio que havia me descrito: Ayrton era t\u00e3o perfeccionista que preferia lavar as pr\u00f3prias roupas na m\u00e1quina que tinha em casa, pois n\u00e3o gostava do cheiro de sab\u00e3o da lavanderia. Preferia poder escolher o perfume.<\/p>\n\n\n\n<p>Senna era t\u00e3o organizado que quando faziam refei\u00e7\u00f5es junto aos companheiros era uma cena quase sistem\u00e1tica. Sentava-se \u00e0 mesa, pegava uma fatia de p\u00e3o, passava manteiga, geleia e cortava tudo em pedacinhos. Inclusive, todas essas prepara\u00e7\u00f5es foram assunto entre jornalistas e paparazzis. Uma vez, em um hotel, subornaram uma empregada para descobrir como era a intimidade dentro do quarto de Ayrton. Queriam saber os detalhes da roupa, da cama, das malas, tudo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Fora das pistas, Senna era um homem comum, com uma vida igualmente comum. Mas com a popularidade veio o pre\u00e7o da fama, que lhe custava a falta de privacidade&nbsp; Tanto que Senna comprou um avi\u00e3o particular.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto me falava das viagens, o jornalista me confessou dizendo ter algo fant\u00e1stico guardado quase como se fosse um segredo, ele relembrou o dia em que a imprensa foi chamada \u00e0s pressas para o aeroporto de Guarulhos. O motivo? A Pol\u00edcia Federal havia montado um esquema digno de filme. A chamada <em>&#8216;Opera\u00e7\u00e3o Silva&#8217; <\/em>teria surgido ap\u00f3s os rumores de uma suspeita de tentativa de sequestro contra o astro da F\u00f3rmula 1. Os policiais teriam montado uma t\u00e1tica de defesa usando cinco carros id\u00eanticos. Para maior seguran\u00e7a, o avi\u00e3o do piloto pousou e assim que saiu do local, Senna embarcou direto em um carro cercado por seguran\u00e7as. O caminho do aeroporto at\u00e9 sua resid\u00eancia na Serra da Cantareira foi tenso e movimentado: os carros trocavam de posi\u00e7\u00f5es para despistar qualquer amea\u00e7a durante o percurso. At\u00e9 que o piloto chegasse bem em casa. O acontecimento foi algo que pouca gente soube.<\/p>\n\n\n\n<p>A popularidade tinha, portanto, seu lado complexo. Quando ia ao cinema, o piloto precisava esperar at\u00e9 que todas as luzes se apagassem para poder entrar na sala da sess\u00e3o. As sa\u00eddas para jantar ou explorar a cidade durante o tempo livre eram mais dif\u00edceis, pois frequentemente era abordado por f\u00e3s. Lemyr mencionou a vez em que um rep\u00f3rter convidou Senna para uma partida de t\u00eanis &#8211; ele era f\u00e3 do esporte, inclusive jogava tamb\u00e9m com os narradores Galv\u00e3o Bueno e Reginaldo Leme \u2014 e, no dia posterior, a m\u00eddia vazou fotos do jogo. Foi uma experi\u00eancia que detestou e, a partir desse incidente, Senna&nbsp; passou a ser cauteloso e detalhista at\u00e9 mesmo com o r\u00f3tulo da garrafa de \u00e1gua que bebia. Medidas rigorosas para preservar sua privacidade.<\/p>\n\n\n\n<p>V\u00e1rios boatos e pol\u00eamicas percorreram sua vida pessoal e, em meio aos holofotes da m\u00eddia, em uma ocasi\u00e3o surgiu algo curioso: a not\u00edcia de um filho. Lemyr me relatou em tom de brincadeira que o boato surgiu de um antigo relacionamento e quando os dois se encontraram ele perguntou: \u201c<em>Voc\u00ea vai ser pai agora, \u00e9<\/em>?\u201d o piloto respondeu rindo: <em>\u201cO qu\u00ea? S\u00f3 me faltava essa (\u2026) N\u00e3o pode. Eu n\u00e3o encontro com ela h\u00e1 12 mese<\/em>s.\u201d Mas confessou que, embora fosse falso, a fam\u00edlia torcia para que fosse verdade. Senna planejava se casar e ter filhos, um desejo que, infelizmente, ele n\u00e3o conseguiu realizar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A forma como Lemyr falava de forma emocionante, penso que talvez \u00e9 como se passasse v\u00e1rias imagens na cabe\u00e7a desse fot\u00f3grafo que via o mundo pelas lentes. Naquele momento da conversa, tamb\u00e9m lembrei nos v\u00eddeos que vi nas redes sociais, em como Senna demonstrava gostar de crian\u00e7as e as perguntas foram surgindo na minha cabe\u00e7a. Como seria se ele tivesse um herdeiro? Seguiria seus passos? Daria continuidade ao legado na F\u00f3rmula 1? S\u00e3o perguntas que nunca ter\u00e3o respostas.<\/p>\n\n\n\n<p>Como algu\u00e9m que admira tanto o piloto, eu j\u00e1 havia me preparado para ouvir atentamente os relatos sobre o dia da morte. Me ajeitava na cadeira e deixava a caneta azul jogada sobre a mesa, prestando aten\u00e7\u00e3o para n\u00e3o perder nenhum detalhe.<\/p>\n\n\n\n<p>Lemyr me contou que nunca havia trabalhado tanto como no marcante dia 1\u00ba de maio de 1994, o dia do trabalhador. Eu estava prestes a saber como algu\u00e9m que acompanhou a sua vida, que o viu crescer profissionalmente e mantinha um contato direto, que sabia de algumas intimidades e assuntos que nunca viriam \u00e0 tona soube da morte de Ayrton Senna.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ele estava l\u00e1. Ele estava em \u00cdmola. Estava situado na largada, ent\u00e3o pegou carona no carro do circuito para registrar novas fotos em um \u00e2ngulo bom, tinha se posicionado pr\u00f3ximo a uma curva do circuito de San Marino. O carro do brasileiro passou uma. Duas. Tr\u00eas vezes e depois n\u00e3o voltou mais. Ele entendeu logo que algo n\u00e3o estava certo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ayrton Senna liderava a corrida at\u00e9 que na s\u00e9tima volta, o carro azul-escuro da equipe Williams se chocou fortemente contra o muro da antiga curva Tamburello, onde os carros alcan\u00e7avam alt\u00edssimas velocidades, beirando os 300 quil\u00f4metros por hora. Em uma batida t\u00e3o forte, o carro levou quase dez segundos para paralisar quando se desfazia como brinquedo e os destro\u00e7os voaram por toda a parte. A como\u00e7\u00e3o tomou conta. Do outro lado da televis\u00e3o, os espectadores ouviam a voz apreensiva de Galv\u00e3o Bueno: \u201c<em>Senna bateu forte\u201d<\/em>. Os bombeiros correram at\u00e9 o local, logo ap\u00f3s chegaram os m\u00e9dicos para realizar os primeiros atendimentos. As imagens mostram o carro visto de cima. O cl\u00e1ssico capacete amarelo se destaca. Senna tomba levemente a cabe\u00e7a para o lado. Para quem assistia de longe, ele parecia ter consci\u00eancia. Ningu\u00e9m imaginava que seria deste modo que ele terminaria a corrida.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s o helic\u00f3ptero decolar lentamente para transportar o piloto desacordado ao hospital, os telespectadores brasileiros emocionados ouviam a narra\u00e7\u00e3o:<em> E a\u00ed vai, leva a nossa ora\u00e7\u00e3o, a nossa f\u00e9, a nossa reza &#8211; <\/em>a torcida no circuito aplaudia Senna como sinal de respeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Lemyr me disse que, no dia, encontrou uma m\u00e9dica brasileira que fora para trabalhar no circuito. N\u00e3o pensei que ouviria as palavras que mais me causariam impacto naquela conversa, quase como um soco no est\u00f4mago: \u201c<em>E ela atendeu. E ela me disse, meio chorando, como eu tamb\u00e9m estava, me dizendo que a traqueostomia <\/em>[um procedimento em que se faz uma abertura na traqueia para permitir a passagem de ar at\u00e9 os pulm\u00f5es] <em>feita j\u00e1 foi uma <\/em><strong><em>viola\u00e7\u00e3o de cad\u00e1ver.<\/em><\/strong><em>\u201d&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 como se o fot\u00f3grafo retornasse ao passado e revivesse alguns sentimentos, a nostalgia est\u00e1 presente na voz, tento imaginar as particularidades em cada cena relatada, e fico emocionada. Reviver mem\u00f3rias que possivelmente s\u00e3o dolorosas me fizeram questionar se fui insens\u00edvel ao perguntar sobre o acidente, pensando como se sentiu, o que viu com os pr\u00f3prios olhos. Soube que ele n\u00e3o dormiu, ficou acordado at\u00e9 \u00e0s seis horas da manh\u00e3. O sentimento de ang\u00fastia e a letargia tomando conta, torcendo para n\u00e3o ser verdade. Mas precisava voltar ao trabalho.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p><em>\u201cEu ficava esperando o Senna aparecer, mas eu n\u00e3o via mais o Senna, eu n\u00e3o via o Senna naquele carro da Williams. Eu ficava esperando o Senna no carro da McLaren, que \u00e9 aquele carro que marcou tudo, marcou os tr\u00eas campeonatos. Eu esperava aquilo, esperava que viesse aquilo. Como talvez querendo desmentir, querendo fugir daquela realidade.\u201d<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Quando a realidade bateu, n\u00e3o compareceu ao enterro e permaneceu em Monte Carlo. O local foi tomado por homenagens. Os f\u00e3s montaram altares com flores, imagens de Senna por toda a cidade. Os italianos escreviam \u201cSenna n\u00e3o est\u00e1 morto\u201d. Imagine ent\u00e3o como foi o recebimento da not\u00edcia no Brasil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 delicado colocar em palavras o quanto a morte de Ayrton Senna foi intensa, significativa para o mundo. S\u00e3o como nuances de uma cicatriz que mesmo ap\u00f3s 30 anos permanece aberta. Lemyr, ele me contou que ainda lembra muito de Ayrton toda vez que um atleta brasileiro sobe ao p\u00f3dio carregando a bandeira verde e amarela. \u201cEra um \u2018Silva\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais tarde, Lemyr Martins transformou suas mem\u00f3rias em dois livros. \u201cUma Estrela Chamada Senna\u201d detalha algumas das hist\u00f3rias compartilhadas nesta mat\u00e9ria. O t\u00edtulo surge de um momento emocionante. Viviane, a irm\u00e3, o chamou para mostrar que astr\u00f4nomos descobriram uma nova estrela na Constela\u00e7\u00e3o de Auriga que recebeu o nome de Senna. Hoje, quem olhar para o c\u00e9u poder\u00e1 ver a estrela Ayrton Senna. O p\u00f3dio mais alto que um piloto de F\u00f3rmula 1 poderia alcan\u00e7ar.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes da corrida em San Marino, pela manh\u00e3, Senna procurou Lemyr dizendo precisar lhe contar algo, mas ele nunca soube e nem saber\u00e1 o que o piloto precisava cont\u00e1-lo. Mas que precisa passar adiante o que vivenciou. <em>\u201c<\/em><strong><em>Eu preciso dividir o Senna com as pessoas\u201d<\/em><\/strong><em>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A morte de um \u00eddolo como Ayrton Senna parou o pa\u00eds, e quando digo <em>parar <\/em>\u00e9 no sentido literal da palavra.&nbsp; Quem me confessou em detalhes a vers\u00e3o de um f\u00e3 foi Eduardo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A vers\u00e3o de Eduardo dos Santos, o f\u00e3:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 30 anos, o Brasil passava por uma situa\u00e7\u00e3o economicamente inst\u00e1vel enquanto uma crise de hiperinfla\u00e7\u00e3o assolava o pa\u00eds desde a d\u00e9cada de 1980, o pa\u00eds chegou a ter quatro moedas diferentes em pouco tempo. Segundo dados do Senado Not\u00edcias, houve um aumento anual de pre\u00e7os de quase 2.500%. As fam\u00edlias estavam endividadas com o alto custo de vida e lutando por melhores condi\u00e7\u00f5es. Nesse meio tempo, o pa\u00eds tamb\u00e9m passou pela implanta\u00e7\u00e3o de uma nova moeda, o real. Em um contexto em que ainda sentiam-se os resqu\u00edcios da Ditadura Militar e o pa\u00eds tentava se recuperar, o povo reivindicava por sa\u00fade, seguran\u00e7a, educa\u00e7\u00e3o e comida na mesa.<\/p>\n\n\n\n<p>Em meio a esses tempos dif\u00edceis, o povo tamb\u00e9m buscava ref\u00fagio em pequenos momentos de alegria. A televis\u00e3o era uma forma de entretenimento, a F\u00f3rmula 1 aos domingos na TV aberta era quase como um clamor por esperan\u00e7a para alguns brasileiros que buscavam por dias melhores, principalmente para aqueles que esperavam por um brasileiro subindo ao p\u00f3dio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Conheci Eduardo por meio da filha dele, que me relatou que o pai se emocionava ao ouvir o nome de Ayrton Senna. Eu sabia, portanto, que seria a pessoa ideal para me contar sobre as mem\u00f3rias que ele construiu vendo o piloto correr. Quando agendamos nossa conversa por videochamada, percebi que, mesmo com pouca qualidade de v\u00eddeo, conseguia entender por que Eduardo tinha os olhos marejados desde o in\u00edcio da conversa. Aos 42 anos, ele usava um casaco azul-marinho com o s\u00edmbolo da sele\u00e7\u00e3o brasileira de futebol no lado esquerdo do peito. Me contara mais cedo que j\u00e1 havia preparado um len\u00e7o de papel para conter as l\u00e1grimas. \u201c<em>Eu n\u00e3o tenho vergonha de chorar\u201d<\/em> , citou.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Eduardo conheceu Senna quando mais novo e passava os domingos da forma t\u00edpica esperando pelo campe\u00e3o. Ent\u00e3o lhe perguntei \u201cPor que as pessoas ainda t\u00eam uma conex\u00e3o t\u00e3o grande?\u201d Segundo ele, Senna era diferente. A forte liga\u00e7\u00e3o com a nacionalidade o tornava mais \u201chumano\u201d, deixava de lado a separa\u00e7\u00e3o entre algu\u00e9m famoso e f\u00e3, era uma vis\u00e3o onde todos estavam em um mesmo degrau. Havia simplicidade apesar do dinheiro que tinha, da carreira que havia alcan\u00e7ado. Demonstrava como a religiosidade era significativa na sua vida, era temente a Deus. Conseguia transmitir tudo que o brasileiro sentia para um \u2018civil comum\u2019 e isso resultou em uma na\u00e7\u00e3o torcendo junto. \u201c<em>Ele colocava em primeiro lugar o pa\u00eds dele, a popula\u00e7\u00e3o, as pessoas que torciam por ele, ele carregava aquela bandeira com orgulho\u201d<\/em>, relatou completando que o brasileiro mostrava que era o melhor naquilo que estava sendo feito. Eduardo comparou igualmente que hoje em dia a F\u00f3rmula 1 n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o manual como na \u00e9poca de Senna e que a tecnologia sustenta um grande aux\u00edlio e facilidade que n\u00e3o existia. O piloto mostrava que, apesar das diferen\u00e7as t\u00e9cnicas existirem entre as equipes, conseguia se destacar vencendo grandes pilotos como Alain Prost, Nigel Mansell e Michael Schumacher. Alguns destes rivais despertaram nos brasileiros o sentimento de raiva.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p><em>\u201cEra s\u00f3 que quando esse tipo de sentimento acontece, \u00e9 porque tu sabe que tem uma pessoa que \u00e9 quase do mesmo n\u00edvel, entendeu? E que batia de frente com o Senna, s\u00f3 que por que a gente n\u00e3o gostava dele? O Prost, ele trocava roda com roda, o que dava alguns problemas.(\u2026) existia muita rixa ali, s\u00f3 que querendo ou n\u00e3o sempre \u00e9 bom existir porque isso \u00e9 o que apimenta o esporte.\u201d \u2014 <\/em>Eduardo sobre Alain Prost.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Best-livro-fotos-A1-049.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16620\" style=\"width:423px;height:269px\" width=\"423\" height=\"269\" srcset=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Best-livro-fotos-A1-049.jpg 2375w, https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Best-livro-fotos-A1-049-1536x979.jpg 1536w, https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Best-livro-fotos-A1-049-2048x1305.jpg 2048w, https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Best-livro-fotos-A1-049-136x86.jpg 136w\" sizes=\"(max-width: 423px) 100vw, 423px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Lemyr Martins<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Conforme ele me conduzia pelas pr\u00f3prias mem\u00f3rias, respirava fundo antes de come\u00e7ar uma nova hist\u00f3ria. Era como um mergulho profundo em nostalgia, aquele momento em que voc\u00ea fixa o olhar em algo e deixa as palavras sa\u00edrem. Em uma mem\u00f3ria marcante, ele lembra da sensa\u00e7\u00e3o de assistir o Grande Pr\u00eamio do Brasil em 1991, corrida hist\u00f3rica que ficou marcada para sempre na carreira de Senna e certamente na lembran\u00e7a de muitos brasileiros. O piloto que foi <em>pole position <\/em>largou bem na corrida, mas enfrentou uma briga acirrada com Nigel Mansell, que vinha o pressionando o tempo todo. No entanto, Mansell foi obrigado a realizar uma troca de pneus ap\u00f3s um furo no equipamento. Quando a situa\u00e7\u00e3o parecia mais tranquila, mais da metade da prova j\u00e1 havia acontecido quando Senna encontrou problemas na caixa de c\u00e2mbio da McLaren branca e vermelha que dirigia. Precisou guiar o carro usando apenas a sexta marcha durante as \u00faltimas voltas do circuito de Interlagos. Sabia conduzir o carro como ningu\u00e9m. Ao ultrapassar a bandeira final, a frase que o telespectador ouve \u00e9 Galv\u00e3o Bueno em plenos pulm\u00f5es gritando \u201cAYRTON! AYRTON! AYRTON SENNA DO BRASIL! De ponta a ponta ele vence em Interlagos. Uma grande vit\u00f3ria!\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto o \u00e1udio no r\u00e1dio do piloto s\u00e3o gritos de comemora\u00e7\u00e3o, os fiscais da prova se aproximam do carro enquanto pulavam de alegria e se abra\u00e7avam. O carro desfila lentamente pr\u00f3ximo \u00e0 arquibancada onde o torcedor cantava &#8216;<em>ol\u00ea ol\u00ea Senna, Senna\u2026<\/em>\u201d e balan\u00e7avam os bon\u00e9s na cor azul. Uma cena muito bonita. Mas no p\u00f3dio, podia-se perceber o quanto o estado f\u00edsico estava desgastado. Outra corrida que Eduardo contou com os olhos brilhando e a voz um pouco falhada foi a vit\u00f3ria de Senna em 1993, tamb\u00e9m em Interlagos. Quando o piloto deixou o carro na pista sendo carregado pelos torcedores que invadiram o local.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p><em>\u201cE foi onde todo o p\u00fablico que estava no aut\u00f3dromo simplesmente invadiu a pista, entregaram a\u00ed uma bandeira para ele e ergueram. Tiraram ele do carro, n\u00e9, aquilo foi\u2026, \u00e9 at\u00e9 complicado de falar, mas assim, a gente que lembra muito\u2026o Senna, ele foi tudo. Ele foi exemplo de pessoa, de profissional, de lideran\u00e7a. Ele foi exemplo de muita coisa. Era 100% correto? Era 100% anjo? N\u00e3o. Ele era um brasileiro, humano como qualquer um, inclusive brigou com algumas pessoas.\u201d<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Mais cedo naquela sexta-feira, Lemyr me contara da vez em que presenciou o soco que Senna deu em um jornalista italiano que o havia provocado. Dessa vez, o f\u00e3 completou a hist\u00f3ria afirmando que a garra de Senna n\u00e3o era apenas no volante e que defendia os brasileiros com unhas e dentes, no sentido literal se necess\u00e1rio, isso fazia-o admir\u00e1-lo cada vez mais. Enquanto Eduardo pausava algumas vezes em sua fala, brinquei dizendo que se ele chorasse naquele momento eu iria chorar junto, o que n\u00e3o era mentira. Nessa conversa, passei a entender que Senna tamb\u00e9m era cabe\u00e7a quente e n\u00e3o levava atrevimento para casa. Algo que a fam\u00edlia j\u00e1 havia comentado.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando chegamos ao tema da morte (que evitamos desde o in\u00edcio da conversa por ser algo delicado) percebi que de alguma forma Eduardo continuamente se emocionava falando sobre sua inspira\u00e7\u00e3o. O lencinho branco que havia separado estava molhado devido \u00e0s l\u00e1grimas e os olhos levemente avermelhados. Admitia se sensibilizar e explicava que nas entrevistas, Senna falava n\u00e3o apenas como esportista e a for\u00e7a que tinha para conduzir o carro era como algo sobrenatural, al\u00e9m da compreens\u00e3o humana. Na ocasi\u00e3o do acidente, ele chegara da igreja junto da fam\u00edlia e estava esperando pela corrida, como mais um domingo tradicional. Aquele final de semana tinha sido marcado por emo\u00e7\u00f5es: o perigo n\u00e3o se limitava \u00e0 curva Tamburello. Durante o treino de s\u00e1bado, o piloto Roland Ratzenberger faleceu em um acidente fatal. Caso vencesse a corrida de domingo, Senna iria homenage\u00e1-lo. Estava inquieto com a Williams que dirigia, a rela\u00e7\u00e3o com a equipe n\u00e3o estava como esperava, h\u00e1 quem diga que Senna n\u00e3o queria correr naquele final de semana. Ap\u00f3s o acidente, Eduardo estava angustiado em frente a TV, como se a voz do narrador ecoasse dentro da mente, est\u00e1tico. Relembrou como o atendimento m\u00e9dico foi demorado e pontuou como a transmiss\u00e3o midi\u00e1tica mostrava a fatalidade de maneira escancarada, sem censurar imagens sens\u00edveis.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele dia, perguntei \u201cEduardo, voc\u00ea acha que as pessoas entendem qu\u00e3o grande era o Senna?\u201d. Prontamente me respondeu com convic\u00e7\u00e3o que para compreender algo assim, \u00e9 preciso voltar ao passado e vivenciar a experi\u00eancia na pele. Notei que n\u00e3o hesitava em me explicar, era como um professor apresentando sua aula para um aluno curioso. Para Eduardo, Senna era motivo de alegria e em cada vit\u00f3ria os brasileiros tinham a garantia que iam come\u00e7ar a segunda-feira bem. Exceto naquele 1\u00ba de maio.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p>\u201cSenna sempre foi um exemplo de garra, um exemplo de persist\u00eancia, um exemplo de nunca desistir. Se voc\u00ea chegou aqui, \u00e9 porque tu pode chegar (\u2026) ele mostrava pra todo mundo que a gente era capaz de fazer aquilo que estava programado e mais um pouco. Mais um pouco, sempre ir al\u00e9m, n\u00e9? Sempre ir al\u00e9m daquilo, porque a gente consegue, a gente \u00e9 capaz.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Eduardo refor\u00e7a novamente que n\u00e3o tem vergonha em chorar ao falar sobre Senna, me explicou que at\u00e9 mesmo a pessoa que n\u00e3o gostava de F\u00f3rmula 1 ou que n\u00e3o gostasse do piloto, tamb\u00e9m se comoveu. Mais tarde naquela noite, revi as cenas em jornais antigos que ele me detalhou com tanto sentimento. O mundo parou para ver o vel\u00f3rio de Senna. O pa\u00eds ficou mergulhado em um luto irrevers\u00edvel pela perda de um her\u00f3i nacional, luto esse que ainda \u00e9 sentido mesmo ap\u00f3s 30 anos. Os jornais anunciavam uma perda incompar\u00e1vel. Segundo a Prefeitura de S\u00e3o Paulo, o vel\u00f3rio durou cerca de 22 horas e o cortejo feito pelo Corpo de Bombeiros foi acompanhado por aproximadamente 240 mil pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>As pessoas literalmente subiam em \u00e1rvores, placas, postes, se penduravam em viadutos. Todos queriam ver o \u00eddolo pela \u00faltima vez. Enquanto se uniam em um momento t\u00e3o triste, doloroso, abra\u00e7ados aos bon\u00e9s azuis e a bandeira verde e amarelo. Amigos (e tamb\u00e9m desconhecidos) que se abra\u00e7avam em busca de um conforto para o cora\u00e7\u00e3o. Religiosos que ofereciam suas preces. Um adeus que n\u00e3o queria ser dito. N\u00e3o havia vergonha para chorar, o sentimento era o mesmo: l\u00e1grimas que secaram, mas que deixaram uma marca na mem\u00f3ria de quem viveu na mesma era que Ayrton Senna.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p><em>\u201cA gente conhecia o Senna s\u00f3 pelo olhar. Ele podia estar com outro capacete, que n\u00e3o fosse aquele amarelo com a faixa verde ali. Ele poderia estar com outro capacete, mas se voc\u00ea olhasse dentro da viseira e visse o olhar dele, nenhum olhar era igual. Era o Senna.\u201d &#8211; citou Eduardo.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Best-livro-fotos-A1-065-scaled.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16621\" style=\"width:427px;height:285px\" width=\"427\" height=\"285\" srcset=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Best-livro-fotos-A1-065-scaled.jpg 2560w, https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Best-livro-fotos-A1-065-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Best-livro-fotos-A1-065-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 427px) 100vw, 427px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Lemyr Martins<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>E por falar em l\u00e1grimas, n\u00e3o consigo contar quantas vezes me emocionei ao escrever, reler e repensar sobre o assunto. Mesmo sem ter vivido aquela \u00e9poca, Ayrton esteve presente de alguma forma em minha vida. Nas conversas emocionadas com quem vivenciou, nos olhares de quem testemunhou suas vit\u00f3rias. Senna estava presente quando citavam seu nome com admira\u00e7\u00e3o, em relatos cheios de entusiasmo. Quando os olhos brilhavam. Est\u00e1 presente a cada vez que assisto uma corrida de F\u00f3rmula 1.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 no papel sulfite da escola, penso em como foi marcado pelo nome <em>Senninha.<\/em> E s\u00e3o esses pequenos detalhes que fazem com que pessoas como Ayrton Senna sejam sempre consagrados como \u00eddolos e mantidos vivos por anos nas hist\u00f3rias. N\u00e3o assisti o piloto Ayrton Senna da Silva ao vivo, n\u00e3o conheci o \u00eddolo ou o amigo. Mas cresci ouvindo hist\u00f3rias que nunca pereceram nas mem\u00f3rias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>&nbsp;<\/em><strong>AS REGRAS QUE MUDARAM P\u00d3S-SENNA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A morte televisionada de um piloto tricampe\u00e3o mundial que estava no auge da carreira, aos 34 anos, fez com que os olhos do mundo e as lentes das c\u00e2meras estivessem direcionados \u00e0 F\u00f3rmula 1. O acidente fatal de Ayrton Senna desencadeou uma sequ\u00eancia de impactos dentro do esporte automobil\u00edstico. E n\u00e3o falamos apenas das altera\u00e7\u00f5es do Aut\u00f3dromo Enzo e Dino Ferrari.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A repercuss\u00e3o na m\u00eddia fez com que a opini\u00e3o p\u00fablica \u2014 incluindo de muitos que n\u00e3o eram pr\u00f3ximos ao esporte \u2014 pressionasse a comunidade do esporte automobil\u00edstico a rever as principais medidas de seguran\u00e7a,<em> <\/em>questionando os riscos de mortalidade que os pilotos e mec\u00e2nicos eram submetidos. Se antes do final de semana de 1\u00ba de maio de 1994 a seguran\u00e7a no esporte era tratada apenas como uma quest\u00e3o t\u00e9cnica, nesse momento a revis\u00e3o das normas de seguran\u00e7a passaram a ser priorit\u00e1rias.&nbsp;De forma lament\u00e1vel, a cicatriz deixada pelo capacete amarelo de Senna nas curvas de Tamburello, assim como os acidentes de outros pilotos naquele tr\u00e1gico fim de semana, como Rubens Barrichello e Roland Ratzenberger, se tornaram marcas de algo que precisava ser superado e repensado. A famosa curva foi redesenhada, dando lugar a uma <em>chicane <\/em>e obrigando os pilotos a frearem. Em diversos circuitos, as \u00e1reas de escape foram ampliadas e barreiras de absor\u00e7\u00e3o de impacto refor\u00e7adas. Al\u00e9m disso, o design dos cockpits, uniformes e a estrutura dos carros foram revisados. O apoio da cabe\u00e7a e pesco\u00e7o, o <em>Hans <\/em>(\u201chead and neck support\u201d)<em> <\/em>foi incrementado para que n\u00e3o houvesse os mesmos danos que ocorreram com o cr\u00e2nio de Senna ap\u00f3s o acidente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Camila Bosco Eu n\u00e3o vi Ayrton Senna correr. Desconhe\u00e7o a sensa\u00e7\u00e3o de acordar logo cedo em um domingo de manh\u00e3 esperando por Ayrton Senna, e ap\u00f3s o caf\u00e9 quente, sentar em frente \u00e0 televis\u00e3o com a fam\u00edlia esperando pela largada daquele que n\u00e3o seria superado no pr\u00f3prio pa\u00eds. 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