{"id":16859,"date":"2025-08-07T16:41:29","date_gmt":"2025-08-07T19:41:29","guid":{"rendered":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/?p=16859"},"modified":"2025-08-25T17:05:37","modified_gmt":"2025-08-25T20:05:37","slug":"avanco-urbano-ameaca-os-manguezais-e-agrava-as-inundacoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/2025\/08\/07\/avanco-urbano-ameaca-os-manguezais-e-agrava-as-inundacoes\/","title":{"rendered":"Avan\u00e7o urbano amea\u00e7a os manguezais e agrava as inunda\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"\n<p>A expans\u00e3o sobre \u00e1reas fr\u00e1geis destr\u00f3i ecossistemas, amplia desigualdades e coloca popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis no centro dos desastres clim\u00e1ticos<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Por Mahyara Luiza e Maria Clara Kuboski<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Joinville, a maior cidade de Santa Catarina, convive cada vez mais com cenas de ruas alagadas, rios cheios e picos de mar\u00e9 alta. O que parece apenas consequ\u00eancia das chuvas, na verdade, \u00e9 resultado de d\u00e9cadas de escolhas urbanas que ignoraram as caracter\u00edsticas ambientais da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde 1950, Joinville cresceu sem levar em conta que parte significativa de seu territ\u00f3rio est\u00e1 sobre manguezais e \u00e1reas naturalmente alag\u00e1veis. Com o avan\u00e7o das constru\u00e7\u00f5es, esses ambientes foram suprimidos, comprometendo a capacidade natural de drenagem e aumentando os impactos das chuvas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO manguezal funciona como uma esponja. Ele armazena \u00e1gua, regula a mar\u00e9 e protege a cidade dos alagamentos\u201d, explica Johnatas Avelir Alves, Bi\u00f3logo do Instituto Meros do Brasil e do Instituto Comar. \u201cQuando destru\u00edmos isso, perdemos uma defesa natural fundamental.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, os manguezais cumprem uma fun\u00e7\u00e3o essencial no combate \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Eles sequestram carbono da atmosfera e armazenam esse g\u00e1s no solo. Quando s\u00e3o derrubados, o carbono \u00e9 liberado, contribuindo diretamente para o aquecimento global.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Onde chove mais, mas escoa menos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Entre 2020 e 2025, Joinville intensificou o mapeamento de \u00e1reas vulner\u00e1veis a desastres naturais. De acordo com a Defesa Civil municipal, 24 regi\u00f5es foram identificadas com risco de deslizamentos e inunda\u00e7\u00f5es. Esses locais est\u00e3o concentrados, principalmente, em encostas, margens de rios e setores com presen\u00e7a de manguezais, como nos bairros Jardim Iriri\u00fa e Comasa.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/IMG-20250807-WA0024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16860\" style=\"width:350px;height:263px\" width=\"350\" height=\"263\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Mapa da Defesa Civil de Joinville com zonas propensas a alagamentos (\u00e1reas em vermelho)<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>\u201cMuitos dos locais que alagam hoje j\u00e1 eram \u00e1reas de alagamento natural. Antes, havia floresta. Agora, h\u00e1 casas\u201d, afirma o bi\u00f3logo Johnatas. \u201cO mais grave \u00e9 que isso est\u00e1 registrado no pr\u00f3prio mapa da prefeitura. A pergunta \u00e9: por que continuam permitindo construir nestes lugares?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta, segundo Charles Henrique Voss, doutor em Sociologia Urbana, est\u00e1 na pr\u00f3pria l\u00f3gica de desenvolvimento da cidade. \u201cJoinville foi planejada para proteger as \u00e1reas nobres. Os mais pobres foram empurrados para os manguezais, \u00e0s margens dos rios e das encostas. Isso n\u00e3o \u00e9 desorganiza\u00e7\u00e3o, \u00e9 um modelo de cidade excludente, constru\u00eddo historicamente.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Esse processo est\u00e1 diretamente relacionado ao que ele define como racismo ambiental, quando popula\u00e7\u00f5es negras, pardas e de baixa renda s\u00e3o as mais impactadas pelos problemas urbanos e ambientais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Regulariza\u00e7\u00e3o e recupera\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/IMG-20250807-WA0026.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16861\" style=\"width:371px;height:208px\" width=\"371\" height=\"208\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">(Foto: SOS Manguezais)<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Cidade reconhece ocupa\u00e7\u00f5es, mas ignora os impactos ambientais.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante desse cen\u00e1rio, a principal resposta do poder p\u00fablico tem sido a regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria. \u00c1reas ocupadas irregularmente passam a ser reconhecidas como parte da malha urbana, com direito \u00e0 a escritura, infraestrutura b\u00e1sica e servi\u00e7os p\u00fablicos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cReconhecemos \u00e1reas consolidadas. A partir disso, estabelecemos uma barreira: daqui para c\u00e1 pode, daqui para l\u00e1 n\u00e3o pode mais\u201d, explica Magda Cristina Villanueva Franco, gerente da Unidade de Desenvolvimento de Gest\u00e3o Ambiental da Secretaria de Meio Ambiente de Joinville.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a regulariza\u00e7\u00e3o n\u00e3o resolve o problema ambiental. \u201cQuando a vegeta\u00e7\u00e3o \u00e9 suprimida, o solo \u00e9 compactado e a drenagem natural destru\u00edda, n\u00e3o adianta mais chamar aquilo de \u00e1rea de preserva\u00e7\u00e3o permanente\u201d, afirma Magda.<\/p>\n\n\n\n<p>O munic\u00edpio at\u00e9 possui planos de recupera\u00e7\u00e3o, mas eles s\u00e3o lentos e insuficientes frente ao ritmo da expans\u00e3o. Ao mesmo tempo, seguem em andamento projetos como o Vale Verde e a expans\u00e3o da Zona Sul, que transformam \u00e1reas de prote\u00e7\u00e3o ambiental em zonas urbanas, especialmente na regi\u00e3o dos Espinheiros e da Ba\u00eda Babitonga.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Custo ambiental e futuro incerto<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m das perdas humanas, materiais e sociais, h\u00e1 tamb\u00e9m um custo ambiental alto. A destrui\u00e7\u00e3o dos manguezais n\u00e3o s\u00f3 agrava as enchentes como tamb\u00e9m compromete a biodiversidade e a capacidade da cidade de enfrentar os efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO manguezal \u00e9 nosso maior aliado no sequestro de carbono. Quando destru\u00eddo, n\u00e3o s\u00f3 perdemos esse filtro, como liberamos o carbono que estava armazenado no solo h\u00e1 s\u00e9culos. \u00c9 um tiro no p\u00e9\u201d, alerta Johnatas.<\/p>\n\n\n\n<p>Dados do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) mostram que a frequ\u00eancia e a intensidade de eventos extremos aumentaram no Sul do Brasil. Em Joinville, a m\u00e9dia de chuvas intensas cresceu 26% na \u00faltima d\u00e9cada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Solu\u00e7\u00f5es existem, mas ficam no papel<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para os especialistas, o caminho para conter o crescimento desordenado das cidades passa por frear o avan\u00e7o do per\u00edmetro urbano e investir no adensamento das \u00e1reas j\u00e1 ocupadas, com mais infraestrutura, transporte e habita\u00e7\u00e3o digna.<\/p>\n\n\n\n<p>Charles defende programas de aluguel social, que poderiam evitar que fam\u00edlias ocupem \u00e1reas de risco, al\u00e9m de pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas para a recupera\u00e7\u00e3o de ecossistemas como os manguezais.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto o modelo atual priorizar a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria e ignorar os limites do meio ambiente, Joinville continuar\u00e1 sendo a cidade onde chove mais, mas escoa menos. E quem sofre s\u00e3o aqueles que t\u00eam menos.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A expans\u00e3o sobre \u00e1reas fr\u00e1geis destr\u00f3i ecossistemas, amplia desigualdades e coloca popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis no centro dos desastres clim\u00e1ticos Por Mahyara Luiza e Maria Clara Kuboski Joinville, a maior cidade de Santa Catarina, convive cada vez mais com cenas de ruas alagadas, rios cheios e picos de mar\u00e9 alta. 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