{"id":17707,"date":"2025-12-02T19:12:57","date_gmt":"2025-12-02T22:12:57","guid":{"rendered":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/?p=17707"},"modified":"2025-12-02T19:12:58","modified_gmt":"2025-12-02T22:12:58","slug":"tradicao-e-memoria-alema-seguem-vivas-em-joinville","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/2025\/12\/02\/tradicao-e-memoria-alema-seguem-vivas-em-joinville\/","title":{"rendered":"Tradi\u00e7\u00e3o e mem\u00f3ria alem\u00e3 seguem vivas em Joinville"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Da mesa farta das antigas col\u00f4nias aos encontros familiares de hoje, descendentes mant\u00eam pr\u00e1ticas que atravessam gera\u00e7\u00f5es e ajudam a moldar a identidade cultural da cidade.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Por Priscila Pereira<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A lembran\u00e7a da av\u00f3 falando apenas alem\u00e3o. A mesa cheia de marreco recheado, repolho roxo e aipim. A m\u00fasica t\u00edpica ecoando nos encontros de fam\u00edlia. Para muitos germanos descendentes que vivem em Joinville, como Risolete Riper, essas mem\u00f3rias n\u00e3o s\u00e3o apenas cenas do passado, s\u00e3o o fio que mant\u00e9m viva uma heran\u00e7a transmitida de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. \u201cA minha Oma falava praticamente s\u00f3 alem\u00e3o. O que eu sei, aprendi com ela. Era a minha melhor amiga\u201d, lembra.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como <em>Risolete Riper, La\u00e9rcio Beckhauser e Jos\u00e9 Francisco Gaiger<\/em> tamb\u00e9m carregam marcas profundas dessa identidade. A l\u00edngua, a culin\u00e1ria, a m\u00fasica, as festas comunit\u00e1rias e at\u00e9 as dores herdadas como a repress\u00e3o sofrida por fam\u00edlias ga\u00fachas durante o Estado Novo\u00a0 ajudam a compor o mosaico que ainda pulsa na cidade.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"525\" height=\"350\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Foto-de-Thiago-Santos1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-17708\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Grupo de m\u00fasicos tocando acorde\u00e3o durante evento cultural em Joinville | Foto: Banco de dados da Prefeitura de Joinville\n<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>\u00c9 a partir dessas viv\u00eancias que o passado se conecta ao presente. E para entender de onde v\u00eam essas pr\u00e1ticas t\u00e3o enraizadas, \u00e9 necess\u00e1rio voltar ao in\u00edcio do fluxo migrat\u00f3rio que moldou o Norte de Santa Catarina.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Uma hist\u00f3ria que atravessa s\u00e9culos<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Documentos do <a href=\"https:\/\/www.joinville.sc.gov.br\/institucional\/secult\/upm\/ahi\/?utm_source=chatgpt.com\">Arquivo Hist\u00f3rico de Joinville (AHJ)<\/a> mostram que a presen\u00e7a alem\u00e3 no territ\u00f3rio antecede a pr\u00f3pria funda\u00e7\u00e3o oficial do munic\u00edpio. A \u00e1rea integrava o Dom\u00ednio Dona Francisca, criado em 1843 como dote da princesa Francisca Carolina. Em 1849, o procurador do casal, L\u00e9once Aub\u00e9, firmou um contrato de imigra\u00e7\u00e3o com a firma de Christian Mathias Schr\u00f6der, em Hamburgo.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o Museu Nacional de Imigra\u00e7\u00e3o e Coloniza\u00e7\u00e3o (MNIC), o primeiro grupo chegou em 1851, composto por su\u00ed\u00e7os e alem\u00e3es que se estabeleceram \u00e0s margens do ribeir\u00e3o que hoje leva o nome de Mathias.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse movimento acompanhava a expans\u00e3o da imigra\u00e7\u00e3o de l\u00edngua alem\u00e3 no Estado. Registros do <a href=\"https:\/\/acervo.arquivopublico.sc.gov.br\/index.php\/imigracao?listLimit=50&amp;page=2&amp;sf_culture=pt_BR&amp;sort=referenceCode&amp;sortDir=desc&amp;utm_source=chatgpt.com\">Arquivo P\u00fablico de Santa Catarina (APESC)<\/a> apontam que ela come\u00e7ou em 1828, em S\u00e3o Pedro de Alc\u00e2ntara, avan\u00e7ou para Blumenau em 1850 e chegou \u00e0 Col\u00f4nia Dona Francisca logo depois. Entre 1851 e 1889, milhares de imigrantes passaram pela regi\u00e3o, formando n\u00facleos que dariam origem a diversas cidades do Norte catarinense.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 nesse contexto que se inserem as hist\u00f3rias de La\u00e9rcio, Risolete e Jos\u00e9, trajet\u00f3rias que revelam como a germanidade se preservou, se transformou e permanece presente na vida cotidiana de Joinville.<\/p>\n\n\n\n<p>La\u00e9rcio Beckhauser, empres\u00e1rio aposentado, traz consigo uma heran\u00e7a que remonta a 1862, quando seus ancestrais chegaram a S\u00e3o Pedro de Alc\u00e2ntara. As reuni\u00f5es familiares resultaram em mais de dez livros de mem\u00f3ria e genealogia. Para ele, a germanidade se manifesta no cotidiano. \u201cA l\u00edngua, a comida e a m\u00fasica sempre estiveram presentes. Todas as festas t\u00eam um pouco disso\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>La\u00e9rcio tamb\u00e9m participou da cria\u00e7\u00e3o da FenaChopp no fim dos anos 1980, evento reconhecido pela Funda\u00e7\u00e3o Cultural de Joinville como marco da retomada p\u00fablica da cultura germ\u00e2nica na cidade ap\u00f3s d\u00e9cadas de sil\u00eancio e estigmas.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Foto-de-Thiago-Santos2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-17709\" style=\"width:535px;height:354px\" width=\"535\" height=\"354\" srcset=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Foto-de-Thiago-Santos2.jpg 1600w, https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Foto-de-Thiago-Santos2-1536x1017.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 535px) 100vw, 535px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">La\u00e9rcio Beckhauser, Risolete Riper e Frida Fenachopp durante o festival da Fenachopp em Joinville | Foto: Priscila Pereira<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>A hist\u00f3ria de Risolete Riper est\u00e1 profundamente ligada \u00e0s ra\u00edzes de Pirabeiraba e Corup\u00e1. Muito do que ela sabe sobre a cultura alem\u00e3 veio da av\u00f3, nascida em 1900. As receitas tradicionais, marreco recheado, repolho roxo, aipim e os encontros com m\u00fasica t\u00edpica formam o ambiente em que cresceu. Para ela, manter a cultura n\u00e3o \u00e9 imposi\u00e7\u00e3o, mas conviv\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 Jos\u00e9 Francisco Loureiro Gaiger carrega um cap\u00edtulo frequentemente omitido da mem\u00f3ria local. Sua fam\u00edlia est\u00e1 documentada no Rio Grande do Sul desde o s\u00e9culo 19 e enfrentou repress\u00e3o durante o <a href=\"https:\/\/brasilescola.uol.com.br\/historiab\/vargas.htm#:~:text=o%20Estado%20Novo-,O%20que%20foi%20o%20Estado%20Novo?,mais%20depois%20da%20publicidade%20;%29\">Estado Novo<\/a>, quando o governo Vargas proibiu o uso p\u00fablico do alem\u00e3o, fechou escolas comunit\u00e1rias e perseguiu imigrantes e descendentes. Documentos do Arquivo Hist\u00f3rico de Santa Catarina confirmam deten\u00e7\u00f5es e monitoramento entre 1938 e 1945.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTentaram enxovalhar (manchar a imagem) do meu pai na \u00e9poca da guerra. Houve muita persegui\u00e7\u00e3o\u201d, relata. Ao chegar a Joinville nos anos 1980, ainda encontrou resist\u00eancias baseadas em estere\u00f3tipos sobre quem seria \u201cmais\u201d ou \u201cmenos\u201d alem\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar das diferen\u00e7as, as tr\u00eas hist\u00f3rias convergem em um ponto, a cultura alem\u00e3 permanece viva n\u00e3o apenas nas grandes festas, mas na mem\u00f3ria afetiva, nos rituais dom\u00e9sticos, na l\u00edngua dos mais velhos e em uma forma de viver que atravessa o tempo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Entre Schlachtfest e FenaChopp, tradi\u00e7\u00f5es alem\u00e3s seguem unindo gera\u00e7\u00f5es<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As celebra\u00e7\u00f5es de origem alem\u00e3 na regi\u00e3o mostram como tradi\u00e7\u00e3o e comunidade caminham juntas desde o per\u00edodo colonial. O Schlachtfest, amplamente documentado pela Funda\u00e7\u00e3o Cultural de Joinville, preserva pr\u00e1ticas trazidas pelos primeiros imigrantes: preparo coletivo dos alimentos, mesa farta e m\u00fasica que acompanha a conviv\u00eancia. Mesmo quando realizado em vers\u00f5es menores, por fam\u00edlias ou associa\u00e7\u00f5es, o ritual mant\u00e9m elementos que remontam ao s\u00e9culo 19.<\/p>\n\n\n\n<p>No ambiente urbano, a FenaChopp cumpre papel complementar. Criada no fim dos anos 1980 por La\u00e9rcio Beckhauser, a festa re\u00fane gastronomia, grupos folcl\u00f3ricos, cervejarias e apresenta\u00e7\u00f5es culturais que representam a fase contempor\u00e2nea da germanidade catarinense. Registros da Funda\u00e7\u00e3o Cultural de Joinville apontam a FenaChopp como uma das celebra\u00e7\u00f5es respons\u00e1veis por revitalizar publicamente a identidade alem\u00e3 na cidade ap\u00f3s d\u00e9cadas de estigma e silenciamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Juntas, essas festas revelam que a cultura alem\u00e3 em Joinville n\u00e3o se limita ao passado, mas segue se renovando, assumindo seu lugar na identidade da cidade e mantendo sua presen\u00e7a vibrante nas tradi\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Da mesa farta das antigas col\u00f4nias aos encontros familiares de hoje, descendentes mant\u00eam pr\u00e1ticas que atravessam gera\u00e7\u00f5es e ajudam a moldar a identidade cultural da cidade. Por Priscila Pereira A lembran\u00e7a da av\u00f3 falando apenas alem\u00e3o. A mesa cheia de marreco recheado, repolho roxo e aipim. A m\u00fasica t\u00edpica ecoando nos encontros de fam\u00edlia. 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