{"id":2042,"date":"2019-04-23T16:40:23","date_gmt":"2019-04-23T19:40:23","guid":{"rendered":"http:\/\/revidigital.com.br\/?p=2042"},"modified":"2019-04-23T16:40:23","modified_gmt":"2019-04-23T19:40:23","slug":"faltam-politicas-de-auxilio-a-maes-cientistas-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/2019\/04\/23\/faltam-politicas-de-auxilio-a-maes-cientistas-no-brasil\/","title":{"rendered":"Faltam pol\u00edticas de aux\u00edlio a m\u00e3es cientistas no Brasil"},"content":{"rendered":"<h4><em>Por Giovana Corr\u00eaa e Luana Ver\u00e7osa \/ Foto capa: T\u00e2nia Rego &#8211; Ag\u00eancia Brasil<\/em><\/h4>\n<p>Fernanda Staniscuaski \u00e9 docente e pesquisadora na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, professora na institui\u00e7\u00e3o e m\u00e3e. As horas de <strong>pesquisa<\/strong> no laborat\u00f3rio deram vez \u00e0s noites de cuidado com seus dois filhos. \u201cEu estava acostumada a ter disponibilidade para poder trabalhar das 7 da manh\u00e3 \u00e0s 7 da noite se necess\u00e1rio. Podia escrever projetos, preparar aulas em casa, mas, depois que os guris nasceram, isso n\u00e3o acontece mais\u201d, relata. A pesquisadora conta que a <strong>maternidade<\/strong> impactou diretamente na sua <strong>carreira cient\u00edfica<\/strong>. Ao dividir o seu tempo entre as horas em sala de aula, a pesquisa e as crian\u00e7as, a <strong>ci\u00eancia<\/strong> acaba ficando para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 um dos pa\u00edses que conta com a maior quantidade de artigos cient\u00edficos publicados por <strong>mulheres<\/strong>. De acordo com o relat\u00f3rio <a href=\"https:\/\/www.elsevier.com\/__data\/assets\/pdf_file\/0008\/265661\/ElsevierGenderReport_final_for-web.pdf\"><em>Gender in the Global Research <\/em><\/a><a href=\"https:\/\/www.elsevier.com\/__data\/assets\/pdf_file\/0008\/265661\/ElsevierGenderReport_final_for-web.pdf\"><em>Landscap<\/em><\/a><a href=\"https:\/\/www.elsevier.com\/__data\/assets\/pdf_file\/0008\/265661\/ElsevierGenderReport_final_for-web.pdf\"><em>e<\/em><\/a>, publicado pela editora Elsevier, cerca de 49% de toda a publica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do Brasil \u00e9 feita por mulheres. A porcentagem de artigos escritos por autoras \u00e9 ainda maior, cerca de 72%, segundo a pesquisa divulgada pela Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Ibero-americanos. Apesar disso, ainda n\u00e3o existem pol\u00edticas espec\u00edficas de aux\u00edlio em per\u00edodos como a maternidade, o que faz com que a produtividade acad\u00eamica das pesquisadoras diminua.<\/p>\n<p>Para Fernanda, as dificuldades n\u00e3o ficam apenas na organiza\u00e7\u00e3o do tempo. A falta de amparo para dar continuidade \u00e0 carreira e o preconceito dentro do meio acad\u00eamico tamb\u00e9m dificultaram o avan\u00e7o da cientista.<\/p>\n<p>Uma pesquisa realizada pela <em>think tank<\/em> brit\u00e2nica <em>Overseas Development Institute<\/em> (ODI), em 2016, revela que as mulheres passam mais tempo (at\u00e9 10 anos a mais) do que os homens em atividades dom\u00e9sticas n\u00e3o remuneradas, principalmente no cuidado com os filhos.\u00a0 No Brasil, segundo dados do IBGE (2016), elas dedicam quase o dobro de horas semanais aos afazeres dom\u00e9sticos do que os homens: s\u00e3o 20,9 horas contra 11,1. Essa discrep\u00e2ncia afeta diretamente as demais \u00e1reas da vida das mulheres. No meio acad\u00eamico, por exemplo, muitas vezes elas precisam conciliar in\u00fameras fun\u00e7\u00f5es com a maternidade. \u201cA produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e9 um tipo de atividade que requer uma outra temporalidade, n\u00e3o \u00e9 algo que voc\u00ea resolve de imediato, ela requer pesquisa, sa\u00edda para coleta de dados, tempo de reflex\u00e3o para formular teorias a partir de leituras e tudo isso exige uma concentra\u00e7\u00e3o que o cuidado com a maternidade muitas vezes n\u00e3o permite\u201d, explica a doutora em Antropologia Social Maria Elisa M\u00e1ximo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2057\" aria-describedby=\"caption-attachment-2057\" style=\"width: 461px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-2057 size-full\" src=\"http:\/\/revidigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Elisa-2.jpg\" alt=\"\" width=\"461\" height=\"405\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2057\" class=\"wp-caption-text\">Doutora Maria Elisa M\u00e1ximo e seu filho Vicente\/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>Elisa aponta que a ci\u00eancia, hoje, n\u00e3o difere da l\u00f3gica do mercado: quanto mais se produz, mais se conquista. Como exemplo, menciona que algumas linhas de financiamento exigem uma comprova\u00e7\u00e3o de produtividade na \u00e1rea. \u201cSe voc\u00ea est\u00e1, digamos, h\u00e1 um ano sem produzir um artigo, sem coordenar um projeto, orientar alunos, sem, enfim, realizar essas coisas que s\u00e3o da nossa rotina acad\u00eamica, voc\u00ea ir\u00e1 pontuar menos e, provavelmente, n\u00e3o vai conseguir obter uma linha de financiamento\u201d, argumenta. Consequentemente, sem recursos financeiros, a pesquisadora passa ainda mais tempo sem produzir e perde ainda mais oportunidades. \u201cA licen\u00e7a-maternidade coloca a mulher em uma posi\u00e7\u00e3o desigual na competi\u00e7\u00e3o com outros pesquisadores homens ou mulheres que n\u00e3o estejam vivendo essa situa\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o existe nenhuma pol\u00edtica p\u00fablica que atenue os efeitos dessa disparidade\u201d, avalia Maria Elisa.<\/p>\n<p>Diante desta situa\u00e7\u00e3o, h\u00e1 algum tempo pesquisadoras se organizam no meio cient\u00edfico em um movimento para dar visibilidade a esse problema. Elas passaram a utilizar a plataforma Lattes para incluir, no texto de apresenta\u00e7\u00e3o, o per\u00edodo em que estiveram de licen\u00e7a-maternidade. O prop\u00f3sito \u00e9 contribuir para a constru\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas que atuem para minimizar os impactos negativos que o per\u00edodo da maternidade causa na carreira cient\u00edfica. Motivada por essa demanda, a Diretoria Executiva do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq) aprovou, recentemente, a proposta de incluir a data de nascimento e de ado\u00e7\u00e3o de filhos como um campo de preenchimento facultativo do Curr\u00edculo Lattes.<\/p>\n<p><strong>Parent in Science estuda <\/strong><strong>impacto da maternidade na produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica<\/strong><\/p>\n<p>Essa conquista \u00e9 um dos frutos do projeto criado por Fernanda Staniscuaski, o <em>Parent in Science<\/em>. Desenvolvido com o objetivo inicial de criar um fundo de pesquisa espec\u00edfico para m\u00e3es-cientistas, o foco do projeto mudou, pois praticamente n\u00e3o existiam dados sobre a situa\u00e7\u00e3o de mulheres que s\u00e3o m\u00e3es e pesquisadoras. Fernanda explica que faltam informa\u00e7\u00f5es tanto no \u00e2mbito nacional quanto internacional. \u201cN\u00e3o t\u00ednhamos dados, principalmente quantitativos, sobre o impacto da maternidade na carreira cient\u00edfica no Brasil. At\u00e9 mesmo em termos mundiais, a quantidade de dados era limitada. Ent\u00e3o o <em>Parent in Science<\/em> virou um projeto de pesquisa que visa entender o impacto da maternidade na produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e obten\u00e7\u00e3o de financiamento na carreira das cientistas brasileiras\u201d, explica.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de estudar as condi\u00e7\u00f5es das m\u00e3es que est\u00e3o inseridas no meio acad\u00eamico, a fim de tra\u00e7ar o perfil dessas m\u00e3es-cientistas, o <em>Parent in Science <\/em>tem algumas reivindica\u00e7\u00f5es para diminuir a desigualdade no meio cient\u00edfico. Salas de amamenta\u00e7\u00e3o nas universidades, creches nos campi, editais espec\u00edficos para m\u00e3es cientistas e aceita\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as nos espa\u00e7os de eventos cient\u00edficos s\u00e3o algumas solicita\u00e7\u00f5es do projeto.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2058\" aria-describedby=\"caption-attachment-2058\" style=\"width: 461px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-2058 size-full\" src=\"http:\/\/revidigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Laborat\u00f3rio-2-palestra.jpg\" alt=\"\" width=\"461\" height=\"419\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2058\" class=\"wp-caption-text\">Fernanda Staniscuaski, criadora do projeto Parent Science<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Coletivo apoia m\u00e3es pesquisadoras<\/strong><\/p>\n<p>Pesquisar, apoiar e compartilhar experi\u00eancias s\u00e3o os prop\u00f3sitos do Coletivo M\u00e3es na Universidade, criado pelas doutorandas Vanessa Clemente Cardoso e Fernanda Moura. Tudo come\u00e7ou quando, em novembro de 2017, Vanessa decidiu criar um grupo no Facebook para m\u00e3es que cursavam p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Ela tomou a iniciativa depois de perceber que, embora participasse de muitos grupos de m\u00e3es, a realidade que vivia era bem diferente das outras m\u00e3es por enfrentar tanto as dificuldades relacionadas \u00e0 maternidade quanto problemas ligados \u00e0 pesquisa cient\u00edfica e \u00e0 carreira acad\u00eamica. Com a cria\u00e7\u00e3o do grupo \u201cMam\u00e3es na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o\u201d, ela conseguiu se conectar com outras mulheres que viviam a mesma situa\u00e7\u00e3o e lembra que houve muita troca de experi\u00eancias e relatos desde o in\u00edcio.<\/p>\n<p>Meses depois, Vanessa recebeu um convite da estudante da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Fernanda Moura, para administrar a p\u00e1gina que ela havia acabado de criar: \u201cM\u00e3es na Universidade\u201d. A p\u00e1gina re\u00fane os relatos de supera\u00e7\u00e3o dessas mulheres, assim como as hist\u00f3rias de m\u00e3es que acabaram desistindo da carreira acad\u00eamica devido \u00e0s dificuldades para conciliar os dois universos. Motivada por isso e por outras iniciativas que conhecia, Vanessa mobilizou estudantes e professoras na sua universidade e elas criaram o Coletivo de M\u00e3es da UFG, que atualmente \u00e9 administrado por dez m\u00e3es.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a cria\u00e7\u00e3o desse coletivo, Vanessa come\u00e7ou a ser contatada por acad\u00eamicas de todo o Brasil, que tamb\u00e9m administravam grupos parecidos, pedindo dicas e orienta\u00e7\u00f5es. \u201cPara falar a verdade eu n\u00e3o sabia muito o que dizer, era um universo muito novo para mim tamb\u00e9m. Eu fui fazendo as coisas e foi tomando uma propor\u00e7\u00e3o que nem eu imaginava\u201d, relata. Depois de muitas trocas e conversas com essas mulheres, ela pensou em criar o Coletivo Nacional de M\u00e3es na Universidade, de forma que todas as informa\u00e7\u00f5es que havia reunido at\u00e9 ali fossem sistematizadas, divulgadas e compartilhadas entre todas essas m\u00e3es. A ideia \u00e9 facilitar n\u00e3o apenas a manuten\u00e7\u00e3o dos coletivos j\u00e1 existentes, mas tamb\u00e9m a cria\u00e7\u00e3o de novos, j\u00e1 que as m\u00e3es n\u00e3o precisariam come\u00e7ar seus projetos do zero e poderiam seguir modelos de sucesso.<\/p>\n<p>O Coletivo Nacional M\u00e3es na Universidade \u00e9 administrado por mulheres de diversos coletivos pelo Brasil, entre eles o da Universidade Federal de Santa Catarina, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, PUC, Universidade Federal Fluminense e UFG. O coletivo reivindica mais creches nas escolas e universidades p\u00fablicas, aux\u00edlio-maternidade para as bolsistas e pesquisadoras m\u00e3es, concess\u00e3o da licen\u00e7a maternidade para m\u00e3es-estudantes e direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o dos filhos nos restaurantes universit\u00e1rios, bem como a garantia de sua integridade, seguran\u00e7a e cuidado em todos os espa\u00e7os da universidade e escolas.<\/p>\n<p>Altera\u00e7\u00e3o no texto feita em 26\/4\/2019 \u00e0s 11h28: Fernanda\u00a0Staniscuaski \u00e9 docente e pesquisadora da UFRGS, j\u00e1 concluiu seu doutorado, portanto n\u00e3o \u00e9 &#8220;doutoranda&#8221;, como originalmente estava na mat\u00e9ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Giovana Corr\u00eaa e Luana Ver\u00e7osa \/ Foto capa: T\u00e2nia Rego &#8211; Ag\u00eancia Brasil Fernanda Staniscuaski \u00e9 docente e pesquisadora na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, professora na institui\u00e7\u00e3o e m\u00e3e. 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