{"id":2872,"date":"2019-07-26T14:19:47","date_gmt":"2019-07-26T17:19:47","guid":{"rendered":"http:\/\/revidigital.com.br\/?p=2872"},"modified":"2019-07-26T14:19:47","modified_gmt":"2019-07-26T17:19:47","slug":"escavacoes-no-sambaqui-atraem-visitantes-ao-bairro-guanabara","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/2019\/07\/26\/escavacoes-no-sambaqui-atraem-visitantes-ao-bairro-guanabara\/","title":{"rendered":"Escava\u00e7\u00f5es no sambaqui atraem visitantes ao bairro Guanabara"},"content":{"rendered":"<h4><em>Por Lucas Borba<\/em><\/h4>\n<p>O<strong> sambaqui<\/strong> Morro do Ouro, localizado no bairro Guanabara, \u00e9 um s\u00edtio pr\u00e9-hist\u00f3rico, datado em 4.100 anos. Desde o dia 18 de julho, uma equipe de pesquisadores trabalha em <strong>escava\u00e7\u00f5es<\/strong> numa \u00e1rea de 12 metros quadrados, que est\u00e1 no topo do monte. A inten\u00e7\u00e3o\u00a0 \u00e9 entender n\u00e3o apenas a alimenta\u00e7\u00e3o dos povos passados, mas o cultivo e o manejo de plantas na costa da Mata Atl\u00e2ntica durante a <strong>Pr\u00e9-Hist\u00f3ria<\/strong>. Cerca de 30 pessoas participam da <strong>pesquisa<\/strong>. O n\u00famero varia conforme revezamentos e a chegada de novos volunt\u00e1rios. A escava\u00e7\u00e3o vai at\u00e9 o dia 10 de agosto e o estudo tem prazo de um ano para ser conclu\u00eddo.\u00a0\u00a0\u00c9 poss\u00edvel visitar o local diariamente, das 10 \u00e0s 16 horas.<\/p>\n<p>Para a <strong>arque\u00f3loga<\/strong> Dione da Rocha Bandeira, s\u00e3o muitas as quest\u00f5es a se estudar em rela\u00e7\u00e3o aos sambaquis, afinal eles ocupam praticamente toda a costa brasileira e h\u00e1 muitos s\u00edtios que nunca foram estudados. \u201cAinda n\u00e3o se sabe ao certo como eles chegaram \u00e0 costa, existem algumas teorias; n\u00e3o se sabe se os s\u00edtios que est\u00e3o na costa s\u00e3o os mais antigos. Hoje, onde est\u00e1 o oceano pode haver alguns s\u00edtios mais antigos, h\u00e1 ind\u00edcios\u201d, explica.<\/p>\n<p>Sambaqui significa em tupi: tamba (concha) e ki (amontoado), ou seja, \u201cmonte de conchas\u201d. A Pr\u00e9-Hist\u00f3ria corresponde ao passado que antecede a escrita (por volta de 3.000-2.000 a.C. na Mesopot\u00e2mia e no Egito), um conceito flex\u00edvel conforme a cultura estudada. Os sambaquis eram amontoados, propositalmente, por popula\u00e7\u00f5es pr\u00e9-hist\u00f3ricas e s\u00e3o considerados como obras arquitet\u00f4nicas, onde se encontram sepultamentos humanos, instrumentos de pesca e ca\u00e7a, al\u00e9m de pe\u00e7as produzidas em ossos de animais e conchas.<\/p>\n<p>\u201cPara preservar voc\u00ea precisa conhecer\u201d, afirma\u00a0 Ana Sprenger Valuf, estudante de Antropologia com linha de forma\u00e7\u00e3o arqueol\u00f3gica na UFPel (Pelotas). Segundo Ana, com a divulga\u00e7\u00e3o do projeto, as pessoas visitam o lugar e conseguem ter a dimens\u00e3o da import\u00e2ncia dos sambaquis nas hist\u00f3rias delas, de Joinville e do Brasil. Os sambaquis acabam virando um grande documento, um registro de concentra\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es, principalmente biol\u00f3gicas, sobre o ambiente antigo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2875\" aria-describedby=\"caption-attachment-2875\" style=\"width: 4608px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-2875 size-full\" src=\"http:\/\/revidigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/20190726_103203.jpg\" alt=\"\" width=\"4608\" height=\"2240\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2875\" class=\"wp-caption-text\">Restos de ossos ajudam a compreender como viviam nossos antepassados h\u00e1 mais de 4 ml anos \/ Fotos: Lucas Borba<\/figcaption><\/figure>\n<h4>Estudo re\u00fane equipe multidisciplinar<\/h4>\n<p>A pesquisa \u00e9 multidisciplinar, integra uma rede de pesquisadores do Brasil e do exterior. Envolve as universidades de York e Exeter (da <strong>Inglaterra<\/strong>); Univille,\u00a0 o <strong>Museu Arqueol\u00f3gico de Sambaqui de Joinville<\/strong>;\u00a0 Museu de Arqueologia e Etnologia da USP (S\u00e3o Paulo) e Museu Nacional do Rio de Janeiro. A Associa\u00e7\u00e3o de Amigos do MASJ e a<strong> Faculdade Ielusc<\/strong> tamb\u00e9m apoiam o projeto por meio da\u00a0 participa\u00e7\u00e3o de volunt\u00e1rios. Al\u00e9m de joinvilenses, a pesquisa conta com estudantes de Pelotas (RS), Rio Grande (RS), S\u00e3o Paulo (capital), Florian\u00f3polis (SC), Yorkshire (Inglaterra) e Guaratuba (PR).<\/p>\n<p>O projeto \u00e9 uma iniciativa do bioarque\u00f3logo <strong>Andr\u00e9 Carlo Colonese<\/strong>, brasileiro radicado na Inglaterra e pesquisador da Universidade de York. Uma vez fechado na escava\u00e7\u00e3o, o material ser\u00e1 separado, depois enviado \u00e0s institui\u00e7\u00f5es respons\u00e1veis por diferentes tipos de an\u00e1lise. Parte do material vai para a Inglaterra, parte para o Museu Nacional do Rio de Janeiro e para a USP. Tudo o que for guardado vai retornar para o Museu do Sambaqui e outra parte ficar\u00e1 na Univille para an\u00e1lise faun\u00edstica.<\/p>\n<p>A estudante Isabela Scarabel, da Univille, explica que, pelos dentes \u00e9 poss\u00edvel identificar quais eram os alimentos consumidos. Da mesma forma, res\u00edduos encontrados em restos de ossos tamb\u00e9m ajudam a decifrar esse enigma do passado. &#8220;Em pesquisas recentes encontraram bastante carboidrato nas ossadas, principalmente das mulheres, como se elas fossem coletoras e isso ajuda a entender a cultura deles\u201d, conta a estudante de Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>As interven\u00e7\u00f5es em <strong>s\u00edtios arqueol\u00f3gicos<\/strong> podem ocorrer partindo de um pressuposto cient\u00edfico ou de uma demanda de obra p\u00fablica ou privada. Ambas precisam de projeto, autoriza\u00e7\u00e3o do Iphan (Instituto de Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional) e licenciamentos.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2877\" aria-describedby=\"caption-attachment-2877\" style=\"width: 1696px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-2877 size-full\" src=\"http:\/\/revidigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/20190724_102258-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1696\" height=\"3344\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2877\" class=\"wp-caption-text\">Escava\u00e7\u00f5es s\u00e3o abertas \u00e0 visita\u00e7\u00e3o do p\u00fablico das 10 \u00e0s 16 horas e o trabalho tamb\u00e9m conta com ajuda de volunt\u00e1rios<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Rosane Patr\u00edcia Fernandes \u00e9 de Guaratuba, cursa doutorado em Patrim\u00f4nio Cultural pela Univille. Para ela, s\u00e3o diferentes vis\u00f5es que contribuem para a constru\u00e7\u00e3o de um \u00fanico saber. \u00c9 uma soma de esfor\u00e7os nas grandes \u00e1reas de conhecimento. \u201cA biologia, a hist\u00f3ria, e a gest\u00e3o [educacional] contribuem de uma forma macro para entender a diversidade que comp\u00f5e o s\u00edtio\u201d, explica Rosane.<\/p>\n<p>Como\u00a0 foi o fim dessa sociedade dos povos sambaquianos? Em tese, quando chegaram os europeus, os sambaquianos j\u00e1 n\u00e3o estavam mais no litoral, teriam outros grupos culturalmente diferentes. Como se deu essa rela\u00e7\u00e3o entre esses povos ainda n\u00e3o est\u00e1 claro. Em se tratando da Ba\u00eda da Babitonga, ainda n\u00e3o se sabe como se relacionam esses v\u00e1rios s\u00edtios que se encontram em uma mesma regi\u00e3o.\u00a0 S\u00e3o necess\u00e1rias mais data\u00e7\u00f5es para saber se eles eram contempor\u00e2neos ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Os materiais arqueol\u00f3gicos encontrados podem gerar novas pesquisas, mais conte\u00fados para a comunica\u00e7\u00e3o museol\u00f3gica e informa\u00e7\u00f5es que complementam um mapeamento arqueol\u00f3gico do continente sul-americano.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Maria Casquero Luiz Filho \u00e9 estudante de Arqueologia na FURG, Universidade de Rio Grande (RS). Ele \u00e9 de Itapecirica da Serra (SP).\u00a0 Para Jos\u00e9, a presen\u00e7a dos sambaquis em plena cidade \u00e9 algo incr\u00edvel. \u201cTem os moradores de rua, crian\u00e7as, todo esse clima urbano e a gente fazendo parte\u201d, continua o pesquisador.<\/p>\n<h4>Preserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio hist\u00f3rico<\/h4>\n<p>A pesquisa alimenta as a\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o, \u00e9 fundamental para\u00a0 demonstrar a import\u00e2ncia do patrim\u00f4nio. Rodrigo Dond\u00e9, formado em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e professor de Idiomas, visitou a escava\u00e7\u00e3o no dia 25. Ele teve a impress\u00e3o de que \u00e9 um processo lento para se descobrir evid\u00eancias. S\u00e3o v\u00e1rias pessoas trabalhando, mas \u00e9 uma \u00e1rea pequena em rela\u00e7\u00e3o ao sambaqui inteiro.<\/p>\n<p>\u201cComo a gente ainda n\u00e3o tem muitas pesquisas de campo, isso coloca mais em evid\u00eancia que a gente tamb\u00e9m tem ali resqu\u00edcios de hist\u00f3ria antiga. A gente costuma achar que hist\u00f3ria antiga s\u00f3 existe em outros pa\u00edses, como M\u00e9xico e Egito, mas aqui tamb\u00e9m tem essas evid\u00eancias\u201d, ponderou Rodrigo.<\/p>\n<p>Para Dione, a pesquisa traz mais visibilidade ao patrim\u00f4nio arqueol\u00f3gico, principalmente quando h\u00e1\u00a0 escava\u00e7\u00e3o, como nesse caso,\u00a0 em que uma equipe permanece\u00a0 v\u00e1rios dias, no mesmo local, escavando e produzindo dados novos e descobertas.<\/p>\n<p>Dione v\u00ea o projeto como um grande difusor de informa\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao patrim\u00f4nio arqueol\u00f3gico. Outra contribui\u00e7\u00e3o fundamental \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de\u00a0 conhecimento sobre esse patrim\u00f4nio. &#8220;\u00c9 uma contribui\u00e7\u00e3o grande que o estudo do patrim\u00f4nio traz para a compreens\u00e3o sociedade brasileira, sobre a hist\u00f3ria de ocupa\u00e7\u00e3o desse vasto territ\u00f3rio\u201d, destaca a arque\u00f3loga.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2880\" aria-describedby=\"caption-attachment-2880\" style=\"width: 4608px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-2880 size-full\" src=\"http:\/\/revidigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/20190726_103325.jpg\" alt=\"\" width=\"4608\" height=\"2240\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2880\" class=\"wp-caption-text\">Reunir evid\u00eancias dos sambaquianos exige paci\u00eancia e aten\u00e7\u00e3o constantes dos pesquisadores, \u00e9 como montar um quebra-cabe\u00e7as<\/figcaption><\/figure>\n<h4>Uma janela para o passado<\/h4>\n<p>Segundo Andr\u00e9 Colonese, o Morro do Ouro \u00e9 um exemplo muito claro de como os s\u00edtios arqueol\u00f3gicos podem ser din\u00e2micos,\u00a0 porque preservam informa\u00e7\u00f5es do passado, mas isso n\u00e3o significa que devam ser cristalizados no tempo e isolados das outras atividades cotidianas. O s\u00edtio foi usado como cemit\u00e9rio, pode ter sido usado para outras finalidades. \u201cHoje \u00e9 usado como local de recrea\u00e7\u00e3o, isso n\u00f3s vemos em v\u00e1rios outros s\u00edtios arqueol\u00f3gicos ao redor do mundo. A import\u00e2ncia \u00e9 oferecer uma narrativa hist\u00f3rica do que foi esse local e, em parte, ajudar na preserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio porque conta uma hist\u00f3ria importante das comunidades daqui\u201d, disse o bioarque\u00f3logo.<\/p>\n<p>A <strong>arqueologia<\/strong> tem colocado os sambaquis como cemit\u00e9rios, ou seja, n\u00e3o eram locais de moradia, como se acreditava d\u00e9cadas atr\u00e1s. Isso leva a outros questionamentos: onde esses povos moravam? Haveria tamb\u00e9m sambaquis de moradia?\u00a0 \u201cTalvez a gente precise direcionar a aten\u00e7\u00e3o para essas \u00e1reas ao redor do sambaqui, para al\u00e9m dele em si, a fim de verificar se existem outras evid\u00eancias de moradia deles\u201d, explica Dione. Uma tarefa muito mais dif\u00edcil em \u00e1rea urbana.<\/p>\n<p>Como obra arquitet\u00f4nica e banco de informa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, o sambaqui precisa ser preservado para a hist\u00f3ria da humanidade n\u00e3o ser esquecida. Para Dione, \u00e9 quase uma janela para o passado. Os achados no Morro do Ouro\u00a0 permitem saber como essas pessoas viviam, compreender como era o ambiente. \u201cSe tem esp\u00e9cies de animais e vegetais e seus restos est\u00e3o aqui, \u00e9 poss\u00edvel buscar dados que possam falar se o ambiente era do mesmo jeito que \u00e9 hoje, se era diferente, se existiam mais esp\u00e9cies, se eram mais abundantes, como \u00e9 que era esse ambiente e pensar essas quest\u00f5es ambientais contempor\u00e2neas\u201d, afirma Dione.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Lucas Borba O sambaqui Morro do Ouro, localizado no bairro Guanabara, \u00e9 um s\u00edtio pr\u00e9-hist\u00f3rico, datado em 4.100 anos. Desde o dia 18 de julho, uma equipe de pesquisadores trabalha em escava\u00e7\u00f5es numa \u00e1rea de 12 metros quadrados, que est\u00e1 no topo do monte. A inten\u00e7\u00e3o\u00a0 \u00e9 entender n\u00e3o apenas a alimenta\u00e7\u00e3o dos povos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":2874,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[14,4],"tags":[647,715,716,717,649],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2872"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2872"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2872\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2872"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2872"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2872"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}