{"id":3501,"date":"2019-10-31T10:16:03","date_gmt":"2019-10-31T12:16:03","guid":{"rendered":"http:\/\/revidigital.com.br\/?p=3501"},"modified":"2019-10-31T10:16:03","modified_gmt":"2019-10-31T12:16:03","slug":"bruxas-deixam-licoes-de-resistencia-e-empoderamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/2019\/10\/31\/bruxas-deixam-licoes-de-resistencia-e-empoderamento\/","title":{"rendered":"Bruxas deixam li\u00e7\u00f5es de resist\u00eancia e empoderamento"},"content":{"rendered":"<h4><em>Por Destiny Goulart, Thiago Rodrigues, Mar\u00edlia Moraes \/<\/em><em>Fotos: Carla Lorentz<\/em><\/h4>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Brincadeiras, fantasias, <strong>gostosuras e travessuras<\/strong> s\u00e3o apenas a parte mais conhecida do <strong>Dia das Bruxas<\/strong>, tamb\u00e9m chamado de <strong>Halloween<\/strong> e lembrado no dia 31 de outubro. Com origens pag\u00e3s entre os povos ga\u00e9licos, a festa original servia para marcar a transi\u00e7\u00e3o da metade mais ensolarada para a metade mais sombria do ano dentro do calend\u00e1rio celta. Para sobreviver \u00e0 cristianiza\u00e7\u00e3o da Europa, muitas pr\u00e1ticas pag\u00e3s enfrentaram persegui\u00e7\u00f5es violentas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No come\u00e7o da Idade Moderna houve a chamada <strong>Ca\u00e7a \u00e0s Bruxas<\/strong>. Ao contr\u00e1rio do que\u00a0 comumente se propaga, n\u00e3o havia, durante boa parte da Idade M\u00e9dia, um grande interesse em perseguir bruxas. A<strong> Inquisi\u00e7\u00e3o<\/strong> estava mais concentrada em combater vertentes consideradas hereges, como os c\u00e1taros e os waldesianos e garantir a convers\u00e3o de novos crist\u00e3os, como no caso de ex-mu\u00e7ulmanos e ex-judeus na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica. Naquela \u00e9poca, o<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0entendimento predominante na Igreja Cat\u00f3lica era\u00a0 de descren\u00e7a na possibilidade de <strong>bruxaria<\/strong>. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No s\u00e9culo XV, entretanto, esse entendimento da Igreja passa a mudar e \u00e9 refor\u00e7ado com a publica\u00e7\u00e3o do <em>Malleus Maleficarium<\/em>. O tratado propagava o exterm\u00ednio de bruxas e foi o primeiro a associar o g\u00eanero feminino como mais propenso \u00e0 pr\u00e1tica de <strong>feiti\u00e7aria<\/strong>, al\u00e9m de recomendar a tortura como forma de confiss\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Segundo a obra da historiadora Natalie Zemon Davis, a m\u00e1gica fazia parte da vida europeia desde a Antiguidade. Alde\u00f5es, artes\u00e3os, pessoas bem instru\u00eddas usavam uma s\u00e9rie de utens\u00edlios e pr\u00e1ticas\u00a0 para curar, mas tamb\u00e9m para prejudicar desafetos. Bruxos ou bruxas nada mais eram que pessoas\u00a0 entendidas em pr\u00e1ticas adotadas\u00a0 para auxiliar em coisas\u00a0 importantes para as pessoas, como o crescimento de hortas, a cura de doen\u00e7as, o nascimento de crian\u00e7as.<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_3545\" aria-describedby=\"caption-attachment-3545\" style=\"width: 6000px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-3545 size-full\" src=\"http:\/\/revidigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Horizontal-frente.jpg\" alt=\"\" width=\"6000\" height=\"4000\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3545\" class=\"wp-caption-text\">Por deter conhecimentos sobre ervas medicinais, muitas mulheres foram condenadas \u00e0 morte \/ Fotos: Carla Lorentz<\/figcaption><\/figure>\n<h2><strong>Sob amea\u00e7a das fogueiras<\/strong><\/h2>\n<p>No passado, muitas mulheres foram\u00a0 acusadas de bruxaria, perseguidas e mortas. A historiadora Valdete Daufemback observa que, a partir da\u00a0metade da Idade M\u00e9dia, a Igreja foi se tornando\u00a0 mais forte, mais poderosa, r\u00edgida e uma igreja somente masculina.\u00a0 As mulheres foram afastadas e n\u00e3o podiam exercer qualquer movimenta\u00e7\u00e3o que\u00a0 despontasse como um poder.<\/p>\n<p>Diante desse quadro de opress\u00e3o, mulheres que sabiam um pouco mais eram perseguidas. Valdete cita como detentoras de conhecimento\u00a0 as parteiras, mulheres que tratavam as pessoas com ch\u00e1s e at\u00e9 aquelas que\u00a0 detinham certo poder sobre os cavaleiros, ex\u00e9rcito. &#8220;Sob suspeita, muitas eram jogadas do penhasco e, se sa\u00edssem voando, era a prova de que eram bruxas; se\u00a0 n\u00e3o voassem, naturalmente morriam da mesma forma&#8221;, explica. A condena\u00e7\u00e3o \u00e0 <strong>fogueira<\/strong> ocorria sob alega\u00e7\u00e3o de que, se o corpo de uma bruxa fosse queimado, a alma daquela mulher seria salva.<\/p>\n<p>Em pleno s\u00e9culo 21,\u00a0 ainda h\u00e1 casos extremos de persegui\u00e7\u00e3o motivados por cren\u00e7as religiosas, como recentes ataques a terreiros de candombl\u00e9.\u00a0 &#8220;A ca\u00e7a \u00e0s bruxas n\u00e3o acabou para as mulheres, a gente percebe no dia a dia a persegui\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres diferentes, \u00e0s mulheres que exercem a pol\u00edtica&#8230; Elas continuam sendo perseguidas e atiradas \u00e0 fogueira, agora de forma psicol\u00f3gica&#8221;, constata Valdete. &#8220;Muitas mulheres hoje passam ainda pelos mesmos perrengues que se passava na Idade M\u00e9dia, na Idade Moderna &#8220;, observa.<\/p>\n<p>Na opini\u00e3o da historiadora,\u00a0 a persegui\u00e7\u00e3o ocorre atualmente de muitas maneiras, como o sal\u00e1rio maior para os homens, exclus\u00e3o das mulheres em alguns setores do mercado de trabalho, pelo feminic\u00eddio motivado, na maioria das vezes, pelo simples fato de n\u00e3o ceder aos caprichos dos homens,\u00a0 persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, entre outras. &#8220;Ainda se reprimem as mulheres para manter a domin\u00e2ncia masculina&#8221;, observa.<span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0&#8220;Esse tipo de persegui\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher nem sempre \u00e9 percebido. Muitas acham\u00a0 normal a diferen\u00e7a salarial ou que sejam impedidas de trabalhar fora de casa, normal que tenham de cuidar dos filhos. A pr\u00f3pria mulher pensa que, se n\u00e3o for dessa maneira\u00a0 pode ser castigada, ent\u00e3o ela continua oprimida&#8221;, comenta Valdete.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-3547\" src=\"http:\/\/revidigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/bruxas-2.jpg\" alt=\"\" width=\"567\" height=\"544\" \/><\/p>\n<h2>Livro relata vida de mulheres que curam<\/h2>\n<p>A jornalista Nathalia Thomassen escreveu a hist\u00f3ria de cinco &#8220;bruxas&#8221; da atualidade. O trabalho, desenvolvido como projeto experimental durante a faculdade, resultou no livro &#8220;<strong>Mulheres que Curam<\/strong>&#8220;, que em breve deve ser publicado. Para produzir a s\u00e9rie de perfis, Nathalia entrevistou as personagens centrais e tamb\u00e9m pessoas que convivem com elas. Tamb\u00e9m participou de alguns <strong>rituais<\/strong>. &#8220;Todas t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o forte com a espiritualidade e com a natureza&#8221;, observa.<\/p>\n<p>Interessada pelos saberes populares, Nathalia afirma que conhecer essas mulheres proporcionou-lhe uma experi\u00eancia \u00edmpar. &#8220;A vida delas roda em torno dessa escolha que fizeram, \u00e9 mais profundo que s\u00f3 praticar uma religi\u00e3o, ir ao culto uma vez por semana&#8221;, compara.<\/p>\n<p>Marina Guadalupe, uma das entrevistadas no livro, mant\u00e9m a <strong>Tenda da Lua Vermelha<\/strong>, em Florian\u00f3polis, onde atende mulheres ligadas ao sagrado feminino. Caroline Mottin, a &#8220;Caro&#8221;, mant\u00e9m &#8211; entre outras atividades &#8211; uma oficina de vassouras encantadas. Todas utilizam seus saberes a favor do empoderamento feminino.<\/p>\n<blockquote><p>Quando as vassouras ficam prontas, faz-se uma grande roda. Normalmente j\u00e1 \u00e9 noite e faz frio, mas as mulheres s\u00e3o aquecidas por uma fogueira ao centro. Est\u00e1 tudo escuro, ouvem-se os grilos e sapos. Nesse ambiente aconchegante, cada mulher tem a possibilidade de contar sua hist\u00f3ria, seus problemas, suas d\u00favidas, seus anseios. Muitas choram por n\u00e3o saber o que fazer de suas vidas. Outras se emocionam ao lembrar dos filhos doentes, do relacionamento abusivo, da tristeza por n\u00e3o saber o seu papel neste mundo. E \u00e9 ali, em c\u00edrculo, que trocam abra\u00e7os, rezam e fortalecem o papel da mulher no mundo, de mulher consciente do seu poder. (Nathalia Thomassen, no livro Mulheres que Curam)<\/p><\/blockquote>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-3548\" src=\"http:\/\/revidigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/espelho.jpg\" alt=\"\" width=\"411\" height=\"570\" \/><\/p>\n<h2>Entre chap\u00e9us e fotografias<\/h2>\n<p>As imagens utilizadas nesta reportagem s\u00e3o parte de um ensaio fotogr\u00e1fico encomendado pela estilista e chapeleira Aline Ferreira \u00e0 fot\u00f3grafa Carla Lorentz. Formada em moda, Aline come\u00e7ou a produzir adere\u00e7os para cabe\u00e7a h\u00e1 15 anos e h\u00e1 4 trabalha com chap\u00e9us que levam sua pr\u00f3pria marca, a <strong>Line Boinas<\/strong>. Tudo \u00e9 produzido artesanalmente em seu ateli\u00ea em S\u00e3o Bento do Sul.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o dos <strong>chap\u00e9us de bruxa<\/strong> come\u00e7ou por conta do pedido de uma amiga de Porto Alegre-RS. \u201cEste ano come\u00e7aram a vir clientes de v\u00e1rias partes do Brasil querendo chap\u00e9u de bruxa, ent\u00e3o me empenhei em fazer mais estilos diferentes e veio a ideia do ensaio fotogr\u00e1fico\u201d, conta. Carla e Aline queriam fugir do estere\u00f3tipo que relaciona bruxaria \u00e0 maldade. \u201cAl\u00e9m de gostar da <strong>fotografia<\/strong> mais natural, tamb\u00e9m associo as bruxas a seres ligados \u00e0 natureza, portanto as fotos foram realizadas sem fugir do meu estilo de fotografar\u201d, explica Carla.<\/p>\n<p>Cada chap\u00e9u leva cerca de tr\u00eas dias para ficar pronto e custa entre 85 e 139 reais. \u201cNesta \u00e9poca do ano recebo muitos pedidos para <strong>Halloween<\/strong>, tanto de Santa Catarina quanto de outros estados, mas tamb\u00e9m tenho clientes que vivem a bruxaria\u201d, conta Aline.<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode conhecer mais sobre o trabalho da chapeleira Aline Ferreira no <a href=\"https:\/\/instagram.com\/lineboinas?igshid=gf60vs6fvapd\">Instagram<\/a> e sobre os trabalhos fotogr\u00e1ficos de Carla Lorentz\u00a0<a href=\"https:\/\/instagram.com\/carlalorentz.fotografia?igshid=qdm7okjeg46h\">aqui<\/a>.<\/p>\n<figure id=\"attachment_3546\" aria-describedby=\"caption-attachment-3546\" style=\"width: 717px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-3546 size-full\" src=\"http:\/\/revidigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Ch\u00e1-recort.jpg\" alt=\"\" width=\"717\" height=\"530\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3546\" class=\"wp-caption-text\">Estilista Aline Ferreira \u00e9 especializada na produ\u00e7\u00e3o de chap\u00e9us artesanais \/Fotos: Carla Lorentz<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Destiny Goulart, Thiago Rodrigues, Mar\u00edlia Moraes \/Fotos: Carla Lorentz Brincadeiras, fantasias, gostosuras e travessuras s\u00e3o apenas a parte mais conhecida do Dia das Bruxas, tamb\u00e9m chamado de Halloween e lembrado no dia 31 de outubro. 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