{"id":5070,"date":"2021-02-03T20:25:22","date_gmt":"2021-02-03T23:25:22","guid":{"rendered":"http:\/\/revidigital.com.br\/?p=5070"},"modified":"2021-02-03T20:25:22","modified_gmt":"2021-02-03T23:25:22","slug":"uma-vida-entre-leques-e-cores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/2021\/02\/03\/uma-vida-entre-leques-e-cores\/","title":{"rendered":"Uma vida entre leques e cores"},"content":{"rendered":"\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><em>Por Raquel Ramos &#8211; jornalista graduada pela Faculdade Ielusc<\/em><\/h5>\n\n\n\n<p>Foi no festivo Dia do Centen\u00e1rio da cidade, em 9 de mar\u00e7o de 1951, que Holnelia Isabel Rubin, hoje Corr\u00eaa, com apenas 15 anos, chegou a Joinville. Setenta anos depois, <strong> Dona Nelly<\/strong>, como \u00e9 chamada na intimidade por amigos e familiares, presenteia nossos leitores com uma hist\u00f3ria de arte e gra\u00e7a feita pelas pr\u00f3prias m\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>Dona Nelly foi uma, entre tantas mulheres, que integrou uma classe de trabalhadoras\/artistas que, entre as d\u00e9cadas de 40 a 60, trabalhavam para a f\u00e1brica <strong> Leques Minueto<\/strong>, uma empresa da Cia Hansen Industrial. Seus produtos marcaram uma era, proporcionaram beleza e glamour para as mulheres da sociedade joinvilense e at\u00e9 al\u00e9m dos limites do munic\u00edpio. <\/p>\n\n\n\n<p>As lembran\u00e7as brotam da  mem\u00f3ria de Nelly com absoluta lucidez. Ela conta que, chegando em Joinville, foi para a rua do Pr\u00edncipe, onde se realizavam as festividades do Centen\u00e1rio. Ficou parada em frente \u00e0 Farm\u00e1cia Min\u00e2ncora, esquina com a rua das Palmeiras. Daquele ponto, assistiu aos desfiles comemorativos do dia. N\u00e3o esquece da emo\u00e7\u00e3o de ver passar, em um carro aleg\u00f3rico com a bela Rainha do Centen\u00e1rio, Jutta Guttschow, (que com o casamento tornou-se Wendel). Por ali passaram os desfiles de bicicletas e aquele que um dia seria seu marido,  o jovem <strong>Osmar Soter Corr\u00eaa<\/strong>, representando a Sociedade Esportiva e Recreativa Uni\u00e3o Palmeiras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira casa em que Nelly residiu, ficava na rua Eugenio Moreira, zona sul de Joinville. A f\u00e1brica de<strong> leques<\/strong> ficava no mesmo endere\u00e7o, por\u00e9m, na esquina com a rua Bahia. Certamente essa proximidade favoreceu o desenrolar de toda a trajet\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Por indica\u00e7\u00e3o de uma vizinha, a jovem Nelly teve conhecimento do trabalho na pintura de leques. Foi ela quem me deu a primeira orienta\u00e7\u00e3o. \u201cProcura o Senhor Julio Moeller, porque \u00e9 ele quem faz as contrata\u00e7\u00f5es&#8221;, conta Nelly. E assim, acompanhada da m\u00e3e, em vista da sua pouca idade, foram at\u00e9 l\u00e1. Embora o trajeto fosse pequeno, era sempre feito pelas duas, m\u00e3e e filha, por cuidado e zelo.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso foi o in\u00edcio de tudo. Por ser menor de idade, ficava separada das outras profissionais que trabalhavam na montagem dos leques. &#8220;No come\u00e7o eu n\u00e3o recebia nada pelo meu trabalho&#8221;, diz ela. &#8220;Eu ficava dentro da f\u00e1brica, mas, como aprendiz de pintura&#8221;. A professora era Lourdes Hardt, a quem ela delega a honraria de todo o aprendizado recebido. &#8220;Ela era muito en\u00e9rgica e exigente, mas devo tudo o que aprendi a ela&#8221; e, para ilustrar sua admira\u00e7\u00e3o, completa: &#8220;Ela tinha m\u00e3os de fada&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/revidigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Leque.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-5074\"\/><figcaption>Rel\u00edquia: leque pintado em 1952 por Dona Nelly \/ Foto: Raquel Ramos<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Com a pr\u00e1tica e desenvoltura adquirida, Nelly passou a levar trabalho para executar em casa. Foi a partir da\u00ed que come\u00e7ou a ser remunerada pelo servi\u00e7o que fazia. Ia at\u00e9 a f\u00e1brica e recebia o talho do tecido de seda, tinta a \u00f3leo e o diluente para fazer a mistura. &#8220;A Dona Lourdes me entregava o tecido moldado, no tamanho e formato do leque, j\u00e1 com o motivo desenhado por ela com uma caneta de tinta branca&#8221;. Em casa, fixava a seda, com alfinetes em cima de folha de papel\u00e3o sobre a mesa e fazia a pintura.&nbsp; Depois de prontos, devolvia para a professora e ent\u00e3o os tecidos eram colados na paleta. &#8220;Mas isso era um servi\u00e7o feito pela f\u00e1brica, eu s\u00f3 pintava&#8221;, acrescenta Nelly.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00e9poca, o leque era um objeto totalmente feminino e sofisticado. \u201cEra um per\u00edodo em que as mulheres se arrumavam at\u00e9 para ir \u00e0 missa, usando luvas e portando cada uma o seu leque&#8221;, relembra. Nelly perdeu a conta de quantos leques pitnou. Hoje, uma dessas pe\u00e7as, pintada em 1952, est\u00e1 pendurada como decora\u00e7\u00e3o na parede de sua casa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Passado algum tempo, com 17 anos, Nelly  come\u00e7ou a namorar e foi pedida em casamento por Osmar. Orgulha-se em dizer que comprou todo o enxoval com o dinheiro recebido pela pintura de leques. Ela comprava pe\u00e7as, como colcha, jogos de toalha, toalhas de mesa. &#8220;Eu mesma as pintava&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Inspira\u00e7\u00e3o para amores e poemas<\/h4>\n\n\n\n<p>O per\u00edodo da produ\u00e7\u00e3o de leques faz parte da hist\u00f3ria de uma das maiores ind\u00fastrias do Brasil, a Jo\u00e3o Hansen Junior e Cia, hoje a empresa Tubos e Conex\u00f5es Tigre, constru\u00edda por Jo\u00e3o Hansen Junior, nos idos de 1940. Enfrentou duros per\u00edodos de guerra, racionamentos de energia el\u00e9trica e de gasolina e se consolidou no cen\u00e1rio empresarial nas d\u00e9cadas seguintes.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, essas informa\u00e7\u00f5es est\u00e3o digitalizadas no site da empresa. Por\u00e9m, h\u00e1 uma Edi\u00e7\u00e3o Especial impressa do Informativo Hansen, um documento hist\u00f3rico. A edi\u00e7\u00e3o Festa das Medalhas &#8211; 1991 trouxe a hist\u00f3ria do fundador da empresa e o assunto da f\u00e1brica de leques divulgado de forma impressa.<\/p>\n\n\n\n<p>O texto, baseado em pesquisa biogr\u00e1fica, foi escrito por Mila Ramos. Entre tantas informa\u00e7\u00f5es pessoais, familiares e da empresa, ela cita, que o Senhor Jo\u00e3o, &#8220;perspicaz e de olho no futuro da Tigre, sentiu, logo que evoluir era diversificar&#8221;. E faz a cita\u00e7\u00e3o, embora sucinta, de que &#8220;&#8230;depois foram os leques, tamb\u00e9m de pl\u00e1stico e pintados \u00e0 m\u00e3o&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi nos manuscritos desse trabalho, rascunhados por Mila, escritora e poeta, que encontrei declarado o sentimento de amor de quem viveu a era dos leques. Ela escreve:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/revidigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/poema.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-5071\"\/><figcaption>Poema de Mila Ramos<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Mila usa a caneta;  Nelly, os pinc\u00e9is. A mesma poesia em linguagens diferentes, vividos em dias de gl\u00f3ria. A arte dessas pintoras realizavam os sonhos das damas da sociedade. As mulheres usavam seus leques decorados, um complemento indispens\u00e1vel do vestu\u00e1rio, e, por tr\u00e1s desse adere\u00e7o trocavam olhares furtivos como forma de sedu\u00e7\u00e3o. Atualmente, os leques continuam sendo objetos de luxo, embora com outro sentido: tornaram-se objetos raros,  por\u00e9m sem perder a majestade.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o casamento, Nelly parou de pintar. &#8220;Naquele tempo&#8221;, comenta ela, n\u00e3o com rancor, e sim como mero relato, &#8220;o meu marido n\u00e3o permitia que eu trabalhasse fora&#8221;. Al\u00e9m disso, os tr\u00eas filhos a absorviam completamente. Bem mais tarde, com a mudan\u00e7a dos tempos e filhos crescidos, voltou \u00e0 atividade, mas escolheu frequentar aulas de pintura em porcelana. Isso foi na d\u00e9cada de 70, na Casa da Cultura, com as professoras Rita Kaesemodel e Edith Wetzel.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/revidigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Dona-Nelly.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-5075\"\/><figcaption><em>Dos leques para a porcelana e as telas, Nelly adora pintar \/ Foto: Raquel Ramos<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O crescimento pessoal na arte dos pinc\u00e9is continuou. Incentivada pela professora Em\u00edlia Merklen, passou a se dedicar \u00e0 pintura em tela. &#8220;Bem diferente dos leves tecidos dos leques, a tela tem textura firme&#8221;, comenta. Com orgulho, conta que j\u00e1 exp\u00f4s  quadros no Bar e Restaurante Parapluie, que funcionava na rua Visconde de Taunay, nos anos 90. A&nbsp; partir da\u00ed se viu reconhecida pela fam\u00edlia e lembra as palavras ditas por Dona L\u00edbia, sua m\u00e3e: &#8220;Agora  minha filha est\u00e1 fazendo o que realmente gosta&#8221;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Durante toda a tarde em que conversamos, a frase &#8220;Eu adoro pintar&#8221; foi a mais repetida. Ela ainda possui as caixas com tintas importadas, tanto para pintura em porcelana quanto para tela. Mostra o \u00faltimo quadro feito em janeiro\/2020. Assim como todos, neste ano de pandemia, precisou se adaptar e muitas mudan\u00e7as aconteceram, inclusive de resid\u00eancia. Agora, de casa nova, pretende voltar a pintar.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Joinville, cidade de muitos artistas<\/h4>\n\n\n\n<p>O assunto trouxe \u00e0 tona o nome de outras pintoras de leques. Sandra Regina Schatzmann revela que sua m\u00e3e, Norma Schatzmann, falecida em 2010, tamb\u00e9m era pintora de leques. Segundo Sandra, os leques eram ofertados para uma companhia a\u00e9rea ou mar\u00edtima. \u201cPosso estar enganada, mas lembro que ela pintava leques com motivos de navios\u201d.&nbsp; Da mesma forma, Gert Fischer recorda dos leques pintados por sua irm\u00e3 Ragnit Eug\u00eania Fischer quando tinha 14 anos. Ele possui dois exemplares guardados como rel\u00edquias em sua resid\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A historiadora Raquel S. Thiago relembra que a sala da casa de sua m\u00e3e, Elin Veras de S. Thiago, vivia com panos e tintas espalhados sobre a mesa. &#8220;Isso foi na d\u00e9cada de 1950, lembro bem&#8221;, comenta Raquel enquanto lamenta a morte precoce da m\u00e3e com apenas 38 anos. Loepper Vernon, morou quando crian\u00e7a, por volta de 1956, numa casa da rua Rio Grande do Sul, perto da Hansen.  \u201cL\u00e1, o trabalho tinha caracter\u00edsticas de servi\u00e7o aut\u00f4nomo <em>in home<\/em>\u201d. Isso mostra que  o <em>home office<\/em>, do novo normal em tempo de pandemia, n\u00e3o tem nada de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>O processo de apanha-entrega, continua Loepper, era de bicicleta (G\u00f6ricke). &#8220;Al\u00e9m dos leques, lembro dos bordados feitos nesse regime e comercializados pelo artista pl\u00e1stico Eugenio Colin (1916-2005)&#8221;. Seu Eug\u00eanio mantinha um ateli\u00ea na pr\u00f3pria resid\u00eancia,&nbsp; mas tamb\u00e9m comercializava os produtos de porta em porta.<\/p>\n\n\n\n<p>Tem-se conhecimento de que as civiliza\u00e7\u00f5es, desde a Antiguidade, fizeram uso dos leques como s\u00edmbolo de poder. Em \u00e9pocas e estilos diferentes, as mulheres foram retratadas, por Renoir, Gauguin, entre outros, segurando leques. Por\u00e9m, a cita\u00e7\u00e3o atribu\u00edda \u00e0 Madame de Sta\u00ebl (1766-1817), romancista e ensa\u00edsta francesa, de que \u201cuma dama sem leque \u00e9 como um nobre sem espada\u201d \u00e9 a mais pura representa\u00e7\u00e3o da elite europeia e do\u00a0 real significado do valor atribu\u00eddo aos leques.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Joinville, \u00e9 uma honra ter na pessoa da Dona Nelly uma representante de todas as pintoras de leques da hist\u00f3ria da cidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Raquel Ramos &#8211; jornalista graduada pela Faculdade Ielusc Foi no festivo Dia do Centen\u00e1rio da cidade, em 9 de mar\u00e7o de 1951, que Holnelia Isabel Rubin, hoje Corr\u00eaa, com apenas 15 anos, chegou a Joinville. 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