{"id":5291,"date":"2021-06-08T14:33:10","date_gmt":"2021-06-08T17:33:10","guid":{"rendered":"http:\/\/revidigital.com.br\/?p=5291"},"modified":"2022-09-17T17:34:21","modified_gmt":"2022-09-17T20:34:21","slug":"bauhaus-a-inovacao-como-resistencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/2021\/06\/08\/bauhaus-a-inovacao-como-resistencia\/","title":{"rendered":"Bauhaus: a inova\u00e7\u00e3o como resist\u00eancia"},"content":{"rendered":"\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><em>Por Catherine Kuehl<\/em><\/h5>\n\n\n\n<p>Imagine um pr\u00e9dio largo de paredes claras, com fileiras de janelas de vidro amplas. As do segundo e \u00faltimo andar avan\u00e7am pelo telhado, e bem no meio do <strong>pr\u00e9dio<\/strong> est\u00e1 a entrada principal com um hall que antecede a porta de duas folhas. Na mesma linha, o telhado tem uma torre hexagonal n\u00e3o muito alta nem muito larga, mas o suficiente para quebrar o padr\u00e3o de \u00e2ngulo agudos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro, os corredores s\u00e3o frequentados por estudantes e professores de diferentes pa\u00edses e de diversas faixas et\u00e1rias. As salas de aula s\u00e3o palco para <strong>oficinas<\/strong> de <strong>cer\u00e2mica<\/strong>, pintura em <strong>vitral<\/strong>, impress\u00e3o gr\u00e1fica, <strong>escultura <\/strong>em pedra, madeira e pl\u00e1stico, tecelagem, carpintaria, metal e teatro. Essa \u00e9 a <strong>Bauhaus<\/strong> em 1919, na sede de Dassau, uma cidade pequena no norte da <strong>Alemanha<\/strong>, h\u00e1 cerca de 130 quil\u00f4metros da capital Berlim.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"784\" height=\"491\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Bauhaus.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13444\" srcset=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Bauhaus.jpg 784w, https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Bauhaus-136x86.jpg 136w\" sizes=\"(max-width: 784px) 100vw, 784px\" \/><figcaption>Escola mudou a hist\u00f3ria do design e de \u00e1reas afins enquanto driblava os nazistas<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>T\u00e1, me parece como qualquer outra escola de design, o que a Bauhaus tem de t\u00e3o especial? <\/strong>Veja, tem pelo menos dois motivos que tornam a escola importante: o per\u00edodo em que ela funcionou e o legado que deixou. <strong>Podemos come\u00e7ar pelo per\u00edodo? Quando ela foi fundada?<\/strong> Foi em 12 de abril de 1919 por um jovem arquiteto chamado <strong>Walter Gropius<\/strong> \u2014 quando chegar na parte do legado, volto a falar dele. E voc\u00ea deve lembrar que a Primeira Guerra Mundial terminou em 11 de novembro de 1918. Isso \u00e9, exatamente cinco meses e um dia antes, mal tinha dado tempo de a Alemanha come\u00e7ar a se recuperar da derrota. Ah, e dali 20 anos iniciaria a Segunda Guerra Mundial.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como os nazistas deixaram essa escola funcionar? <\/strong>Na verdade, n\u00e3o deixaram. A cidade de Weimar foi s\u00f3 a primeira sede, assim como Gropius foi s\u00f3 o primeiro diretor. A escola se mudou para Dessau em 1925, tr\u00eas anos depois, em 1928, Hannes Meyer assumiu a diretoria, ele ficou por dois anos, para, em 1930, Ludwig Mies van der Rohe virar diretor, mais dois anos se passaram at\u00e9 que a escola mudou-se para Berlim.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tanto as mudan\u00e7as de sede como na diretoria foram motivadas por press\u00f5es pol\u00edticas que cresciam conforme o nazismo tomava conta do pa\u00eds.. At\u00e9 que, em 1933, chegou at\u00e9 a Geheime Staatspolizei, a Pol\u00edcia Secreta do Estado Alem\u00e3o \u2014 voc\u00ea talvez conhe\u00e7a apenas pela sigla <strong>Gestapo<\/strong> \u2014, que exigiu a remo\u00e7\u00e3o dos \u201cbolcheviques culturais\u201d e a substitui\u00e7\u00e3o por simpatizantes nazistas. Esse epis\u00f3dio \u00e9 descrito no livro <em>Hist\u00f3ria do Design Gr\u00e1fico<\/em>, de Alston Purvis e Philip B. Meggs.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"734\" height=\"452\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/berco.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13446\"\/><figcaption>Ber\u00e7o criado  por Peter Keler no in\u00edcio das atividades da Escola Bauhaus<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Ent\u00e3o, os nazistas assumiram a escola? <\/strong>N\u00e3o, o governo alem\u00e3o fez de tudo para reprimir as ideias que a Bauhaus propagava. Professores e estudantes aguentaram at\u00e9 onde conseguiram. No fim, para n\u00e3o entregar a Bauhaus aos nazistas, encerraram a escola. As portas foram fechadas em 10 de agosto de 1933. <strong>Nossa, isso n\u00e3o d\u00e1 15 anos desde a funda\u00e7\u00e3o!<\/strong> Realmente, mas como o historiador de arte Rafael Cardoso escreveu no livro Uma introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria do design, eu tamb\u00e9m acho a sobreviv\u00eancia da Bauhaus um ato pol\u00edtico dram\u00e1tico e at\u00e9 heroico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A parte do \u201cdram\u00e1tico\u201d eu entendo, j\u00e1 o \u201cheroico\u201d vai ter que explicar melhor. <\/strong>A Bauhaus adotou valores opostos aos dos governantes, ela foi um ponto progressista que convergia movimentos vanguardistas da arte e design, com diferentes culturas, num ambiente din\u00e2mico que incentivava o debate. Para Michael Siebenbrodt e Lutz Sch\u00f6beht, autores do livro <em>Bauhaus 1919-1933<\/em>, a escola foi marcada simultaneamente por vis\u00f5es sociout\u00f3picas e m\u00faltiplas tentativas de implementar uma escola de design na pr\u00e1tica. Explicando em mi\u00fados: n\u00e3o s\u00f3 ideias socialistas faziam parte da escola, como a diversidade de pessoas era uma das bases para a criatividade, essas s\u00e3o duas caracter\u00edsticas que os nazistas repudiavam.<\/p>\n\n\n\n<p>Vou citar novamente Cardoso, que explicou &#8211; tamb\u00e9m no livro <em>Uma introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria do design <\/em>&#8211; que foi a capacidade \u00edmpar de reunir um grande n\u00famero de pessoas muito criativas e muito diferentes em uma \u00fanica escola que deu vida e for\u00e7a para a Bauhaus, transformando essa pequena institui\u00e7\u00e3o em um foco mundial para o fazer art\u00edstico. A Bauhaus foi resist\u00eancia!<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"397\" height=\"359\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Barcelona.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13447\"\/><figcaption>Poltrona Barcelona \u00e9 um dos modelos mais copiados no mundo<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p><strong>Agora est\u00e1 fazendo mais sentido ainda para mim os nazistas terem se incomodado e se empenhado tanto para acabar com a Bauhaus. Ainda falta voc\u00ea falar do legado. <\/strong>Ah, sim, pouco mais de um s\u00e9culo depois da cria\u00e7\u00e3o da Bauhaus, essa escola de design na Alemanha entre guerras continua a influenciar profissionais de diferentes \u00e1reas. L\u00e1 foi criado o ic\u00f4nico estilo Bauhaus, pelos professores \u2014 e, claro, pelos alunos \u2014 que buscavam uma <strong>est\u00e9tica popular<\/strong> ao priorizar a fun\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a, considerar os enfeites in\u00fateis e usar materiais acess\u00edveis. <strong>J\u00e1 tinha ouvido falar do estilo Bauhaus. As cadeiras s\u00e3o famosas<\/strong>, <strong>vejo em bares, restaurantes, lojas, escrit\u00f3rios e casas. <\/strong>Aposto que voc\u00ea conhece algumas poltronas e abajures desenhados na escola. Tamb\u00e9m s\u00e3o caracter\u00edsticas do estilo as cores fortes e s\u00f3lidas, geralmente vermelho, amarelo e azul, fonte sem serifa e formas geom\u00e9tricas. Al\u00e9m disso, a escola era mantida por recursos p\u00fablicos e, como j\u00e1 contei, foi um polo de diferentes nacionalidades, idades, classes e g\u00eanero.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, a Bauhaus era uma encruzilhada cultural custeada pelo governo alem\u00e3o &#8211; e n\u00e3o se esque\u00e7a que foi tudo durante a ascens\u00e3o do nazismo.&nbsp; <strong>E o Gropius? Vai falar dele? <\/strong>Vou falar agora. Esse jovem arquiteto fundou a Bauhaus ao unir duas institui\u00e7\u00f5es de ensino do governo, a Escola de Artes e Of\u00edcios de Weimar, que era t\u00e9cnica e tinha foco nas artes aplicadas, com a Academia de Arte de Weimar que ensinava belas-artes. Ele batizou a nova escola de <em>Das Staatliche Bauhaus<\/em>, traduzido literalmente do alem\u00e3o significa: A Casa da Constru\u00e7\u00e3o Estatal. <strong>N\u00e3o podia ser mais funcional e desprovido de enfeites. <\/strong>Bem notado, o pr\u00f3prio nome da escola \u00e9 um exemplo do estilo Bauhaus. Ainda sobre a funda\u00e7\u00e3o, as movimenta\u00e7\u00f5es feitas para a cria\u00e7\u00e3o da Bauhaus foram um press\u00e1gio de como seria o manifesto da escola, escrito pelo fundador Gropius e publicado em jornais da regi\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um manifesto? O que tem nele?<\/strong> O texto estabelece a filosofia que seria seguida pela escola e come\u00e7a com uma sugest\u00e3o de&nbsp; mudan\u00e7a na fun\u00e7\u00e3o de artista: \u201co objetivo final de toda atividade pl\u00e1stica \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o!\u201d. Ent\u00e3o, faz um chamado \u00e0 classe art\u00edstica para se aproximarem das atividades manuais: \u201cArquitetos, escultores, pintores, todos devemos retornar ao artesanato, pois n\u00e3o existe \u2018arte por profiss\u00e3o\u2019! N\u00e3o existe nenhuma diferen\u00e7a essencial entre o artista e o artes\u00e3o. O artista \u00e9 uma eleva\u00e7\u00e3o do artes\u00e3o\u201d. E termina com: \u201cformemos, portanto, uma nova corpora\u00e7\u00e3o de artes\u00e3os, sem a presun\u00e7\u00e3o elitista que pretendia criar um muro de orgulho entre artes\u00e3os e artistas!\u201d. Gropius queria com a jun\u00e7\u00e3o de uma escola t\u00e9cnica com outra de artes pl\u00e1sticas propor o fim da divis\u00e3o social entre arte e produ\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"900\" height=\"492\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/abajur.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13448\"\/><figcaption>Estilo Bauhaus continua a inspirar cria\u00e7\u00f5es at\u00e9 hoje<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Esse Gropius deve ter sido um vision\u00e1rio. <\/strong>Foi mesmo! O historiador da arte, Ernst Gombrich, falou brevemente sobre o objetivo da Bauhaus no livro <em>Hist\u00f3ria da arte<\/em>, que foi o de provar que arte e engenharia podem se beneficiar mutuamente. J\u00e1 no livro <em>Hist\u00f3ria do Design Gr\u00e1fico<\/em>, que j\u00e1 citei antes, Purvis e Meggs, foram um pouco al\u00e9m e defenderam que, ao reconhecer as ra\u00edzes comuns entre as belas-artes e as artes visuais aplicadas, Gropius procurava uma nova alian\u00e7a entre <strong>arte<\/strong> e tecnologia e reuniu uma gera\u00e7\u00e3o de artistas na luta para resolver problemas de design criados pela industrializa\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As aulas deveriam ser incr\u00edveis n\u00e3o? <\/strong>Desconfio que sim. No livro <em>Bauhaus 1919-1933<\/em>, Michael Siebenbrodt e Lutz Sch\u00f6beht apontaram que&nbsp; a pedagogia da escola oportunizou, al\u00e9m do desenvolvimento de talentos, a forma\u00e7\u00e3o da personalidade individual. As li\u00e7\u00f5es eram mais do que o ensino profissionalizante. Por exemplo, antes de come\u00e7arem a frequentar as oficinas, os estudantes participavam de aulas de nivelamento. Siebenbrodt e Sch\u00f6beht tamb\u00e9m comentaram sobre isso no livro. Eles defenderam que, nesse curso introdut\u00f3rio, eram desenvolvidas a capacidade mental, sensibilidade e criatividade. Os sentidos eram treinados para a concentra\u00e7\u00e3o, observa\u00e7\u00e3o detalhada e an\u00e1lise precisa de ambientes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Entende? A Bauhaus mudava a hist\u00f3ria do design e de \u00e1reas afins, enquanto driblava os nazistas. <strong>Entendi sim\u2026 tem mais algo especial para me contar sobre a escola? <\/strong>Pode acreditar que tem muito mais. Por\u00e9m, depois de oito mil caracteres, voc\u00ea deve estar com os olhos cansados. Fica para uma pr\u00f3xima vez.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Catherine Kuehl Imagine um pr\u00e9dio largo de paredes claras, com fileiras de janelas de vidro amplas. As do segundo e \u00faltimo andar avan\u00e7am pelo telhado, e bem no meio do pr\u00e9dio est\u00e1 a entrada principal com um hall que antecede a porta de duas folhas. 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