{"id":5773,"date":"2021-10-07T17:36:10","date_gmt":"2021-10-07T20:36:10","guid":{"rendered":"http:\/\/revidigital.com.br\/?p=5773"},"modified":"2022-09-12T18:05:50","modified_gmt":"2022-09-12T21:05:50","slug":"o-prazer-de-traduzir-clarice-lispector-para-o-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/2021\/10\/07\/o-prazer-de-traduzir-clarice-lispector-para-o-mundo\/","title":{"rendered":"O prazer de traduzir Clarice Lispector para o mundo"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por Luiz dos Anjos<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Nascido em Munique no ano de 1970, filho de m\u00e3e espanhola e pai alem\u00e3o, Luis Ruby cresceu aprendendo dois idiomas. Atualmente, mora em sua cidade natal e traduz espanhol, portugu\u00eas, italiano e ingl\u00eas. Ele j\u00e1 trabalhou na tradu\u00e7\u00e3o de autores como Clarice Lispector, Roberto Bola\u00f1o, Rafael Cardoso e Niccol\u00f2 Ammaniti. Ao longo de sua carreira, recebeu v\u00e1rias premia\u00e7\u00f5es, como o Pr\u00eamio de Tradu\u00e7\u00e3o de 2003 da Embaixada da Espanha na Alemanha, o Pr\u00eamio de Arte e Literatura da Baviera, a Bolsa de Literatura de Munique e a Bolsa de Excel\u00eancia do Fundo de Tradutores Alem\u00e3es.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"714\" height=\"516\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Luis-Ruby.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13087\"\/><figcaption><sup>Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o de tela www.literaturhaus-muenchen.de<\/sup><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Revi &#8211; Por que voc\u00ea estudou a l\u00edngua portuguesa?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Luis Ruby: Por motivos pessoais (\u2026) Porque em 1992, em uma escola de l\u00ednguas em Paris \u2013 sim, enquanto eu aprendia franc\u00eas \u2013, conheci pessoas do Brasil de quem ainda sou amigo. Antes da minha primeira visita ao Brasil (1996), comecei a aprender um pouco a l\u00edngua. O caminho do espanhol n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o longe quanto do alem\u00e3o. Al\u00e9m das rela\u00e7\u00f5es pessoais, fiquei particularmente fascinado pela M\u00fasica Popular Brasileira, que permanece at\u00e9 hoje. E al\u00e9m da m\u00fasica, h\u00e1 textos de m\u00fasicos-escritores como Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros. Com todo o amor pela literatura, as l\u00ednguas s\u00e3o muito exigentes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Revi &#8211; Como conheceu Clarice Lispector e por que voc\u00ea escolheu traduzir livros brasileiros?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ruby: Por volta de 2010 e 2011, quando foi anunciado que o Brasil seria o pa\u00eds convidado da Feira do Livro de Frankfurt em 2013, conversei com alguns amigos de editoras que gostariam de fazer algo com o Brasil tamb\u00e9m. Eu tinha traduzido livros do espanhol, ingl\u00eas e italiano na \u00e9poca. Um editor ent\u00e3o perguntou se eu estaria interessado em chamar a aten\u00e7\u00e3o para Clarice Lispector no mundo da l\u00edngua alem\u00e3 \u2013 tentamos isso para Sch\u00f6ffling Verlag, que teve a biografia de Benjamin Moser (&#8220;Why This World&#8221;) traduzida para o alem\u00e3o e tr\u00eas de seus romances novos ou lan\u00e7ados pela primeira vez.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Assumi \u201cO brilho\u201d e \u201cO dia da estrela\u201d. As hist\u00f3rias (&#8220;Todos os contos&#8221;) foram posteriormente publicadas pela Penguin. Eu realmente li Clarice quando me ofereceram a primeira tradu\u00e7\u00e3o; antes disso, eu s\u00f3 a conhecia casualmente. Ali\u00e1s, tamb\u00e9m tive a oportunidade de traduzir um pequeno romance de Jorge Amado, \u201cA morte e a morte de Quincas Berro d\u2019\u00c1gua\u201d, com muito prazer.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Revi &#8211; Como a literatura brasileira \u00e9 vista na Alemanha e na Europa?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ruby: Infelizmente, pouco se traduz e, principalmente, se l\u00ea. Alemanha e Brasil s\u00e3o culturas complementares em alguns aspectos; n\u00e3o necessariamente f\u00e1ceis de reunir, mas muito enriquecedoras em ambas as dire\u00e7\u00f5es. Por outro lado, a literatura \u00e9, sobretudo, uma quest\u00e3o de poucos \u2013 \u201cP\u00e9rolas aos poucos\u201d, com o t\u00edtulo de Z\u00e9 Miguel Wisnik \u2013, o que n\u00e3o \u00e9 um problema espec\u00edfico entre as nossas duas culturas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Revi &#8211; Qual a sua maior dificuldade em traduzir livros do portugu\u00eas para o alem\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ruby:&nbsp;V\u00e1rias. \u00c0s vezes, surgem coisas culturalmente distantes \u2013 por exemplo, do candombl\u00e9. Por isso, pode ser dif\u00edcil entender do que se trata e encontrar palavras adequadas e compreens\u00edveis em alem\u00e3o. As estruturas sociais tamb\u00e9m s\u00e3o muito diferentes; para dar apenas um exemplo: na Alemanha, h\u00e1 empregadas dom\u00e9sticas apenas na classe alta, a maioria dos leitores n\u00e3o tem experi\u00eancia com elas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em geral, a cultura brasileira \u2013 apesar de sua enorme diversidade, talvez se possa generalizar \u2013 permite muito mais borr\u00f5es do que a alem\u00e3. Tamb\u00e9m h\u00e1 muitas coisas que voc\u00ea n\u00e3o quer que sejam precisas e seletivas. Para citar Caetano: &#8220;Enquanto aqui embaixo, a indefini\u00e7\u00e3o \u00e9 o regime\u201d. Reproduzir indefini\u00e7\u00e3o como abertura em alem\u00e3o (abertura de significado, abertura cultural) \u00e9 um desafio. E acho que isso \u00e9 essencial, especialmente com uma autora como Clarice.<\/p>\n\n\n\n<p>Caso contr\u00e1rio, minhas dificuldades est\u00e3o relacionadas \u00e0 extrema idiossincrasia desta autora. Dif\u00edcil dizer o quanto disso tem a ver com o portugu\u00eas. Talvez, assim: ela apenas escreveu nesta l\u00edngua e fez sua pr\u00f3pria linguagem (pessoal) e forma de express\u00e3o a partir dela. Em parte contra as regras, como a literatura &#8220;permite&#8221;, com a liberdade que um grande autor assume. Um tradutor deve consistentemente jogar o jogo dos autores, s\u00f3 para que o estranho n\u00e3o pare\u00e7a uma inadequa\u00e7\u00e3o da tradu\u00e7\u00e3o, mas se torne transparente como a inten\u00e7\u00e3o do original.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;Revi &#8211; Voc\u00ea est\u00e1 pensando em traduzir algum outro livro brasileiro?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ruby: Definitivamente, de Clarice. Agora que todas as suas hist\u00f3rias foram publicadas em alem\u00e3o, o pr\u00f3ximo passo \u00e9 uma sele\u00e7\u00e3o das Cr\u00f4nicas. Se eu ler mais literatura brasileira, sem d\u00favida terei outras ideias. N\u00f3s, tradutores, gastamos muito tempo com alguns livros; \u00e9 chocante como resta pouco tempo e lazer para uma leitura livre.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Revi &#8211; Na sua opini\u00e3o, o que \u00e9 preciso fazer ou ser para se tornar um tradutor?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ruby: Ser um leitor atento e insatisfeito, que fica perguntando e pesquisando. Al\u00e9m disso, ter curiosidade sobre a pr\u00f3pria l\u00edngua (ou seja, alem\u00e3o para mim) e alegria em encontrar e desenvolver oportunidades nela. E \u00e9 sempre sobre di\u00e1logo, principalmente sobre ouvir o que est\u00e1 no original; depois, tamb\u00e9m sobre o interc\u00e2mbio com colegas e pessoas nas editoras com quem voc\u00ea trabalha. Se poss\u00edvel, converse com os autores, seja pessoalmente ou lendo entrevistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>Frases para destacar (olhos)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>\u201cUm tradutor deve consistentemente jogar o jogo dos autores\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>\u201cN\u00f3s, tradutores, gastamos muito tempo com alguns livros; \u00e9 chocante como resta pouco tempo e lazer para uma leitura livre.\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>\u201c\u00c9 sempre sobre di\u00e1logo, principalmente sobre ouvir o que est\u00e1 no original.\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Luiz dos Anjos Nascido em Munique no ano de 1970, filho de m\u00e3e espanhola e pai alem\u00e3o, Luis Ruby cresceu aprendendo dois idiomas. 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