{"id":5778,"date":"2021-10-08T20:36:09","date_gmt":"2021-10-08T23:36:09","guid":{"rendered":"http:\/\/revidigital.com.br\/?p=5778"},"modified":"2022-09-12T18:06:04","modified_gmt":"2022-09-12T21:06:04","slug":"longe-de-casa-encontrei-um-lar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/2021\/10\/08\/longe-de-casa-encontrei-um-lar\/","title":{"rendered":"Longe de casa encontrei um lar &#8211; Cap\u00edtulo 1"},"content":{"rendered":"\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><em>Somayhe<\/em> <em>mora no Brasil com sua fam\u00edlia<\/em> <em>h\u00e1 18 anos e busca manter viva as ra\u00edzes de seu pa\u00eds natal<\/em><\/h5>\n\n\n\n<p><em>Por Raquel Ramos<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O pa\u00eds que hoje \u00e9 a Rep\u00fablica Isl\u00e2mica do Ir\u00e3 data de 550 A.C. Se localiza no Oriente M\u00e9dio, faz fronteira com o Iraque, Turquia, Azerbaij\u00e3o, Turcomenist\u00e3o, Afeganist\u00e3o e Paquist\u00e3o. Tem a economia baseada no petr\u00f3leo e \u00e9 um dos \u00fanicos pa\u00edses n\u00e3o-\u00e1rabes da regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O distanciamento e diverg\u00eancias entre os pa\u00edses vizinhos come\u00e7a pelo idioma, que no Ir\u00e3 \u00e9 o persa. O governo \u00e9 conservador e a religi\u00e3o mu\u00e7ulmana, mais ainda. As regras e estilo de vida dos cidad\u00e3os s\u00e3o rigorosas. Pela complexidade, o assunto ser\u00e1 abordado, sem questionamento. Trata-se de um relato de experi\u00eancias pessoais e familiares.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Cap\u00edtulo 1<\/h2>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Apresenta\u00e7\u00e3o&#8230;<\/h3>\n\n\n\n<p>Somayeh Safarigavandoghdei Nikdelamnab, 38 anos, \u00e9 iraniana e mora em Joinville h\u00e1 18 anos. Ela fala portugu\u00eas, persa e turco. A \u00faltima vez que esteve no Ir\u00e3, com toda a fam\u00edlia, foi em 2017. Depois disso, j\u00e1 viajou duas vezes sozinha, a trabalho, para trazer tapetes, fios e produtos usados na restaura\u00e7\u00e3o de tapetes persa.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"960\" height=\"720\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Somayhe-no-Ira.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13081\"\/><figcaption>Somayhe no Ir\u00e3 em 2013. Fonte: Divulga\u00e7\u00e3o.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O primeiro contato que tive com Somayeh foi pelo Facebook. Recebi um convite de amizade e aceitei. O que mais chamou minha aten\u00e7\u00e3o foi a informa\u00e7\u00e3o dela ser de Teer\u00e3. A atividade com os tapetes persa, tamb\u00e9m. O meu lado mulher, apaixonada por essa arte milenar, falou alto. Tive o \u00edmpeto de conversar inbox por absoluta curiosidade. Mas confesso que tive receio. A ideia que temos dos mu\u00e7ulmanos \u00e9 a de que vivem reclusos e de pouca conversa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para minha surpresa, esta foi s\u00f3 a primeira barreira quebrada por ela. Logo no in\u00edcio se mostrou dispon\u00edvel para conversarmos pessoalmente. A ideia da austeridade foi dissolvida pela hospitalidade persa de toda a fam\u00edlia. Fui presenteada com o ch\u00e1 e a x\u00edcara de vidro &#8211; pr\u00f3pria para beb\u00ea-lo. P\u00e3o iraniano, len\u00e7o trazido da viagem e comida caseira feita pela m\u00e3e de Somayhe.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A vinda para o Brasil e os procedimentos&nbsp; burocr\u00e1ticos<\/h3>\n\n\n\n<p>O pai, Said Safarigavamdoghdei, sempre trabalhou no com\u00e9rcio de tapetes persa. Ele levava cont\u00eaineres cheios para a Europa e comercializava na Fran\u00e7a, na Alemanha e na Su\u00ed\u00e7a. Motivo que o obrigava a ficar fora do seu pa\u00eds por at\u00e9 mais de um ano.<\/p>\n\n\n\n<p>Atrav\u00e9s de pessoas conhecidas, Said veio para o Brasil. Ficou em S\u00e3o Paulo at\u00e9 descobrir que no sul n\u00e3o havia artes\u00e3os de tapetes. Foi quando veio para Joinville.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de 4 anos, decidiu fixar resid\u00eancia e foi em busca dos tr\u00e2mites poss\u00edveis para trazer a esposa e os seis filhos para o Brasil. Com a comprova\u00e7\u00e3o da empresa que tinha no Brasil, Said enviou uma carta para a Embaixada do Brasil em Teer\u00e3 convidando a fam\u00edlia para vir conhecer este pa\u00eds. Uma exig\u00eancia do governo brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u201ccarta convite\u201d \u00e9 obrigat\u00f3ria para obter o visto de turista ao sair do Ir\u00e3 e entrar no Brasil. &#8220;Algu\u00e9m tem que te convidar para vir. Tem que ter a garantia de que vai voltar para o Ir\u00e3, esta \u00e9 uma exig\u00eancia do governo iraniano&#8221; diz ela. &#8220;Porque eles n\u00e3o querem que o seu cidad\u00e3o saia e n\u00e3o volte para o seu pa\u00eds.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando chegaram aqui em 2002, Sa\u00edd j\u00e1 possu\u00eda visto permanente. Com isso ele conseguiu pela &#8220;reuni\u00e3o familiar&#8221; autoriza\u00e7\u00e3o do governo brasileiro para a perman\u00eancia da fam\u00edlia no Brasil. Por\u00e9m, a situa\u00e7\u00e3o deles perante o governo iraniano estava irregular.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Visando resolver esta quest\u00e3o voltaram ao Ir\u00e3 em 2007. Para regularizar tiveram que pagar todos os impostos devidos dos cinco anos que ficaram ausentes, como se tivessem permanecido no pa\u00eds. E pagam at\u00e9 hoje, porque eles mant\u00eam uma casa e uma loja de tapetes, embora esteja fechada.<\/p>\n\n\n\n<p>O completo desconhecimento que as pessoas t\u00eam da realidade do Ir\u00e3 causa um certo desconforto para Somayhe. Revela que quando chegaram, todos perguntavam se o motivo da vinda para o Brasil era a guerra. Uma pergunta que se repete com frequ\u00eancia ainda hoje. &#8220;Infelizmente as pessoas n\u00e3o conhecem nada do Ir\u00e3. Da nossa cultura e riqueza. Falam de uma guerra que aconteceu h\u00e1 40 anos, quando eu nem era nascida&#8221; e continua: &#8220;J\u00e1 chegaram a me perguntar se no Ir\u00e3 tem asfalto nas estradas. Para o meu filho, de 13 anos, que j\u00e1 viajou para l\u00e1 5 vezes,&nbsp; os amigos da escola perguntam se ele encontra homem bomba nas ruas.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Aprendizado do idioma portugu\u00eas<\/h3>\n\n\n\n<p>Entre tantas dificuldades de integra\u00e7\u00e3o, aprender o idioma foi a primeira a ser enfrentada. E quando pergunto como aprendeu a falar portugu\u00eas?, com uma risada ela responde: &#8220;Com o Jornal Nacional. Assistia e prestava muito a aten\u00e7\u00e3o porque achava que o vocabul\u00e1rio correto estava ali no jornal&#8221;. Mas foi com a ajuda de uma vizinha que, junto com os irm\u00e3os e m\u00e3e, aprendeu as primeiras palavras. &#8220;Ela fazia quest\u00e3o de nos ensinar porque assim tamb\u00e9m assimilava algumas palavras em persa&#8221;, relembra com carinho.<\/p>\n\n\n\n<p>No Ir\u00e3, Somayhe j\u00e1 tinha o n\u00edvel de escolaridade suficiente para cursar a faculdade, como era o seu desejo. Aqui, precisou ingressar no 2\u00ba ano do ensino m\u00e9dio para fazer uma adapta\u00e7\u00e3o curricular. Cursou Ci\u00eancias Cont\u00e1beis e revela que o idioma foi a maior dificuldade que encontrou no relacionamento com os colegas e professores.<\/p>\n\n\n\n<p>Somayhe diz que precisava aprender especialmente a escrita para frequentar o curso superior. &#8220;Eu n\u00e3o conseguia escrever em portugu\u00eas. No Ir\u00e3 a gente escreve da direita para a esquerda e o nosso alfabeto \u00e9 o ALEFBA&#8221; e completa: &#8220;Ainda hoje, para mim, \u00e9 bem mais f\u00e1cil escrever e falar em persa.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo fazendo essa observa\u00e7\u00e3o pode-se dizer que ela domina muito bem a nossa l\u00edngua. Nota-se que o marido tem mais sotaque, assim como seus pais. Na fam\u00edlia eles falam, entre si, o persa e o turco. Uma forma dos filhos se comunicarem com os av\u00f3s, tios, primos e amigos que moram no Ir\u00e3. &#8220;\u00c9 tamb\u00e9m uma forma de mantermos nossa cultura ativa dentro de casa&#8221;, diz ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma viagem feita ao pa\u00eds de origem, em 2011, foram obrigados a permaneceram l\u00e1, durante um ano e meio, por motivo de doen\u00e7a do marido. Por isso o filho mais velho, ent\u00e3o com quatro anos, teve que frequentar a escola, uma exig\u00eancia do governo iraniano. Essa viv\u00eancia foi importante para ele aprender a falar o idioma persa. Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 escrita, os dois filhos, Amir Hossein de 13 anos e Erfan de 8 anos, v\u00e3o estudar aqui no Brasil com suporte da Embaixada do Ir\u00e3. &#8220;Por\u00e9m, isso s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel depois que eles completarem 15 anos&#8221;, explica.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Trabalho<\/h3>\n\n\n\n<p>&#8220;Trabalho com meu pai desde os 8 anos de idade no ramo de tapetes persa. Ele sempre me levava no Bazar, atividade que naquela \u00e9poca nunca era permitido \u00e0s mulheres&#8221;, inicia lembrando que isso come\u00e7ou h\u00e1 30 anos no Ir\u00e3.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Desde cedo ela observava o modo como o pai falava com empres\u00e1rios, com os funcion\u00e1rios e como se dirigia aos clientes. Assim aprendeu e se profissionalizou. Naquela \u00e9poca ela j\u00e1 lidava com dinheiro e pagava os funcion\u00e1rios. Uma fun\u00e7\u00e3o normalmente atribu\u00edda ao filho homem.<\/p>\n\n\n\n<p>Como ela era filha mais velha, o pai a orientou no trabalho. Se diz apaixonada pelo assunto e que dentre os irm\u00e3os s\u00f3 ela segue nesse ramo de neg\u00f3cio. &#8220;Meus irm\u00e3os amam tapete persa, mas s\u00f3 para colocar na casa&#8221;, comenta rindo.&nbsp; E dentre seus filhos, Somayhe acha que \u00e9 o filho pequeno quem demonstra interesse. &#8220;Ele j\u00e1 ajuda o pai na lava\u00e7\u00e3o, questiona sobre os produtos de limpeza que s\u00e3o usados&#8221;, registra.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui em Joinville, continuamos nesse ramo de com\u00e9rcio trazido do Ir\u00e3. Vendemos, lavamos, restauramos e tecemos tapetes persa. Este \u00faltimo, uma especialidade feita pelo pai e por sua m\u00e3e que s\u00e3o &#8220;artes\u00e3os como seus ancestrais&#8221;, diz com orgulho.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1536\" height=\"1152\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Sala-de-tapetas-persa.-Local-de-trabalho-HEIC-1-1536x1152-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13083\"\/><figcaption>Sala de tapetes. Fonte: Raquel Ramos.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O tapete \u00e9 uma das manifesta\u00e7\u00f5es mais caracter\u00edsticas da cultura e da arte persa e remonta \u00e0 antiga P\u00e9rsia. \u00c9 feito de forma artesanal e dependendo do tamanho pode levar at\u00e9 um ano para ficar pronto. No retorno das viagens, as malas voltam carregadas de produtos. &#8220;Se for necess\u00e1rio, deixamos as nossas roupas l\u00e1 para encher com material dos tapetes, porque aqui n\u00e3o tem. Tudo \u00e9 autenticamente iraniano&#8221;,&nbsp; assegura.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa bagagem trazem l\u00e3 para a reforma dos tapetes, a&nbsp; tinta usada no tingimento, al\u00e9m do ch\u00e1 usado para pigmenta\u00e7\u00e3o. Para obter a cor marrom, usam tamb\u00e9m o p\u00f3 de caf\u00e9, enquanto o ch\u00e1 \u00e9 para obter a cor bord\u00f4. Com a pandemia esses produtos s\u00e3o enviados por correio ou s\u00e3o trazidos por algum conhecido que venha de viagem. Nesse caso, explica, &#8220;pagamos pelo excesso de bagagem.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Com seguran\u00e7a ela diz que a pigmenta\u00e7\u00e3o \u00e9 perfeita. \u201cTrouxemos esse aprendizado do tingimento do fio l\u00e1 do Ir\u00e3, como fazem os nossos artes\u00e3os&#8221;. Informa que seu pai faz reformas de tapetes enviados de S\u00e3o Paulo, Curitiba, porque os clientes sabem que ele faz um \u00f3timo trabalho e sabe tingir com perfei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando morava no Ir\u00e3, o marido tinha uma atividade totalmente diferente. Trabalhava com o pai dele no ramo de com\u00e9rcio de compra e venda de caixas de papel\u00e3o reciclados. Por coincid\u00eancia, h\u00e1 cerca de cinco anos, antes deles se conhecerem, ele foi trabalhar com um primo da fam\u00edlia em um bazar de tapetes. &#8220;Mas foi aqui no Brasil que ele aprendeu com o meu pai, se especializou e se profissionalizou&#8221;, revela.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Adapta\u00e7\u00e3o e miscigena\u00e7\u00e3o da cultura e dos costumes<\/h3>\n\n\n\n<p>Mesmo morando h\u00e1 18 anos no Brasil, Somayeh afirma: &#8220;continuo sendo iraniana&#8221;. Entre os costumes brasileiros, ainda h\u00e1 alguns n\u00e3o absorvidos. Por exemplo, ir \u00e0 praia. &#8220;Ir \u00e0 praia \u00e9 uma dificuldade&#8221;, afirma. &#8220;Colocar traje de banho &#8216;n\u00e3o rola&#8217;, nem mesmo na piscina de casa em frente dos filhos&#8221;. As suas irm\u00e3s usam roupa de praia. &#8220;Elas, sim, j\u00e1 s\u00e3o mais brasileiras do que eu&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>No Ir\u00e3 n\u00e3o existe o h\u00e1bito de ir \u00e0 praia, mas h\u00e1 piscinas nas resid\u00eancias, para a fam\u00edlia se divertir. Inclusive, as piscinas s\u00e3o aquecidas para atender nos 6 meses de inverno com temperaturas de at\u00e9 20\u00ba abaixo de zero. As esta\u00e7\u00f5es do ano s\u00e3o bem divididas entre 6 meses de frio e&nbsp; 6 meses de&nbsp; calor. Durante 3 meses h\u00e1 calor intenso com sensa\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica de 75\u00ba graus.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo em que n\u00e3o se habitua a alguns dos nossos costumes, j\u00e1 estranha alguns da sua pr\u00f3pria terra. L\u00e1 as refei\u00e7\u00f5es s\u00e3o feitas sentados no ch\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 mesas e enquanto todos n\u00e3o param de comer ningu\u00e9m levanta. Ela lembra que quando morava em Teer\u00e3, eles j\u00e1 tinham mesa em casa, mais um dos h\u00e1bitos ocidentais levado pelo pai das viagens ao exterior. &#8220;Diferente da casa da fam\u00edlia do meu marido, onde s\u00f3 h\u00e1 a sala de estar&#8221; e descreve, &#8220;o prato \u00e9 colocado no ch\u00e3o, para comer usam garfo e colher, n\u00e3o \u00e9 garfo e faca&#8221;. Desacostumada, ela assume que quando ia comer na casa de algu\u00e9m levava uma faca na bolsa porque j\u00e1 n\u00e3o sabe mais comer com a colher.<\/p>\n\n\n\n<p>Sempre que viajam para o Ir\u00e3 tamb\u00e9m levam um pouco da cultura, dos h\u00e1bitos e da comida brasileira. L\u00e1 n\u00e3o existe leite condensado, doce de leite, caf\u00e9. &#8220;Nas primeiras vezes logo fizemos brigadeiro porque eles nem sabiam o que era isso&#8221;, diz ela e j\u00e1 demonstrando a prefer\u00eancia continua, &#8220;caf\u00e9 tem, mas \u00e9 da Turquia e n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o gostoso quanto o do Brasil&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Se educar um filho em uma cultura \u00e9 dif\u00edcil em duas \u00e9 muito mais. O casal tem a preocupa\u00e7\u00e3o de mostrar para os filhos os dois lados: a cultura iraniana e a brasileira. A segunda eles absorvem naturalmente, na escola, com os amigos, na internet e televis\u00e3o. Mas, a ess\u00eancia da educa\u00e7\u00e3o \u00e9 na cultura iraniana.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Somayeh pensa que eles t\u00eam a liberdade de escolha, &#8220;algo que n\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos. Minha m\u00e3e nunca chamou a nossa aten\u00e7\u00e3o pela voz, ela s\u00f3 olhava e n\u00f3s obedec\u00edamos&#8221;, e explica que em busca de orienta\u00e7\u00e3o na educa\u00e7\u00e3o dos filhos compra livros de autores brasileiros e de autores iranianos. Estes ela adquire pela internet e baixa no celular.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto em Hamidreza Nikdelamnab, marido de Somayhe, a preocupa\u00e7\u00e3o est\u00e1 refletida na express\u00e3o do rosto. Quando se refere a educa\u00e7\u00e3o dos filhos ele se preocupa sobre o rumo que essa nova gera\u00e7\u00e3o est\u00e1 tomando. Percebe a diferen\u00e7a da educa\u00e7\u00e3o que recebeu dos&nbsp; pais e da dificuldade em transmitir esses ensinamentos aos filhos com tantas influ\u00eancias que eles recebem dos amigos, televis\u00e3o e redes sociais. Ele se angustia que isso&nbsp; &#8220;acabe refletindo na educa\u00e7\u00e3o, no comportamento e principalmente na f\u00e9 religiosa deles.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Os filhos se sentem mais brasileiros do que iranianos, o que Somayhe n\u00e3o considera um problema, j\u00e1 que eles gostam do Ir\u00e3, se relacionam muito bem com os tios, av\u00f3s e primos e principalmente respeitam os costumes. Por outro lado, os meninos tamb\u00e9m vivem contradi\u00e7\u00f5es. Quando v\u00e3o para o Ir\u00e3 s\u00e3o vistos como brasileiros e aqui s\u00e3o vistos como iranianos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao filho mais velho \u00e9 ensinado que se for namorar deve &#8220;noivar&#8221;. Conhecer bem a mo\u00e7a, pode passear, ir ao cinema, tomar sorvete, mas sem relacionamento f\u00edsico. &#8220;N\u00f3s damos a orienta\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o obrigamos o comportamento. \u00c9 ele quem decide&#8221;, afirma. Da mesma forma sobre o consumo de \u00e1lcool. Proibido pela religi\u00e3o mu\u00e7ulmana, ela j\u00e1 foi questionada por Amir para saber com que idade poder\u00e1 beber um chopp. Ao mesmo tempo, ele afirma que n\u00e3o sabe se vai fazer disso um h\u00e1bito porque nunca provou para saber se \u00e9 bom.<\/p>\n\n\n\n<p>Em fam\u00edlia, sobre o idioma, brincam que um n\u00e3o pode corrigir o outro, pois os pais falam o portugu\u00eas com tanto sotaque quanto os filhos o persa e o turco. Mesmo assim ela diz que \u00e9 muito corrigida pelos filhos, principalmente por Erfan, o mais mo\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo que de forma indireta, a integra\u00e7\u00e3o das culturas \u00e9 feita de ambos os lados. Durante a Copa do Mundo, na Escola Gustavo Augusto Gonzaga, onde os meninos estudam, aconteceu uma atividade cultural sobre todos os pa\u00edses participantes.&nbsp; A professora de Amir interviu, junto a dire\u00e7\u00e3o, para que fizessem sobre o Ir\u00e3, j\u00e1 que havia entre eles um aluno persa. Com entusiasmo, Somayhe conta que telefonou para a Embaixada do seu pa\u00eds e eles enviaram panfletos, livros e bandeiras. &#8220;Eu levei tapetes persa e todas as meninas da sala desfilaram com os meus len\u00e7os&#8221;, descreve.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda sobre a escola, relembra que procurou a professora para falar sobre o ensino religioso quando viu o filho mais velho decorando a ora\u00e7\u00e3o da Ave Maria. Foi uma conversa que resultou em troca de informa\u00e7\u00f5es. &#8220;Hoje os professores quando leem algo sobre o islamismo ou quando querem se aprofundar em algum assunto procuram por n\u00f3s ou pelos meninos para esclarecimento&#8221;, explica.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Amir \u00e9 um rapaz de pouca fala, timbre de voz baixo e conta que &#8220;nunca me senti discriminado em nenhum dos dois pa\u00edses. Mas, no in\u00edcio, eles, os iranianos, me olhavam meio estranho.&#8221; Conta que em uma das viagens levou uma chuteira para futebol de grama, e outra de futebol de sal\u00e3o, eles achavam que era t\u00eanis. Justifica que isto se d\u00e1 porque o futebol no Ir\u00e3 n\u00e3o \u00e9 como o do Brasil. Eles gostam, mas n\u00e3o h\u00e1 diversifica\u00e7\u00e3o de produtos como aqui.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, ele interv\u00e9m citando outras diferen\u00e7as: &#8220;N\u00e3o podemos andar de bermuda, nem de camiseta regata ou de cal\u00e7a rasgada na rua.&#8221;&nbsp; E acrescenta que os meninos usam cal\u00e7a de moletom mas o casaco tem que ser blazer. Rindo diz: &#8220;quando chego l\u00e1 sou obrigado a me vestir como eles.&#8221; A m\u00e3e fala que&nbsp; Amir quando entra no avi\u00e3o &#8220;ativa o modo iraniano ou o modo brasileiro&#8221; com uma incr\u00edvel facilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Tantas idas e vindas n\u00e3o impediu um incidente por desconhecer alguns fatos do cotidiano em Teer\u00e3. Fazer sinais com as m\u00e3os, por exemplo, foi um problema que Amir vivenciou. O sinal usado como &#8220;ok&#8221;, no ocidente, com o dedo polegar para cima, no Ir\u00e3,&nbsp; tem o mesmo significado obsceno de quando apontamos o dedo m\u00e9dio em riste. E Amir fez esse sinal para um policial. Depois de muita explica\u00e7\u00e3o sobre ser iraniano, falar persa com forte sotaque, e ser nascido no Brasil, conseguiu se explicar e foi desculpado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Somayhe mora no Brasil com sua fam\u00edlia h\u00e1 18 anos e busca manter viva as ra\u00edzes de seu pa\u00eds natal Por Raquel Ramos O pa\u00eds que hoje \u00e9 a Rep\u00fablica Isl\u00e2mica do Ir\u00e3 data de 550 A.C. Se localiza no Oriente M\u00e9dio, faz fronteira com o Iraque, Turquia, Azerbaij\u00e3o, Turcomenist\u00e3o, Afeganist\u00e3o e Paquist\u00e3o. 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