{"id":5789,"date":"2021-10-22T15:00:00","date_gmt":"2021-10-22T18:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/revidigital.com.br\/?p=5789"},"modified":"2022-09-12T17:21:47","modified_gmt":"2022-09-12T20:21:47","slug":"longe-de-casa-encontrei-um-lar-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/2021\/10\/22\/longe-de-casa-encontrei-um-lar-3\/","title":{"rendered":"Longe de casa encontrei um lar &#8211; Cap\u00edtulo 3"},"content":{"rendered":"\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><em><em>Somayhe<\/em> <em>mora no Brasil com sua fam\u00edlia<\/em> <em>h\u00e1 18 anos e busca manter viva as ra\u00edzes de seu pa\u00eds natal<\/em><\/em><\/h5>\n\n\n\n<p><em>Por Raquel Ramos<\/em><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Cap\u00edtulo 3<\/h2>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">&nbsp;A religi\u00e3o<\/h3>\n\n\n\n<p>Antes da pandemia a fam\u00edlia frequentava as Mesquitas em Curitiba, j\u00e1 que em Joinville n\u00e3o h\u00e1. No impedimento atual fazem as 5 ora\u00e7\u00f5es di\u00e1rias em casa. &#8220;Minha m\u00e3e e meu pai fazem todos os dias&#8221;, diz ela. A primeira ora\u00e7\u00e3o \u00e9 antes do nascer do sol, depois \u00e0s 12h, uma antes do entardecer, e outra por volta das 21h.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"958\" height=\"1280\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Mahi-Samadi-mostra-os-habitos-da-oracao.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13024\"\/><figcaption>Mahi Samadi, m\u00e3e de Somayhe, mostra os h\u00e1bitos da ora\u00e7\u00e3o. Fonte: Raquel Ramos.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Com a vida corrida e trabalho que tem, Somayhe fala que n\u00e3o tem a mesma disciplina dos pais. \u201cSe estou com um cliente, n\u00e3o posso pedir para esperar com a justificativa de que vou fazer a ora\u00e7\u00e3o e voltar depois&#8221;, explicou. Embora saiba que muitos lojistas de S\u00e3o Paulo e Foz do Igua\u00e7u assim procedem: fecham a loja, rezam e depois voltam. Explica que &#8220;a nossa ora\u00e7\u00e3o demora bastante, n\u00e3o \u00e9 um ato r\u00e1pido. Tem todo um ritual. Tem que lavar o rosto, lavar o antebra\u00e7o, passar \u00e1gua em cima do p\u00e9 e sobre&nbsp; a cabe\u00e7a. Depois \u00e9 necess\u00e1rio colocar um v\u00e9u e um xador (len\u00e7o comprido al\u00e9m da altura da cintura) por cima. S\u00f3 ent\u00e3o \u00e9 que realmente come\u00e7am a ora\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O V\u00e9u<\/h3>\n\n\n\n<p>Na chegada ao Brasil, relata que se sentiram muito discriminadas por usarem v\u00e9u. &#8220;Quando entr\u00e1vamos num supermercado os seguran\u00e7as nos seguiam&#8221; e acrescenta que quando se dirigiam a elas geravam outro problema. &#8220;No nosso pa\u00eds, n\u00e3o podemos conversar com nenhum homem estranho na rua.&#8221; Essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 considerada uma afronta para as mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>Passados alguns meses morando em Joinville, diante de tantos fatos relatados ao pai, o Senhor Said, acostumado com o mundo ocidental, permitiu que a esposa e as filhas deixassem de usar o len\u00e7o. Tal atitude, por outro lado, gerou sentimentos contradit\u00f3rios entre elas. Como quem revive aquele tempo inicial, diz: &#8220;No primeiro dia que sa\u00ed sem v\u00e9u era como se eu estivesse sem roupa&#8221;, relata ainda com uma certa ang\u00fastia na voz. &#8220;Achava que todo mundo estava me olhando. Me sentia insegura. Foi muito estranho. \u00c0s vezes eu voltava para casa chorando&#8221;, completou. E continua, &#8220;reclamava com meus pais de que as pessoas me olhavam.&#8221; Por outro lado, o pai a acalmava, &#8220;essa sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de voc\u00eas, n\u00e3o das pessoas. \u00c9 justamente o contr\u00e1rio, quando voc\u00eas saem com v\u00e9u, todos apontam, agora voc\u00eas s\u00e3o comuns e iguais as outras mulheres.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Para a fam\u00edlia que ficou no Ir\u00e3, tirar o v\u00e9u foi visto com certa naturalidade. O sogro foi o que menos gostou desta mudan\u00e7a. Eles t\u00eam h\u00e1bitos mais rigorosos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 religi\u00e3o do que a fam\u00edlia dela. &#8220;Eu tinha como aliada a minha sogra que fez ele entender que morando no Brasil, n\u00e3o pod\u00edamos viver como se estiv\u00e9ssemos no Ir\u00e3&#8221;, explica. Para convenc\u00ea-lo argumentava que quando Somayeh fosse para l\u00e1, usaria o v\u00e9u como antes. E foi o que realmente aconteceu &#8220;l\u00e1 eu me visto igual \u00e0s minhas cunhadas&#8221;, assume.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando h\u00e1 a presen\u00e7a de outros homens, que n\u00e3o seja o marido, o uso do v\u00e9u \u00e9 obrigat\u00f3rio mesmo dentro de casa. E nesse caso, tamb\u00e9m t\u00eam que usar vestido comprido e manga longa, porque nenhuma parte do corpo pode ficar \u00e0 mostra, como quando est\u00e3o na rua. Como nesses per\u00edodos de viagem havia a presen\u00e7a constante dos irm\u00e3os e parentes de Hamidreza na casa da fam\u00edlia, ela era obrigada a usar traje completo o tempo todo. Mais uma vez, a sogra intercedeu perante o sogro para que ela pudesse tirar essa vestimenta na intimidade do lar.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Na alimenta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m seguem a religi\u00e3o mu\u00e7ulmana<\/h3>\n\n\n\n<p>A base da alimenta\u00e7\u00e3o de prote\u00edna vem da carne bovina, carneiro e frango. Nunca comem carne su\u00edna por quest\u00f5es religiosas. O presunto, as salsichas que consomem s\u00e3o de frango.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;As comidas, em todos os pa\u00edses, s\u00e3o muito parecidas, o que muda \u00e9 o preparo. Os temperos, ingredientes que n\u00e3o existem no Brasil, s\u00e3o trazidos do Ir\u00e3&#8221;, diz Hamidreza. E Somayhe repete que se for preciso deixam as roupas l\u00e1, \u201cmas n\u00e3o voltamos sem nossos ch\u00e1s, especiarias e os alimentos que n\u00e3o existem no Brasil, como por exemplo a lentilha iraniana, Senjed (a flor de l\u00f3tus)&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia a dia, costumam comer Geimeh &#8211; carne de panela com lentilha persa, Abgusht &#8211; uma comida simples como seria no Brasil o b\u00e1sico arroz com feij\u00e3o, Gorme Sabzi &#8211; um ensopado de v\u00e1rias ervas picadas e fritas, cozidas com feij\u00e3o e carne, tradicionalmente a de cordeiro, Kafta &#8211; carne mo\u00edda feita churrasco servida com arroz e tomate assado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A carne consumida pelos mu\u00e7ulmanos segue alguns preceitos religiosos, de acordo com a lei isl\u00e2mica. A iraniana&nbsp; explica que o animal deve ser abatido com corte na veia jugular para que ele morra sem sofrimento. Algumas vezes o pai, Senhor Said, trouxe carneiro vivo, de Campo Alegre, para abater e limpar em casa. Ela relata: &#8220;\u00c9 preciso abater o animal no sentido da casa de Deus, que \u00e9 Meca.&#8221; Para isso, seu pai usa uma b\u00fassola para ver a posi\u00e7\u00e3o correta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Famoso mesmo na fam\u00edlia e entre alguns clientes, presenteados por ela, \u00e9 o p\u00e3o persa feito pela m\u00e3e Mahi. O tradicional p\u00e3o de formato redondo \u00e9 achatado, como uma folha, desenrolado com um bast\u00e3o de madeira, assado na chapa, \u00e9 conhecido em casa como o &#8220;p\u00e3o da v\u00f3&#8221;. Para comer, corta-se com a m\u00e3o e pode ser servido com salgado, doces, queijo, presunto, no caf\u00e9 da manh\u00e3 ou para acompanhar as refei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1536\" height=\"1152\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Mesa-com-doces-e-o-alcorao-1-1536x1152-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13025\"\/><figcaption>Mesa com doces e o alcor\u00e3o. Fonte: Raquel Ramos.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Produzido de forma artesanal, esse \u00e9, praticamente, o \u00fanico p\u00e3o que a fam\u00edlia consome. De tanto ver a v\u00f3 amassando na m\u00e3o e assando um a um. Somayhe conta que ao retornar de uma das viagens do Ir\u00e3, o filho Amir percebeu e comentou: &#8220;v\u00f3, l\u00e1 n\u00e3o existe mais desse teu p\u00e3o, eles fazem tudo sovado na m\u00e1quina&#8221;. E ele confessa que se pudesse trazer algo do Ir\u00e3 para c\u00e1 escolheria a comida. Em especial os doces &#8220;que s\u00f3 tem l\u00e1&#8221;, diz o garoto.<\/p>\n\n\n\n<p>Para os iranianos o principal valor \u00e9 a fam\u00edlia e por isso eles querem preservar seus costumes e religi\u00e3o. Desse mundo t\u00e3o distante, e n\u00e3o s\u00f3 em&nbsp; quilometragem, conheci uma mulher destemida sem abandonar seus valores. Com todo o respeito e cada um desempenhando as suas fun\u00e7\u00f5es, ela tem um papel de lideran\u00e7a na fam\u00edlia e atua nas decis\u00f5es com o marido.<\/p>\n\n\n\n<p>Somayhe se destaca pela personalidade forte. Vem mostrar que as mulheres iranianas n\u00e3o s\u00e3o invis\u00edveis. Elas existem e buscam os seus anseios sem a necessidade de romper com as tradi\u00e7\u00f5es. O peso dessas mulheres vai al\u00e9m das obriga\u00e7\u00f5es ou do modo de se vestirem.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre visitar o Ir\u00e3, ela esclarece \u201cque n\u00e3o h\u00e1 conflito armado no seu pa\u00eds\u201d. O medo dos turistas \u00e9 uma consequ\u00eancia das desaven\u00e7as pol\u00edticas e muitos o confundem com o vizinho Iraque ou a Ar\u00e1bia Saudita. Somayhe diz que em seu pa\u00eds \u201cas pessoas s\u00e3o acolhedoras e que \u00e9 seguro viajar para l\u00e1\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de viajar, ler relatos \u00e9 sempre uma boa atitude. A pr\u00f3pria Embaixada do Ir\u00e3 orienta os visitantes sobre como se vestir ou se portar. Ter atitudes correspondentes aos h\u00e1bitos locais \u00e9 importante para n\u00e3o incorrer em faltas deselegantes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Somayhe mora no Brasil com sua fam\u00edlia h\u00e1 18 anos e busca manter viva as ra\u00edzes de seu pa\u00eds natal Por Raquel Ramos Cap\u00edtulo 3 &nbsp;A religi\u00e3o Antes da pandemia a fam\u00edlia frequentava as Mesquitas em Curitiba, j\u00e1 que em Joinville n\u00e3o h\u00e1. 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