{"id":5944,"date":"2021-10-28T18:14:56","date_gmt":"2021-10-28T21:14:56","guid":{"rendered":"http:\/\/revidigital.com.br\/?p=5944"},"modified":"2022-09-10T17:41:17","modified_gmt":"2022-09-10T20:41:17","slug":"missa-da-meia-noite-usa-terror-metaforico-para-falar-de-fascismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/2021\/10\/28\/missa-da-meia-noite-usa-terror-metaforico-para-falar-de-fascismo\/","title":{"rendered":"&#8220;Missa da Meia-Noite&#8221; usa terror metaf\u00f3rico para falar de fascismo"},"content":{"rendered":"\n<p>Mike Flanagan brilha ao explorar conflitos entre religi\u00e3o e racionalidade&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>Por Pedro Novais<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8220;A vontade de Deus, embora perfeita, muda. A vontade de Deus dita a moralidade. E \u00e0 medida que a vontade de Deus muda, a moralidade tamb\u00e9m.&#8221;<\/em> A distor\u00e7\u00e3o do que \u00e9 ou n\u00e3o obra divina \u00e9 a quest\u00e3o que permeia \u201cMissa da Meia-Noite\u201d, nova miniss\u00e9rie do diretor Mike Flanagan, que estreou em setembro deste ano, na Netflix. Assim como em \u201cA Maldi\u00e7\u00e3o da Resid\u00eancia Hill\u201d e \u201cA Maldi\u00e7\u00e3o da Mans\u00e3o Bly\u201d, o diretor usa de elementos de terror para nos entregar um \u00f3timo e elaborado drama.<\/p>\n\n\n\n<p>Escrito e dirigido por Flanagan, o seriado acompanha os moradores da pacata ilha Crockett, que come\u00e7am a vivenciar acontecimentos estranhos ap\u00f3s a chegada de um novo padre \u00e0 igreja local. A premissa n\u00e3o \u00e9 algo in\u00e9dito, mas com uma dire\u00e7\u00e3o singular e um roteiro bem escrito, &#8220;Missa da Meia-Noite&#8221; foge dos clich\u00eas do g\u00eanero e brilha ao explorar os conflitos entre religi\u00e3o e racionalidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A dire\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie \u00e9 bem caracter\u00edstica do cineasta. Controlada, presente e atmosf\u00e9rica. Para isso, o diretor usa de movimentos de c\u00e2mera sofisticados, cenas inteiras em plano sequ\u00eancia, enquadramentos inspirados e uma \u00f3tima montagem. Tudo isso aliado ao tom melanc\u00f3lico e sombrio da fotografia lavada e amarelada, desenvolvida por Michael Fimognari e James Kniest, parceiros de longa data de Flanagan.<\/p>\n\n\n\n<p>Com duas adapta\u00e7\u00f5es de Stephen King no curr\u00edculo (Jogo Perigoso e Doutor Sono), muito da constru\u00e7\u00e3o narrativa da nova atra\u00e7\u00e3o de Flanagan se assemelha a obras do autor. Um exemplo disso \u00e9 a ilha, que por si s\u00f3 \u00e9 quase que um personagem. A atmosfera de cidade pequena e acolhedora contrasta com olhares de canto e o constante sentimento de desilus\u00e3o que ronda os personagens. Entretanto, a mitologia central da s\u00e9rie \u00e9 inspirada no livro de mesmo nome do autor F. Paul Wilson, lan\u00e7ado em 1990.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 interessante como Flanagan usa da mitologia e do horror para falar de assuntos relevantes e atuais. Toda a hist\u00f3ria \u00e9 repleta de met\u00e1foras e alegorias que abrem espa\u00e7o para as mais diversas interpreta\u00e7\u00f5es. Mas \u00e9 ineg\u00e1vel, dado o contexto atual, as analogias referentes ao fascismo e ao conservadorismo moral e cego \u2014 basicamente um v\u00edrus.<\/p>\n\n\n\n<p>O fato da religi\u00e3o em si ser a cat\u00f3lica romana \u00e9 outro fator interessante no enredo. Traz certa familiaridade \u2014 dado que 50% da popula\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 cat\u00f3lica, segundo pesquisa do Datafolha, de 2020. Sendo capaz de despertar alguns gatilhos. As situa\u00e7\u00f5es inc\u00f4modas mostradas em cena s\u00e3o experi\u00eancias vivenciadas por diversas pessoas que participam ou j\u00e1 participaram de alguma divis\u00e3o do cristianismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns personagens, como a megera Bev (Samantha Sloyan), s\u00e3o a personifica\u00e7\u00e3o de tudo que tem de errado na religiosidade. Sempre com algo a dizer sobre o outro, cedendo do egocentrismo inato quando lhe \u00e9 conveniente, para se vitimizar diante dos pr\u00f3prios argumentos autorit\u00e1rios e preconceituosos que tanto reproduz.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso \u00e9 feito por meio de um texto bem calculado e perspicaz. Talvez o ponto alto e baixo da produ\u00e7\u00e3o. Isso porque os personagens falam, \u00e0s vezes, muito. E essas falas s\u00e3o t\u00e3o brilhantes e reflexivas que chegam a soar artificiais em alguns momentos. Os di\u00e1logos tamb\u00e9m podem suscitar certa exaust\u00e3o para alguns telespectadores que esperam por uma experi\u00eancia mais imediata. Mas n\u00e3o se engane, tudo faz parte de uma constru\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica e simb\u00f3lica orquestrada por Flanagan. E que, sim, entrega o terror na hora certa. Mesmo que talvez por um caminho inesperado.<\/p>\n\n\n\n<p>As atua\u00e7\u00f5es s\u00e3o outro ponto a se exaltar. Samantha Sloyan entrega uma personagem familiarmente desprez\u00edvel, sem parecer escrachada. J\u00e1 Zach Gilford, na pele do protagonista Riley Flynn, transmite um desconforto mental que perpassa o f\u00edsico do personagem. \u00c9 uma atua\u00e7\u00e3o contida, por\u00e9m precisa, e que cresce ao decorrer dos epis\u00f3dios. Contudo, o cora\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie est\u00e1 na carism\u00e1tica e perturbadora atua\u00e7\u00e3o de Hamish Linklater, como o misterioso padre Paul. \u00c9 uma atua\u00e7\u00e3o cativante e assustadora, transitando ddo amig\u00e1vel e confi\u00e1vel ao duvidoso e inst\u00e1vel em inst\u00e2ntes.<\/p>\n\n\n\n<p>Com sete epis\u00f3dios de cerca de uma hora, &#8220;Missa da Meia-Noite\u201d tem uma narrativa rica e complexa que apresenta v\u00e1rias camadas, personagens bem constru\u00eddos e desenvolvidos, e que n\u00e3o se resume apenas a uma s\u00e9rie de terror \u2014 o que pode exigir certa persist\u00eancia por parte do p\u00fablico. Por\u00e9m, o saldo final \u00e9 positivo, carregado de personalidade e originalidade. Sendo tamb\u00e9m um \u00f3timo entretenimento, e uma boa pedida para o final de semana de Halloween.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mike Flanagan brilha ao explorar conflitos entre religi\u00e3o e racionalidade&nbsp; Por Pedro Novais &#8220;A vontade de Deus, embora perfeita, muda. A vontade de Deus dita a moralidade. 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