{"id":599,"date":"2018-09-24T16:41:36","date_gmt":"2018-09-24T19:41:36","guid":{"rendered":"http:\/\/revidigital.com.br\/?p=599"},"modified":"2018-09-24T16:41:36","modified_gmt":"2018-09-24T19:41:36","slug":"mulheres-ainda-sao-minoria-em-cargos-de-gestao-academica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/2018\/09\/24\/mulheres-ainda-sao-minoria-em-cargos-de-gestao-academica\/","title":{"rendered":"Mulheres ainda s\u00e3o minoria em cargos de gest\u00e3o acad\u00eamica"},"content":{"rendered":"<p>Atualizada em 25\/9\/2018 \u00e0s 11h25*<\/p>\n<p>Apesar de o <strong>feminismo<\/strong> ter progredido muito ao longo do tempo, existem marcas de <strong>desigualdade<\/strong> que ainda est\u00e3o presentes, como se verifica, por exemplo, no mercado de trabalho, onde h\u00e1 desequil\u00edbrio na ocupa\u00e7\u00e3o de cargos de lideran\u00e7a, tanto no setor p\u00fablico quanto no privado.<\/p>\n<p>A academia, isso \u00e9, as universidades e outras institui\u00e7\u00f5es de pesquisa e ensino superior e de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, mesmo conhecida por ser uma \u00e1rea de intelectuais, n\u00e3o est\u00e1 livre dessa desigualdade. A soci\u00f3loga Mar\u00edlia Moschkovich, em pesquisa orientada por pela professora Ana Maria Fonseca de Almeida, da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), analisou dados sobre a trajet\u00f3ria de professores e professoras da <strong>Unicamp<\/strong> e demonstra que a <strong>desigualdade de g\u00eanero<\/strong> possui impactos mais substanciais na carreira acad\u00eamica no Brasil do que se pensa.<\/p>\n<p>A pesquisa exp\u00f5e a preval\u00eancia de homens nos cargos administrativos. A incid\u00eancia de mulheres nesses postos \u00e9 12% menor que a dos colegas do sexo masculino. Al\u00e9m disso, a presen\u00e7a das mulheres concentra-se nas coordena\u00e7\u00f5es de gradua\u00e7\u00e3o, onde elas s\u00e3o 35% mais presentes do que os professores. Eles ficam em vantagem nas coordenadorias de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e na dire\u00e7\u00e3o de faculdades e institutos onde s\u00e3o 43% mais presentes que as mulheres.<\/p>\n<p>Conforme a pesquisa da soci\u00f3loga, estudos realizados no Brasil revelam padr\u00f5es de desigualdade em dois sentidos. As docentes do sexo feminino encontram-se mais concentradas em determinadas \u00e1reas do conhecimento e est\u00e3o em menor volume nas posi\u00e7\u00f5es mais altas da carreira, ou seja, em cargos com melhores sal\u00e1rios, maior prest\u00edgio acad\u00eamico e maior poder universit\u00e1rio. Essas situa\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m foram encontradas em lugares como Estados Unidos, Fran\u00e7a, Alemanha,\u00a0 Austr\u00e1lia, \u00cdndia e no Reino Unido. Mar\u00edlia analisou os tr\u00eas n\u00edveis da carreira acad\u00eamica na Unicamp e constatou que a propor\u00e7\u00e3o de mulheres \u00e9 inferior \u00e0 de homens em todos eles, mas a desvantagem \u00e9 superior no n\u00edvel mais alto da carreira, com 73,8% de homens para 26,2% de mulheres. Docentes do sexo feminino chegam ao n\u00edvel mais alto com mais rapidez que os homens em 7 unidades, na mesma velocidade em duas, e em 14 os homens chegam ao topo mais r\u00e1pido, conforme os dados apurados em 2013.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-603\" src=\"http:\/\/revidigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Info-desigualdade.jpg\" alt=\"\" width=\"442\" height=\"442\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><strong>Elas n\u00e3o fogem \u00e0 luta<\/strong><\/h2>\n<p>\u00c2ngela Maria Paiva Cruz\u00e9, bacharel em Matem\u00e1tica, mestre em Filosofia e doutora em Educa\u00e7\u00e3o, atua no ensino, pesquisa, extens\u00e3o e na<strong> gest\u00e3o universit\u00e1ria<\/strong>. Ela fez sua forma\u00e7\u00e3o b\u00e1sica e superior na educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Docente do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte h\u00e1 mais de tr\u00eas d\u00e9cadas, ela foi Vice-Reitora na gest\u00e3o 2007-2011, Reitora em 2011-2015 e agora est\u00e1 no segundo mandato. Ela tamb\u00e9m presidiu a Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Dirigentes das Institui\u00e7\u00f5es Federais de Ensino Superior (<strong>Andifes<\/strong>) entre 2016 e 2017. Para chegar ao comando da <strong>reitoria<\/strong>, \u00c2ngela disputou o cargo com outra mulher, por isso n\u00e3o sentiu discrimina\u00e7\u00e3o relacionada a g\u00eanero. Contudo, houve resist\u00eancia a sua candidatura por parte de homens. \u201cEu n\u00e3o tenho certeza absoluta, penso bastante sobre isso: se era pelo fato de eu ser mulher ou se era por interesses na ocupa\u00e7\u00e3o do cargo.\u201d<\/p>\n<figure id=\"attachment_612\" aria-describedby=\"caption-attachment-612\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-612 size-full\" src=\"http:\/\/revidigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/\u00c2ngela-Paiva-Cruz-Foto-C\u00edcero-Oliveira-Ascom-UFRN.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"261\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-612\" class=\"wp-caption-text\">\u00c2ngela Cruz\u00e9 \u00e9 reitora da UFRN \/ Foto C\u00edcero Oliveira -Ascom<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ao relembrar sua jornada, \u00c2ngela recorda duas situa\u00e7\u00f5es marcantes de <strong>machismo<\/strong>, sofridas ap\u00f3s assumir o cargo. \u201cA primeira foi com o sindicato que, por meio de charge, representou-me de maneira humilhante: eu ajoelhada entregando um documento a autoridades da \u00e1rea de educa\u00e7\u00e3o. Tenho d\u00favidas, muitas d\u00favidas, de que se eu fosse homem eles publicariam a charge\u201d, conta. A outra situa\u00e7\u00e3o foi durante uma ocupa\u00e7\u00e3o da reitoria, quando estudantes divulgaram cartazes com express\u00f5es agressivas e danosas \u00e0 imagem de \u00c2ngela.<\/p>\n<p>Therezinha Maria Novais de Oliveira tamb\u00e9m \u00e9 uma das mulheres que resistem no espa\u00e7o de lideran\u00e7a. Ela possui gradua\u00e7\u00e3o em Engenharia Sanit\u00e1ria pela Universidade Federal de Santa Catarina, mestrado em Engenharia de Produ\u00e7\u00e3o pela UFSC, doutorado em Engenharia de Produ\u00e7\u00e3o na \u00e1rea de concentra\u00e7\u00e3o &#8211; gest\u00e3o ambiental, tamb\u00e9m pela UFSC, e atualmente \u00e9 Pr\u00f3-Reitoria de Pesquisa e P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o da Univille, al\u00e9m de atuar na gradua\u00e7\u00e3o nos cursos de Engenharia Ambiental e Sanit\u00e1ria e Biologia Marinha. Ela afirma que seu ingresso na <strong>carreira<\/strong> n\u00e3o foi f\u00e1cil. Muitas vezes sentiu-se questionada sobre sua capacidade, por conta da sua idade. \u201c\u00c0s vezes alguns professores ou coordenadores que eu recebia, faziam alguma alus\u00e3o ao fato de eu ser jovem: \u2018Ah voc\u00ea \u00e9 t\u00e3o jovenzinha\u2019, e eu respondia:\u00a0 \u2018N\u00e3o, professor, n\u00e3o sou t\u00e3o jovenzinha. Vamos voltar ao assunto\u2019, isso realmente era algo que incomodava.\u201d<\/p>\n<p>Na opini\u00e3o de<strong> Joana Pedro<\/strong>, doutora em Hist\u00f3ria, s\u00e3o poucos os homens e mulheres que aceitam a lideran\u00e7a feminina, pois h\u00e1 uma tradi\u00e7\u00e3o muito antiga de enxergar as mulheres como subordinadas. \u201cV\u00ea-las no comando, aceitar o comando dessa mulher envolve uma quest\u00e3o cultural de longa data. As mulheres ainda t\u00eam que penar muito para serem aceitas em qualquer cargo de lideran\u00e7a\u201d, observa.<\/p>\n<p>A reitora da Univille \u00e9 Sandra Furlan (foto na chamada desta reportagem), graduada em Engenharia Qu\u00edmica, doutora em Engenharia de Processos pela Escola Superior de Engenharia Qu\u00edmica do Instituto Nacional Polit\u00e9cnico de Toulouse, Fran\u00e7a. \u00c9 professora titular da Univille, foi Pr\u00f3-reitora de Pesquisa e P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e Vice-Reitora. Possui mais de 380 trabalhos publicados no Brasil e no exterior. Sandra realmente percebe as dificuldades que mulheres enfrentam para se destacarem positivamente e aponta um desequil\u00edbrio de g\u00eanero no \u00e2mbito profissional. \u201cNo dia a dia a gente percebe algumas situa\u00e7\u00f5es. \u2018Ah \u00e9 porque \u00e9 mulher que est\u00e1 agindo dessa forma\u2019, coment\u00e1rios\u00a0 que a gente acaba ouvindo.\u00a0 \u00c0s vezes,\u00a0 nem \u00e9 um coment\u00e1rio, mas um sorriso maldoso. O que precisamos \u00e9 mostrar &#8211; pela compet\u00eancia e resultado &#8211; o nosso trabalho e, assim, a mulher tem conquistado a cada dia seu lugar.\u201d<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 participa\u00e7\u00e3o feminina na \u00e1rea de pesquisa, segundo um <u><a href=\"http:\/\/www.iff.fiocruz.br\/pdf\/elsevier_genderreport_final_for_web.pdf\">estudo<\/a><\/u> publicado em 2017 pela Elsevier, maior editora cient\u00edfica do mundo, nos \u00faltimos 20 anos a propor\u00e7\u00e3o de mulheres que publicam artigos cient\u00edficos \u2013 principal forma de avalia\u00e7\u00e3o na carreira acad\u00eamica \u2013 cresceu 11% no Brasil. Os dados mostram que, entre os pa\u00edses pesquisados, Brasil e Portugal s\u00e3o os que mais contam com autoras em trabalhos cient\u00edficos (49% do total), quase a mesma quantidade que os pesquisadores homens. Para Sandra, as mulheres precisam demonstrar muito mais dedica\u00e7\u00e3o a seus respectivos trabalhos para serem reconhecidas ou, ao menos, n\u00e3o t\u00e3o julgadas \u201cA mulher \u00e9 mais criticada. A falha masculina \u00e9 relevada com muito mais facilidade do que uma feminina\u201d, avalia.<\/p>\n<h2>Um s\u00e9culo de atraso<\/h2>\n<p>O acesso das mulheres ao ensino superior, no Brasil, s\u00f3 foi permitido quase cem anos depois da cria\u00e7\u00e3o das primeiras universidades Em 1789, Dom Pedro II aprovou uma lei que autorizava as mulheres a frequentarem curso superior, ainda que entrar\u00a0 nesses cursos fosse bastante dif\u00edcil para a maioria delas. O acontecimento que influenciou a decis\u00e3o de D. Pedro II foi o fato de que uma mulher, que se formara em Nova York por meio de uma bolsa de estudos que ele mesmo havia concedido, n\u00e3o podia praticar seu of\u00edcio legalmente no Brasil. Assim, em 1887, formou-se a primeira mulher no Brasil, na Faculdade de Medicina da Bahia. Rita Lobato Velho Lopes foi a primeira mulher brasileira e a segunda latino-americana a conquistar um diploma de m\u00e9dica, ap\u00f3s defender o trabalho de conclus\u00e3o sobre <em>A opera\u00e7\u00e3o cesariana<\/em>.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a das mulheres com t\u00edtulos de doutorado vem aumentando constantemente no Brasil, ao longo das d\u00e9cadas.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-600\" src=\"http:\/\/revidigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Info-Docentes.jpg\" alt=\"\" width=\"305\" height=\"344\" \/><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-601\" src=\"http:\/\/revidigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Info-doutores.jpg\" alt=\"\" width=\"288\" height=\"343\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>Trabalho feminino sustenta 40% das fam\u00edlias brasileiras<\/h3>\n<p>Mesmo sendo maioria entre as pessoas com ensino superior completo, as mulheres continuam sofrendo desigualdades no mercado de trabalho, em rela\u00e7\u00e3o aos homens. Isso tamb\u00e9m acontece em outras \u00e1reas, segundo o estudo Estat\u00edsticas de G\u00eanero: Indicadores Sociais das Mulheres no Brasil, divulgado no m\u00eas de mar\u00e7o de 2018 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE). Para a Doutora em Hist\u00f3ria Cristina Scheibe Wolff, isso tamb\u00e9m faz parte da estrutura do sistema capitalista, que explora todas as poss\u00edveis fraquezas. \u201cIsso ocorre com qualquer pessoa que o capitalismo possa pagar menos\u201d.<\/p>\n<p>No caso das mulheres, ao longo de muitos anos o sal\u00e1rio inferior era justificado com o argumento de que elas n\u00e3o eram as principais provedoras de suas casas. Entre o ano de 1995 e 2015, o n\u00famero de lares em que as mulheres prov\u00eam a maior parte do sustento aumentou de 23% para 40%. Os dados s\u00e3o da pesquisa Retrato das Desigualdades de G\u00eanero e Ra\u00e7a, divulgada em 2017. A sondagem foi feita pelo Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea), \u00e9 realizada com base nos n\u00fameros da Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios. \u201cOutra coisa que o sistema tamb\u00e9m usa para apoiar isso [a diferen\u00e7a salarial] \u00e9 que os homens acabam ascendendo a pap\u00e9is considerados de lideran\u00e7a, cujos sal\u00e1rios s\u00e3o melhores e as mulheres sempre t\u00eam mais dificuldade para chegar a esses cargos, os quais geralmente implicam em contatos, muitas vezes em indica\u00e7\u00f5es, rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas\u201d, afirma Cristina.<\/p>\n<p>A lei brasileira pro\u00edbe que as mulheres recebam sal\u00e1rios inferiores ao dos homens no exerc\u00edcio da mesma fun\u00e7\u00e3o. Mas, conforme Cristina, h\u00e1 empresas que d\u00e3o um jeito de garantir esse tipo de distin\u00e7\u00e3o por meio de falsas escalas. \u201cCriam-se pequenas chefias para os homens, para poderem justificar um sal\u00e1rio maior\u201d, exemplifica. \u201cEm lugares onde mulheres trabalham h\u00e1 mais tempo, homens que chegam acabam ocupando cargos de chefia, o que mostra a manuten\u00e7\u00e3o de uma cultura que j\u00e1 deveria ter mudado h\u00e1 muito tempo.\u201d<\/p>\n<h3>Um pouco de hist\u00f3ria<\/h3>\n<p>O lugar ocupado pelas mulheres em espa\u00e7os p\u00fablicos sempre foi algo problem\u00e1tico. Muitos pensadores, ao longo dos s\u00e9culos, apontavam diversas perspectivas sobre o sexo feminino. Virginia Woolf, no seu livro \u201cUm teto todo seu\u201d, cita alguns exemplos:\u00a0 Alexander Pope (1688, Londres &#8211; 1744) afirmou: \u201cA maioria das mulheres n\u00e3o tem nenhum car\u00e1ter\u201d; Jean de La Bruy\u00e8re (1645, Fran\u00e7a &#8211; 1696) dizia: \u201cAs mulheres s\u00e3o o extremo: elas s\u00e3o melhores ou piores que os homens\u201d, uma contradi\u00e7\u00e3o not\u00e1vel entre dois observadores que eram contempor\u00e2neos. Napole\u00e3o (1769, Fran\u00e7a &#8211; 1821) achava as mulheres incapazes e Doutor Johnson (1709, Reino Unido &#8211; 1784) discordava. Goethe (1749, Alemanha &#8211; 1832) as honrava e Mussolini (1883, It\u00e1lia &#8211; 1945) as desprezava.<\/p>\n<p>Na Gr\u00e9cia, acreditava-se que as mulheres haviam sido criadas pelos deuses para exercerem as fun\u00e7\u00f5es dom\u00e9sticas e os homens para todas as outras atividades. Por isso elas eram exclu\u00eddas do mundo do conhecimento, ocupando posi\u00e7\u00f5es sociais semelhantes \u00e0s dos escravos.\u00a0 Na Idade M\u00e9dia, por conta das guerras, as mulheres come\u00e7aram a assumir algumas fun\u00e7\u00f5es at\u00e9 ent\u00e3o reservadas apenas aos homens e recebiam remunera\u00e7\u00e3o inferior. Cristina Scheibe Wolff comenta que, atualmente, mesmo em situa\u00e7\u00f5es diferentes, acontece algo similar. \u201cEm algumas profiss\u00f5es ela \u00e9 at\u00e9 retratada como mais capaz, mas justamente porque essas profiss\u00f5es exigem cuidado com as pessoas, como enfermagem, professoras cuidados com a casa, com idosos. \u201d<\/p>\n<p>O c\u00f3digo legal, na Roma Antiga,\u00a0 legitimava a institui\u00e7\u00e3o do <em>paterfamilias<\/em> (o mais elevado estatuto familiar na Roma Antiga, sempre uma posi\u00e7\u00e3o masculina. O termo latino significa &#8220;pai de fam\u00edlia&#8221;), em uma rela\u00e7\u00e3o social em que o homem tem total poder sobre a mulher, filhos, servos, escravos. Joana Maria Pedro, refor\u00e7a: \u201cConsidera-se ou se considerou que certos of\u00edcios que exijam for\u00e7a f\u00edsica deveriam ser realizados por homens. Mas n\u00e3o foi s\u00f3 isso, tamb\u00e9m of\u00edcios mais rent\u00e1veis\u201d. Conforme Joana, a partir do s\u00e9culo XVII, estabelecia-se que as mulheres, sobretudo as que estavam na \u00e1rea urbana, deviam se dedicar \u00e0s fun\u00e7\u00f5es de esposa, m\u00e3e e dona de casa, e certos of\u00edcios &#8211; ou a maioria deles &#8211; deveriam ser feitos por homens. \u201cAdmitia-se que somente mulheres muito pobres trabalhassem, principalmente se fossem vi\u00favas ou de marido doente, ou solteiras e, neste caso, seriam of\u00edcios mal remunerados. N\u00e3o se permitiam mulheres em of\u00edcios bem remunerados\u201d, completa.<\/p>\n<figure id=\"attachment_615\" aria-describedby=\"caption-attachment-615\" style=\"width: 535px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-615\" src=\"http:\/\/revidigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Joana-Pedro.jpg\" alt=\"\" width=\"535\" height=\"356\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-615\" class=\"wp-caption-text\">Joana explica como a desigualdade foi historicamente constru\u00edda\/Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 1949, Simone de Beauvoir lan\u00e7ou a obra \u201cO Segundo Sexo\u201d e, com esse livro, uma frase inspira mulheres a imergirem no mais puro significado da condi\u00e7\u00e3o feminina: \u201cNingu\u00e9m nasce mulher; torna-se mulher\u201d. Em seu livro, Simone reflete que ser mulher n\u00e3o \u00e9 somente algo naturalmente dado, mas uma constru\u00e7\u00e3o social hist\u00f3rica e cultural. Assim, as mulheres se tornaram \u201co segundo sexo\u201d, aquele que s\u00f3 se define em rela\u00e7\u00e3o ao primeiro, o masculino.<\/p>\n<p>Em 1871 o m\u00e9dico franc\u00eas Ferdinand-Valer\u00e8 Fanneau de La Cour, em sua tese de doutorado \u201cDo feminismo e do infantilismo nos tuberculosos\u201d, define o feminismo como uma patologia que afetava aos homens tuberculosos, produzindo, como sintoma secund\u00e1rio, uma \u201cfeminiza\u00e7\u00e3o\u201d do corpo masculino. Contudo, os anos se passaram e a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial abriu para as mulheres outras possibilidades.\u00a0 O movimento sufragista teve in\u00edcio na Inglaterra, em 1897, mas s\u00f3 adquiriu for\u00e7a em 1904, quando as mulheres come\u00e7aram a se articular, cobrando sua participa\u00e7\u00e3o na sociedade n\u00e3o s\u00f3 como m\u00e3es e donas de casa. Naquela \u00e9poca, as sufragistas apropriaram-se do termo Feminismo e o transformaram em identifica\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que assumiu diferentes formas em diferentes momentos da hist\u00f3ria. Esses movimentos representam tamb\u00e9m interesses de grupos espec\u00edficos do g\u00eanero feminino e vis\u00f5es de mundo diferenciadas, manifestados em diferentes perspectivas te\u00f3ricas. Dessa forma, a nomenclatura passou a referir-se ao movimento social que defende igualdade de direitos e de status entre homens e mulheres. Embora o feminismo defenda a igualdade de direitos entre mulheres e homens, muitas vezes \u00e9 alvo de conota\u00e7\u00e3o pejorativa e erroneamente interpretado como um machismo ao contr\u00e1rio. Nada mais falso j\u00e1 que o feminismo n\u00e3o prega a superioridade do g\u00eanero feminino sobre o masculino.<\/p>\n<p>Cristina comenta que as mudan\u00e7as ocorridas no \u00faltimo s\u00e9culo, com o movimento feminista e todas as lutas das mulheres desde o final do s\u00e9culo XIX, n\u00e3o apagam s\u00e9culos de opress\u00e3o contra as mulheres. \u201cExiste uma cultura machista que \u00e9 muito forte e que atua na educa\u00e7\u00e3o das mulheres, na forma\u00e7\u00e3o das mulheres, em seu pr\u00f3prio corpo e isso n\u00e3o se apaga de uma hora para outra\u201d. Essa vis\u00e3o estende-se, segundo a professora, at\u00e9 \u00e0s pr\u00f3prias mulheres. Por isso, quando se trata de lideran\u00e7a, muitas vezes, elas mesmas n\u00e3o se acham capazes. \u201cUma mulher, para exercer um cargo de lideran\u00e7a, precisa se provar muito melhor do que os homens que est\u00e3o a sua volta. Ou seja, as mulheres que chegam ao poder enfrentam dificuldades pelo simples fato de estarem em um ambiente que foi legitimado como masculino. Assim, as mulheres que provam ser competentes em trabalho tido como masculino, violam esta prescri\u00e7\u00e3o normativa e s\u00e3o desaprovadas.\u201d<\/p>\n<h2>Teto de vidro<\/h2>\n<p>H\u00e1 dois termos muito utilizados para descrever certas formas de distribui\u00e7\u00e3o desigual de profissionais de acordo com o sexo, nos espa\u00e7os de trabalho:\u00a0 \u201cconcentra\u00e7\u00e3o horizontal\u201d, que aponta uma propor\u00e7\u00e3o mais alta de um dos sexos em determinadas \u00e1reas profissionais,\u00a0 e \u201cconcentra\u00e7\u00e3o vertical\u201d, que retrata a presen\u00e7a de um\u00a0 dos g\u00eaneros com alta concentra\u00e7\u00e3o\u00a0 em certo ponto da hierarquia e muito baixa em outro, considerando a mesma \u00e1rea, carreira ou profiss\u00e3o. Este segundo \u00e9 conhecido na literatura como \u201cTeto de Vidro\u201d, uma met\u00e1fora, segundo Joana Pedro, usada para explicar porque as mulheres experimentam forte dificuldade para atingir grandes cargos. \u201c\u00c9 como se dentro das empresas e de \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos elas s\u00f3 pudessem ir at\u00e9 um determinado ponto e raramente conseguissem atingir lugares mais altos, bem altos.\u201d Mas Joana se mant\u00e9m positiva: \u201cEu espero que isso v\u00e1 mudando com o tempo, que n\u00e3o fique assim. J\u00e1 houve um tempo em que o teto era mais baixo. Tenho esperan\u00e7a que isso desapare\u00e7a aos poucos.\u201d<\/p>\n<p>Para Cristina, apesar de, teoricamente, n\u00e3o existir nenhum limite para as carreiras das mulheres, existe realmente um \u201cteto de vidro\u201d, algo invis\u00edvel, pois\u00a0 raramente as mulheres conseguem ultrapassar um certo n\u00edvel em suas carreiras. Mesmo para mulheres que j\u00e1 atingiram altos cargos, como \u00e9 o caso de Therezinha, o \u201cteto de vidro\u201d est\u00e1 presente\u00a0 em bate-papos profissionais, de forma sutil, mas significativa, como um silenciamento despercebido. \u201cAinda hoje, independentemente do ambiente universit\u00e1rio ou n\u00e3o, quando a gente ocupa um cargo de lideran\u00e7a, n\u00f3s participamos de mesas e, normalmente, a maioria dos participantes \u00e9 homem e eu sinto, \u00e0s vezes, uma certa tend\u00eancia a n\u00e3o nos deixarem falar. Ent\u00e3o eu me imponho nesses momentos.\u201d<\/p>\n<p>A discrimina\u00e7\u00e3o por prefer\u00eancia \u00e9 outra faceta do \u201cteto de vidro\u201d. O empregador prefere contratar um homem ao inv\u00e9s de uma mulher, mesmo que ambos tenham a mesma produtividade. Essa discrimina\u00e7\u00e3o possui suas bases fundadas nos fatores culturais e hist\u00f3ricos.<\/p>\n<p>Outro desdobramento do teto de vidro que influencia diretamente na vida das mulheres que est\u00e3o no mercado de trabalho, \u00e9 a maternidade. Resultado de um modelo assim\u00e9trico de divis\u00e3o sexual do trabalho, a maior parte das responsabilidades da vida privada, como cuidado com a fam\u00edlia e lar, fica com a mulher. Isso causa uma rela\u00e7\u00e3o mais inst\u00e1vel com as empresas. Joana lembra que, no s\u00e9culo XVIII, ainda se justificava que a maternidade fosse pensada como impedimento para as mulheres estarem no espa\u00e7o p\u00fablico e ocupando certas fun\u00e7\u00f5es. Mas, desde a virada do s\u00e9culo XX, principalmente em meados dos anos 50, com todo o p\u00e2nico de uma poss\u00edvel explos\u00e3o populacional e a busca por redu\u00e7\u00e3o do n\u00famero de filhos, isso j\u00e1 n\u00e3o se justifica mais. \u201cNo entanto, a maioria das empresas e governos, continuam agindo como se as mulheres n\u00e3o tivessem filhos ou como se n\u00e3o fosse necess\u00e1rio existir suporte para m\u00e3es, crian\u00e7as e at\u00e9 para pais, afinal de contas as m\u00e3es n\u00e3o t\u00eam filhos sozinhas. Na verdade, a lei exige que seja para os dois, mas as empresas tentam fugir de cumprir as regras que lhes s\u00e3o ditadas.\u201d<\/p>\n<p>A divis\u00e3o cultural injusta e desigual do cuidado com os filhos ainda dificulta \u00e0s mulheres a ascens\u00e3o a postos de lideran\u00e7a. Embora as mulheres venham gradativamente ampliando sua participa\u00e7\u00e3o como l\u00edderes no mercado de trabalho, o \u201cteto de vidro\u201d ainda existe e precisa ser rompido de uma vez por todas.<\/p>\n<p>*Corre\u00e7\u00e3o efetuada: o epis\u00f3dio de cartazes ofensivos, citado pela reitora da UFRN, \u00c2ngela Cruz\u00e9, deu-se durante uma ocupa\u00e7\u00e3o da reitoria e n\u00e3o no dia de sua posse.<\/p>\n<p>Algumas das entrevistadas gravaram mensagens \u00e0s mulheres. Confira:<\/p>\n<h3>Joana Pedro: tenham uma profiss\u00e3o<\/h3>\n<!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('audio');<\/script><![endif]-->\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-599-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"http:\/\/revidigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Joana-Maria7-online-audio-converter.com-1-1.mp3?_=1\" \/><a href=\"http:\/\/revidigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Joana-Maria7-online-audio-converter.com-1-1.mp3\">http:\/\/revidigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Joana-Maria7-online-audio-converter.com-1-1.mp3<\/a><\/audio>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>Cristina Scheibe Wolff: justi\u00e7a e liberdade<\/h3>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-599-2\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"http:\/\/revidigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Cristina-Scheibe-Wolff-10-online-audio-converter.com-1.mp3?_=2\" \/><a href=\"http:\/\/revidigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Cristina-Scheibe-Wolff-10-online-audio-converter.com-1.mp3\">http:\/\/revidigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Cristina-Scheibe-Wolff-10-online-audio-converter.com-1.mp3<\/a><\/audio>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>\u00c2ngela Maria Cruz\u00e9: luta incans\u00e1vel<\/h3>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-599-3\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"http:\/\/revidigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/\u00c2ngela-Maria-Paiva1-online-audio-converter.com-AudioTrimmer.com_.mp3?_=3\" \/><a href=\"http:\/\/revidigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/\u00c2ngela-Maria-Paiva1-online-audio-converter.com-AudioTrimmer.com_.mp3\">http:\/\/revidigital.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/\u00c2ngela-Maria-Paiva1-online-audio-converter.com-AudioTrimmer.com_.mp3<\/a><\/audio>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>Therezinha de Oliveira: n\u00e3o desistam<\/h3>\n<h3>Sandra Furlan: persigam seus objetivos<\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div style=\"position: relative; height: 0; padding-bottom: 56.25%;\"><iframe loading=\"lazy\" style=\"position: absolute; width: 100%; height: 100%; left: 0;\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/RNjkZ6WjK9U?ecver=2\" width=\"640\" height=\"360\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Atualizada em 25\/9\/2018 \u00e0s 11h25* Apesar de o feminismo ter progredido muito ao longo do tempo, existem marcas de desigualdade que ainda est\u00e3o presentes, como se verifica, por exemplo, no mercado de trabalho, onde h\u00e1 desequil\u00edbrio na ocupa\u00e7\u00e3o de cargos de lideran\u00e7a, tanto no setor p\u00fablico quanto no privado. A academia, isso \u00e9, as universidades [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":623,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[20,127],"tags":[164,165,166,167,168],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/599"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/11"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=599"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/599\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=599"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=599"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=599"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}