{"id":6274,"date":"2022-03-21T17:20:08","date_gmt":"2022-03-21T20:20:08","guid":{"rendered":"http:\/\/revidigital.com.br\/?p=6274"},"modified":"2022-09-10T16:07:09","modified_gmt":"2022-09-10T19:07:09","slug":"mitos-fundadores-de-joinville-questoes-omitidas-pela-historia-regional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/index.php\/2022\/03\/21\/mitos-fundadores-de-joinville-questoes-omitidas-pela-historia-regional\/","title":{"rendered":"Mitos fundadores de Joinville: quest\u00f5es omitidas pela hist\u00f3ria regional"},"content":{"rendered":"\n<p>Por <em>Luiz Gustavo dos Anjos Gallas<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Foto de capa: Henrique Duarte<\/p>\n\n\n\n<p>No dia 9 de mar\u00e7o, para a historiografia oficial, comemora-se em Joinville o anivers\u00e1rio de funda\u00e7\u00e3o da cidade \u2013 a data remete \u00e0 chegada dos imigrantes europeus pela barca Colon, em 1851. Monumentos, nomes de ruas, arquiteturas de pr\u00e9dios e desfiles c\u00edvicos, desde ent\u00e3o, refor\u00e7am a narrativa de que a origem do munic\u00edpio \u00e9 europeia e, principalmente, alem\u00e3. Isso, de acordo com estudiosos, \u00e9 um discurso fabricado.<\/p>\n\n\n\n<p>A barca Colon, reverenciada em monumento localizado em frente \u00e0 prefeitura, onde seria o chamado marco zero da cidade, manifesta a mem\u00f3ria da chegada dos imigrantes \u00e0 beira do Rio Cachoeira. Por\u00e9m, isso seria imposs\u00edvel, segundo a soci\u00f3loga Valdete Daufemback e Dilney Cunha, historiador e coordenador do Arquivo Hist\u00f3rico de Joinville. Uma embarca\u00e7\u00e3o t\u00e3o grande n\u00e3o viria at\u00e9 aquele local. O pouco volume de \u00e1gua n\u00e3o a suportaria. A teoria mais prov\u00e1vel \u00e9 de que os europeus vieram por meio de canoas pelos estreitos canais do rio, com negros, escravos e livres, na condu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1536\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/IMG_1617-1536x1024-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12693\"\/><figcaption><sup>Monumento barca Colon | Foto: Henrique Duarte | Revi <\/sup><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Mesmo assim, conforme Diego Finder Machado, doutor em Hist\u00f3ria e professor na Universidade da Regi\u00e3o de Joinville (Univille), a cidade se constr\u00f3i sob v\u00e1rios mitos rom\u00e2nticos que fortalecem a \u201ccolonialidade da mem\u00f3ria\u201d. Ele explica que o Monumento ao Imigrante feito por Fritz Alt, por exemplo, evoca duas figuras: de um lado, o imigrante, com corpo atl\u00e9tico e mangas arrega\u00e7adas para o trabalho; do outro, o nativo, representado por um luso-brasileiro portando sua espingarda. O segundo lembra mais os bugreiros, ca\u00e7adores de ind\u00edgenas, presentes na regi\u00e3o antes dos imigrantes.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1536\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/IMG_1625-1536x1024-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12694\"\/><figcaption><sup>Monumento do Imigrante |  Foto: Henrique Duarte | Revi <\/sup><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>\u201cA forma como enxergamos o tempo e os per\u00edodos hist\u00f3ricos em Joinville n\u00e3o inclui a narrativa ind\u00edgena\u201d, afirma B\u00e1rbara Elice da Silva de Jesus, mestranda em Antropologia Social pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). \u201cN\u00e3o houve o menor esfor\u00e7o para compreender a cultura ind\u00edgena como parte da origem do munic\u00edpio.\u201d Ela observa, ainda, que a linguagem dos \u00edndios \u00e9 a oral e, portanto, fica oculta na narrativa dos historiadores, que se ativeram somente aos documentos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAt\u00e9 a divis\u00e3o regional de Santa Catarina, para os guaranis, \u00e9 diferente da que nos \u00e9 dada\u201d, diz B\u00e1rbara, que h\u00e1 cerca de cinco anos atua junto \u00e0 Aldeia Pira\u00ed, em Araquari. \u201cPara eles, o territ\u00f3rio se divide entre os Kaingangs, Xoklengs e Guaranis.\u201d<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1536\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/IMG_1635-1536x1024-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12695\"\/><figcaption><sup> Foto: Henrique Duarte | Revi <\/sup><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Uma hist\u00f3ria encomendada<\/h2>\n\n\n\n<p>Com a Campanha de Nacionaliza\u00e7\u00e3o, na Era Vargas, que buscava enfraquecer as influ\u00eancias culturais de imigrantes no Brasil, a mem\u00f3ria alem\u00e3 foi ofuscada em Joinville. Diante disso, segundo Valdete Daufemback, autodidatas se esfor\u00e7aram para recuperar as lembran\u00e7as germ\u00e2nicas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO Arquivo Hist\u00f3rico de Joinville n\u00e3o existiria se n\u00e3o fosse pelo financiamento da pr\u00f3pria Alemanha\u201d, acrescenta Cunha. Adolf Schneider organizou a funda\u00e7\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o e obteve os subs\u00eddios do pa\u00eds europeu para a constru\u00e7\u00e3o. Ele foi motivado por certa competi\u00e7\u00e3o com Carlos Ficker, que passou a coordenar o Museu Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Imigra\u00e7\u00e3o na Rua das Palmeiras depois dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Com exce\u00e7\u00e3o de Carlos Ficker, que teve seu trabalho de pesquisa financiado pela Tupy S.A. ap\u00f3s vencer um concurso em 1962, todos os estudiosos da hist\u00f3ria regional usufru\u00edram de posi\u00e7\u00e3o social e econ\u00f4mica privilegiada. Elly e Rose Herkenhoff, Maria Thereza B\u00f6bel, Edith Wetzel e Adolf Bernard Schneider, incumbidos de recontar os primeiros passos de Joinville, eram integrantes da burguesia local e descendentes de europeus. \u201cIn\u00fameras gera\u00e7\u00f5es foram alfabetizadas a partir da mem\u00f3ria constru\u00edda por essas figuras\u201d, afirma Valdete Daufemback.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1536\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/IMG_1629-1536x1024-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12696\"\/><figcaption><sup> Foto: Henrique Duarte | Revi <\/sup><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o foi sempre assim\u201d, esclarece Cunha. \u201cOs imigrantes e, principalmente, os alem\u00e3es, passaram por diversas dificuldades, superadas ao longo de d\u00e9cadas.\u201d A forma como isso \u00e9 contado, por\u00e9m, de acordo com o historiador, induz as pessoas a pensarem que a supera\u00e7\u00e3o s\u00f3 foi conquistada por conta da \u201csuperioridade da ra\u00e7a alem\u00e3\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Exatos 179 imigrantes europeus vieram para a Col\u00f4nia Dona Francisca com a Sociedade Colonizadora de Hamburgo, ap\u00f3s um acordo entre o senador germ\u00e2nico Mathias Schroeder e Fran\u00e7ois Ferdinand Phillippe Louis Marie, conhecido como o Pr\u00edncipe de Joinville. Muitos deles, conforme Valdete Daufemback e Dilney Cunha, foram convencidos por uma propaganda publicada em 3 de maio de 1851 no Leipziger Illustrirte Zeitung (Jornal Ilustrado de Leipzig), na atual Alemanha.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Diversidade na funda\u00e7\u00e3o da cidade<\/h2>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m dos Kaingangs, Xoklengs e Guaranis, j\u00e1 presentes na regi\u00e3o antes dos portugueses, a hist\u00f3ria de Joinville inclui v\u00e1rias etnias diferentes da alem\u00e3. \u201cTal como os europeus eram imigrantes, os africanos, embora for\u00e7ados por uma di\u00e1spora, tamb\u00e9m o eram\u201d, afirma Diego Finder Machado. \u201cPor isso que, nas semanas da Consci\u00eancia Negra, grupos religiosos de matriz africana fazem a lavagem do Monumento ao Imigrante.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O professor ainda aponta para o Cemit\u00e9rio do Imigrante. L\u00e1 foram enterradas 14 pessoas negras, descobertas pelas pesquisas de Dilney Cunha em arquivos da Comunidade Evang\u00e9lica Luterana e na Catedral do Bispado.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1536\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/revidigital.ielusc.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/DSC_0035-1-1536x1024-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12697\"\/><figcaption><sup>Cemit\u00e9rio do Imigrante | Foto: Henrique Duarte | Revi <\/sup><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A melhor forma de enxergarmos essa diversidade oculta, segundo B\u00e1rbara Elice, \u00e9 entender todas as vis\u00f5es com o mesmo valor. \u201cPara isso, precisamos sair de n\u00f3s mesmos\u201d, afirma ela. Sobre isso, Cunha comenta: \u201cn\u00e3o h\u00e1 uma maior que outra; esta cidade \u00e9 a soma de m\u00faltiplos esfor\u00e7os de diferentes etnias.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Luiz Gustavo dos Anjos Gallas Foto de capa: Henrique Duarte No dia 9 de mar\u00e7o, para a historiografia oficial, comemora-se em Joinville o anivers\u00e1rio de funda\u00e7\u00e3o da cidade \u2013 a data remete \u00e0 chegada dos imigrantes europeus pela barca Colon, em 1851. 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