
Jornalismo ambiental é tema da noite de abertura da 4ª edição do Conipe
Jornalista especializada em temas socioambientais divulga guia para comunicadores sobre biodiversidade
Por Dyeimine Senn Schlindwein
A jornalista e pesquisadora, Elizabeth Oliveira, deu uma aula de jornalismo ambiental nesta segunda-feira (16), noite de abertura da 4ª edição do Congresso Integrado de Pesquisa e Extensão (Conipe) da Faculdade Ielusc. Com o tema “Como reinventar o mundo tendo a natureza como modelo”, ela apresentou um guia que ensina, de forma didática, como abordar temas voltados a questões ambientais.
O e-book foi publicado no site Eco e também contou com o apoio do Instituto Serrapilheira. No material há matérias, reportagens, produções acadêmicas e dicas para comunicadores com vários assuntos que abordam a biodiversidade e os problemas que afetam a saúde dos nossos biomas, tais como: Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa, Pantanal e o sistema Costeiro-Marinho.
Segundo Elizabeth, o material foi desenvolvido a partir de relatos de pesquisadores e jornalistas, que disseram sentir falta de capacitação técnica. “Os jornalistas são muito generalistas porque têm uma grande quantidade de trabalho diário para dar conta, por isso não conseguem se aprofundar, principalmente, em pautas complexas que envolvem a Agenda Ambiental.”
Oliveira que é doutora em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (PPED) e integrante do Grupo de Pesquisa Governança, Biodiversidade, Áreas Protegidas e Inclusão Social (GAPIS), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), também levantou questionamentos, críticas, reflexões e possíveis soluções baseadas em estudos científicos.
“Para comunicar melhor os temas ambientais, precisamos ter ferramentas que reúnam, de forma clara e objetiva, as informações básicas para que comunicadores se empoderem do conhecimento adquirido e possam, nas mais diversas plataformas, multiplicar esta mensagem”, ressaltou.
Entre vários assuntos abordados durante a palestra, um deles e, talvez, o mais importante, foi sobre o crescimento do crime organizado em terras indígenas nos últimos anos. Para a jornalista ambiental, a criminalidade encontrou uma lacuna de oportunidade em um país que não protege suas terras e povos, como deveria.

“Em agosto do ano passado, escrevi uma matéria sobre ‘Como o Brasil se conecta à Amazônia pelos crimes ambientais’. Nela eu contei que o crime organizado está conectado com o Primeiro Comando da Capital (PCC) e outras facções criminosas de grandes centros urbanos do Brasil e também com redes internacionais.
No ano passado, o Instituto Igarapé publicou um relatório baseado em 300 operações da Polícia Federal (PF) realizadas entre os anos de 2016 e 2021, envolvendo 254 municípios, demonstrando que, além de possuir uma natureza organizada, a criminalidade ambiental está muito longe de ser um problema local.
Os crimes que aconteceram na Amazônia se disseminaram por 24 dos 27 estados brasileiros, com exceção de Alagoas, Pernambuco e Paraíba, envolvendo garimpo, roubo de madeira e grilagem de terras públicas.
“A medida que o jornalismo não problematiza uma determinada questão, ela se torna invisível para sociedade. Por isso o nosso trabalho é voltando a esse olhar sábio, aguçado para fiscalização. Precisamos, cada vez mais, exigir que as políticas sejam implementadas, modernizadas e ampliadas”, reforçou.
Oliveira também recordou do assassinato brutal do indigenista brasileiro Bruno Pereira e do jornalista norte-americano Dominic Mark Phillips. Os dois foram mortos a tiros, esquartejados e queimados em 5 de junho de 2022. Embora as investigações ainda estejam em curso, um dos principais acusados até o momento é o pescador Amarildo da Costa, o “Pelado”, que teria invadido a Terra Indígena Vale do Javari, localizada nos municípios de Atalaia do Norte e Guajará, no oeste do estado do Amazonas.
“O Dom estava escrevendo um livro chamado ‘Como salvar a Amazônia: pergunte às pessoas que sabem’ e o Bruno acompanhou ele nesta viagem, porque tinha um amplo conhecimento dos crimes que aconteciam naquela região. Pereira estava marcado para morrer a um bom tempo.”
Elizabeth mencionou que, após a morte de Phillips, um grupo de jornalistas criou um grande projeto de cooperação internacional para publicar o livro e dar continuidade ao trabalho que ele não pôde concluir. “Eles conseguiram descobrir, desvendar uma série de elementos que foram comprovados depois por outros jornalistas.”
Dom concluiu grande parte da pesquisa e quase metade do manuscrito. Os capítulos restantes serão escritos por Eliane Brum, do Sumaúma; Tom Phillips, do The Guardian; Jon Lee Anderson, do The New Yorker; Kátia Brasil, da Amazônia Real; Jonathan Watts, do The Guardian e Sumaúma; e Andrew Fishman, do Intercept Brasil.
O projeto será supervisionado por uma equipe de amigos e colegas de Dom, incluindo Rebecca Carter, sua agente literária; David Davies, autor; Tom Hennigan, do Irish Times; Watts em colaboração com Margaret Stead, da editora britânica Manilla Press que publicará o livro.
Eliza usou a história de Dom e Bruno para reforçar que a comunicação é o elemento chave para impulsionar a participação pública. “Tenho esperança de criar um movimento forte, que estimule o debate público, afinal de contas, sem participação social na implementação de políticas públicas, não se constrói um país.”
A mediadora da palestra, a coordenadora do curso de jornalismo, Marília Crispi de Moraes, reforçou a importância que o assunto tem na sociedade, “tenho certeza que todos nós, independentemente do curso ou da área que atuamos, podemos e devemos sim, fazer alguma coisa pelo nosso meio ambiente.”

Além da palestra de abertura, o evento também contou com o lançamento da 6ª edição da Revista Redes. Mais de 300 pessoas participaram do primeiro dia da 4ª edição do Conipe. O evento contou com a presença da presidente do Conipe, Marilyn Gonçalves Ferreira, do diretor Geral do Grupo Bom Jesus-Ielusc, o professor mestre Silvio Iung e do diretor de ensino superior da Faculdade Ielusc, o professor mestre Paulo Aires. As alunas da 8ª fase do curso de jornalismo Ana Dranka e Mariana Murara, foram as responsáveis pelo cerimonial, junto da professora Maiara Carvalho Batista Maduro.