
Comunicação do futuro: perspectivas da profissão
Confira a terceira reportagem da série “Comunicação: 25 anos de história”
Por Ana Carolina de Jesus e Bárbara Siementkowski
Há alguns anos, jornalistas viam as redações tradicionais se tornando cada vez menores. Não é raro encontrarmos relatos de profissionais que viram colegas sendo demitidos e que logo menos, se viram na mesma situação. Na publicidade, a transformação também aconteceu, com o online e o offline cada vez mais integrado, os profissionais tiveram que se atualizar e entender as novas demandas do mercado.
E aos poucos a comunicação foi mudando e evoluindo ao ponto de jornalistas, publicitários, designers e demais profissionais da área se depararem com trabalhos cada vez mais integrados, multimídias e digitais.
Na última reportagem da série especial de 25 anos dos cursos de comunicação do Ielusc, você vai entender sobre tendências e perspectivas das profissões de comunicação.
Da TV catarinense rumo ao empreendedorismo e ao marketing
Émilin Souza entrou na faculdade de jornalismo com uma certeza: queria trabalhar com telejornalismo. Não demorou muito para que conseguisse. Logo no início do curso fez um teste para trabalhar da televisão da faculdade, passou e começou a apresentar o que seria o piloto da TV da instituição que estudava em Lages.
Logo emissoras da região a conheceram através deste trabalho e a convidaram para trabalhar nas suas redações. “Ainda em Lages, fiz um piloto para TV e comecei a apresentar o jornal da faculdade. Nisso os jornais da região viram esse piloto e me convidaram para fazer um teste. Eu acabei passando e já fui atuar na televisão, na TV Araucária, afiliada ao SBT, na época eu tinha 19 anos”, relata.
A jornada que começou em Lages e foi parar em Joinville. Foi em 2010 que Emilin acabou se mudando para a cidade e concluiu seu curso de Jornalismo na Faculdade Ielusc. Vinda de uma família de jornalistas, essa foi a sua influência para escolher a profissão. Émilin conta que desde pequena já acompanhava a rotina do jornal.
“Eu escolhi jornalismo porque eu vim de uma família de jornalistas, meu tio era um dos diretores gerais de programação da RBS. Minha mãe sempre trabalhou em um jornal impresso em Lages, então desde a infância eu lembro de acompanhar o processo de impressão dos jornais. E ao escolher uma profissão, fiquei em dúvida entre Direito e Jornalismo e decidi seguir pelo Jornalismo”, diz Émilin.
A carreira de Émilin e as mudanças da comunicação têm pontos em comum. Afinal, das redações tradicionais de televisão, Émilin migrou para o empreendedorismo e para o Marketing Digital. “Eu atuei mais de 10 anos dentro das redações de Televisão. Já atuei como repórter, produtora, apresentadora. Já fechei muitos jornais, SBT Notícias, Jornal do Almoço, Ver Mais, todos esses entre Joinville e Lages. Meu último trabalho televisão foi na RBS, quando eu pedi a conta e me mudei para a Califórnia, nos Estados Unidos.”

A jornalista conta que essa transição foi feita de forma bastante natural. Ela atuava também como Diretora de Marketing nos Bombeiros Voluntários de Joinville, o que também a mostrou outras possibilidades de carreira. Em busca de novas experiências, ela resolveu se mudar para fora do país.
“Chegou um momento em que percebi que não permaneceria para sempre dentro de uma redação de TV. Com mais de 10 anos de experiência, senti o cansaço e compreendi que, financeiramente, havia um limite também. Eu sabia que para ganhar mais eu teria que me mudar, ir pra São Paulo, por exemplo, e eu não tinha isso no meu coração.Eu desempenhei todas as funções que gostaria no jornalismo de TV, e o cansaço veio. Quando decidi vir para a Califórnia, eu quis abrir uma empresa, trabalhar em algo que estivesse ligado ao jornalismo. O marketing, de uma forma ou de outra, se conecta com esses planos.”
Foi aí que Émilin fundou a We Do Content, a primeira agência de marketing digital fundada por uma mulher imigrante na Califórnia. A We Do faz serviços de gerenciamento de redes sociais, identidade visual, criação de sites, tráfego pago e outros. A jornalista, que hoje empreende na área do marketing, traz a veia da profissão que escolheu para si.
“Em todos os nossos conteúdos, mantenho a abordagem jornalística, como a checagem de informações, a informação de qualidade e a correção. Essa essência permanece em mim, refletindo não apenas na produção, mas também na forma como me expresso frente às câmeras, uma herança do meu tempo no jornalismo e na TV”, explica.
O futuro da comunicação
A revolução tecnológica trouxe mudanças vertiginosas ao jornalismo, não apenas alterando a forma como os jornalistas trabalham, mas também transformando suas interações com diversos agentes sociais.
Nesse contexto de incertezas, o professor Jacques Mick, pesquisador e professor dos Programas de Pós-Graduação em Jornalismo e em Sociologia e Ciência Política da Universidade Federal de Santa Catarina, aponta prioridades claras para o campo.
O primeiro está relacionado ao fortalecimento do jornalismo local. Para ele, a deterioração do jornalismo local teve impactos significativos na esfera política. “A busca pela defesa da democracia agora exige um compromisso renovado com o jornalismo local e o seu fortalecimento. Houve uma certa piora do jornalismo local, isso reflete na deterioração política, na formação da câmara de vereadores e na escolha de prefeitos”, explica o professor.
Outra tendência é a diminuição das fronteiras entre as linguagens do jornalismo. “Exemplos como o uso da linguagem de telenovela nos podcasts de Chico Felitti mostram como o jornalismo está se adaptando a novas formas de comunicação. A diluição de barreiras entre a informação jornalística e o conteúdo para diversão sugere a necessidade de acompanhar essa mudança.”
E claro, o professor também compartilhou sobre uma antiga e sempre em alta discussão dentro do jornalismo: o diploma. Para ele, diante dos últimos acontecimentos e da crescente demanda por informações de qualidade, a importância do diploma jornalístico é reafirmada.
“Eu me oponho a dizer que o diploma não serve para nada, na minha opinião vai ser ainda mais fundamental. O ritmo acelerado da vida moderna requer uma crescente demanda por informações de qualidade, evidenciado pelos acontecimentos recentes, como as mudanças climáticas e a pandemia de Covid-19. As pessoas precisam de informações de qualidade e confiáveis para lidar”, analisa o professor.
Na visão de Émilin, as tendências da comunicação, tanto para o jornalismo como para a publicidade, estão muito relacionadas com o avanço da tecnologia, principalmente com a inteligência artificial.
“Nós, profissionais da comunicação, seja do jornalismo, do marketing, da publicidade, vamos trabalhar com as ferramentas de Inteligência Artificial uma forma que ainda tenhamos autoridade no que estamos fazendo. Precisamos trazer mais veracidade do que está sendo colocado, buscar também a diferença entre um humano e a máquina falando.”
Ela ainda reforça que precisamos olhar para as ferramentas de IA (Inteligência Artificial) não a partir da perspectiva de ela ter surgido, porque ela já está aí, mas sim como ela fará parte dos nossos trabalhos. “O que iremos fazer com essa tecnologia nos setores em que trabalhamos? Como vamos fazer isso na parte do Design, como vamos lidar com a credibilidade da informação? Acredito que realmente, a partir de agora, temos um desafio dessa era da informação, precisamos também pensar quais são as consequências de tudo isso.”
O jornalismo, as redes sociais e a publicidade
Jacques Mick também foi professor na Faculdade Ielusc entre 2001 e 2009. De estudantes que já eram profissionais e iam em busca de seus diplomas, a jovens iniciantes na carreira, o professor acompanhou transições importantes na cidade. “Foi uma época também de redução de postos de trabalho em Joinville, principalmente por conta da venda da RBS e que se tornou a NSC”.
Quanto ao trabalho de jornalistas em redes sociais, ele conta que na época em que dava aula no Ielusc, era apenas o começo de um ciclo. “Quando eu dei aula em Joinville, era só o começo de um ciclo que depois se aprofundou. A profissionalização dos trabalhos dos jornalistas em redes sociais se intensificou a partir de 2010, quando novas funções surgiram”, relata.
Já Émilin, que iniciou a graduação em 2010, lembra como as redes sociais eram vistas de uma forma totalmente diferente. “A principal mudança da época em que eu estudava foi o avanço dos recursos digitais. Por exemplo, quando eu estudava jornalismo não tinha o Instagram do jeito que ele é hoje. Não tinha as ferramentas que são utilizadas nele para trabalho. A rede social era para família e amigos, você não fechava negócios, não era um local que você poderia ver notícias do jeito que é hoje”, relembra.
Para ela, o Jornalismo possui uma função muito importante dentro dos trabalhos com o marketing e as redes sociais. “O Jornalismo entra no marketing de forma muito responsável. Existe uma linha muito tênue entre a propaganda em si, a credibilidade da informação, a autoridade que você precisa buscar e também o desafio de você saber lidar com as palavras certas em diversas circunstâncias, seja em uma campanha para redes sociais, seja em uma campanha publicitária para qualquer serviço online. O jornalismo acaba tendo uma importância muito significativa para conectar tudo isso”, conclui.
Zuciane Peres, de 26 anos, acaba de finalizar o curso de Jornalismo na Faculdade Ielusc. No início de dezembro apresentou a monografia “Choquei é jornalismo? Uma análise da cobertura eleitoral do perfil no Instagram”, no qual a aluna abordou como perfis das redes sociais conseguem divulgar matérias jornalísticas. Em contrapartida do tema de sua monografia que trata do jornalismo na era digital, Zuciane trabalha atualmente no Jornal A Gazeta, veículo impresso com sede em São Bento do Sul.

Zuciane confessa que ainda está pensativa quanto ao futuro devido a saída recente da graduação, mas primeiro quer descansar e aproveitar a família. “Mas sei que no futuro, o que eu quero fazer, é contar histórias e entrevistar pessoas. Isso me faz feliz”, contou.