
“1° Ato”: quando a prática ganha forma no papel
Estudantes da terceira fase de Jornalismo do IELUSC desenvolvem uma revista impressa como experiência prática na disciplina de Planejamento Visual, conectando teoria, criatividade e trabalho coletivo.
Por Camila Schatzmann
Em um tempo em que o digital domina o jornalismo, estudantes da terceira fase do curso de Jornalismo do IELUSC foram convidados a recuar um passo, para dar muitos outros adiante. Como parte da disciplina de Planejamento Visual, ministrada pelo professor Sandro Galarça, a turma desenvolveu uma revista impressa do zero: da concepção à diagramação, do projeto gráfico ao fechamento de arquivo.
A publicação, intitulada “1° Ato”, tem como tema central a Cultura e nasce como resultado de um exercício coletivo que vai além do design gráfico. “A proposta central é o trabalho em equipe, a cooperação, a uniformidade nos processos e a padronização gráfica”, explica o professor Galarça. Segundo ele, a atividade surge como uma forma de reverter a tendência de trabalho isolado e em pequenos grupos, promovendo a colaboração em grande escala.
Do coletivo ao impresso
O projeto partiu da decisão de retomar a impressão física como etapa final da disciplina, algo que havia sido deixado de lado em versões anteriores. “Entendíamos, nesse contexto, que a experiência da diagramação era mais importante do que a impressão em si […]. Entretanto, percebemos que o processo pedagógico não se completava. Faltava a materialidade, faltava a percepção física sobre o objeto”, relata o professor. A retomada da impressão foi recebida com entusiasmo pelos alunos e, segundo ele, teve um impacto significativo no envolvimento e na compreensão dos conteúdos.
A produção da revista envolveu diversas etapas, desde a criação de projetos gráficos em pequenos grupos até a seleção, por consenso, de um único modelo para guiar toda a turma. A prática de negociação e argumentação foi parte essencial do processo. “Além de trabalhar questões importantes como hierarquia, comando, troca de experiências e compartilhamento de expertises diferentes”, destaca Galarça.
A estudante Gabrielle Dalmoro conta que a experiência foi além da aplicação de técnicas aprendidas em aula. Com alguma familiaridade prévia com ferramentas de edição, ela desenvolveu um papel de apoio aos colegas e se envolveu com as decisões gráficas do projeto.
“As aulas me deram um apoio bem grande, mas como eu já mexia com Photoshop desde 2020, consegui ajudar meus colegas nas dificuldades e colaborar bastante no processo de pensar a carta editorial e a diagramação. Por ser uma revista de cultura, buscamos um visual mais fluido, com tipografias que comunicassem também o conteúdo. A cultura tem traços redondos, leves, então tudo precisava fazer sentido junto”, comenta.
Gabrielle também destaca o valor coletivo da experiência: “Foi muito legal ver a evolução dos colegas e perceber que não estávamos fazendo só um trabalho para o professor, mas para um grupo. Ter a revista impressa em mãos foi especial, porque ali estava um projeto coletivo, e isso é muito significativo”. Para ela, a iniciativa reforça a necessidade de mais disciplinas voltadas ao visual no curso de Jornalismo.
A aluna Kédima dos Santos também compartilhou sua vivência no processo, destacando tanto os desafios pessoais quanto os aprendizados obtidos. “Eu tive bastante dificuldade nessa matéria desde o início porque eu sou meio zero à esquerda com tecnologia, mas as aulas anteriores definitivamente ajudaram. Fazer a revista foi bem desafiador porque, além da minha dificuldade com o InDesign, precisei trabalhar em grupo e com a sala toda.”
Para além da sala de aula: aprendizados para o futuro
A vivência proporcionada pelo projeto “1° Ato” ultrapassou os limites do conteúdo programático da disciplina de Planejamento Visual. Mais do que uma atividade avaliativa, a produção da revista impressa foi encarada como uma antecipação prática do que os estudantes poderão vivenciar no mercado de trabalho e, para muitos, uma oportunidade de descobrir habilidades e lacunas.
A estudante Kédima destacou como o processo, embora desafiador, trouxe um diferencial importante para sua formação. “Saber trabalhar com o Adobe vai ajudar bastante no futuro. Eu ainda não sei em que área quero trabalhar, mas mexer com Adobe é um diferencial no currículo”, afirmou. Para ela, mesmo enfrentando dificuldades com tecnologia, a experiência prática abriu caminhos e demonstrou a importância de dominar outras ferramentas além do texto.
Essa percepção também foi compartilhada por Gabrielle Dalmoro, que vê no domínio das ferramentas visuais uma exigência crescente do mercado atual. “O mercado está se diversificando, e o jornalista hoje precisa dominar mais do que só o texto. Ter mais disciplinas assim prepara a gente para esse novo cenário”, afirmou, ao comentar sobre a relevância de práticas como a criação de projeto gráfico e a diagramação.
Para o professor Sandro Galarça, essa antecipação à prática profissional é justamente um dos principais objetivos da proposta. Ele acredita que vivenciar os bastidores da produção editorial permite amadurecer ainda durante a graduação. “É muito importante porque é uma experiência que os prepara para a rotina de uma redação jornalística, antes mesmo de passarem pela disciplina de Jornal-Laboratório. Ao antecipar essa etapa, conseguimos amadurecer e vivenciar problemas que aparecem no dia a dia do fechamento de uma edição, e cada pequena tarefa conta.”
Ainda segundo o docente, o principal aprendizado está na convivência coletiva e na soma das contribuições individuais. “Trata-se de aprender com os próprios erros e planejar melhor para que o coletivo se sobressaia ao individual. Jornalismo é um trabalho coletivo, em que o resultado é sempre a soma das individualidades.”
Quando a teoria ganha corpo
Para Galarça, um dos maiores ganhos do projeto é justamente a conexão entre o conteúdo teórico e sua aplicação real. “Quando a gente fala de legibilidade, equilíbrio e padronização, por exemplo, são aspectos que saltam aos olhos de todos quando a revista fica pronta e eles passam a folheá-la com curiosidade. […] As coisas fazem sentido quando as páginas ganham vida fora das telas.”
Ao refletir sobre o resultado final da revista, o professor complementa: “Foi um aprendizado muito importante para todos, inclusive pra mim como professor e jornalista com bastante experiência. Porque sempre surgem novos desafios, novas situações que nos ajudam a entender o problema ou a particularidade daquela turma em específico.”
O docente também reforça a intenção de seguir desenvolvendo projetos semelhantes na disciplina, que unam teoria e prática de forma a potencializar o processo de ensino-aprendizagem. Ele destaca ainda que, em um contexto de crescente digitalização, dar um passo atrás, retomando a materialidade, ajuda os alunos a compreenderem melhor como os processos jornalísticos são constituídos.
Ao fazer com que os alunos lidem com a materialidade do jornalismo, o projeto “1° Ato” faz jus ao nome: representa o primeiro ato de muitos futuros profissionais no palco da comunicação impressa.