Um olhar distante de um semblante engessado
Com o olhar fixo, ela me encarava, fria e sorridente. Seu semblante carregava uma expectativa contundente pela minha aprovação. O café-bistrô era uma graça. Localizava-se em uma casa antiga, possivelmente reformada para abrigar o Fidalga Jardim. Seu interior era decorado com roseiras e limoeiros de plástico, vasos, estátuas e pinturas ao estilo expressionista. Parecia ser muita coisa; ainda assim, tudo harmonizava perfeitamente com a proposta do lugar.
Sentei-me próximo à entrada. Estava chovendo levemente, e uma pequena corrente de ar batia gelada em meu rosto. O interior do Fidalga, com suas luzes amarelas e flores artificiais, trabalhava tão bem a sensação de aconchego que o leve desconforto da brisa da rua não me abalou. Escolhi uma mesa a pedido do maître, acomodando-me perfeitamente ao lado dela.
Eu, educado, acenei levemente com a cabeça. Ela simplesmente sorriu, daquele modo imóvel e pálido. Pensei estar me apaixonando. Só não sabia se era pelo sorriso ou pelo olhar amarelado pela luz ambiente. Fiquei tão admirado com sua expressão de acolhimento que, hipnotizado, esqueci-me de olhar o cardápio. Pedi então um espresso e uma focaccia.
A experiência sensorial dos aromas e sabores foi intensificada pela companhia compassiva da minha convidada — ou seria eu o seu? Afinal, era ela quem morava ali. Minha presença tratava-se de algo passageiro, monótono, temporário. Comecei a contar quantos já haviam se sentado ali e quantos ainda se sentariam sob o mesmo olhar imóvel.
O café e o pão revelaram uma delicadeza de outra natureza. Além de alimentar com finesse, proporcionaram-me um momento de descontração e descoberta. As diversas texturas da focaccia preencheram minha boca e adocicaram minha saliva. O café, amargo e encorpado, com notas de chocolate, permaneceu em meu palato por horas. Eu estava sob a observação dela que, mesmo por falta de escolha, se permitiu compartilhar seu sorriso, como quem dizia: “venha e sirva-se”.
Minha companheira permanecia sólida em seu lugar e não movera um único músculo desde que me sentei. Ainda me encarava e, em seu silêncio, fazia-me corar. Tudo era complexo, mas o conforto explícito em cada detalhe pálido mostrava-me vida onde não deveria haver. Queria levá-la comigo, colocá-la ao meu lado, para que seu sorriso não se desprendesse do meu olhar. Mas sabia que a beleza e o requinte daquela mesa eram responsáveis pela obra de arte que me fizera companhia durante a refeição.
Não poderei esquecer tão cedo do olhar de boas-vindas da estátua e das pessoas que ofereceram acolhimento em um dia tão sombrio como aquele. Seus corações humanos e apaixonados, ainda que, por vezes, feitos de gesso, aprofundaram meu senso estético e de camaradagem. Um exercício de pura imaginação e entrega do melhor que a gastronomia e a arte podem oferecer. Será sempre com aquele olhar que me lembrarei do Fidalga Jardim como fonte de espírito e acolhimento.

