Falta segurança aos ciclistas na Cidade das Bicicletas
Por Isabel Berns Lima
“Totalmente plana, a cidade é dotada de largas e bem cuidadas avenidas. A bicicleta reúne a preferência dos joinvilenses que, com ela, vão ao trabalho, às compras e até os passeios pelos arredores da pitoresca cidade”, exclama o locutor do filme comemorativo à inauguração da nova fábrica da Fundição Tupy, em 1963. Uma década antes, Joinville alcançava a marca de 10 mil bicicletas, cerca de uma para cada 4,7 habitantes. A ampla utilização do transporte começou após a Segunda Guerra Mundial, quando a industrialização deu um salto em Joinville. As empresas tinham grandes bicicletários para guardar os veículos dos operários. Era um mar de zikas (apelido local para o meio de transporte). Até os Bombeiros Voluntários da cidade, corporação mais antiga do país, iam atrás dos caminhões de água em suas bicicletas para apagar os incêndios.
Joinville, de fato, foi a “Cidade das Bicicletas”. Dos bombeiros a entregadores de cadeiras de palha, que eram empilhadas sobre as calçadas como esculturas modernas, todos usavam as magrelas. O Brasil se encantou com a cidade que tinha a menor quantidade de infartos, índice associado diretamente à prática do ciclismo. Porém tudo que é bom um dia acaba. O presidente Juscelino Kubitschek aplicou seu plano de ampliar a frota de automóveis no país. Aos poucos, as largas ruas tomadas por bikes foram se enchendo de carros e motos.
A convivência não foi fácil. A cada dia, novos acidentes e cenas de desrespeito entre ciclistas e motoristas. Ao fim dos anos 80, Joinville já não era mais uma cidade tão propícia para as bicicletas.

Bikes disputam espaço com automóveis
Se, na época do boom industrial, as bicicletas eram utilizadas por famílias inteiras, operários e agricultores, quem é o ciclista do século 21? Na última pesquisa promovida pela Secretaria de de Planejamento Urbano e Desenvolvimento Sustentável, em 2017, Joinville tinha uma frota de 250 mil bikes. De acordo com o Detran, a antiga Cidade das Bicicletas é o município catarinense com o maior número de automóveis, cerca de 271 mil.
Laércio Batista, 56, é ciclista há 22 anos e encontrou no veículo de duas rodas um estilo de vida. Nascido em Joinville, o farmacêutico vai diariamente para o trabalho de bicicleta, além de fazer pedaladas noturnas várias vezes na semana. Ele, que iniciou no esporte por motivos de saúde, marca viagens ciclísticas frequentemente. “Pego férias uma vez por ano para isso”, disse. A paixão pela bike o levou a pedalar na Alemanha, França, Cordilheira dos Andes e outros lugares da América do Sul.
De outra geração, Guilherme Hoppen Almeida, 21 anos, também é ciclista. “Uso para ir a qualquer lugar em que não haja problema em chegar suado e fedido”, confessa o barista. Guilherme tem evitado andar de bicicleta por conta da pandemia, mas assume sentir um carinho especial por esse meio de transporte. Diariamente ele costumava sair com a zika para realizar tarefas e gastar energia.
Mamãe de primeira viagem, Taline Schroeder, 30 anos, usa a bicicleta todos os dias como meio de transporte. Ela e o marido não têm carro. “A gente acredita que faz bem para a cidade e para nós”, afirmou. Depois de uma viagem de um ano pela América, de bike, os dois abriram uma empresa de cafés especiais em Joinville. Para o casal, a prática é “quase uma extensão da personalidade”.
Mobilidade enfrenta desafios
Para além de todo esse amor pelo ciclismo, a infraestrutura da cidade e o desrespeito aos ciclistas são motivos de várias críticas. O direito de locomoção por meio de veículos não motorizados, inclusive bicicletas, está previsto no Código de Trânsito Brasileiro(CTB), artigo 21. Entretanto, essa lei foi descumprida várias vezes em Joinville. Segundo o CTB, é obrigação dos órgãos públicos dos Estados promover, planejar e operar a circulação de veículos. Na cidade, o Plano Municipal de Mobilidade Urbana (PlanMOB), de 2015, estabelece o objetivo de elevar o transporte por bicicleta, que era de 11%, para 20% em 2025. O documento esclarece a necessidade da requalificação dos espaços para a livre circulação segura de pedestres e veículos, além de apontar a importância da integração para longas distâncias e infraestrutura para estacionamento de bicicletas.
Trocar o ônibus pelas bicicletas é um ato político (Guido Gelbcke, designer)
Gilmar Pedro dos Santos, 46 anos, trabalha como metalúrgico e utiliza a bike diariamente para ir ao trabalho. As ciclovias da rota, quando existem, nem sempre têm infraestrutura adequada. “Tem muitos buracos, elevações, irregularidades na ciclovia que atrapalham um pouco para poder se movimentar de bicicleta”, desabafa o trabalhador. Para Guido Gelbcke, de 31 anos, não há preocupação com quem não possui carro. O designer acredita que utilizar a bicicleta como meio de transporte é ir contra o sistema de produção capitalista. Ele lembra que o transporte público de Joinville é um dos mais caros do Brasil, por isso trocar o ônibus pelas bicicletas é um “ato político”, pois vai contra o sistema de consumo de carros e combustível. Gelbcke ressalta que a falta de infraestrutura e o desrespeito dos motoristas impactam quem pensa em começar a pedalar. “A bicicleta tem o poder de deixar a cidade mais humana e limpa”, afirma.

Infraestrutura
Existem três tipos de espaços para ciclistas: as ciclovias com separação física da rua; as ciclofaixas (faixa pintada sem diferenciação de nível, somente com tachas e tachões); e a ciclorrota (uma rota pensada para o tráfego junto aos automóveis, com sinalização em placas e pintura no chão). Existe ainda a calçada compartilhada, que pode fazer parte de ciclovias e ciclorrotas. Joinville possui 186 km de malha cicloviária, de acordo com a prefeitura. O objetivo do PlanMOB é ampliar para 730 km até 2025, mas tudo anda a passos bem lentos. Quando o plano foi instituído em 2017, a cidade tinha 140 km de trajetos cicloviários. Os locais que serão modificados para o trânsito ativo (não motorizado) são mistério. O grupo Pedala Joinville cobra constantemente o planejamento municipal. Até a edição final desta reportagem, a Secretaria de Planejamento Urbano e Desenvolvimento Sustentável, responsável pelo assunto, não se manifestou.
Luiz Antonio Carletto, presidente atual do Pedala Joinville, conta que o grupo luta pelos direitos de quem opta pelo transporte ativo. A entidade entende que, no meio urbano, os automóveis não são adequados para a circulação, e sim para viagens de longas distâncias. A questão mais recente do Pedala é a implantação da ciclovia na rua Olavo Bilac, no Vila Nova. Em abril de 2019, houve uma Consulta Pública no bairro. A votação foi unânime a favor da faixa, porém comerciantes do local não ficaram satisfeitos. No fim, outras ciclofaixas prometidas para o bairro foram feitas e a da rua Olavo Bilac não. Carletto participou da consulta e levou o caso ao Ministério Público.
Em 2018, o grupo Bicicletada organizou uma manifestação contra a retirada da ciclofaixa que havia sido feita menos de dois meses antes, na Rua Plácido Olímpio de Oliveira, no bairro Bucarein. A justificativa da prefeitura, na época, foi que a rua era muito utilizada por veículos motorizados. Ambos os casos vão na contramão do exposto no Plano Cicloviário Municipal.

Educação como solução
Outro fator que dificulta a vida de quem acredita na bicicleta como meio de transporte é o desrespeito dos motoristas. Inúmeros são os casos de acidentes de trânsito envolvendo ciclistas e automóveis. De acordo com o artigo 58 do Código Brasileiro de Trânsito, ciclistas devem ocupar as vias caso não exista malha cicloviária e, em último caso, as calçadas. O artigo 201 expressa a obrigação de manter um metro e meio de distância do ciclista, coisa que não é vista com frequência por quem utiliza o meio de transporte. A Guarda Municipal da cidade diz que a multa para o descumprimento é de R$ 130,16, mas admite que não é frequente esse tipo de abordagem. Laércio, fundador do Pedala Joinville, acredita que a fiscalização é essencial. “Se a gente voltar na história, as pessoas eram multadas por não usar cinto, hoje é automático.”
Os motoristas, muitas vezes, invadem a ciclofaixa para fazer uma ultrapassagem ou não sabem que o ciclista tem que andar na faixa viária e não na calçada. (Taline Schroeder, Urbanista)
Em sua viagem de bicicleta para a costa oeste dos Estados Unidos, Taline notou que não havia uma superestrutura, mas a ultrapassagem é feita como qualquer outro automóvel, e a distância de 1,5 metro é respeitada. “Muitas vezes já tive que parar a bicicleta, eles simplesmente passam”, afirma Gilmar sobre os cruzamentos que precisa enfrentar. A preferência ainda é de motorizados, mas não deveria. Para Taline, que é urbanista, a grande dificuldade do ciclista joinvilense é lidar com a falta de educação nos cruzamentos. “Os motoristas, muitas vezes, invadem a ciclofaixa para fazer uma ultrapassagem ou não sabem que o ciclista tem que andar na faixa viária e não na calçada.” Ela ressalta também que muitos adeptos da modalidade não cumprem regras de sinalização e até andam na calçada.
Apesar de todos os desafios, a “Cidade das Bicicletas” conta com uma das maiores malhas cicloviárias do país. A urbanista Taline acredita que, diante das outras cidades brasileiras, Joinville tem uma boa infraestrutura. “O problema é a falta de continuidade entre uma linha e outra.” Ela frisa que é essencial garantir a segurança do ciclista entre essas linhas. Para isso, não precisa necessariamente de malha cicloviária, mas de boa convivência.
Foto capa: Altamir Andrade
3 Comments
Guido, dizer que o ato de andar de bicicleta é ir contra o sistema capitalista não piora ainda mais a rejeição do uso dela, estigmatizado o perfil do usuário? Bicicleta é muito mais. Bicicleta é um modal de todos e para todos, independente de visão de mundo e ideologia.
Oi Taline! Perfeito a bicicleta é antes de tudo um modal de todos para todos, ela representa o acesso. Mas na minha opinião os desafios que nós enfrentamos vai um pouco além das ciclofaixas que não fazem conexão. Peço desculpas pela forma que foi contextualizado minha contribuição, a intenção não era estigmatizar nem mesmo definir o perfil dos usuários.
Perfeito Taline, a Bicicleta è um modal de todos para todos, ela representa o acesso. Sobre o ponto de ir contra o “sistema capitalista” foi um comentário pessoal meu, jamais tive a intenção de estigmatizar ou definir o perfil dos usuários. Obrigado pela contribuição.