Migração para Joinville vira luta por moradia
Recém-chegados se deparam com incertezas e solicitações rigorosas no momento da locação de imóvel
Por Jéssica Silva e Julianny Morais
Joinville, a maior cidade de Santa Catarina, ultrapassou a marca de 615 mil habitantes, segundo dados recentes do IBGE, um crescimento de 19,4% em relação ao censo anterior, de 2010. O crescimento populacional foi impulsionado pelo fluxo migratório, ou seja, pessoas que se deslocam entre estados do próprio país. A vazão trouxe cerca de 184 mil migrantes, vindos principalmente do Paraná. Entre os principais motivos para a migração, estão a busca por oportunidades de estudo e trabalho.
Flávia Borges, 20, veio do Rio Grande do Sul, buscando oportunidades de emprego, mas enfrentou dificuldades na locação. “Quando eu fui alugar pela imobiliária , me pediram dois fiadores, duas cauções e mais o valor do aluguel. Então ficava em torno de uns 5 ou 6 mil reais o aluguel de uma casa que era pra ser mil reais por mês.” Devido às exigências da imobiliária, Flávia recorreu à locação informal.
Nas redes sociais, principalmente no Facebook, há grupos para divulgação de ofertas de locação diretamente com os proprietários, como alternativa para driblar as solicitações das imobiliárias. Alguns grupos somam mais de 100 mil usuários, porém o nível de exigência, em alguns casos, é ainda mais rigoroso. O usuário Gael Castangnon relatou sua experiência em um grupo de aluguel: “Para morar em Joinville tem que ter dois empregos, porque não aceitam mais de duas pessoas. Os proprietários querem mandar no inquilino, na casa que já foi alugada e ainda querem dar ordens”, desabafou.


Apesar da aparente praticidade para divulgação dos imóveis nas redes sociais, os usuários ficam mais suscetíveis a golpes. Elisangela Aparecida foi vítima de uma dessas tentativas. “Encontrei um imóvel mobiliado no centro por mil reais, mas queriam que eu enviasse o documento e o dinheiro só para visitar. Percebi na hora que era golpe”, conta. Os anúncios falsos, divulgando preços abaixo do mercado, acumulam vítimas e chamam a atenção para a facilidade da aplicação de golpes.
Segundo o índice FipeZap, responsável nacional pela verificação do mercado imobiliário, até janeiro de 2025, houve o crescimento de 17,94% nos valores do aluguel em Joinville, um dos maiores aumentos no Brasil. O valor do metro quadrado chegou a 35,88 reais, afetando locadores como Ivonete Moreira, 37, que veio para Joinville em busca de emprego. “Eu tenho duas filhas pequenas e tinha que procurar um lugar que fosse perto da escola e do trabalho, mas todo lugar assim era muito caro. Eu só consegui alugar porque eu tenho uma conhecida que ganha bem, e ela foi minha fiadora”, explica.
A elevação nos preços imobiliários evidencia a necessidade de políticas públicas que acompanhem o ritmo da urbanização, fiscalizando as políticas habitacionais, garantindo moradia digna e um processo fluído de inserção social para quem busca um recomeço com novas oportunidades.
Políticas habitacionais
Enquanto a população de Joinville saltou de 515 mil para aproximadamente 615 mil habitantes, entre 2010 e 2022, as ocupações irregulares caíram 56%. Apesar disso, o déficit habitacional da cidade é de cerca de 30 mil moradias, sendo 70% relacionado aos gastos das famílias com aluguéis. Segundo a Secretaria da Habitação, as políticas habitacionais de Joinville não têm como foco o aluguel de imóveis, e sim as moradias próprias com projetos como o Conjunto Habitacional Cubatão II, os programas Minha Casa Minha Vida e Mais Moradia. Os programas têm como objetivo principal o combate à precariedade habitacional, promovendo à moradia digna e integrando outras políticas de desenvolvimento urbano e saneamento, priorizando famílias em vulnerabilidade social, como pessoas com deficiência, chefes de família e mães atípicas. O cadastro pode ser feito pelo site da Secretaria de Habitação, onde são descritas as exigências e os documentos necessários.
