Resgates de gambás em Joinville batem recorde em relação a 2024
Crescimento de ocorrências está ligado ao período reprodutivo e à adaptação do marsupial ao ambiente urbano
Por Raulino Dalcim
Seja em áreas próximas da natureza ou nas regiões centrais da cidade, Joinville registrou aumento no resgate de gambás, deixando a população desconfiada quanto a possíveis doenças desses marsupiais. Segundo dados do Corpo de Bombeiros Voluntários de Joinville, em 2024 foram contabilizados 261 resgates. Já em 2025, até o momento, o número saltou para 856, sendo 328 somente entre outubro e novembro. O crescimento é explicado principalmente pela primavera, período de reprodução dos animais. A demanda ampliada também tem sido percebida pela Selva Center, centro especializado em manejo de animais silvestres, que atua há quatro anos na região Norte de Santa Catarina. Segundo o médico veterinário Vinicíus Dalla Court, responsável pela unidade, os animais chegam ao local por meio de órgãos públicos conveniados, como Corpo de Bombeiros, Ibama, Instituto do Meio Ambiente (IMA), Polícia Militar Ambiental, Polícia Civil e prefeituras da região.
De acordo com o veterinário, o destino do animal depende das condições de saúde no momento do resgate. “Se estiver machucado, ele passa pela clínica; se não houver lesões, é levado diretamente para soltura”, explica. O tempo de permanência varia: filhotes podem ficar de 1 a 2 meses, adultos permanecem cerca de uma semana, e casos graves exigem tratamento de até três meses. A taxa de sobrevivência tem sido positiva, com menos mortes do que devoluções bem-sucedidas. “Entre 30% e 40% dos gambás que recebemos conseguem retornar à natureza”, completa Vinicius. Moradores também têm percebido a presença mais frequente do animal. Joelcio Dalcim, que possui casa de praia na região, relata que precisou lidar repetidamente com gambás circulando pelo terreno. “A gente afugentava um, mas logo aparecia outro. Uma vez fizemos a captura, colocamos numa caixa e levamos até a mata para soltar”, lembra. Hoje, segundo ele, medidas simples ajudam a evitar a aproximação, como demonstrar sinais de que a casa está ocupada.
Dalla Court reforça que, apesar de comum, a captura por conta própria não é indicada. Além de possuir caninos maiores que os de um gato, o gambá pode transmitir raiva. “Sempre é indicado chamar uma autoridade para fazer o resgate”, orienta. Em casos em que o animal apenas entrou no quintal, basta abrir a porta e emitir um pequeno som para que ele saia. Se houver ferimentos, o ideal é acionar os bombeiros.
Outro comportamento comum é o aparecimento de fêmeas em ambientes secos, quentes e escuros para dar à luz, sobretudo no período reprodutivo, que ocorre na primavera após uma gestação curta de 19 dias. Por ser um animal de hábitos noturnos e de grande capacidade de adaptação, o gambá tem encontrado mais alimento nas áreas urbanas, o que explica o aumento de ocorrências. “Ele deixa de ser apenas um animal da floresta para se tornar sinantrópico”, afirma o veterinário em relação ao gambá ter forte presença na cidade.

Importância ecológica
A presença crescente de gambás em Joinville reacendeu debates sobre os benefícios e riscos da convivência com o animal. Especialistas destacam que o marsupial é essencial para o equilíbrio ecológico, sobretudo em áreas urbanas. O veterinário Vinicíus Dalla Court explica que o gambá age como controlador natural de pragas, consumindo escorpiões, cobras, baratas e aranhas. Também contribui para a regeneração de áreas verdes ao se alimentar de frutos e dispersar sementes. Por outro lado, a alta adaptabilidade do marsupial facilita sua aproximação das residências. Lixo acessível, frutas caídas e estruturas com frestas são fatores que favorecem a presença do animal. Tentativas de captura por conta própria não são recomendadas, tanto pelo risco de transmissão de raiva quanto pela força da mordida.
Quando um gambá aparece dentro de casa, o mais indicado é buscar ajuda especializada. Animais saudáveis geralmente saem sozinhos quando encontram uma rota aberta, mas situações envolvendo ferimentos, filhotes ou fêmeas protegendo a ninhada exigem atendimento adequado. Em Joinville, os resgates podem ser solicitados diretamente aos Bombeiros Voluntários pelo 193, à Polícia Militar pelo 190, ou ao Instituto do Meio Ambiente (IMA) pelo (47) 3431-1441.
O lado científico
No Brasil, as espécies mais comuns são o gambá-de-orelha-preta e o gambá-de-orelha-branca. Esses marsupiais possuem olfato aguçado, cauda preênsil e grande capacidade de memorizar locais onde encontraram alimento. Quando ameaçados, podem entrar em tanatose — o famoso “fingir de morto”. Ao contrário do que muitos imaginam, são animais limpos e dedicam tempo à própria higienização.
