Bom Jesus IELUSC celebra 100 anos e reafirma sua identidade comunitária em Joinville
O Culto de Ação de Graças marca o centenário da instituição, que após atravessar gerações, segue formando cidadãos com base em fé, responsabilidade e compromisso social
Por Priscila Pereira
No dia 1º de março de 2026, o Bom Jesus IELUSC celebrou oficialmente seus 100 anos de fundação com um Culto de Ação de Graças realizado na Igreja da Paz, no centro de Joinville. A cerimônia reuniu direção, lideranças religiosas, professores, colaboradores, ex-alunos e famílias que ajudaram a construir a história centenária da instituição.

Fundado em 1926, com raízes históricas na antiga escola alemã da comunidade luterana, iniciada em 1866, o Bom Jesus IELUSC consolidou-se como um dos mais tradicionais centros educacionais do município. Ao longo de um século, acompanhou as transformações sociais, culturais e econômicas da cidade, ampliando sua atuação da Educação Básica ao Ensino Superior.
Mas, para além das datas e números, o centenário revelou algo mais profundo: o impacto humano de uma escola que atravessa gerações.Durante o culto, o pastor Sérgio Wruck Klippel destacou que a jornada centenária não pode ser compreendida apenas como continuidade administrativa, mas como expressão de um princípio que remonta ao século XVI.

Inspirada nos ensinamentos de Martinho Lutero, a tradição luterana entende a educação como serviço à sociedade.
“Uma das formas de traduzir o Evangelho da Graça de Lutero é a partir da função educacional, que é uma tarefa da Igreja”, afirmou.
Segundo ele, celebrar um século de fundação é reconhecer o trabalho de gerações de famílias, professores e funcionários que transformaram essa visão teológica em prática cotidiana.
“Nossa gratidão é por todas as pessoas que fazem o dia a dia dessa instituição, bem como pelos alunos que são a razão e a essência.”
De “turma fraca” ao primeiro lugar: a trajetória de Heinz
Entre os relatos mais marcantes da noite esteve o de Heinz Adolfo Kricheldorf, 84 anos, ex-aluno da década de 1950.
Em 1953, quando ingressou na escola, não falava português, apenas dialeto alemão. Foi colocado na chamada “turma fraca”. A classificação, porém, não determinou seu percurso.
“Comecei na turma fraca, mas me dediquei tanto que terminei o ginásio com honra ao mérito, conquistando o primeiro lugar da classe.”
O desempenho lhe garantiu bolsa de estudos do Governo do Estado. Trabalhava pela manhã em um laboratório de prótese, estudava à tarde no Científico (atual Ensino Médio) e, à noite, preparava-se para o vestibular de Odontologia na Universidade Federal do Paraná.
No dia 25 de março de 1965, iniciou sua carreira em Joinville. Tornou-se especialista em cirurgia bucomaxilofacial e membro honorário da cidade.
“Tudo o que conquistei começou ali.”
O depoimento sintetiza o papel do Bom Jesus como ponto de partida para histórias que se projetam além dos muros escolares.

Tradição e vanguarda
À frente da instituição no momento do centenário, o diretor-geral Silvio Iung define a data como uma “encruzilhada positiva”.
Para ele, liderar durante essa celebração significa equilibrar passado e futuro.
“Manter valores sólidos que permanecem e ver o que de fato é inovador é, talvez, o ponto de equilíbrio para a gente manter a instituição na vanguarda.”
Iung reforça que a identidade luterana sempre foi aberta às transformações do mundo, mas alerta para a necessidade de discernimento em um cenário educacional em constante mudança.
“Essa instituição pertence à cidade de Joinville. Ela ajudou a forjar a cidade e, para se manter relevante, deve continuar fazendo exatamente isso.”
Uma vida inteira dentro da escola
A história do IELUSC também é feita por quem dedicou décadas à instituição.
Sirlene Roseli Herbst de Lima iniciou seu percurso em 1971 como auxiliar de secretaria. Lecionou Geografia, atuou na área de Psicologia e acompanhou o crescimento da escola por 38 anos.

“Eu devo muito ao Bom Jesus, porque ele me ensinou praticamente tudo o que eu sei de amizade, solidariedade, empatia e responsabilidade.”
Seus três filhos também estudaram ali.
“Os profissionais de Joinville são frutos do Bom Jesus. Isso traz um orgulho muito grande para a gente.”
A professora Dorlí Rení Beck Hofstaetter, com 15 anos de atuação, resume o propósito da instituição:
“O que nós precisamos é de bons cidadãos, além de técnicos humanos.”
O passo decisivo para o Ensino Superior
Se o Bom Jesus IELUSC consolidou sua base ao longo de um século na Educação Básica, a entrada no Ensino Superior marcou um dos movimentos mais estratégicos de sua história. À frente dessa transição esteve o professor Tito Lívio Lermen, diretor da organização por quase 28 anos e principal articulador da criação da faculdade comunitária na década de 1990.
Segundo Lermen, a ideia de ampliar a atuação da escola nasceu de inquietações da própria comunidade joinvilense. Ele recorda que um dos episódios simbólicos foi a provocação de um médico do Hospital Dona Helena, que questionou por que uma instituição com tamanha tradição educacional ainda não atuava no Ensino Superior.
A partir de 1991, iniciou-se a construção do projeto acadêmico da futura faculdade, com apoio de lideranças regionais, entre elas, o conhecido “Borges de Garuva”, figura atuante no fortalecimento institucional naquele período. O primeiro curso implantado foi Enfermagem, escolhido para suprir uma demanda urgente da região.
Mais do que ampliar a estrutura, o movimento consolidou o caráter comunitário da instituição. “Nós criamos fóruns de discussão para que a instituição fosse compreendida como comunitária, a serviço de auxiliar a sociedade”, afirma Lermen.
Foi nesse contexto de efervescência acadêmica que nasceu também a revista eletrônica REVI, concebida como espaço de produção intelectual, reflexão crítica e diálogo com a cidade. A revista tornou-se uma extensão natural da proposta universitária: não apenas formar profissionais, mas fomentar pensamento.
Para Lermen, o complexo educacional luterano funciona como um organismo vivo, que conecta tradição e inovação. Ele associa essa visão diretamente à influência de Martinho Lutero, cuja concepção de educação permanente segue orientando a instituição.
“Temos um grupo que se articulou a partir da visão que Lutero sempre teve: a de que somos eternos aprendizes e a educação é o centro de tudo.”
Três décadas depois do início dessa transição, o Ensino Superior consolidado confirma que a decisão tomada nos anos 1990 não foi apenas expansão administrativa, mas a redefinição estratégica de papel na cidade.

Cem anos depois da fundação, o Bom Jesus IELUSC não celebra apenas sua longevidade institucional. Celebra as vidas que passaram por suas salas de aula, os professores que escolheram permanecer, as famílias que confiaram seus filhos e os profissionais que ajudaram a construir a cidade.
Nesta data, na Igreja da Paz, não se comemorou apenas um marco histórico. Reconheceu-se uma jornada coletiva. Cada geração deixou sua marca nas decisões que moldaram o presente.
Se o passado garantiu raízes profundas, o futuro exige continuidade. E é justamente nessa combinação entre memória e responsabilidade que o IELUSC encontra sua força: permanecer fiel à sua essência enquanto prepara novos capítulos.
Porque uma instituição centenária não é feita apenas de tempo. É feita de pessoas e em Joinville essa história continua sendo escrita todos os dias, dentro das salas de aula.
