De uma cesta básica ao instituto com mais de 200 crianças: conheça a história do Raízes
Durante uma entrega de cesta básica, em 2017, brotou no coração um propósito de vida. Assim Renan Morghett iniciou a trajetória que, anos depois, se tornaria o Instituto Raízes.
Aos 23 anos, sempre foi um jovem envolvido com causas sociais, realizando auxílios e ajudas comunitárias. Nascido em Jaraguá do Sul, mas viveu desde pequeno em Joinville. Já vem de berço o propósito de ajudar o próximo, os pais dele já realizavam trabalhos voluntários nas favelas de Londrina, cidade natal dos dois. Através de uma amiga, soube da necessidade de uma família (com seis filhos e envolvimento com drogas), no Bairro Paranaguamirim, na região do Jardim Edilene. Ele prontamente se disponibilizou a levar uma cesta básica à família, mas mal sabia, que aquela entrega mudaria sua vida.
A cidade de Joinville não apresenta favelas verticais, mas algumas regiões nas extremas territoriais apresentam elas na horizontal. Ao total, são sete regiões desse tipo pela cidade, segundo o IBGE no último censo realizado em 2022. São 3.103 pessoas, sendo 941 entre 0 a 14 anos. A região do Jardim Edilene é a segunda mais populosa da cidade, com 800 pessoas e 261 domicílios. Essas localidades abrigam famílias carentes e que maior parte são comandadas pelo tráfico.
Aos 23 anos, conta que por não conhecer essa realidade precária de Joinville, ao se deparar com o que encontrou na comunidade do Jardim Edilene, voltou para casa inquieto, incomodado e, até mesmo, não conseguiu dormir naquela noite. Através de orações, relata sentir no seu coração a palavra constância, onde se começasse algo, deveria ir até o fim. Após isso, começou a ir todos os sábados à comunidade e, em seguida, também chamou amigos para atender aquela região.

No início, não havia um local para reunir essas famílias, então os encontros aconteciam na estrada de barro mesmo, apenas com o desejo de ajudar essas pessoas, se dividindo para conversas com as famílias e atividades para as crianças. Alguns eventos também aconteciam para a arrecadação. Dessa forma, o projeto seguiu até 2019, sem nome, nem CNPJ, chamado por alguns de Amigos ou Irmãos do Renan.

Do barro à sede
Em 2019, à procura de um lugar próximo à comunidade, Renan encontrou o local onde está até hoje a sede do Instituto Raízes, uma quadra embargada na época. Com auxílio de advogados, ele conseguiu desembargar o local e começar a utilização. Quando houve a mudança, o instituto atendia 60 crianças. Todos que trabalhavam eram voluntários. A partir daí, foi criado o Instituto Raízes, com nome voltado a dar raízes aos sonhos e ressignificar futuros.
Hoje, após grandes reformas, o instituto se apresenta bem estruturado. Contém quadra, equipamentos de circo, salas de reforço, tecnológicas, de música, parquinho e futuramente uma horta. Além disso, uma cozinha bem equipada com freezers, refeitório e demais equipamentos necessários, muito desses, conquistados através de doações e inscrição em editais públicos e privados.
São mais de 50 voluntários distribuídos em funções e setores para o atendimento das crianças e famílias matriculadas no instituto. Através do voluntariado realizam o Programa Cultivar (com os adultos), Semente (com as crianças), entre outras iniciativas que visam desenvolvimento e transformação social. Além disso, contam com uma equipe de 26 funcionários envolvidos em outros projetos, sendo um deles o contraturno escolar Raízes do Amanhã em parceria com a prefeitura.
O Programa Semente acontece todos os sábados e é o pioneiro do instituto. Atende mais de 100 crianças, entre 4 a 17 anos, com diversas atividades, como esportes, atividades artísticas, lúdicas e conversas sobre cidadania. No programa, as crianças recebem café da manhã e almoço.

Já o Cultivar aproxima e auxilia as famílias. Os voluntários realizam grupos de convívio, visitam as casas, levam cursos para desenvolvimento dos familiares. Além disso, todos os meses, as famílias participantes precisam participar de uma reunião para informar sobre o desenvolvimento das crianças. Esse programa também realiza bazares, entrega de cestas básicas e também dia do cuidado, com barbeiros e profissionais da saúde, tudo voltado para as famílias atendidas.
O Raízes do Amanhã é uma parceria com a Prefeitura de Joinville. Trata-se do contraturno escolar para crianças carentes da região matriculadas na rede de ensino fundamental municipal. O programa acontece tanto no período da manhã, quanto à tarde. É um investimento de mais de R$100 mil mensais para cobrir os custos de contratações de pessoas, materiais necessários, alimentação de café da manhã, almoço e café da tarde. Nesse período são desenvolvidas atividades de reforço escolar, esporte, tecnologia e música. “Oportunidade de tirar essas crianças da rua, poder fazer elas sonharem, elas acreditarem nelas mesmo e fazer boas escolhas no futuro” comenta Elisa, responsável pela área de captação de recursos e esposa do Renan. No mês de maio, esse programa completa um ano. Atualmente atende 160 crianças e já possui mais de 100 na fila de espera.

Mudando famílias
Ao longo desses sete anos, diversas famílias já foram atendidas e muitas vezes mudadas pelo instituto. Elisa relata o orgulho que sente por essas pessoas e cita também o caso de uma voluntária, onde no início do projeto, levou seus três filhos, em um momento com a vida desorganizada e casamento indo mal. Ao se depararem com o cuidado do instituto e principalmente do Renan com os filhos, o casal começou a se envolver e participar do apoio familiar. Com isso começaram a se organizar e mudar de vida. Os voluntários do Raízes também realizaram um casamento e festa para eles, com tudo pago. Hoje são referências na comunidade onde moram, como pessoas, pela casa mais bonita da região. “Essa é a história de transformação de uma família que foi ajudada e hoje retribui para sua comunidade e sociedade”, completa Elisa.
Futuro do Raízes
Questionada sobre o futuro do instituto, Elisa comentou: “Estamos captando agora recursos para outro projeto no período da noite, para mais 145 crianças, voltado para cultura. Com aulas de coral, violão, danças urbanas e circo pela Lei Renault”.
Além disso, o Raízes projeta levar o contraturno escolar até o bairro vizinho do Morro do Amaral, auxiliando as famílias e crianças da região também. Outro desejo é assumir o CEI que está sendo construído no bairro Paranaguamirim, assim, trabalhando desde a faixa etária de meses, até 17 anos.
Atualmente são 270 crianças tendo oportunidade e 70 famílias acompanhadas.

“É tempo de estabelecer raízes, pelo mundo e permanecer”.
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