Associação de Moradores do Bucarein completa 27 anos e um desejo simples: fazer do bairro um lugar onde as pessoas queiram estar
Por Priscila Pereira
Antes de a ferrovia mudar tudo, o Rio Bucarein era a veia de Joinville. Por ele passavam erva-mate, madeira e outros tipos de mercadorias, embarcadas e desembarcadas em um porto que funcionava como o pulso econômico da cidade. O nome do bairro carrega esse passado: derivado do tupi, pode significar “rio curvo”, “nascente de água” ou “rio da cobra escamosa”, dependendo da interpretação. Hoje, séculos depois, o Bucarein ainda é um território de movimento, só que o que circula agora são pessoas e projetos contemporâneos.

É nesse cenário que a Associação de Moradores do Bucarein opera há 27 anos. Fundada em 15 de dezembro de 1998, com CNPJ ativo e registro no cadastro municipal de associações de Joinville, a entidade atravessou fases que vão do abandono quase total à reinvenção coletiva. A sede, que chegou a ser tomada pelo mato e virou ponto de tráfico de drogas, hoje abriga horta comunitária, quadra esportiva, espaço de churrasco e cursos de corte e costura.

“A gente se reuniu para começar a manter isso aqui limpo”, conta Nelson de Oliveira Júnior, presidente da associação, que também atuou como secretário do CONSEG (Conselho Comunitário de Segurança) do bairro e é vice-presidente do Conselho Local de Saúde. Foi por volta de 2015 que, junto com moradores que se recusaram a deixar o “espaço morrer”, a atual gestão começou a retomar o terreno, literalmente. Para José João Alves, vice-presidente da associação, o objetivo é claro: “As pessoas não precisam correr para longe para ter lazer, o bairro pode oferecer isso.”
Tijolo a tijolo
Milton César Silveira, primeiro tesoureiro e há quase 20 anos na associação, lembra que a primeira presidente, dona Maria Luísa, que também presidia a APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) na época, foi quem idealizou a sede. “Teve a Academia da Melhor Idade, a separação com cerca, o campo”, enumera. Com o tempo e as trocas de diretoria, os projetos foram se acumulando: horta comunitária, cursos, reformas. A atual gestão herdou tanto o espaço quanto a responsabilidade de mantê-lo funcionando sem apoio financeiro direto da prefeitura que, por lei municipal, não pode repassar verba às associações de moradores.

A churrasqueira coberta inaugurada em 2025 é o símbolo mais recente desse jeito de fazer: mão de obra dos próprios integrantes e doações de empresários locais, entre eles pisos, tijolos e brita, tudo isso com menos de R$3 mil desembolsados. O resultado é um espaço com quatro mesas, capacidade para 50 pessoas e agenda recheada: encerramentos de ano, festas de aniversário e chás de bebê. “Até aniversário de cachorro já teve”, conta José João Alves, vice-presidente que chegou em 2024 e logo se viu envolvido nas obras.
O que está funcionando na Associação
Corte e costura
Aulas semanais em parceria com entidade terceirizada. Uma turma já se formou em 2025.
Horta comunitária
Dez canteiros abertos a voluntários. Insumos fornecidos pela prefeitura e por parceiros privados.
Espaço de lazer
Churrasqueira coberta inaugurada em 2025 com capacidade para 50 pessoas.
Teatro da terceira idade
Encerrado em janeiro: o grupo desenvolveu e encenou uma peça baseada em memórias reais.


Há ainda a quadra esportiva, que aguarda reforma: tela com pontas de arame expostas e redes das traves que precisam ser trocadas. A iluminação já recebeu novas lâmpadas em parceria com a Secretaria de Infraestrutura do município. O próximo passo é a construção de banheiros externos para quem usa a quadra, contemplando homens, mulheres e cadeirantes. Para isso, a associação busca recursos via projetos estaduais e federais, o caminho possível dentro das regras vigentes.

Entre o restaurante e a rua
Nem tudo no Bucarein é obra e confraternização. O bairro concentra, na Rua Urussanga e arredores, uma rede densa de serviços de assistência social: o Centro de Estudos e Orientação da Família (Cenef), a Associação Beneficente dos Inativos e Pensionistas (Abip) e a Casa de Passagem da Arca da Aliança, além do Restaurante Popular de Joinville, frequentado diariamente por pessoas em situação de rua. A convivência entre esse fluxo e os moradores e comerciantes é tema constante de tensão.
Em 2022, a associação foi às ruas e à Câmara de Vereadores contra a instalação do Centro Pop nas proximidades do restaurante. O grupo “Amigos do Bucarein”, criado no auge daquele debate, chegou a reunir mais de 400 pessoas no WhatsApp. “A gente fez reunião com a prefeitura, com o vereador. Até que eles desistiram, tiraram dali”, lembra Nelson. Em 2025, a entidade voltou à Câmara, desta vez numa audiência sobre população de rua, apresentando imagens de imóveis abandonados que representam risco à segurança. Um abaixo-assinado com 3.500 assinaturas abrangendo Bucarein, Anita Garibaldi, Atiradores e Saguaçu foi entregue com pedidos de providências.
O que ainda falta
Há ideias que ainda estão no papel, como uma cancha de bocha e uma quadra de beach tennis. Mas o que os três diretores repetem com mais frequência é um desejo menos concreto: mais gente. A associação tem 112 pessoas no grupo de WhatsApp num bairro com quase sete mil habitantes. “Faltam moradores e colaboradores para trabalhar aqui”, diz Alves. “A gente tem que sentar e pensar em mais formas de trazer esse pessoal para cá.”

Nelson toca num ponto que vai além da associação: a infância que acontece dentro de casa, grudada em telas. “Crianças não saem mais de casa, estão só no celular. Só um pouco de exercício na escola não é suficiente”, diz ele. É para isso que a quadra existe. É para isso que a associação existe e quem quiser fazer parte dela sabe onde encontrar.
A entidade é conduzida por uma diretoria de voluntários: Nelson de Oliveira Junior (presidente), José João Alves (vice-presidente), Luiz Carlos da Silva (1° secretário), Luciene Cristine Casas de Azevedo (2° secretária), Milton Cesar Silveira (1° tesoureiro) e Adriano Clementino (2° tesoureiro). O Conselho Fiscal é composto por Manoel Alfredo Borba, Rudi Jairo, Mari Ione de Souza Correa, Márcio Santos Correa, Paulo Roberto de Lima, Maria Aparecida Leal e Silva, Willian Ávila Moy e José Felismino Vicente.
A associação está localizada na rua Calixto Zattar, nº 120, Bucarein. Os telefones para contato são: (47) 3455-2276, plantão comunitário: (47) 99250-8206 e (47) 99674-2664.
