Restaurante Popular divide opiniões sobre segurança e inclusão social
Unidade do Bucarein enfrenta pressão, após abaixo-assinado apresentado por vereador
Por Eduarda Warmeling, Julia Kluck e Maira Silveira
Cerca de mil pessoas passam diariamente pelo Restaurante Popular I Herbert José de Souza, no bairro Bucarein. O espaço fornece refeições a baixo custo para pessoas em situação de vulnerabilidade social e garante o sustento de crianças, adultos e idosos. Em abril deste ano, o vereador Instrutor Lucas criou um abaixo-assinado que propõe o fechamento da instituição. Aumento da criminalidade e insegurança na região foram os motivos alegados.
Apesar do argumento utilizado pelo vereador, a única ocorrência registrada ocorreu em 9 de abril, quando um funcionário ligado ao deputado estadual Sargento Lima (PL), cujo gabinete regional fica próximo ao estabelecimento, foi ameaçado e teve o carro apedrejado ao tentar intervir em uma briga envolvendo pessoas em situação de rua.
No dia 15 de abril, o vereador Instrutor Lucas publicou um vídeo em seu perfil no Instagram divulgando o abaixo-assinado e incentivando o fechamento do Restaurante Popular. “Moradores e comerciantes da região estão com medo pela falta de segurança e pelo aumento da criminalidade naquele local”, declara Lucas no vídeo.
Ele também sugeriu uma possível alternativa para o problema: “Eu acredito que uma das soluções seria transferir a alimentação de pessoas em situação de rua para longe das áreas urbanas”.
Rotina do restaurante não envolve infrações severas
O cheiro do tempero, o barulho das tampas de panelas e o tilintar dos talheres servem de pano de fundo para a conversa com Elizabete Cristine Farias da Silva, mais conhecida como Eliza, nutricionista que trabalha no Restaurante Popular desde outubro de 2025.
Para a profissional, o restaurante não deveria fechar, porque isso prejudicaria a população. “O espaço é aberto para qualquer pessoa, inclusive para as famílias em situações de vulnerabilidade. Há gente que vem até aqui de ônibus só para comer”, informou.
“Não vi nenhum caso de violência acontecer; aqui dentro às vezes acontece algum desentendimento, mas tudo se resolve pacificamente. Quando acontece algo mais grave, temos o apoio da Guarda Municipal”, relatou Eliza.
O Restaurante Popular tem sido monitorado pela Guarda Municipal de Joinville, que nega a ocorrência de graves incidentes. De acordo com a corporação, os registros de ocorrências na área compreendem “desentendimentos interpessoais, ameaças, uso de entorpecentes e perturbação do sossego alheio”.
A Guarda Municipal informa que essas situações são tratadas de forma pontual, com o objetivo de restabelecer a ordem e garantir a segurança tanto de quem utiliza o serviço de alimentação quanto de quem circula ou reside na região. A atuação inclui rondas periódicas na região, com presença ostensiva para inibir práticas ilícitas, além do trabalho conjunto com a Secretaria de Assistência Social (SAS) e equipes de Abordagem Social, responsáveis pelo encaminhamento de pessoas em situação de vulnerabilidade aos serviços de acolhimento e assistência.
Mais que uma refeição
Diego, 39, vive em situação de rua e frequenta o Restaurante Popular há 3 meses. Ele reconhece que, no Bucarein, é mais fácil “chegar à comida”. Caso haja uma mudança de local, ele será obrigado a percorrer uma distância maior para se alimentar. Morando em Joinville desde fevereiro, Diego, que veio de Lages, conta que viveu a dependência química durante anos. “Já passei por abrigos, estive com muitas pessoas, agora estou por aqui.”
Na opinião de Diego, o restaurante não deveria fechar e, se isso acontecesse, prejudicaria grande parte da população.
Para o Centro de Direitos Humanos Maria da Graça Bráz (CDH), os direitos da população em situação de vulnerabilidade estão sendo completamente desconsiderados na reivindicação do abaixo-assinado. “Isso é um pretexto para criar formas de impedir as pessoas de acessarem seus direitos e expulsá-las da cidade”, afirmou Nasser Haidar Barbosa, coordenador geral do CDH.
Segundo Nasser, afastar das áreas centrais os serviços destinados à população de baixa renda pode intensificar a exclusão social. “É um risco pensado e planejado, uma política organizada para excluir”, destaca o representante do CDH. “Não há como discutir qualquer outro direito humano, como moradia e trabalho, com quem está com fome. Primeiro matamos a fome”, reforça.
Em notícia veiculada no site da Câmara Municipal, Rodrigo Pinheiro, coordenador-geral do Instituto Amor Incondicional (Aminc), entidade terceirizada pela Prefeitura para administrar os restaurantes populares de Joinville (Bucarein e Adhemar Garcia), afirmou que mais de 60% dos frequentadores do restaurante vivem em situação de insegurança alimentar grave, ou seja, não têm condições de realizar ao menos três refeições balanceadas por dia.
Segundo o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, os Restaurantes Populares do Brasil estão localizados em centros urbanos com população superior a cem mil habitantes, preferencialmente instalados em locais estratégicos, como próximo a terminais de transporte público e áreas com grande circulação de pessoas, para facilitar o acesso da população.
