Os fast foods dominam a alimentação, mas a qualidade preocupa
Por Edilson Alves, Lara Bianca e Elisa Moraes da Silva
Muito antes de se tornar um fenômeno global, o conceito de comida rápida já existia na época medieval, quando os comerciantes e viajantes precisavam obter alimento de forma imediata devido a sua função. Mesmo naquela época, a alimentação se adaptava ao trabalho e precisou continuar acompanhando o ritmo da vida urbana.
Considerando o acelerado estilo de vida atual, cada vez mais pessoas escolhem comer fast food no seu dia a dia. “Porque é muito mais rápido do que qualquer outro tipo de comida, em 10 minutos o lanche já está ali contigo. Dependendo dos combos que você pega é mais em conta e também é gostoso”, explica Karolina Galvão, 26, estudante de Jornalismo.
No contexto de Joinville, uma cidade industrial, a comida regional dá lugar à comida utilitária. O município está entre os dez que mais consomem alimentos ultraprocessados, que além de incluir os fast foods, envolve comidas prontas prontas congeladas, como lasanhas, hambúrgueres e nuggets, e também biscoitos e salgadinhos. O dado é do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) da Universidade de São Paulo (USP).
Com o crescente consumo desses alimentos, a segurança alimentar entra em questão e precisa ser investigada. Essa foi a principal motivação da nutricionista Camila Licheski para examinar a microbiologia dos lanches estilo fast food.
Para a pesquisa “Análise da qualidade microbiológica de lanches do tipo fast-food comercializados na cidade de Joinville/SC”, publicada na revista Redes, em 2025, foram coletados cinco lanches de três estabelecimentos. Das quinze amostras analisadas, sete continham salmonella (bactéria que causa intoxicação alimentar) e todas estavam com a temperatura abaixo da recomendada, fator determinante para o crescimento de bactérias.
Os coliformes termotolerantes são o grupo de bactérias capazes de se reproduzirem e sobreviverem em temperaturas elevadas. O cozimento adequado é uma das principais formas de evitar doenças transmitidas por alimentos (DTAs), capaz de dissipar bactérias como Salmonella spp. e Bacillus cereus. Para eliminar esses microrganismos, é necessário que a refeição seja preparada em 70°C e que chegue ao consumidor final em, no mínimo, 60°C, o que não aconteceu no estudo.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), estabelece quais microrganismos podem estar presentes nesses alimentos e seus respectivos limites para garantir a segurança da população. Mas, não há um controle claro para a presença de coliformes totais e termotolerantes, pois nem todos causam doenças. A restrição se encaixa apenas para a bactéria Escherichia coli, representante desses grupos e ausente nos lanches analisados na pesquisa.
O estudo classificou a qualidade dos lanches estilo fast food como não satisfatória. O fiscal do setor de alimentação da Vigilância Sanitária de Joinville, Renato Soares, discorda. Ele afirma que a maioria dos estabelecimentos se encontra dentro das condições higiênico-sanitárias indicadas. “Não há uma periodicidade específica para a fiscalização, mas as visitas acontecem sem agendamento prévio”, afirma o fiscal.

Imagem de Daniel Reche por Pixabay
O principal meio de contaminação desses alimentos é a má higienização dos estabelecimentos e manipulação inadequada. Qualquer falha de higiene no momento da preparação ou armazenamento, contribui para a transmissão das bactérias.
Para evitar riscos, os consumidores podem adotar alguns cuidados, como observar a higiene do local, se este se encontra perto de lixos ou esgotos, se os funcionários usam toucas e luvas e, caso o lanche esteja com aparência ou cheiro incomum, ele deve ser rejeitado.
Thais Faucz Jasse, 20, estuda Tecnologia em Análise e Desenvolvimento de Sistemas na Udesc e foi ensinada a escolher alimentos em que ela confia na procedência, no entanto, encontra desafios. “Produtos naturais são bem caros, por isso, é feito um cálculo de quanto eu vou gastar e quanto eu vou comer para não dar prejuízo nem na minha saúde, nem financeiramente”, conta Thais.
A estudante ainda precisou fazer ajustes na sua rotina. “Minha mãe é confeiteira e cozinheira, ela quem fez um plano alimentar para mim. Eu preparo minhas marmitas no fim de semana para que na correria do dia a dia eu não tenha dificuldade de encontrar comida e não gaste dinheiro.” Mas, essa não é a realidade de todos. “Eu não preparo marmita nos finais de semana, costumo comer em restaurantes”, afirma Karolina.
O tempo dos brasileiros é tomado pelo trabalho. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), os brasileiros trabalham, em média, 39 horas por semana. Mas, 11% da população, cerca de 23 milhões de pessoas, enfrentam jornadas longas, superior a 48 horas semanais. A qualidade da alimentação também está relacionada à dinâmica de trabalho. Pessoas que têm menos tempo livre não conseguem preparar suas refeições, por isso, tendem a preferir uma alimentação rápida e pronta, que, por sua vez, contém menor valor nutricional e, muitas vezes, menos segurança.
A presença de bactérias patogênicas, ou seja, que causam doenças, na comida podem causar intoxicações alimentares que costumam durar um curto período de tempo. A longo prazo, as DTAs causam consequências crônicas, como doenças renais, condições que afetam as articulações e ossos, e desordens cardíacas, neurológicas e nutricionais.
