A Cultura sob o olhar do jornalismo
Muito além da divulgação de eventos, o jornalismo cultural ajuda a registrar memórias e aumentar debates sobre a sociedade.
por: Ellen Gerber
Música no caminho para a faculdade, artesanato, grafite, séries assistidas no fim de semana, livros, festas populares, exposições e apresentações artísticas. Mesmo sem perceber, a cultura faz parte do cotidiano das pessoas de diversas formas. Mais do que entretenimento, a cultura influencia comportamentos, ajuda a construir identidades, preserva memórias e contribui para a compreensão da sociedade em que vivemos. Por meio dela, diferentes grupos expressam suas vivências, preservam tradições e produzem novas formas de interpretar a realidade.
A relevância desse setor também pode ser observada nos números. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a cultura e as indústrias criativas reúnem cerca de 5,9 milhões de trabalhadores e geram R$ 387,9 bilhões para a economia brasileira. Apesar desse impacto social, econômico e simbólico, o jornalismo cultural ainda costuma ocupar menos espaço nos veículos de comunicação do que outras editorias como política, economia e esportes.
Cultura para quem?
Embora a cultura esteja presente no cotidiano da população, o acesso a algumas atividades culturais ainda é desigual. A pesquisa Hábitos Culturais 2024, realizada pela Fundação Itaú em parceria com o Datafolha, aponta que a participação em atividades presenciais varia significativamente conforme renda e escolaridade. Enquanto 26% das pessoas das classes A e B visitaram museus, apenas 6% das classes D e E realizaram a mesma atividade. No teatro, a diferença é de 33% contra 7%.
Os dados mostram que o consumo cultural não acontece da mesma forma para todos os brasileiros. Questões como renda, escolaridade, localização geográfica e acesso aos equipamentos culturais influenciam diretamente a participação da população em determinadas atividades.
A cultura não se limita a museus, teatros ou outras manifestações tradicionalmente associadas às grandes cidades e à elite. Ela também está presente em festas populares, expressões artísticas de rua, tradições locais, artesanato, música e diversas outras que fazem parte do cotidiano.
Nesse cenário, o jornalismo cultural também desempenha um papel importante ao ampliar a circulação de informações sobre eventos, artistas e iniciativas culturais. Não apenas ao divulgar programações mas a cobertura especializada pode ajudar a aproximar diferentes públicos de manifestações artísticas que, muitas vezes, permanecem restritas a alguns grupos sociais ou regiões.
Além da programação cultural
Se a cultura está tão presente no cotidiano da população, quem registra essas manifestações, contextualiza seus impactos e ajuda o público a compreender sua importância? A reflexão esteve presente na segunda noite do Jornalismo Muda o Mundo, em um workshop ministrado pela jornalista Bárbara Siementkowski.
Ao apresentar sua trajetória profissional, a egressa do IELUSC e atual jornalista do NSC Total mostrou como interesses pessoais podem se transformar em oportunidades de carreira. Hoje com 33 anos, ela conta que a aproximação com a cultura começou ainda na adolescência, quando participava de atividades ligadas ao universo dos animes e dos jogos de RPG. Anos depois, esteve entre os responsáveis pela criação do Hanamachi, primeiro evento de anime e cultura pop de Joinville. A experiência de estágio na Rádio Udesc também foi decisiva para ampliar sua rede de contatos e conhecer diferentes possibilidades de atuação na comunicação e na cultura.

Para Bárbara, o jornalismo cultural vai além da divulgação de eventos e lançamentos. A área contribui para dar visibilidade a produções artísticas que frequentemente abordam questões sociais e ajudam a compreender diferentes aspectos da realidade.
“As manifestações artísticas têm o papel de tornar o mundo um lugar um pouquinho melhor. Trazem temas que fazem a gente refletir. Muitas produções abordam assuntos importantes para a sociedade. O jornalismo cultural tem a função de reconhecer a importância disso e registrar essas manifestações”, pontua.
Construindo caminhos na profissão
Além de discutir o papel do jornalismo cultural, Bárbara destacou a importância de iniciativas que aproximam estudantes da realidade do mercado de trabalho. Segundo ela, eventos como o Jornalismo Muda o Mundo ajudam futuros jornalistas a conhecer diferentes áreas de atuação e visualizar possibilidades para a carreira.
“Às vezes a gente chega na faculdade sem saber muito bem para onde seguir. Quando profissionais compartilham os bastidores da profissão e mostram possibilidades de atuação, isso abre a cabeça dos estudantes.”
A jornalista também incentivou os estudantes a aproveitarem a graduação para construir experiências práticas, desenvolver um portfólio e criar conexões profissionais. Participar de eventos, acompanhar a cena cultural e estar presente nos espaços onde as pautas acontecem são formas de ganhar visibilidade e se inserir no mercado ainda durante a formação.
Entre as habilidades necessárias para quem deseja atuar na área, ela destaca o olhar jornalístico para as pautas, a presença constante nos eventos e a capacidade de atuar em diferentes funções.
Sobre o evento
Na segunda e última noite do Jornalismo Muda o Mundo, além do workshop de cultura, os estudantes puderam conhecer os bastidores de uma transmissão ao vivo, os desafios da narração esportiva e as estratégias da comunicação eleitoral. A diversidade dos temas abordados nesta edição evidencia uma realidade da profissão: embora compartilhem a mesma formação, jornalistas podem seguir caminhos bastante distintos ao longo da carreira.
