Egresso do Ielusc compartilha a experiência de cobrir a Copa do Mundo de 2026
Formado no Ielusc em 2018, Nathan Farias contou a estudantes como deixou o emprego fixo e foi aos Estados Unidos cobrir o Mundial sem credencial
Vender o projeto para as marcas antes mesmo de ter o visto carimbado no passaporte. Foi assim, apostando alto, que o jornalista Nathan Farias, 29 anos, chegou à Copa do Mundo de 2026. Na noite de segunda-feira (17), ele voltou ao IELUSC — onde se formou em Jornalismo — para contar aos alunos dos cursos de Jornalismo e de Publicidade e Propaganda como foram os 42 dias de cobertura independente nos Estados Unidos.
Na palestra “Na Copa sem credencial: bastidores de uma cobertura independente”, Nathan resumiu o que estava em jogo: ele abandonou um emprego fixo, juntou-se a Yan Pedro, jornalista e colega dos tempos da faculdade, e foi por conta própria para o país-sede do Mundial. Sem crachá oficial e sem equipe de apoio.

Jornada do Herói
Na teoria do mitólogo norte-americano Joseph Campbell, apresentada no livro “O Herói de Mil Faces” (1949), mitos, lendas e filmes seguem um ciclo universal, em que o protagonista deixa o mundo comum, enfrenta grandes desafios e volta para casa transformado. No auditório da Faculdade Ielusc, o ex-aluno retornou como palestrante para contar a própria jornada aos futuros colegas de profissão.
Mas ela começou muito antes daquela noite. Contar histórias sempre fez parte da vida de Nathan. O pai, vendedor de sistemas de captação de água da chuva, usava histórias para chamar a atenção dos clientes, e o filho acompanhava de perto. Ainda criança, fez um curso de oratória por incentivo dele. Além de jornalista, Nathan é roteirista, formado pela Academia Nacional de Cinema, o que ajuda a explicar a facilidade com que transforma em narrativa qualquer acontecimento à sua volta.
O humor também ocupa lugar importante no trabalho de Nathan. Ele acredita que o jornalismo precisa desse ingrediente para cativar as pessoas, fazê-las refletir sobre temas relevantes e desmentir as fake news.
E o futebol?
O futebol é parte relevante dessa história. Foi com o pai que Nathan aprendeu a gostar do esporte, e a ligação com a bola vem da infância — naquela época, ele jogava. Quando percebeu que não seria jogador profissional, viu a vontade de contar histórias ficar ainda mais forte.
O pai morreu em 2022, também ano de Copa do Mundo, o que fez do torneio uma data simbólica para o jornalista. Para Nathan, falar de futebol não é falar só de esporte, mas de tudo o que permeia um evento como o Mundial: cultura, economia e as histórias das pessoas, seja de quem joga, seja de quem assiste.

“Pedir truco pra vida”
A decisão de ir aos Estados Unidos não veio com rede de proteção. Nathan deixou o emprego fixo e passou a tratar a cobertura como um produto a ser vendido. E vendeu. Fechou o projeto com marcas e veículos antes mesmo de conseguir o visto. Entre os nomes que embarcaram na ideia estão a Krona, o Diário do Iguaçu (Chapecó), a Asaas e o ge/EPTV (Campinas). Quando o carimbo saiu, o financiamento já existia.
É esse movimento que ele resume numa frase: “Às vezes a gente tem que pedir truco pra vida”. No jogo de cartas, pedir truco é aumentar a aposta antes de saber se a mão é boa. Na prática, foi o que ele fez ao apresentar aos patrocinadores uma cobertura que ainda dependia de uma autorização consular para existir.
42 dias, cinco cidades, mais de 100 conteúdos
Nos Estados Unidos, a rotina foi a de uma redação inteira condensada em duas pessoas. Nathan e o amigo produziam, editavam e publicavam o próprio material. Em 42 dias, foram mais de 100 conteúdos publicados. A dupla passou por cinco cidades norte-americanas, entre elas Filadélfia, Miami, Nova York e Houston, acompanhando o Mundial pelo lado de fora dos estádios, o entorno, os torcedores e as ruas, o que a transmissão oficial não enquadra.
A cobertura também rendeu repercussão nas redes sociais. O episódio de maior alcance foi uma interação com a jornalista Renata Vasconcellos, apresentadora do Jornal Nacional, que estava nos Estados Unidos com a equipe da TV Globo. Nathan contou que não esperava que o vídeo fosse viralizar, mas quando chegou o momento e a oportunidade de falar com a jornalista, ele sabia exatamente o que fazer. “Quando gravei com ela, eu consegui falar tudo, não esqueci de nada”. O vídeo circulou e ampliou o público do perfil de Nathan durante o torneio. Ele saiu de cerca de 9 mil seguidores para mais de 40 mil na plataforma Instagram.
Um problema de cada vez
“Um problema de cada vez.” A frase é do pai, dita durante uma aventura em família — uma caminhada da Praia do Ervino até a Barra do Sul, no litoral de Santa Catarina — e acompanhou Nathan do começo ao fim da viagem. Numa cobertura sem credencial, sem estrutura e com prazo de 42 dias, ela significou resolver o visto quando era hora do visto, o patrocínio quando era hora do patrocínio e a pauta do dia quando era hora da pauta, em vez de paralisar diante do tamanho do projeto inteiro.
Além da Copa, Nathan participa do projeto Superfinanças. Na conversa com os alunos, o recado foi menos sobre o Mundial e mais sobre o caminho até ele. A cobertura não começou no aeroporto, mas no curso de oratória, na faculdade de Jornalismo, na sala de roteiro e na decisão de tratar a própria ideia como algo que alguém pagaria para ver.
