Lar Emanuel: uma história de acolhimento, amor e luta diária em Joinville
Há mais de três décadas, uma casa na Rua Padre Roma, em Joinville, acolhe crianças e adolescentes que, por diferentes motivos, precisaram ser afastados de suas famílias. O Lar Emanuel nasceu de um gesto simples — um prato de comida oferecido a crianças em situação de rua — e se tornou uma instituição de acolhimento que hoje abriga 13 crianças e adolescentes, todos sob a tutela da Justiça, à espera de um caminho de volta para casa, para uma nova família, ou para a vida adulta.
A história começou em 1994. O presidente e fundador Gilson Soares, que segue à frente do projeto até hoje, sempre descreveu o início como uma orientação divina. Tudo começou com um projeto de levar café da manhã para crianças que estavam em situação de rua. A iniciativa foi crescendo, até se tornar o Lar Emanuel. Era uma residência simples de madeira, com algumas frestas que faziam ter pingueiras em dias de chuva. Diante da situação delicada e da falta de recursos, foi buscado auxílio da prefeitura. A primeira casa ficava na rua Florianópolis, com apenas uma cuidadora, sem psicóloga e sem assistente social.
Nos momentos de maior aperto, ela chegava a ligar avisando que não havia nem uma bolacha para o almoço do dia seguinte, e o diretor saía correndo atrás de doações para garantir a refeição das crianças.
Em 2003, por meio de missionários vindos dos Estados Unidos, foi construída a casa atual na rua Padre Roma, num terreno cedido pelo município. Uma edificação grande, mas que ficou inacabada faltando portas, janelas e acabamentos, que foram sendo completados aos poucos, com ajuda da comunidade.

Funcionamento do lar
Os lares da cidade apresentam dificuldades financeiras, mesmo com auxílio da prefeitura. “O que a gente recebe da prefeitura, praticamente a gente paga funcionário, água e luz”, comenta Sharon Martins, coordenadora administrativa do lar. “O fato é que hoje financeiramente os lares não conseguem sobreviver com o recurso que recebe da prefeitura.”, complementa. Segundo a coordenadora, é a comunidade, com doações de roupas, alimentos, fraldas e produtos de higiene, que garante boa parte do que chega à mesa e ao corpo das crianças todos os dias.
As crianças chegam para a instituição através da retirada de suas famílias, por meio de ordens judiciais, sendo buscadas por um oficial de justiça diretamente na escola, na casa ou pelo Conselho Tutelar. A capacidade de cada casa-lar é limitada por lei até 10 crianças. Caso a capacidade seja menor do que esse número, o lar é obrigado a acolher essa criança. Acima desse número, é chamado de “vaga extra” e a casa pode dizer sim ou não para o acolhimento, segundo a coordenação. “A gente fica numa situação difícil, pensando onde vai ficar essa criança?”, relata Sharon. “A parte humana fala mais alto, e a gente acolhe.” O Lar Emanuel trabalha quase permanentemente nesse regime: hoje soma 13 crianças, mas já chegou a abrigar 16, o maior número já registrado na casa.
Após a chegada, é realizado por uma profissional todo um estudo e análise sobre a família da criança: se os pais estão juntos, se são separados, se há algum cônjuge de algum lado, se há avós, tios, irmãos que possibilitem a guarda.
Quando existe possibilidade de reaproximação, os pais têm o direito de se reorganizar e provar que podem receber os filhos de volta. O processo é gradual: começa com visitas mais tímidas, por vídeo ou presenciais, evolui para fins de semana com a família e, se tudo correr bem, caminha para o retorno definitivo. A cada volta da visita, a equipe faz uma escuta cuidadosa da criança, de como ela chegou, como voltou, se estava feliz, triste, quieta ou agressiva, para entender se o ambiente está realmente seguro.
Esse processo não segue um prazo fixo. Tenta-se, nos primeiros seis meses, já ter um panorama das possibilidades, mas o tempo real pode se estender por um ano, um ano e meio. Quando todas as alternativas com a família se esgotam, o caminho passa a ser o da adoção, um processo, segundo a equipe, ainda mais delicado, já que a maioria das crianças acolhidas tem irmãos, e famílias interessadas em adotar costumam priorizar os mais novos, sobretudo bebês. Adolescentes, como reconhece a equipe, dificilmente são adotados.
Dentro da casa, não há separação por faixa etária, situação jurídica ou perfil, os bebês, crianças, adolescentes, meninos e meninas, aqueles em processo de retorno à família e os que caminham para adoção convivem juntos, no mesmo espaço e na mesma rotina.
O dia a dia na casa
A rotina das crianças começa cedo, com a ida à escola pela manhã ou à tarde, alternada com atividades de contraturno em parceiros como o Instituto Priscila Zanette (IPZ) e a Legião da Boa Vontade (LBV), que incluem apoio às tarefas escolares, aulas de dança e esportes. Nos fins de semana, o foco muda para o lazer, com brincadeiras na quadra na casa, oficinas, gincanas e aulas de culinária, algumas vezes com apoio de voluntários e universitários que visitam o lar.

Na parte dos estudos, sempre que possível, a equipe tenta manter a criança na mesma escola em que já estudava antes do acolhimento. Quando isso não é viável, prioriza-se uma unidade próxima ao Lar, já que o deslocamento, feito com apenas um carro disponível, precisa ser cuidadosamente organizado na casa, uma vez que a escola, CEI e contraturno têm horários de início semelhantes.
A instituição mantém três cuidadoras durante o dia e duas à noite, nunca menos, já que qualquer emergência, como uma criança que precise ir ao hospital, por exemplo, exige sempre que reste alguém na casa. Com 13 crianças sob os cuidados de uma equipe pequena, cada cuidadora acumula funções: preparar refeições, trocar fraldas, dar banho, mediar conflitos e ainda cuidar da manutenção da casa.
Preparando para a vida
Um dos aspectos mais delicados do trabalho é preparar os adolescentes para o momento em que, ao completarem 18 anos, precisam deixar o Lar, por determinação legal— segundo a coordenação, não é permitido permanecer. Para jovens que dificilmente retornarão à família de origem e que têm poucas chances de adoção nessa idade, a equipe técnica começa, com antecedência, a estruturar um plano de vida: inserção no mercado de trabalho, noções básicas de autocuidado, organização do ambiente, higiene e culinária simples fazem parte do aprendizado diário.
Após o desligamento, a instituição ainda realiza um acompanhamento por seis meses, um período que a própria equipe reconhece como curto diante da complexidade da transição. “A gente se preocupa e vai atrás desse ambiente, de onde essa pessoa vai ficar, tenta preparar um enxoval”, explica Sharon. “A gente faz isso com muito amor, para que siga em frente e dê tudo certo.”
Há histórias com final feliz, como um jovem que viveu no Lar, constituiu família, teve filhos e, mais tarde, assumiu a guarda do próprio irmão, que ainda estava acolhido na instituição. Mas também há desfechos que marcam a equipe de forma dolorosa, como jovens que, ao saírem, seguiram por caminhos de criminalidade ou dependência química. “A gente precisa fazer tudo que a gente puder enquanto eles estão aqui para tentar trabalhar, um caminho bom”, comenta a coordenadora. “É uma missão difícil. A gente ri e chora com eles.”
Crianças com histórias cada vez mais complexas
Profissionais da casa que estão a mais tempo, observam uma mudança no perfil das crianças acolhidas nos últimos anos, com aumento significativo do número de casos com autismo, ansiedade e dependência de medicamentos para controle comportamental, quadros que segundo relatos, eram muito menos frequentes no passado. Isso exige da instituição um acompanhamento mais individualizado, buscando junto ao SUS consultas com psicólogos, avaliações psiquiátricas, ajustes de medicação e adaptações no ambiente conforme a necessidade de cada criança, desde o uso de abafadores de ruído até mudanças na forma de conduzir tarefas simples, como o banho.
“Ninguém tem uma receita pronta, cada criança vai trazer uma história, às vezes um trauma”, descreve Sharon. Muitas vezes são as próprias cuidadoras, no contato direto e diário, as primeiras a perceber uma dificuldade específica e a acionar a equipe técnica, formada por psicóloga e assistente social, para buscar uma resposta adequada.
Histórias que marcam
Ao longo dos mais de 30 anos, diversas histórias marcaram a casa. Sharon recorda o dia em que um menino, nervoso e gaguejando, chegou acusando a irmã de ter brigado com ele. Ao ser chamada para explicar, a menina, com a voz embargada, contou que ele havia colocado comida demais no prato e jogado parte fora. “Tia, não se joga comida fora. A gente já passou fome, ele sabe o que é passar fome”, disse ela. A coordenadora comentou ter visto uma dor tão grande, aquele foi um dia de aprendizado, a consciência daquela criança sobre o desperdício de alimentos, fruto de uma vivência de escassez, mudou até seus próprios hábitos em casa.
Pequenos gestos que se tornam enormes na vida das crianças, como um confete espalhado sobre um bolo que provoca uma alegria, a doação de um creme para pentear o cabelo antes de ir à escola, dois refrigerantes guardados para o almoço de sábado e domingo. “Às vezes são coisas muito simples que fazem muita diferença no dia a dia”, resume a coordenadora.
Há também momentos de afeto, com a criança que corre para pedir um abraço antes de a cuidadora ir embora, a que chora de saudade da mãe e precisa de um colo, uma canção, uma história para se acalmar. “A gente nunca vai suprir o amor de um pai, de uma mãe”, reconhece Sharon. “Mas a gente tenta abastecer esses coraçõezinhos de afeto, de carinho, de amor.”
Mesmo entre os que seguem para a adoção, ficam marcas. Sharon relembra de um menino que, ao deixar o Lar para ser adotado, insistiu em voltar antes de partir para buscar uma bermuda que já não lhe servia mais, mas que havia sido um presente da própria, uma lembrança à qual ele não queria renunciar.
Novos projetos com oficinas para preparar o futuro
Entre os planos em andamento está a criação de oficinas de trabalho manual para os adolescentes — costura, corte e criação de artigos como sousplats, cartões e topos de bolo —, além de oficinas de culinária, com foco em pratos básicos e em receitas típicas da região, como cuca e pudim de leite. A ideia, segundo a coordenadora, é estimular a criatividade. A instituição já conta com máquinas de costura e de recorte doadas, mas ainda precisa de materiais básicos, tecidos, papéis, para colocar as oficinas em prática.
Outra iniciativa já em funcionamento é um brechó dentro da própria casa, criado a partir do volume de doações de roupas que supera as necessidades das crianças. Hoje, além de vestir os acolhidos, o excedente é vendido a preços simbólicos, entre R$ 3 e R$ 10, para gerar uma pequena renda extra, usada em despesas do dia a dia. A equipe planeja uma live no dia 1 de outubro, para divulgar o espaço, que ainda tem poucos seguidores nas redes sociais e poucos clientes.
Para o futuro, a coordenação busca conquistar uma base de doadores mensais, mesmo que em valores simbólicos, de R$ 5 ou R$ 10, que não faça falta para as pessoas; assim, garantiria um mínimo de autonomia financeira para resolver necessidades cotidianas, como trocar uma torneira, comprar uma panela de pressão, tela em uma janela, trocar o pneu do carro usado para levar as crianças à escola.
O que falta
Segundo a equipe, os itens mais escassos hoje incluem:
- Produtos de limpeza, especialmente sabão para roupas e kiboa (amaciante é considerado um “luxo”);
- Itens de higiene pessoal: shampoo, condicionador, escova de dente, sabonete, creme de cabelo;
- Alimentos para o café da manhã e lanches: mortadela, maionese, molho e itens que vão além do arroz, feijão, farinha, açúcar e sal que chegam com mais frequência;
- Suco em pacote;
- Material para as novas oficinas: tecidos e papéis para artesanato;
- Doações financeiras mensais, mesmo que de baixo valor.
Uma missão
Para quem atua no Lar Emanuel, a experiência ultrapassa qualquer descrição profissional. “Não é só um trabalho, é uma missão muito grande”, resume a coordenadora administrativa. “Porque você vai cuidar de crianças que não são os seus filhos, que não vêm com regras, e você precisa ensiná-las, cuidar delas, respeitando a história de cada uma.”
Questionada sobre o sentimento de dedicar a vida a esse trabalho, ela não hesita: “Para mim é o trabalho da minha vida, um dos trabalhos que eu mais me identifiquei. Eu sei que eu posso mudar a vida de alguém. Se eu conseguir fazer isso por uma delas, eu já estou no lucro.” Mãe de um filho de 9 anos, ela reconhece os limites do que qualquer instituição pode oferecer:
“A gente nunca vai conseguir suprir o que é dos pais. Mas quem deixa muito mais história e muito mais marcas são as cuidadoras, que estão no dia a dia, no cuidado do banho, da comida.”
Depois de três décadas de existência, o Lar Emanuel segue equilibrando dois desafios que se entrelaçam: sustentar financeiramente uma estrutura que depende quase inteiramente da solidariedade da comunidade e sustentar emocionalmente crianças e adolescentes que carregam histórias de ruptura, à espera de um caminho — de volta para casa, para uma nova família, ou para uma vida adulta com um mínimo de autonomia e dignidade.
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