Um intervalo na tela
Atividade com crianças discutiu os impactos do sedentarismo e a importância de hábitos ativos
Por Ana Fidêncio
98% das crianças e adolescentes brasileiros de 9 a 17 anos acessam a internet pelo celular. O dado da pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), mostra como os dispositivos digitais já fazem parte da rotina dessa faixa etária. Entre jogos, vídeos e outras atividades digitais, o tempo diante das telas pode ocupar o espaço destinado a brincadeiras, esportes e outras formas de movimento. Foi a partir dessa realidade que os acadêmicos de Educação Física da Faculdade Ielusc, montaram uma oficina sobre sedentarismo infantil e uso excessivo de telas que reuniu crianças durante um evento de educação em saúde voltado aos riscos e à prevenção do acidente vascular cerebral (AVC).
A oficina integrou uma programação com diferentes atividades relacionadas à prevenção e aos cuidados com a saúde. Enquanto outras ações abordavam diretamente o AVC, a atividade voltada ao público infantil buscou discutir um dos hábitos que podem influenciar a saúde ao longo da vida: o comportamento sedentário.
A dinâmica utilizou atividades práticas para aproximar o tema do cotidiano das crianças. Tirando suas ideias do imaginário, os pequenos foram convidados a desenhar a sua relação com as telas e com atividades físicas e, em seguida, participar de uma simulação de entrevista jornalística, utilizando câmera e microfones reais.

Dinâmica de desenho. Foto: Gabrielle Laís Vieck
A escolha de uma abordagem mais dinâmica teve como objetivo fazer com que as crianças não fossem apenas ouvintes. Ao desenhar, responder perguntas e participar da simulação, elas precisaram interpretar o conteúdo apresentado e relacioná-lo às próprias experiências. “É muito importante porque a geração não está acostumada a ficar sem o celular, é como se fosse um órgão do corpo. Então é muito difícil que eles fiquem sem. Então é muito necessário a gente passar essa informação”, explica Thales Vollmann Soares, um dos responsáveis pela organização da atividade.
A preocupação com o comportamento sedentário não se limita ao tempo gasto em frente ao celular. O Ministério da Saúde orienta que crianças e adolescentes reduzam períodos prolongados sentados ou deitados diante de televisão, computador, tablet, celular e videogame. Para adolescentes, a recomendação é de pelo menos 60 minutos diários de atividade física. Para crianças menores, as orientações também incluem limitar o tempo sedentário diante de telas e priorizar atividades como brincadeiras e movimento.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) também recomenda a redução do tempo sedentário entre crianças e adolescentes. Segundo a entidade, períodos prolongados de comportamento sedentário, especialmente diante de telas durante o tempo de lazer, estão associados a resultados menos favoráveis para a saúde, incluindo menor aptidão física e prejuízos relacionados ao sono. O objetivo da oficina, entretanto, não era apresentar a tecnologia como uma vilã. A discussão esteve relacionada principalmente ao equilíbrio entre o tempo de tela e outras atividades importantes para o desenvolvimento infantil.
É o que acontece na rotina de Rafaella, de 9 anos. A menina conta que gosta de praticar esportes e que seus pais entendem os riscos relacionados ao uso excessivo do celular. Por isso, ela não tem liberdade para utilizar o aparelho sempre que deseja. Na prática, os limites estabelecidos pela família fazem com que o celular divida espaço com outras atividades. A experiência de Rafaella exemplifica uma das orientações apresentadas pelas diretrizes oficiais: a mediação dos adultos é importante para ajudar crianças a estabelecer uma relação equilibrada com os dispositivos digitais.
O Guia sobre Uso de Dispositivos Digitais para Crianças e Adolescentes, lançado pelo Governo Federal em 2025, recomenda que as famílias estabeleçam regras e limites para o uso das telas, considerando também sono, atividade física, convivência familiar e outras necessidades da criança. “As crianças estão se envolvendo bastante. E eu acho que foi o ponto mais surpreendente entre elas para isso”, relata João Vitor de Souza Soares, que também participou da organização da atividade.
A presença de câmera e microfones também dialogou com a participação de acadêmicos de diferentes cursos na programação. A proposta foi aproximar educação, saúde e comunicação em uma atividade que pudesse ser compreendida pelas crianças sem deixar de abordar um problema presente no cotidiano.
Movimento como prevenção
A escolha do tema também dialoga com o propósito geral do evento, que abordou os riscos e a prevenção do AVC. De acordo com o Ministério da Saúde, o sedentarismo está entre os fatores de risco relacionados ao acidente vascular cerebral, juntamente com condições como hipertensão, diabetes tipo 2, colesterol elevado, sobrepeso e obesidade.
A relação, porém, não significa que uma criança sedentária esteja destinada a sofrer um AVC. A questão está na formação de hábitos e na presença de fatores de risco que podem contribuir para problemas de saúde ao longo da vida. A prática regular de atividade física é apontada como uma das medidas que contribuem para a prevenção do acidente vascular cerebral e de outras doenças crônicas.
A oficina colocou em discussão uma pergunta que começa dentro de casa: quanto espaço as telas estão ocupando na rotina e quanto espaço ainda sobra para se movimentar?

No final da oficina esses foram os desenhos dos alunos. Foto: Gabrielle Laís Vieck
