MOVA 2026 promove espaço de reflexão sobre corpo e corporalidade
A Mostra Viva de Arte (MOVA) de 2026 possibilitou um momento de reflexão sobre temáticas atuais, como violência, tecnologia e exploração, no contexto da manifestação dos corpos.
Luzes, fumaça, cheiros, imagens, tudo provoca uma sensação, um sentimento, resgata uma memória que nem parecia mais estar mais lá. Foi assim que a Mostra Viva de Arte (MOVA) invadiu o espaço da Faculdade Ielusc na noite de ontem, 18. A atualidade das obras em contraste com a Deutsche Schule (prédio de 1866) foi o cenário perfeito para promover um momento de intenso contato com a arte e com tudo aquilo que ela proporciona.
A MOVA, projeto de curricularização da extensão da faculdade, é uma mostra de arte contemporânea aberta ao público, criada e desenvolvida pelos alunos da 3ª fase do curso de Publicidade e Propaganda e organizada pelos professores Jonas Pôrto e Patrícia Villar. O tema deste ano foi “Corpo e as formas que ele pode existir e se manifestar”. A professora Patrícia Villar conta que a mostra de artes surgiu há 10 anos. Na época, apenas alguns alunos participavam e não havia um espaço físico definido. Foi em 2018 que o evento consolidou-se.
“Em 2018, a gente pegou uma turma ferrada, eles falaram ‘todo mundo vai fazer, nós vamos pegar o prédio todo!’”.
Desde então, todos os anos, uma turma diferente organiza a mostra. Com relação à temática, Patrícia diz que o tema “Corpo” se trata de algo muito atual e que atravessa diversas esferas da vida. Sobre as obras, a professora acrescenta que as características de cada turma influenciam muito no teor dos conteúdos, que podem ser mais ou menos complexos.
“Cada ano tem um perfil, esse ano está super forte, porque essa turma é muito forte.”
O professor Jonas Pôrto destacou a importância do trabalho de orientação e construção feito em sala de aula.
“A gente trabalhou o conceito de corpo para além do corpo físico, na perspectiva do corpo enquanto território, porque quando esse corpo é invadido, violado, não é apenas o corpo físico que é ferido, mas sim o território de existência de cada ser”.
Por dentro da exposição
Ao adentrar o corredor da exposição “Porta 180”, das alunas Allana França, André Giacomelli, Maria Marmol e Poliana Basquirotte, todos os sentidos são aguçados. A voz feminina ao telefone pedindo socorro à polícia, as manchetes de jornal coladas nas paredes denunciando casos de violência sexual e feminícido, a luz amarela, tudo traz à tona uma realidade que, de tão banalizada no cotidiano, impacta de uma forma muito profunda.
Maria Eduarda e Poliana, duas das responsáveis pela obra, dizem que a intenção é que a realidade faça as pessoas refletirem sobre os crescentes casos de abuso e violência contra a mulher.
“O índice de violência contra a mulher aumentou muito nos últimos anos. O objetivo é que as mulheres tenham coragem para denunciar, além de conscientizar a todos sobre essa realidade”.

Mais ao fundo, a obra “Até que a morte nos separe”, das alunas Gabrielly Louise Cabral, Julia Padilha Gonçalves e Kathelen Cristina Costa Rodrigues, convida-nos a uma imersão. O cheiro de flores e as roupas com sangue penduradas em cabides lembram um funeral de almas suspensas, que já não sofrem, já não sangram. Há uma mala no canto, talvez representando a fuga da própria vida, da própria casa. Com certeza, um dos momentos mais fortes, mais viscerais, em que o lamento de várias mulheres se mistura ao sentimento de impotência frente à violência.

Yury José veio à mostra a convite de sua esposa, que é acadêmica de Publicidade e Propaganda. Ele contou que ficou admirado com a riqueza de detalhes na construção dos cenários. Sobre “Porta 180” e “Até que a morte nos separe”, Yury diz que se sentiu impactado de uma forma profunda.
“Quando a pessoa escuta os relatos reais, (mulheres ligando para a polícia) ao fechar os olhos, fica imersa na situação que ela está vivendo ali. Então, a gente acaba se emocionando, é bem forte.”
“Ato 2”, das alunas Carla Giordanna Coelho, Maria Eduarda Dias Tavares e Mirela Dias Tavares, é aquela obra pensada para causar desconforto e fazer pensar. Um banquete um tanto estranho, pedaços de corpos humanos e mãos vivas que saem debaixo da mesa compõem uma imagem que causa repulsa. O cheiro de carne, de tempero e a menina que lambe os dedos enquanto se delicia, de forma sarcástica, nos obriga a pensar. A frase “Antes de condenar o banquete, reconheça o seu lugar na mesa” é um soco no estômago e questiona de que forma devoramos e nos deixamos devorar o corpo sem nos darmos conta.

Pauta de muitas discussões na sociedade, o aborto foi tema da obra “Ruptura”, das alunas Rebeca Gonçalves e Milena Correa. Explorando o silêncio e o vazio sentidos por quem vivenciou o aborto, a obra cria um espaço de empatia e sensibilização. O berço vazio, os fios vermelhos entrelaçados, a corda ligada a uma raiz de árvore, representando o cordão umbilical, o sangue presente nos objetos, fralda de boca, coberta, mosquiteiro, a chupeta, o chinelinho, todo esse cenário lembra-nos de que, mais que uma pauta, o aborto é um momento extremamente íntimo.
O mascote
Arthur Ricardo, mascote e parte da exposição da MOVA 2026, iniciou sua performance na abertura do evento. Vestido de mariposa, com asas feitas de tecido esvoaçante e olhos vendados, Arthur movimenta-se na porta de entrada, de forma a representar os desejos que vão além do que o nosso corpo permite.
“O corpo é como uma prisão, gostando ou não, a gente está limitado a viver dentro dele. Eu queria explorar o que a gente se permitiria ser, se pudesse ir além. Um humano? Um inseto? Então eu cheguei no conceito da metamorfose da mariposa, que foi a inspiração para a construção do figurino”.

A MOVA 2026 trouxe a todos que estiveram presentes, alunos, professores, familiares e amigos a possibilidade de pensar nas dores que cada um carrega e, principalmente, respeitar o espaço e a dor do outro. Existir vai muito além de ocupar um espaço físico, de ser um corpo físico, e isso pôde ser percebido nas diversas performances, instalações e fotografias produzidas pelos acadêmicos da 3ª fase do curso de Publicidade e Propaganda.
