Conheça a Cooperativa Vida para Todos e o trabalho dos catadores em São Francisco do Sul
Por Éllen Gerber
A cooperativa reúne trabalhadores que transformam resíduos recicláveis em geração de renda e impacto ambiental positivo.

Entre sacolas com materiais recicláveis, fardos de papelão e o trabalho constante de separação dos resíduos, a rotina da Cooperativa Vida para Todos movimenta diariamente dezenas de trabalhadores em São Francisco do Sul. Criada com o objetivo de fortalecer o trabalho dos catadores e ampliar a geração de renda através da reciclagem, a cooperativa se tornou também um espaço de acolhimento, transformação social e conscientização ambiental.
A Cooperativa Vida para Todos surgiu em 2021 a partir da iniciativa de Alexandre Deucher e Lucineia Aparecida Ferreira, atual presidenta da cooperativa. Segundo Alexandre, a principal motivação foi criar uma alternativa para os catadores que enfrentavam dificuldades para vender os materiais recicláveis diretamente às indústrias.
“Nós vimos que a logística de São Francisco para a indústria era muito difícil. Nós passávamos pelo atravessador e isso nos trazia muito prejuízo”, explica.
Com a união dos trabalhadores, a cooperativa passou a reunir uma quantidade maior de materiais recicláveis, permitindo agregar mais valor aos resíduos coletados. Atualmente, cerca de 50 pessoas fazem parte da iniciativa, incluindo trabalhadores que atuam diretamente no barracão e catadores individuais que levam os materiais até a cooperativa.
Da coleta à indústria

No barracão, o trabalho acontece de forma manual e exige atenção durante todo o processo. Os resíduos chegam principalmente através da coleta seletiva realizada no município e também por meio de catadores independentes.
Assim que o material chega à cooperativa, começa a etapa de triagem. As sacolas são abertas e os resíduos separados conforme o tipo, cor e composição. Garrafas PET, plásticos, papelão, vidro, alumínio e sucatas são organizados em diferentes espaços antes de serem prensados e encaminhados para indústrias de reciclagem. Entre os materiais que chegam com maior frequência estão papelão, garrafas PET, vidro, latinhas de alumínio, plásticos e sucatas metálicas.
Depois da separação, os recicláveis passam pela prensagem e são transformados em grandes fardos. Em seguida, o material é enviado para empresas especializadas que realizam novas etapas do processo de reciclagem.
Segundo Alexandre, a cooperativa ainda enfrenta dificuldades estruturais para ampliar a produtividade. A falta de equipamentos e de investimentos limita etapas mais avançadas do reaproveitamento dos materiais. “A gente não tem uma empilhadeira, não tem uma esteira e nossa prensa é bem antiguinha”, comenta.
Apesar das dificuldades, a cooperativa mantém o trabalho diário e busca ampliar a estrutura futuramente, com o objetivo de triturar os materiais e agregar ainda mais valor antes do envio às indústrias.
Além da geração de renda, a cooperativa também desenvolve um papel social importante no município. Alexandre afirma que algumas pessoas em situação de rua já foram acolhidas pela iniciativa e passaram a trabalhar no local. “A gente conseguiu tirar algumas pessoas da situação de rua, alugar quitinete para elas e trazer elas para trabalhar aqui”, relata.
Para os trabalhadores, o espaço também representa pertencimento e apoio. O fundador descreve a cooperativa como um ambiente de união entre os cooperados. “Em tudo é harmonioso. A gente se tem aqui como uma família”, afirma.
O impacto ambiental do trabalho também é apontado como uma das principais motivações para que os trabalhadores continuem atuando na reciclagem. “O nosso trabalho é muito lindo. A gente tira da natureza algo que vai prejudicar o meio ambiente e transforma em geração de renda”, diz Alexandre.
Os números por trás do trabalho dos recicladores
Dados fornecidos pela Ambiental Limpeza Urbana e Saneamento ajudam a dimensionar a importância do trabalho realizado pelos catadores e cooperativas de reciclagem no município. Em 2025, São Francisco do Sul registrou a coleta de aproximadamente 27 mil toneladas de resíduos comuns e 1,5 mil toneladas de materiais recicláveis. O Ecoponto da Enseada recebeu cerca de 6,2 toneladas de resíduos ao longo do ano, sendo a maior parte composta por materiais recicláveis, principalmente vidro e papel.
Enquanto os recicláveis recolhidos pela coleta seletiva são encaminhados para galpões de recicladores cadastrados pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente, os resíduos da coleta comum seguem para uma estação de transbordo e, posteriormente, para um aterro sanitário localizado em Brusque.
Os números reforçam a relevância do trabalho desenvolvido por cooperativas e catadores, responsáveis pela destinação adequada dos resíduos e pela geração de renda a partir do reaproveitamento de materiais.
Desafios da reciclagem e conscientização ambiental
Entre as principais dificuldades enfrentadas pela cooperativa está o descarte incorreto dos resíduos. Segundo Alexandre, materiais orgânicos e resíduos inadequados frequentemente chegam misturados aos recicláveis. Fraldas descartáveis, restos de comida e até animais mortos estão entre os exemplos citados por ele. A situação dificulta a triagem e provoca problemas relacionados ao mau cheiro e à proliferação de insetos.
A cooperativa também busca conscientizar a população sobre a importância da separação correta do lixo e do respeito ao trabalho dos catadores. “O trabalho que nós prestamos é um trabalho de utilidade pública”, destaca Alexandre. “Nós somos agentes do meio ambiente.”
Segundo ele, ainda há pouca conscientização ambiental no município e muitas pessoas não realizam corretamente a separação dos resíduos recicláveis.
Sonhos para o futuro

Entre os planos da Cooperativa Vida para Todos está a expansão da iniciativa para outras cidades da região. Alexandre afirma que o objetivo é criar novos núcleos de reciclagem e ampliar as oportunidades de geração de renda através do trabalho cooperativo. A expectativa também envolve melhorias na estrutura do barracão e a aquisição de equipamentos que permitam ampliar o reaproveitamento dos materiais recicláveis.
Além de reciclar resíduos, os trabalhadores afirmam que o principal objetivo da cooperativa é promover transformação social e ambiental. “Não só transformar o lixo em renda, mas transformar vidas”, resume Alexandre.
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